segunda-feira, agosto 13, 2007

Ode ao Mar


Fotografia de Sandra V.

Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...

Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!

Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.

Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.

O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.

Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.

Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...

Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!

Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!

* Miguel Torga, in Odes,(1946)


* Poeta, contista, romancista, diarista, ensaísta e dramaturgo, Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

16 comentários:

Mar Arável disse...

considero que este espaço é um verdadeiro serviço público

Não há alternativa à poesia

Graça Pires disse...

Do Torga sou fã. Esta Ode ao mar é linda como todas as odes de Miguel Torga. Um beijo.

Maria Clarinda disse...

Excelente a tua homenagem ao grande Miguel Torga!
Linda a foto da Sandra.

Meg disse...

Venho agradecer a visita, e dar conta do meu prazer em frequentar este blog. Tenho-o feito em silêncio até aqui.
Espero continuar a fazê-lo, e com um prazer redobrado...
Um abraço

Carlos Martins disse...

Se é sempre com renovado prazer que visito os teus blogs, este posted de hoje no POESIA PORTUGUESA agrada-me sobremaneira por três motivos distintos: primeiro pelo tema: o Mar. O Mar vive comigo e vive dentro de mim desde que me conheço; segundo pelo poeta que escolheste para hoje. Miguel Torga por muitas e variadas razões é um dos poetas da minha preferência, e terceiro -mas certamente não o de menor importância nesta sucessão valorativa- a imagem que utilizaste: a capelinha do "Senhor da Pedra" que me desperta, por uma razão muito pessoal que aqui não vem ao caso, a maior das emoções.

Dário Guerreiro disse...

Gostei muito do blog.
Continua.

E.Adriano disse...

parabéns pelo seu blogue.

otaciturno.blogspot.com

Palavra Alada disse...

PARABENS pelo blog

Ana Sobral disse...

uma das zonas mais belas do litoral norte e aki apanhada duma forma magnifica!!
um belo poema de um dos poetas portugueses k mais gosto!!
mt beijinhosssss da anita

Paula Raposo disse...

Maravilhoso poema de Miguel Torga! Lindíssima fotografia, forte e poderosa, como o mar...

De Amor e de Terra disse...

Como são belos os Poemas de Torga!!!
Quanto mais os leio, mais os amo!

Beijos Menina e obrigada por este post que tem toda a beleza e bom gosto a que já nos habituaste.

Maria Mamede

LdS disse...

Ó meu rico Senhor da Pedra,
Para o ano lá hei-de ir.
Ou casada, ou solteira,
Ou criada de servir...

(Quadra cantada nas "rusgas" que, de madrugada, nos anos 40 se deslocavam a pé de Gaia à Festa do Senhor da Pedra... e que a pé voltavam, já noite caída. E a Quitéria, de pandeireta, à frente!)

Luz&Amor disse...

Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.

Linda música, lindo poema. Adorei a sua casa. Vou te linkar lá pela minha posso? Com certeza um lugar aonde voltarei. Beijos

Fátima disse...

Linda Poesia, Miguel Torga simplesmente fantástico...

Também não sei viver sem mar sem azul sem emoções.

Música muito boa.

:-) um abraço

Å®t Øf £övë disse...

Miguel Torga escrevia coisas lindas...

Edilia disse...

Simplesnmente lindo, a varias poemas lindos,da ler mais cada dia! Amei esse!!
Que colocar mais outros