segunda-feira, janeiro 21, 2008

Roda

É com uma satisfação muito pessoal, que hoje trago aqui um Poeta que admiro e cuja obra já foi merecedora de vários prémios.
Recentemente, foi o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica.
Pela sua simbologia, deixo-vos este poema que retrata um "mundo" muito actual…


Imagem Crestomatia



digo que estes homens de kiev estão a viver
no contentor azul e amarelo e nele dormem, preparam
as frugais refeições no único bico de gás disponível,
cosem as meias, descascam cenouras e batatas e comem
em pratos de alumínio com garfos de plástico, e rezam
em silêncio ao deus ucraniano que sempre os ignora,
o deus que os acompanha nas obras públicas e nos prédios suburbanos
em construção onde trabalham, que os turistas de albufeira
não tardarão a ocupar, com os olhos cheios de um sol que nunca viram,
nunca sentiram queimar assim na sua pele.

digo que estes homens de kiev enchem a boca de um lamento profundo,
que estes homens enchem os olhos de lágrimas que se não vêem
e aqui sonham sem sonhos, com um murmúrio negro a invadir-lhes a cabeça,
como se estivessem para além do último limite, a última exasperação,
estes homens de kiev que não sabem como o mundo pára às vezes
e ao mesmo tempo se amplia, como o coração desesperado
de alguém que viu a partida iminente e, por um instante, estacou,
ainda a neve não derreteu na primeira estação ou os pássaros
nidificaram uma e outra vez na dolorida luz de kiev.

digo que estes homens de kiev devem como todos nós um galo a asclépio
e perscrutam no que é visível tudo o que está invisível nas coisas,
transversal e faminto, amplo e escuro nos subúrbios de albufeira,
procurando na brancura as semelhanças possíveis com o que nunca verão,
tendo já visto tudo, tendo já visto
o mar a inclinar-se sobre os seus corações, num momento longínquos,
nas ruas de albufeira, noutro momento próximos dos subúrbios de kiev,
a pesar argumentos, a exorcizar a morte, a recolher nos braços
uma tristeza infinita, indizível.

digo que no próximo ano estes homens de kiev hão-de chamar
para aqui as mulheres e os filhos, estes ucranianos que vivem no contentor
azul e amarelo na periferia de albufeira, estes violinistas,
estes médicos, estes professores de línguas, que agora dão
serventia de pedreiro e usam a picareta, a pá e a betoneira e sabem
a quantidade exacta de areia e cimento e água e ferro para levantar
estes arcos, onde vibra a tumultuosa música do sofrimento,
talvez como alicerce, talvez como definitivo ajuste de contas
entre isto que se vê e eles não dizem, ou se não vê e eu digo,
como um deus ucraniano de passagem pela periferia de albufeira.

Poema de Amadeu Baptista
(Antecedentes Criminais, Antologia Pessoal 1982-2007)

16 comentários:

Anónimo disse...

UMA FORMA BELA DE VER O MUNDO MAS DRAMÁTICA.

QUE O POEMA PASSE A SER UM HINO AOS HOMENS DE KIEV MAS TAMBEM DA ROMÉNIA DO PAQUISTÃO MOLDÁVIA ETC. OU AOS HOMENS DAS BEIRAS OU MELHOR , DO MINHO AO ALGARVE.


A.H.

Graça Pires disse...

Conheço mal a poesia de Amadeu Baptista. Este poema é fantástico.
As migrações que vão acontecendo num mundo desigual...
Um beijo

herético disse...

poeta desconhecido para mim. até agora. vou tentar conhecer a obra.

gostei muito

Fernando Vasconcelos disse...

Magnifico. O ritmo do texto, a melodia das palavras ... não sei se foi propositado mas a música que estava a passar era exactamente certa para o poema ... parabéns pelo post.

Paula Raposo disse...

Desconhecia o Poeta. Parece tão simples dar forma às palavras quando elas vêm mesmo da alma. Beijos.

anad disse...

Gosto do seu blogue. Parabéns.
Anad - azul ao longe

Anónimo disse...

Sem questionar a oportunidade do escrito nem a justeza do que nele se diz, o que aqui se lê não é um poema.
É uma pequena crónica sobre um dos problemas que a actual política de imigração traz para a actualidade.

A propósito de tudo e de nada evoca-se a poesia. Por vezes elogia-se como poesia coisas que não nada tem a ver que essa bela e delicada forma de escrever.

Com isso está a vulgarizar-se o sentido sentido do termo e adulterar-se o encanto da verdadeira Poesia.

Poema não: diga-se que o aqui se se lê é uma simples crónica.

José Lucas

Fernando Vasconcelos disse...

Por acaso não concordo com o José Lucas. Em minha opinião é um poema. Na musicalidade da linguagem, na forma como está escrito é poesia.
Aliterando uma frase conhecida e utilizando um pouco de liberdade poética:
"A verdeira poesia está sempre nos olhos do leitor" ...

Anónimo disse...

Onde, meu caro Fernando Vasconcelos, nos levaria este assunto visto assim como diz ?!

UM vil atentado terrorista que mata cobardemente duzias de inocentes, se relatado de determinada forma, seria então Poesia.

A simples satisfação duma necessidade fisiológica, mesmo a mais primãria e pessoal, seria poesia.

Tenho visto a mais abjecta das pornografias (inclusivé com imagens) ser inserida em sites que se diz serem de poesia.

Mas... cada um tem a sua maneira pessoal de ver as coisas, não é verdade ?

Muito obrigado por ter referido o meu comentário, no tom educado e conciliador em que o fez.

José Lucas

Fernando Vasconcelos disse...

Caro José Lucas
Entendo o que diz mas não pretendia dizer que tudo é poesia ou que tudo é arte. Há limites claro está. Acontece que neste caso discordamos dos limites que fixa para a poesia.
Peço desculpa por estar a manter esta conversa em blog alheio. Acho que é capaz de ser um pouco rude da minha parte.

Poesia Portuguesa disse...

Meu caro Fernando de Vasconcelos,

não tem que pedir desculpa, agradeço do coração as suas palavras, o diálogo de pessoas de bem, que têm a coragem de se identificar, é sempre uma mais valia, para este Blogue.

Deixo aqui um poema de um Poeta que admiro...

"A escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo"

(Al Berto in "O Medo", Assírio & Alvim, 1997)


Um abraço e grata a TODOS pela participação.

Anónimo disse...

Meu caro Fernado Vasconcelos

Ficamos, então, por aqui.
Até porque não seria, de facto, de bom tom mantermos uma conversa deste teor no blog duma senbhora que, pelo de que d'Ela tenho lido, me merece o maior respeito e consideração.
Os meus cumprimentos.

José Lucas

Paulo Anacleto disse...

Lá li muita da poesia de Amadeu Baptista desde que ele recebeu o Prémio Vítor Matos e Sá, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde eu estudei.

Ler o Amadeu, talvez não seja para qualquer um uma vez que a sua escrita é um movimento dialéctico, num jogo de personagens que vi igualmente em Drummond de Andrade, de quem deixo aqui este poema

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossege
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Estes versos foram extraídos do livro "Nova Reunião", José Olympio Editora Rio de Janeiro, 1985, pág. 78.

Cumprimento em primeiro lugar a autora deste blogue, pela coragem de o manter tão activo e o Amadeu pela sua poesia.

P.A.

Paulo Sempre disse...

Obrigado pela visita e "douto" comentário.
Sendo eu um comum mortal e, como dizia Natália Correia; « sofrido todas as perseguições a que estão sujeitos os contrabandistas...», dos poetas só fico mesmo com os seus "estados de alma" e alguns "diamantes" que havitam no «espírito» da sua mensagem.
Não seu eu amante nem, realmente, poeta não posso ver a "aurora da eternidade, porque:
" só os amantes e os poetas vêem a aurora da eternidade" (Natália Correia, in jornal "semanário" em 29 de Novembro de 1986).
Até sempre.
Paulo

O Tavernista disse...

Belíssima poesia, belos poemas, todos eles e lindo esse blog. Me chamo Romulo Narducci, sou poeta brasileiro e idealizador de um evento mensal de poesia chamado Uma Noite na Taverna, em São Gonçalo, estado do Rio de Janeiro.

Também, aqui, temos um blog coletivo onde muitos poetas que se apresentam no evento escreve. Chama-se A Corja: www.acorjavirtual.blogspot.com

Um grande abraço a todos as poetisas e aos queridos poetas portugueses! Parabéns!

Evoé!

O Profeta disse...

Tens uma relação espiritual com a cultura...


Doce beijo