quarta-feira, outubro 22, 2008

Disse

Imagem de Zé Ruivo


Disse
Não disse
O que disse
Foi que disse
Que não queria dizer
O que disse
Não foi o que dizem
O que disse
Mesmo os que ouviram dizer
Não entenderam
o que disse Pois o que disse
Não era o que queria dizer
No sentido de contradizer
Que disse,
Pois direi
Não é maldizer
Dar o dito por não dito
Obviamente
Não entenderam
Será um estilo
Desencontros das palavras
Da autoria de quem disse
Maledicência, difamação
Perseguição politica
Obviamente
Manipulação das situações
A partir de uma analise
Não é correcto
Prenunciar-se
Fora do contexto
Obviamente
Procurando um resultado
Surgindo do nada
E nada do que disse
E o que disse
É nada


Poema de C Valente

terça-feira, outubro 14, 2008

60 em sol e azul-mar



Pintura de Jia Lu



Breve, tão breve
Este vasculhar do corpo da palavra

Breve, tão leve
No casulo, o nefelibata se fez criança
Na fusão das flores, luar e da água
Pelo avassalador ostracismo das raízes em rosácea
Qual silhueta amena e cândida

Breve, tão ténue
O conselheiro exponente da morte, da loucura, do lodo
Tecia, degrau a degrau, um inferno de sombra
Com pena de chocolate
Com o erodido e variável método do sobressalto
Pela vulnerabilidade da obstrução
Em forma de tapeçaria sobre a caixa de cal e vida
Em contínuo movimento

Breve, tão breve
Pensa-se afastar o vapor envolvente
Da conversa em tempestade
Sobre o distanciamento amortecido num país sem farol
A inundar de orvalho em linha vertical

Mas o poeta, apoiado no cotovelo,
Desponta a manhã
Num intenso, imenso divagar
Fazendo emergir da viagem
Pelo céu das letras amenas
Um amor maior a comungar

Breve, tão leve
Renasce a palavra de sol e azul-mar
Num sorriso com licença para voar

Poema de Fátima Fernandes (Amita)


sexta-feira, outubro 10, 2008

Não as há.


Pintura de Leonid Afremov



Não há palavras!

Que signifiquem
O que não pode significar.
Que expressem
O que só na bruta pele corta e queima.
Que verbalizem
O que um sentir não permite.
Que iluminem
Uma inexistente e negra Alma.
Que faça florescer
Uma brisa num rochedo.
Que leve a desabrochar
Uma esperança,
Num infinito deserto.
Ou que desaponte uma rosa
No alto mar.

Não há palavras!

Que silentemente,
Fale
Que inexistindo,
Expurgue,
a sua necessidade.
Que vivendo,
Postergue.
Que etéreas,
Não pesem toneladas
No fardo da minha consciência.
Que nada sendo,
Tudo sejam no meu Ser.

Não!
Não... as há!

(Poema de
RFS)

quinta-feira, outubro 02, 2008

De volta à Poesia da Blogosfera...


Pintura de Michael and Inessa Garmash



(Paráfrase inspirada no poema "Porque voam as Pétalas?", de Paulo de Carvalho):



No meu jardim


No meu jardim
ouço o som da maré-cheia
e o grito das gaivotas;
vejo as árvores
que se despem
e os outros pássaros mudos,
tristes, pousados nos ramos.

O forte ruído da chuva
assusta-os, mantém-nos calados...
um relâmpago ilumina
de repente a tarde escura,
a maré-viva faz-se ouvir
com violência, contra as rochas,
o ribombar do trovão
faz coro com a tempestade.

As gaivotas continuam seu grasnar
numa luta contra o vento
que as impede
de alcançar porto seguro,
indiferentes que lhes é
a serenidade
repousada em meu jardim.



(Poema de
Maria Carvalhosa)