quarta-feira, julho 30, 2008

Inocência


Pintura de Lucien Lévy-Dhurmer

É amena a hora e o tempo casto.

Na flor, o orvalho da manhã
estende-se em planos
indeléveis, indefinidos, breves,
qual pena em mão de criança
que do sonho nada teme.

E, sorrindo à brisa, se balança
indiferente ao conselheiro sem idade -
exponente pluriforme da morte -
em incauta obstrução à vulnerabilidade.

É amena a hora e o tempo casto.

Da silhueta ténue da rosa-menina
urge afastar densos passos
sobrepostos na tapeçaria da vida.

(Poema de Amita 'Fátima Fernandes')

quarta-feira, julho 23, 2008

Allegretto

“Da minha janela
vê-se a Poesia.”

(Sebastião da Gama)


Aguarela de Abigail Vasthi Schlemm


Irrompeu do caos
O silêncio
E fez-se a maresia, o instante
E a solidão.
Irrompeu da espuma a tristeza,
A lágrima, a nuvem e a primeira imagem da nudez.
Irrompeu do caos
O silêncio: a primeira imagem da surdez desejada.
Irrompeu do caos e da lama
O silêncio purificante de uma chama, e o desejo
Da brutal carícia das coisas impossíveis,
Sobre a laje fria dos banquetes irreversíveis dos abutres.

Foi na secura resignada dos meus olhos
Que as lágrimas se espelharam,
Derramando-se no cântico lago do mundo.

Ao inclinar a cabeça servil
Soltaram-se, em gemidos, os cabelos da escravatura.
E abriu-se o caminho da tua viral doçura
Dos abismos sob as estradas e caminhos
Dos nossos infantis amplexos.
E irrompeu do silêncio a oração, então esquecida,
Dos abraços reflexos.

Descerrou-se o mármore.

E acolheu-se o silêncio nas palavras
Nuvem, água e maresia.

Descerrou-se o mármore
E entrou em trabalho de parto a poesia.

(Poema de Manuel Anastácio in
Da Condição Humana)




Final (início) do filme "Irreversible" de Gaspar Noe. Allegretto da sétima
sinfonia de Beethoven. (retirado daqui)



(Desligar p.f. a música de fundo para ver o vídeo)

segunda-feira, julho 21, 2008

Em dia de Aniversário...

O Porosidade Etérea é um blogue que teve a origem do seu nome, segundo as palavras da sua autora, no poema…

Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

De António Gedeão


Falar do Porosidade Etérea é convidar-vos a percorrer e conviver com a Poesia que a Inês Ramos nos aferta de uma forma altruísta, diria mesmo carinhosa.


Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

(Excerto)

(Poema de Álvaro de Campos in
Fernando Pessoa, Obras Completas - I Volume, pág.432/433)


Pelo 2º. aniversário do Porosidade Etérea endereço à Inês Ramos as minhas sinceras felicitações pelo trabalho desenvolvido, desejando-lhe as maiores felicidades a todos os níveis...