segunda-feira, outubro 30, 2006

Solidariedade e Poesia...

Porque a Poesia são sentimentos que partilhamos com os outros e também um elo que pode ligar e estabelecer afectos, resolvi partilhar o conteúdo de um email que recebi recentemente, onde a solidariedade e a poesia andam de mãos dadas.
Através do
Padre Mário de Oliveira tive conhecimento desta obra de solidariedade e de divulgação de cultura, onde está inserido o Poetas Somos que têm um projecto de editar um Livro de Poesias, sem custos para os Poetas e cuja receita reverterá a favor da Obra que defendem.
Vamos conjugar esforços e ajudar com dois ou três poemas de cada um de vós, esta
Obra e no final quem sabe, nos possamos reunir todos numa daquelas salas e, recitar Poesia



Imagem autor desconhecido


Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

(Poema "Um Amigo" de Eduardo Bettencourt Pinto)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Tingida de noite...


Imagem autor desconhecido



Tingida de noite tropeçaste em mim,
triturada pela desilusão de uma dança.
Tango Argentino decorei nas tuas ancas e seios,
tatuado de tempo e vontade indiferente.

Tua voz silenciosa envolveu-me sem avisar,
telepática e inigualável, oscilou o meu mundo.
Temperaturas mortas te gelavam as mãos,
tocaste-me com o suspiro de vida que escondias.

Toxinas conquistadoras te colonizavam,
tumores possessivos de momentos vividos.
Tela alheia de fantasias cúmplices,
textura ardente em sopro oscilante.

Trovoadas pincelámos em ecos pintados,
tormentas apaziguamos e enchemos de nada.
Torneios de vendavais e calmarias nos embriagam,
tentações da vida, essa ilusionista infinita e perfeita.

Traí o rótulo do amor que se deseja cego,
testemunha fui de que te amei com um olhar.


(Poema do Dilbert)

quarta-feira, outubro 25, 2006

Plantador de sonhos...


Imagem daqui



No teatro da vida, solitário,
Unicamente em sintonia com a fantasia,
Fui o artista que gerou imagens
Para consolo de ânsias sem fim.

Fui aquele que criou
formas de vida pelo sentimento,
O génio insano que idealizou amores
Para amparo, sustento da esperança.

Louco alquimista dos mistérios,
Tradutor de desejos
E ensaísta da volúpia eterna.

Fui plantador de sonhos...

(Poema de Louco de Lisboa in In§†an†e§ ðe µm £oµ¢o)

segunda-feira, outubro 23, 2006

O crepúsculo em combustão lenta...

Confesso que o poema que vos trago hoje, pertence a um dos blogues de cinema que mais gosto de visitar…e porque o cinema é outra das minhas paixões, aqui vos deixo... wasted blues


Imagem de Pedro Moreira

O crepúsculo em combustão lenta
Entre anjos e

E criaturas novas

A urgência do mundo
que bate o pé

A arte de ser
uma nova estrela

Os hóspedes tão desconhecidos
quanto influentes,
A teia e a aura:
Paralelas que talvez se encontrem.

(Poema de wasted blues)

sexta-feira, outubro 20, 2006

de que medidas somos feitos?


Pintura de Márcio Melo

de que medidas somos feitos?
quantas peças encaixam, moldes utilizados
olhos que nos vêem, de que modo?

fosses um bosque
uma pedra vento fogo
inanimado

fosses flor
água terra

não sendo nada és
sou espírito navegante
ouves o que permito
tocas no alcançável
o resto é mato


(Poema de Teresa Durães in Voando por Aí)

quarta-feira, outubro 18, 2006

Paixão...


Imagem Sandra Perez



Atravessamos o deserto descalços
Alegres
Desprendidos
Enfaixados em sonhos

Carregamos esperanças
Elexíres de domínio
Projectando momentos
Fragmentos do que não foi

Mas atravessamos o deserto descalços
Porque as certezas dissipam-se nas areias
E o óbvio é acessório


(Poema de
Daniela Mann in Amar-Ela)

segunda-feira, outubro 16, 2006

Apareces tão pouco...

"-Tens muito que fazer?
-Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto cansa e mata; morrer-se sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço.)" in Diário de Sebastião da Gama




Sebastião da Gama

Confesso que ao começar a ouvir as primeiras palavras ditas aqui me emocionei bastante.
E reportei-me anos atrás, onde uma voz tranquila lia em certos momentos, palavras que se foram interiorizando em mim. Tal como estas:


“Há palavras alegres e há palavras
tristes. E essa tristeza ou essa alegria
umas vezes está nelas, outras no
modo de as dizer.”


As palavras do Luís Gaspar despertaram em mim recordações há muito guardadas na memória dos afectos. Confesso que enquanto o ouvia, uma lágrima rolava no meu rosto. Da minha meninice e dos meus tempos de estudante, guardo recordações maravilhosas. E sei que muito do amor às letras que tenho, vêm desses tempos.
Hoje num turbilhão de sentimentos, recordei momentos, factos e pessoas que guardei sempre no meu coração. Um deles, a pessoa que me ensinou a amar as letras, que lia na sua voz doce e que me transmitia e a toda a classe que leccionava, toda a candura de um Poeta que ela própria respeitava e admirava: a minha Professora, que também era a minha melhor Amiga e minha Mãe.
É a ela e por ela, que hoje neste Poesia Portuguesa me atrevo a deixar aqui a voz do
Luís e este


Apareces tão pouco...

Apareces tão pouco nos meus sonhos que quando os sonho chego a ter saudades tuas.
E entretanto tu és ainda a mesma continuas a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato, a idealizar uma casa ao rés das ondas (mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos) e a fazer da Vida precisamente a ideia que fizeste de mim desde a primeira hora.
Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus sonhos. E como eu, pela minha, calculava a tua pressa, fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.
O tempo era o das flores... E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la ao maior e melhor de todos os poetas. Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas, e era já acordado que beijava as tuas mãos, pois desceras comigo do sonho e à minha volta o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas eram tua presença verdadeira ...
Por que não vens agora? Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas...E tu pensas de mim o que pensaste sempre e bordas nos lençóis as nossas iniciais. Por que não vens? Chegarias ainda rosada e ofegante. Não virias molhar de lágrimas meus sonhos, porque não sabes nada ... Nem sequer que até esqueci a cor e o corte do vestido que tu estreaste (há quantas Primaveras?) no último sonho em que sonhei contigo ...

(Sebastião da Gama )

Sebastião da Gama foi Professor. Muitos alunos o recordam. Um deles o próprio Luís Gaspar e são dele estas palavras que finalizam o Palavras de Ouro 63:

"Vou reler e reler o “Diário” de Sebastião da Gama onde ele, a certa altura fala de um dos seus alunos como um tal Micróbio alcunha que me acompanhou durante muito tempo na Escola Veiga Beirão. "

sexta-feira, outubro 13, 2006

Outono


Imagem Mário Galvão Ferreira Galante [Magal]


Talvez nunca a ternura fosse tanta
como entre os montes amadurecidos
e quando as casas se elevam
entre o ouro e o fumo da tarde.

Silêncio que parece vir do lento
passado,
vozes que se dão
em resignada melancolia
e tomam a forma dos frutos,
vinho e sombra que apagam o mar
nas árvores
onde não tardará o abandono
memória do que somos.

Repousam sobre a noite os grous
enquanto as cidades crescem à nossa volta
contra o sul vencido.

Vento, ramo e sombra que caem
sobre as janelas ardentes:
lá onde a púrpura se reclina
sobre a água e a beleza
a verdade começa a surgir da espuma.

(Poema de Henrique Dória in Odisseus)

quarta-feira, outubro 11, 2006

Pintar o tempo...


Óleo de John William Waterhouse


Hoje já pela noite
Fiz-me ao mar ...

Libertei sereias
para cantar
em vozes transparentes
e calmas...

Transformei gaivotas
inquietas...
voando
em voos de rasos
de almas
planando...

Desencalhei navios
afundados
soltei barcos
naufragados...

Sacudi a folhagem
mudei a paisagem...
Desfolhei flores
de mil cores...

Perfumei o vento !
Pintei o tempo!

(Poema da Perdida)

segunda-feira, outubro 09, 2006

Escadaria


Fonte da imagem: Clarence Signormori

Subo a escadaria
De mármore polido
Até ao topo
Derrapo nos últimos degraus
Quase me estatelo
Equilibro-me a custo
Dum golpe de rins
Bem delineado
Alcançando a muralha
Donde consigo avistar
Aquilo que tu não queres ver
Quando subires
A escadaria de mármore polido
Cuidado nos últimos degraus
Eles escorregam...

(Poema de Paula Raposo in Canela e Erva Doce)

No próximo dia 14 de Outubro às 18.30, será lançado o livro de poesia "Canela e Erva Doce". Mais detalhes aqui

sexta-feira, outubro 06, 2006

Estuário d´amor


Imagem de Adriarual


Tatuaste
no teu corpo, a minha
cor
entrando... nos teus poros
corro-te
no sangue...
livre

A alada curvatura do meu seio
Não evita o doce peso dos teus dedos
Um favo, onde se junta toda a doçura – sem receio
Vestes a nudez do meu liso ventre – com segredos

Doce mel do teu olhar desliza...
Pequenas gotas em meus lábios caem
Como palavra absoluta, envolvida na melissa
No íntimo desprender, aquando tocamos – a margem

O teu coração
movendo-se na boca
inaudível dos teus dedos...


(Poema de Betty Branco Martins in Fragmentos)

quarta-feira, outubro 04, 2006

O que é Poesia?


Imagem de Luis Caeiro



O que é Poesia?
Porquê escrever?
É uma triste alegria,
É um amargo prazer.

Em versos, o poeta tem
Um desafogo da alma,
A emoção que lhe vem,
É ânsia, loucura, calma...

Escrevendo, sente-se bem,
Sente-se algo, sente-se alguém,
Num mundo que não é seu.

O que ao poeta dói, o que sente,
É que o mundo, não compreende,
O que, tão sentido, escreveu.

(Poema de Luis Caeiro in grão-de-luz )

segunda-feira, outubro 02, 2006

Foi-se o Amor...


Imagem de Jeff Novak

Chegaste
De mãos dadas
Com o Outono,
E em pleno
Rio Tejo,
Olhaste-me
E pediste-me
Aquele beijo.
Não são lamúrias
Que ouço cantar,
Nem pedras de sal
Que vejo chorar.
São dois corações
Impetuosos
Pela dor,
Que fraquejam
Por saber
Que de tudo
O que menos ficou

Foi o amor.

(Poema de Natalie Afonseca in A minha teia)