quinta-feira, julho 27, 2006

...dos retratos


Imagem Geocities


Retratos são mentiras e verdades, sugeridas
ao correr dos olhos de quem quer olhar:

A menina que posa, não pode ser mentira,
quando dança sem dançar longos bailados
no palco brilhante dos olhos do seu pai;
a mulher que se expõe só pode ser verdade,
quando deixa a tristeza esvoar-se de dentro
e pintar nas nuvens o peso do chumbo.

Mas o ser no retrato não diz a menina
que brincou às bonecas antes de posar,
e não diz a mulher que se banhou nua
na lua de Março, não diz como riu,
se lavou da tristeza nesse riso de estrelas
e como, depois disso, foi jantar


(Poema de Vasco Pontes)

quarta-feira, julho 19, 2006

É preciso reinventar as palavras...

Hoje lembrei-me de ti

Imagem da Silvia



E o poema como o germinar do trigo
Brotou do caos húmido e escuro da mente

Primeiro um impulso quase imperceptível
Depois mais forte mais convicto
Por fim já tensão de músculos e gestos
A extravasarem-se em sons

Rolaram sons na minha cabeça na busca inquieta e dorida
Da forma pura

Que ânsia de cruzar sons e versos
Com o impulso de te agarrar nos braços
E pôr nas rimas fugidias os beijos certeiros
De palavras quentes

Mas a sombra negra do vazio
Ameaça como uma mancha de tinta negra
Os versos esculpidos
A golpes de emoção contida
E tolhida de esgares
Que vêem no poema
O sopro interdito do desejo.

(Poema de Manuel Sousa)


segunda-feira, julho 17, 2006

O que Há de Real...


Foto de Adri Berger



Vou abrir as asas e navegar...

Soltar-me incandescente
No Oceano, do desejo
Sucumbir
A este quer mais.
Ficar derramada na espuma das ondas...

Erguer-me depois...
Voo da gaivota,
Planando no ar...
O meu destino são estas voltas
Reviro e viro-me no Céu
Desço
Voo picado sobre mim mesma.

Atiro-me ao Mar...

Sou esta pedra que se move.
Sou esta incerteza que as marés cobrem.
Há algas,
No lugar de cabelos,
Prendem-se nos corais
E voltam a escapar-se...
Ergo-me, derrubo-me...

Transporto-me nas ondas
Termino em espuma.
E é sobre a areia que volto ao ar,
Sabendo sempre
Que descerei em voo picado,
Perfurarei como pedra o Mar.
Oceano longinquo
Onde me metarmorfosei-o
E encontro no irreal
O que de real há na vida...

Corais inesqueciveis...

(Poema da Ar)

sábado, julho 15, 2006

Tanto faz…


Imagem de autor desconhecido

Alvoreces, despertas e acordas longe,
Ao meu lado.
Adormeces, madrugas no enlevo,
Revelas-te criança-mulher,
Inundada de mim, vazia de ti,
Tanto faz…

Abres os olhos e sonhas-te criança,
A caminhar
Na areia da praia a esboçar trilhos para mim.
Entregas-te mulher no calor das dunas,
Onde te escondo do sonho,
Que amanheço,
E estanco as vagas de choro que o mar verte,
Ao ver-te no regresso impossível ao começo.

O mar é cão, nós ouvimo-lo a morder,
Encheu-te os ouvidos de búzios
E o teu corpo quente de moliço ou sargaço,
Tanto faz,
Para que ouças e sintas, no sonho,
As carpideiras em pranto
De lágrimas e salpicos de mar,
Tanto faz,
Pelo naufrágio da tua fantasia de sal
Ao largo de um cabedelo tinto de luar.

Mas eu sonho-te, cinjo-te num abraço,
Alago-te de um mar chão de ruídos.
O mar é bom, salvo-te, torno-te lua
Perto de mim, nos quartos ou cheia,
De coração espelhado a incendiar a noite
Onde te vejo nua,
Por cima de mim
Ou dobrada no espelho de sal e areia,
Tanto faz…

(Poema do Nilson)

quarta-feira, julho 12, 2006

Rubra Sombra...


Imagem de Louisa Schlepper



A sombra que me envolve não é pálida.
É rubra, solitária, palpitante!...
É sombra que anuncia noite cálida
Qu’implora a companhia dum instante!

É sombra que sugere uma crisálida
Escondida no peito dum amante…
Sabendo que talvez possa ser válida
Como vinho de efeito embriagante!..

Mas como desvendar o seu segredo
Se não puder suster todo o meu medo
E nela penetrar com decisão?

Quem sabe se os meus sonhos em romagem
Serão exactamente a sua imagem
E a sombra se transforma em clarão!

(Poema de Natividade Negreiros
in "Lugares Secretos")

sexta-feira, julho 07, 2006

Palavras ao vento...


Imagem de Christophe Vacher



Dei as palavras ao vento,
O vento virou furacão.
E trouxe-me a solidão,
Da minha falta de alento.

Vou pedir adiamento,
Duma rápida decisão,
Não é nesta ocasião,
Tempo de rebatimento.

Vou travar o sentimento,
Seja amor, seja paixão.
E calar o atendimento,
Deste louco coração.

(Poema de João Norte)

* Autor do livro "O Peso do Silêncio" (ficção)recentemente editado

quarta-feira, julho 05, 2006

Vem para mim


Óleo de Ina Lukauskaite


Vem para mim,
Mas olha primeiro o mar.
Traz-me o seu azul
Reflexo no olhar
(com o cheiro da maresia)
De relance deita uma mirada
Rápido ao sol e
assim reterás o amarelo.
(com um aroma de canela)
Peço-te mais,
Que me tragas
o arroxeado do poente
(olorado por lilases)
E o verdejante dos vales
na Primavera
(com o sabor do alecrim).
Queria também
nos teus olhos
O terno e quente
alaranjado
(mais o cheiro do jasmim)
Com que se pinta o céu
Na alba de mais um dia
Desejado.
Contigo, vem o vermelho,
(com um aroma de violetas)
Nesses rios
que te escorrem do peito,
aberto em borbotões.

Vem para mim
Com esse corpo
esguio e anilado
Meu arco-íris
Sentido, vivo,
Belo e só por mim sonhado
Vem para mim
Com esse teu cheiro
De mil aromas feito
A amor amado

(Poema do Vic)

segunda-feira, julho 03, 2006

Hoje apetece...

Imagem do "Vento"




Hoje apetece que uma rosa seja
o coração exterior do dia
e a tua adolescência de cereja
no meu bico de Isolda cotovia.

Hoje apetece a intuição dum cais
para a lucidez de não chegar a tempo
e ficarmos violetas nupciais
com a lua a celebrar o casamento.

Apetece uma casa cor-de-rosa
com um galo vermelho no telhado
e os degraus duma seda vagarosa
que nunca chegue à varanda do noivado.

Hoje apetece que o cigarro saiba
a ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
e faltarmos os dois à nossa boda.

Hoje apetece um interior de esponja
E como estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.

Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se um trapezista.
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.

Hoje apetece que a cor dum automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.

Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas;
E tu nas curvas rápidas de um toiro.
E eu quase intangível como as renas.

Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia.



* "Projecto de Bodas", Poema de Natália Correia
in «Poesia Completa O sol nas Noites e o Luar nos Dias»,
 

Publicações D. Quixote, Lisboa*

domingo, julho 02, 2006

Ontem...


Girassóis da Vera Cymbron - Açores


Ontem,
fiquei em silêncio!
Roubaste-me,
palavras com beijos.
Abraçaste-me,
sem dor e sem medo.
Trataste-me,
o corpo e a alma.
Amaste-me,
com sede e desejo…
Ontem,
curaste a doença.
Tiraste-me,
a fome e foste alimento.
Carregaste-me,
a dor e fizeste-a tua.
Apagaste-me,
os pesadelos e fantasmas.
Recriaste-me,
os sonhos e as alegrias.
Devolveste-me,
o sono e a paz.
Ontem,
Nos teu braços, ao sabor dos teus beijos,
Quando olhei no fundo dos teus olhos
E me envolvi no calor do teu corpo…
Senti que hoje estaria melhor,
Porque tu és a minha cura.

(Poema da Vera Cymbron)