quarta-feira, setembro 10, 2008

A mulher


Imagem de Martine Carles



Ela é a dança dos lugares que cercam
a cidade
onde noutros tempos havia religiões.

É o ídolo da juventude e com ela me surpreendo
no assobio das árvores, no peito da deusa que acalma
as minhas tragédias nocturnas.

Ela é a fonte imensa, cristalina e intangível.

Ela é como a chuva.
Bate nos cabelos
ao lado dos violinos com que as palavras se dão
letra a letra numa mesa escutando.

Escrevendo-a, eu sei, abro os seus frutos na sua cor.

Ela é a loucura que o barulho do frio faz
na minha garganta.

Ela olha o vento e os seus olhos estão quietos
à beira dos odores do jardim
e todos os roseirais são dominados pelo seu silêncio.
Delírio inóspito, também onde é deserta a altíssima voz,
ela inventa o toque que cativa aquele que pode governar
acima das estrelas.

Ela é a palavra que se ergue
na existência demorada.

O êxtase das estações mas sobretudo aquela
que atravessa o mês de Agosto
e percorre Setembro num poema pela terra dentro.

Ela é o sino de um futuro onde só habitam os gestos.
A pedra para encostar à cabeça quando Março
gira à volta de todas as bocas maternas.
Escrevê-la-ei debaixo dos rios apodrecidos
e ela seguirá direita, terrível e lancinante.

Ela é o livro que me bate à porta sempre devagar
e ressoando violentamente me diz quem sou.
Estremeço.
Depois sangra um ponto secreto
do meu corpo.

Talvez a minha face se queime.

Ela é a surpresa que tem agarrado a si
os animais inspirados.
Lenta, atravessa a floresta e alicia
o entardecer,

que se delonga às portas da noite.

Ela é a Primavera da noite
que abre uma porta para o coração passar.
Um grito que detém um breve minuto
enquanto respiro metade de um pensamento.

Todo o meu corpo se assusta, no desejo de tocar-lhe,
na ânsia de eternidade do seu momento só.

Ela é a amiga, acidente de percurso ou não,
o certo é que sorri, no exacto lugar
onde se fendeu o desejo.

Amo-a na onda de lodo que perpassa
à flor dos lábios de todos os rios ainda escondidos.

Ela é deste povo cujo hálito
era inocente como um candelabro
quando todos os tectos mantinham inofensiva ainda
a guerra fechada dos suspeitos.

Ela é toda a casa que acaba à noite
depois das sementeiras.

Ela é a tentação nunca mais expirada
pelo tempo fora.
Chega por um impulso, quando o frio
instala cravos na neve e as amantes ofegam por dentro
as maçãs sumarentas com seus pulmões.

A palavra amor não vem no dicionário. Ela é
toda a palavra cheia de todos os significados.

Vestíbulo depauperado e absorto,
ela conduz a água
na secura de todas as bocas
e às portas
onde raparigas que comem os bagos da romã anunciam
o tempo da menstruação.

Ela é toda a cor da fome, todo o rubor
da saciedade.

Ela é o som que estremece os ombros
e surge na nossa idade quando nos despedimos
e não queremos dizer que amanhã morreremos.

Ela espreita as crianças loucamente no poema
enquanto na floresta as giestas se iluminam.

Ela é o mar, este mar,
pequena estrela que muda de cor
e às vezes tem as suas raízes queimadas.

Ela envolve os peixes no recanto da praia
onde quantas vezes ficou gravado o seu corpo
em despedida breve.

Ela é o desvelo, a surpresa do sol e do regresso
quando se chega do fogo e da solidariedade
que unem as águas ternas nos lábios do desespero.

Como um livro que atrai secretamente a ternura
do tempo perdido, ela segue o caminho
de toda a perdição humana. Toda a queda supõe
o abismo dos seus braços.

Ela percorre todos os países, todos os mares do sul
e é nua como um corpo cristalino
que conduz o seu cavalo por entre as pedras sem memória.
É o esquecimento. Todo o esquecimento do real.

Por isso mesmo ela se intima nos poros da cabeça
deste mês de Outubro.

Ela é todo o olhar derretido,
simples.
Olhar longínquo entre os arbustos,
lâmina trivial cortando a distância.

Ela liquefaz-se nas horas do amor gritante
pela noite dentro e nas enchentes
do dia.

Ela é a pomba.

Ofega,

na tranquilidade do corpo,

as searas ondeantes e repletas
de alegria.

Tem o seu mistério
escondido na linguagem.

Ela é a boca de todo o pão.

Voa e leva dentro dela
os nossos filhos adormecidos.

Ela é a nossa solidão.

(Poema de Rogério Carrola)

17 comentários:

Anónimo disse...

- Ela é o desvelo, a surpresa do sol e do regresso
quando se chega do fogo e da solidariedade
que unem as águas ternas nos lábios do desespero. -

Mt bonito. um poeta a desvendar.
jinhos
Dulce

Eduardo Aleixo disse...

Não conhecia este poeta.
O poema tem imagens lindas.
Obrigado, Otília, por mais esta revelação.
Eduardo

tecas disse...

" Ela é a palavra que se ergue
na existência demorada". Excelente canto poético acompanhado por bela imagem e música. Amei. Os meus parabéns ao poeta e a ti M. Marota que dás a conhecer poesia de grandes poetas. Obrigada e bji

Rafael Castellar das Neves disse...

Esplêndido! Muito belo poema!

Aproveito para convidá-los a visitar meu blog e meus poemas: http://descemaisuma.blogspot.com.

Saudações,

Rafael

Paula Raposo disse...

Sensível, sensual, extremamente forte e belíssimo!! Não tenho mais palavras...beijos.

Anónimo disse...

O que a Paula Raposo disse, só a primeira palavra é verdadeira. Não sei se a segunda também. Mas... beijos.

Rogério Carrola

http://rogeriocarrola.blogspot.com/

Graça Pires disse...

Citaria o poema todo para dizer que gostei das palavras de Rogério Carola. Parabéns ao autor.
Um beijo e bom fim de semana.

Zé Camões disse...

Tenho pena de não ver as imagens, o poema é muito bonito.
Deixo as minhas felicidades ao seu blog, vou frequentar mais este local, espero que frequente tambem o meu. Felicidades.

rouxinol de Bernardim disse...

O sortilégio da poesia com a mulher como pano de fundo, com a sua magia, a sua sensualidade, o seu arquétipo, a sua idiossincrasia.

Anónimo disse...

Um bem-hajam a todos. Pelo vosso exagero. Saibam, contudo, que vos quero bem.

Rogério Carrola

http://rogeriocarrola.blogspot.com/

elvira carvalho disse...

A mulher como musa inspiradora de um excelente poeta que eu não conhecia.
Um abraço e bom fim de semana

RESSACA ® disse...

Pedindo antecipadas desculpas pela “invasão” e alguma usurpação de espaço, gostaríamos de deixar o convite para uma visita a este Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa...

Sérgio Figueiredo disse...

Na verdade "Ela" é a musa inspiradora de um excelente poema cheio de sábias palavras que tudo dizem o que vai na alma de um poeta que, tenho pena de só hoje ter conhecido graças ao convite da Otília.

um abraço

Hélder disse...

Belas imagens.
Obrigado.

© Piedade Araújo Sol disse...

um poema muito belo e uma bela homenagem à mulher.

parabéns ao autor extensivos à PP por mais uma bela escolha.

Ana disse...

Simplesmente fantástico! Lê-se de um fôlego, e emocionados com tanta beleza!
Um hino à mulher, sem dúvida.

Beijinhos

manela disse...

não posso deixar de comentar
a foto está linda Mas o poema é lindíssimo em homenagem á mulher
Parabens--Beijinhos