Site Meter Poesia Portuguesa: Allegretto

Poesia Portuguesa

dedicado a todos os que gostam dela...

Quarta-feira, Julho 23, 2008

Allegretto

“Da minha janela
vê-se a Poesia.”

(Sebastião da Gama)


Aguarela de Abigail Vasthi Schlemm


Irrompeu do caos
O silêncio
E fez-se a maresia, o instante
E a solidão.
Irrompeu da espuma a tristeza,
A lágrima, a nuvem e a primeira imagem da nudez.
Irrompeu do caos
O silêncio: a primeira imagem da surdez desejada.
Irrompeu do caos e da lama
O silêncio purificante de uma chama, e o desejo
Da brutal carícia das coisas impossíveis,
Sobre a laje fria dos banquetes irreversíveis dos abutres.

Foi na secura resignada dos meus olhos
Que as lágrimas se espelharam,
Derramando-se no cântico lago do mundo.

Ao inclinar a cabeça servil
Soltaram-se, em gemidos, os cabelos da escravatura.
E abriu-se o caminho da tua viral doçura
Dos abismos sob as estradas e caminhos
Dos nossos infantis amplexos.
E irrompeu do silêncio a oração, então esquecida,
Dos abraços reflexos.

Descerrou-se o mármore.

E acolheu-se o silêncio nas palavras
Nuvem, água e maresia.

Descerrou-se o mármore
E entrou em trabalho de parto a poesia.

(Poema de Manuel Anastácio in
Da Condição Humana)




Final (início) do filme "Irreversible" de Gaspar Noe. Allegretto da sétima
sinfonia de Beethoven. (retirado daqui)



(Desligar p.f. a música de fundo para ver o vídeo)

12 Comentários:

  • Às 23 Julho, 2008 21:27 , Anonymous Ana Sobral disse...

    ai esta música que me diz tanto! Regressaste em beleza MM que feliz fiquei por teres finalmente cedido às pressões de quem te quer bem e te pedia para voltares.

    E VIVA A POESIA!!!!!!!!!!!!!!

     
  • Às 23 Julho, 2008 22:39 , Blogger Graça Pires disse...

    Desta janela volta a ver-se a poesia. Que bom ter voltado a "Poesia Portuguesa". É um bonito poema este de Manuel Anastácio "Irrompeu do caos o silêncio"
    Um beijo.

     
  • Às 24 Julho, 2008 12:19 , Blogger Paula Raposo disse...

    Um poema que eu digo parido no momento certo com as palavras que o enchem! Gostei imenso. Beijos.

     
  • Às 24 Julho, 2008 12:47 , Anonymous Manuel Anastácio disse...

    Sinto-me muito, muito honrado em teres escolhido o meu poema agora que o teu blogue promete voltar em força. Beijos e um obrigado do tamanho da poesia.

     
  • Às 24 Julho, 2008 15:35 , Anonymous aaron@iol.pt disse...

    Estás de VOLTA!!!!!!!!!!
    “Da minha janela
    vê-se a Poesia.”
    TU ÉS A POESIA!!!!!
    Beijão do tamanho da poesia * roubei a frase ao companheiro ali de cima e autor do poema que agora publicas *
    Parabéns a ambos porque é uma bela escolha e um magnifico poema aliado a cenas de um filme que gostei muito também.
    Bj

     
  • Às 24 Julho, 2008 18:02 , Blogger Teresa David disse...

    Um regresso com mais poesia bela e de qualidade.
    Bjs
    TD

     
  • Às 24 Julho, 2008 20:30 , Blogger DE-PROPOSITO disse...

    Nem sempre é fácil interpretar um poema. É claro que cada um pode interpretar à sua maneira, quando são complexos. É o caso deste: 'Descerrou-se o mármore'. Eu posso sub-enteder que chegou o fim, que tudo terminou.
    Fica bem.
    E a felicidade por aí.
    Manuel

     
  • Às 24 Julho, 2008 23:13 , Blogger Maria Clarinda disse...

    Lindo o poema que mais uma vez nos dás a conhecer! Obrigada. Jhs.

     
  • Às 25 Julho, 2008 21:54 , Blogger Raquel V. disse...

    É bom saber que algo te faz manter-te por perto de todos que gostam de te "sentir".
    O teu amor à poesia é belo.

    O poema é sentido, belo...

    "Foi na secura resignada dos meus olhos
    Que as lágrimas se espelharam,
    Derramando-se no cântico lago do mundo."

    E o poema fez-se...

     
  • Às 26 Julho, 2008 01:33 , Blogger Cadinho RoCo disse...

    Nada como abrir espaço para a poesia.
    Cadinho RoCo

     
  • Às 26 Julho, 2008 23:43 , Blogger RESSACA disse...

    Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.

     
  • Às 01 Agosto, 2008 14:56 , Blogger Amita disse...

    E que a poesia renasça sempre por qualquer espaço mínimo e que a todos enlace em luz e Paz. Esse é o caminho para que o brilho se faça.
    Belíssimo poema.
    Grata pela partilha.
    Ainda bem que voltaste :)
    Bjinhos ao autor e a ti

     

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