
Imagem de daqui
As palavras que penso, nunca digo
são secretas, quase como o universo
viajando com elas, somente em verso
para se encontrarem apenas contigo
Abraçando cada palavra na solidão
deslizo nas vagas deste pensamento
que me acalmam sempre o sofrimento
estendo-te os braços, dou-te a mão
Finjo não entender as desilusões
das palavras que vou arrastando
quando tocam fundo no teu peito
Afinal, tudo não passa de ilusões
que ambos vamos aguentando
neste cintilar único, quase perfeito...
(Poema de Friedrich)
sexta-feira, agosto 25, 2006
Vagas de ilusão...
quarta-feira, agosto 23, 2006
Doce Tentação...

Pintura de John Collier
neste minuto igual a qualquer outro
queria guardar ciosamente o meu corpo
ser a essência e a matéria
ter o brilho mágico de uma estrela
e cultivar para ti a flor da espera
mas entranço o tempo na viola
a pendurar memórias pelas cordas
a emoldurar o olhar nas tardes de ócio
como se vomitasse todo o mar
e seus trágicos despojos
aqui reclino as noites se te espero
desperto as madrugadas se te ouço
este é o lugar mais seguro que conheço
para te amar na concha do segredo
e te esquecer na métrica de um verso
aqui sou essência de toda a matéria
que prevalece na fusão do beijo
depois da tua língua sugar com arrojo
tudo o que me vai dentro do corpo…
ergo agora o cristal deste momento
e brindo ao fruto do teu corpo doce arinto
como Lady Godiva nua de alma
saboreando só o fruto do silêncio…
(Poema de Aziluth)
segunda-feira, agosto 21, 2006
...amores eternos...

Pintura de Edward Robert Hughes
Gosto particularmente
de amores
eternos
assim que principiam
A estranha sensação de déjà-vu
«...já te conheço!»
A doce pretensão
«não te mereço!...»
A louca rendição
em ardores
ainda assim ternos
de que os corpos se arrepiam.
Gosto particularmente
que perdure
nos infernos
mal se extinga
Pois não existe coisa mais bonita
do que um amor extinto
que crepita
(Poema de Fata Morgana)
sexta-feira, agosto 18, 2006
O Guerreiro...ou como um gatinho conquistou o Adamastor...

Eis a primeira grande conquista da minha vida,
de armas em punho e refinadas,
– usei o charme, esperteza e olhar estratégico:
lá me aproximei, pé ante pé pelo flanco,
espalhando miadelas narcotizantes de cativação,
tonteando o Adamastor de olhar durão.
Depois de conquistada a pata e dorso,
torturando-o com lambidelas de carícias mortais,
o matulão estava sob meu domínio felpudo,
cravei-o com garras bem afiadas de festas,
subi-o e desci-o com ron-rons de encanto, para seu pesadelo...
A partir daqui está dominada a besta sodomizada...
A partir de agora sei que posso conquistar o mundo!...
(Poema e imagem de Carlos Reis-In_loko-)
BOM FIM DE SEMANA
quarta-feira, agosto 16, 2006
O sabor da amora...

A arte de Isabel Filipe
não sei de que silêncios
me falam as manhãs
descobertas na lura
de todos os exílios.
não sei quais os segredos
se escondem e cativos
nos rios, e das árvores
submersas na memória
não sei nomes nem frutos;
são as sombras e os limbos
que vão rasgando a pele
na mancha das desoras.
não sei de que torrentes
quero agarrar a água
que se planta nas margens
à beira de uma sede.
não sei de que relâmpagos
se retira a centelha
a cor, a luz, o fogo
com que se queima a dor.
não sei de tudo isto
nem de como sentir
mesmo que seja frágil,
o sabor de uma amora.
(Poema de José Félix)
segunda-feira, agosto 14, 2006
Seios...

Seios pequenos, discretos,
Seios rebeldes, erectos,
Feitos desejos secretos.
Seios redondos e quentes,
Seios desnudos, frementes,
Colos d'amor, exigentes.
Seios luxúria, vibrantes,
Seios gulosos, de amantes,
Dons de paixões escaldantes.
Seios crescidos, maduros,
Seios pujantes, seguros,
Sons de silêncios impuros.
Seios enormes, caídos,
Seios vazios erguidos,
Resto de tempos vividos.
(Poema e imagem de Vitor Cintra)
sexta-feira, agosto 11, 2006
A Esmola...

Lisboa - Óleo sobre tela de Francisco Smith(1920)
Mas que criança alegre ali vinha,
Arrastada pela mão da sua presumível mãe,
Com o cabelo amarelo em desalinho,
A tagarelar e a bisbilhotar
Os artigos expostos nas prateleiras.
Eu observava a cena,
Enquanto esperava ser chamado
Para levantar uma encomenda
Que o carteiro não me trouxe a casa -
Preferiu deixar o aviso
Na minha caixa de correio.
A mãe, muito magra, deambulava
Com uma caixa de sapatos verde,
Sem tampa, estendia-a às pessoas
Para que nela depositassem,
Por caridade, uma esmola.
Muito jovem, diria mesmo, jovem demais.
Para já ter uma filha de dois ou três anos?
Até podia ser a irmã mais velha de uma família cigana
Que faz da mendicidade profissão.
Não havia sinal de sofrimento na cara da pedinte,
Saiu cedo para trabalhar (acho)
E à tarde, quando regressar,
Alguém irá pedir-lhe contas
“E se não for?”, pensei.
Talvez seja mesmo mãe da criança
E esteja sozinha neste mundo,
Que insensível sou ao sofrimento alheio.
Que merda!
Aproximou-se de mim por trás
E estendeu-me a caixa.
Olhei de lado para dentro dela.
Vazia, completamente vazia, a caixa!
Depois de ter passado por dez ou mais pessoas!
Mundo vadio, que mundo bestial!
Porque é que um ser humano,
Que tem uma criança tão alegre e saudável,
Não há-de dispor de meios
Para assegurar a sua existência
E a do filho sem precisar pedir?
Nem percebo porque é que esta situação
Tão corriqueira entre nós,
Me causa tamanha dor!
– Eu próprio já recusei tantas esmolas,
Não, uma esmola destas acho que não.
Que posso fazer?
Sei que a minha esmola não é solução.
Se lhe der a esmola,
Apenas fico de consciência aliviada,
Ela, ficará na mesma
Hesitei. Numa fracção de segundo, ainda pensei:
“A vida tem uma duração finita, são dias, são anos,
São décadas e pouco mais; se eu lhe der uma esmola,
Talvez ela e a criança cheguem ao fim do dia sem fome;
(Ao fim e ao cabo nós todos
Só queremos chegar ao fim dos dias sem fome.)
Estreei a caixa vazia das moedas com uma moeda,
E ela lá continuou a sua ronda sem espanto.
Desta vez, já outros seguiram o meu exemplo,
E puseram mais moedas na caixa sem vazio.
Saíram as duas (mãe e filha?),
E fiquei a espreitá-las
Através da fachada envidraçada dos correios.
Atravessaram a rua para o outro lado,
E vi-as entrar no café de defronte,
Todas contentes. Afinal tinham mesmo fome.
E veio-me à mente o sempiterno verso
Que enforma a minha própria mente:
"Mas as crianças, Deus meu…"
Só então percebi plenamente
Porque tive tanta pena daquela gente.
quarta-feira, agosto 09, 2006
Os Poetas...

Imagem de Mel Gama
Porque são tão tristes os poetas?
Porque têm os olhos sempre no infinito?
Porque caminham sempre cabisbaixos?
Porque passam tanto tempo à beira do rio?
Porque deambulam tanto pela grande cidade?
Porque percorrem as ruas depois da chuva?
Sempre sozinhos, pensativos...
Alguns há que correm pelos campos,
Como veados tresloucados,
Na ânsia de absorver
Toda a essência do mundo.
Outros há que se embriagam com palavras,
Que fumam nos cafés,
Que bebem nos cabarés,
Que se esquecem que em breve surgirá a madrugada...
Muitos não têm amigos
Alimentam-se de fatias de solidão
Que devoram em grandes garfadas.
Outros, odeiam a Lua,
Porque passeia indiferente às suas desgraças.
Outros ouvem rádio toda a noite
Nalguma vivenda da linha do Estoril.
São tão estranhos, os poetas...
(Poema de Pedro Cordeiro)
segunda-feira, agosto 07, 2006
Pérola Romântica...

Caminho por sobre as pétalas da rosa por ti desfolhada,
Mergulho na fragrância intensa que em mim despertas.
Dispo o véu dos preconceitos em doce chama aprisionada,
E me dou por inteira quando em teus braços me apertas.
Pérola romântica me tornei depois de por ti ser encontrada,
Perfumando o teu corpo com a essência intensa do meu.
Excitando os sentidos prendidos nesta espera acabada,
Te aguardo na bruma cerrada em que o espírito se perdeu.
Ao te insinuares, meigamente me envolve e me prende,
Por sobre meu peito, teu peito se deleita e se estende.
Nossas almas se contorcem nessa entrega desejada.
Nossos corpos se fundem nesta rendição terminada.
E na pele escorrem gotas perfumadas de intenso sabor,
Não me perguntes agora, se é paixão ou se vai ser amor.
(Poema e imagem da Lagoa Azul)
sexta-feira, agosto 04, 2006
Amor

Trabalho a lápis de Carlos Peres Feio
(poema a escrever hoje, ou nunca)
não dei por ele,
talvez brisa no
pescoço
e na orelha,
o primeiro arrepio de prazer
talvez tenha sido isso
leve, começo a senti-lo
refresca-me
mas cresce,
torna-se forte
antevejo um tornado,
com todos os sentimentos
no centro
a elevar-se em
espiral,
para fora de mim e
do mundo dos ventos
amor-vento
já uma tempestade
abre-me os olhos,
amor-água
escorre-me pelo rosto
pelo corpo
as cordas das velas do meu passado
esticam rangem vibram,
as cruzes nelas bordadas
partem com o vento
e a minha alma fica
branca
pura
disponível
para receber as tuas marcas,
só as tuas!
(Poema de Carlos Peres Feio)
terça-feira, agosto 01, 2006
O cheiro dos dias...

Imagem de Morgane
Os nossos dias são de cheiro,
que é mesmo de admirar
Há dias que cheiram a limoeiro,
o que é de espantar
Outro dias cheira a Pinheiro,
esses são mais de aceitar
Outros dias de Dinheiro,
nesses ninguém vai acreditar
E de outros dias de cheiros, podemos falar
onde alguns agradáveis são, ou não
Mas os dias de cheiros que mais gostas,
são os que dizem mais do coração
Porque os dias de cheiros ao amor,
esses, dias não tem
Eles, os dias de cheiros até podiam ter cor,
e algum sabores também
Mas os dias que cheiram aos teus lábios,
os meus eles adoçam
Aqueles dias de cheiros dos beijos muito sábios,
nos meus eles roçam
Ainda há os dias de cheiros a natureza,
que até trazem muitas cores
Eles, os dias de cheiros vem com toda a beleza,
cheirar teus lábios de sabores
Assim os dias, em tudo tem cheiro,
e nós muitos amores
Os cheiros dos dias não são feios,
nem nossos lábios têm pudores
Sempre nos dias que têm cheiros,
brotam todos seus odores
Os dias têm muitos cheiros?
Têm sim senhor
(Poema de Fernando Ramos)