quarta-feira, janeiro 16, 2008

Nós, os outros


Imagem daqui


Nós, os outros, habitamos a textura
aquosa e impura da cidade adormecida
quando o negro nela se abate

Nós, os outros, abrigamos o frio
nos jornais remexidos,
aninhados no vazio dos recantos
que o cimento e a pedra calam

Somos gente sem nome nem destino
em tempo indeterminado;
andarilhos na mão que se estende,
vestidos de invisibilidade

Nós, os outros, também sonhamos
a metáfora ténue dos papeis gastos,
da vida a essência dos dias plenos
entre a existência dos muros lentos
levantados pela hibridez da hora em viragem

Assim caminhamos o esquecimento
sob a trama da luz baça da cidade


(Poema da Amita in Branco e Preto)

11 comentários:

Fernando Vasconcelos disse...

Não é portuguesa, eu sei . Mas ao ler este poema lembrei-me deste que estudei em tempos. Talvez me atreva um dia a traduzir ...

Ma Bohème de Rimbaud

"Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot soudain devenait idéal;
J'allais sous le ciel, Muse, et j'étais ton féal;
Oh! là là! que d'amours splendides j'ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!"

Anónimo disse...

O retrato do País que temos!!!!!!
Muito belo o poema, gostei imenso
Bejokas
Nini

rouxinol de Bernardim disse...

Há poemas que nos atingem como socos certeiros!

Está um retrato bem elaborado de uma realidade tão pouco revelada. O "oásis" não convive com o "deserto": JAMAIS!!!

Maria Clarinda disse...

OPS!!!Excelente como sempre, voltei para reler.Jinhos

lupussignatus disse...

Os outros podem muito bem ser os dois milhões de pobres que vivem na penumbra e que não têm voz...

Este poema é uma pedrada no charco!

Mar Arável disse...

Vale sempre

vir aqui

respirar

Joaquim Amândio Santos disse...

o que é o conhecimento?

visão directa do corpo e da atitude?
prolongado caminho nem que condutor à saturação encapotada?

Vivência superficial feita de fait-divers e não de curiosa partilha sem hora nem condicionalismos marcados?

Será assim tão impossível iniciar o conhecimento na distância? julgo que não e defendo tal desiderato.


ASSIM AQUI DEPOSITO A MINHA HOMEGAEM AOS BLOGGERS, ESSES ALADOS TRANSMISSORES DE LAÇOS DE PARTILHA!

Mocho-Real disse...

Eu deixei o comentário no Branco e Preto!
Peço desculpa, mas nem reparei que este poema era da Amita. Assim, fui lá, deixei o comentário e aprestava-me a vir comentar o teu. É que só tinha reparado na imagem, antes. Tal a sua força, hein?

Um abraço.
Jorge G.

Peter disse...

Já comentei no blog original. Belíssima escolha e a autora merece bem esta distinção.

Parabéns às duas.

Amita disse...

Por mais que tentemos tapar os olhos e os ouvidos, a realidade é tao dura que é-nos impossível calar. Haja esperança em que luz se faça. Obrigado a todos pela sensibilidade e carinho.
Um bjinho grande, amiga Poesia Portuguesa, e uma flor que bem a mereces

ribadouro disse...

E assim vai o mundo,
milhares de anos apóz a invenção
da roda.
É lamentável e todos temos uma cota parte de culpa, todos.