quinta-feira, fevereiro 18, 2010

360 graus de poesia

Pintura de Salvador Dali


Não posso escrever poemas apenas com poesia. Poesia são sonos que vou dormir com o tempo que me resta até ser hoje. É poesia chegar ao fim do copo às vezes sem beber uma única palavra. Acrescentar mais uma hora à eternidade e entornar à tona da tua boca todos os desejos que sorvo quando não escrevo por ser de silêncio o tempo que te basta para ser feliz. São poesia corpos de água que peço ao céu para te embriagar com doses de esquecimento. São poesia sons que me ensurdecem pela garganta abaixo. Arcos de quem flecha uma janela no meio dum coração em pé de aços. Aguarelas de chuva que se fazem eco caindo em catadupa de duas gotas.

São poesia dardos em direcção ao oeste este incêndio à flor da pele este barco estes remos contra a maré estas asas este voo enevoado estes dedos de beliscar as estrelas depois das palavras. São poesia céus para voar transformados em obstáculo. Pontos cardeais que não chegam a nenhum poente. Caminhos de andar desnorteado entre o norte e o luar. Enxadas que descascam a paisagem. Sinais de fumo que nos atravessam em procissão poesia as fracturas de luz e traços de alegria e cores de azul. São de prosa as rosas do vento que nos revela até onde é infinito o sono que vamos levando aos poucos.

São de prosa.

A cama electrodoméstico de fazer metáforas quando a noite se enche de alma. A bússola que não me cura deste jeito imundo de apedrejar as palavras. O almoço que fica mais pequeno quando retiro metade para servir de jantar. O lavatório sujo de manhãs por esfregar. O pão duro matinal fora do alcance dos dentes. Os cigarros que perfumo como incenso. Doesse tudo isso como uma imperceptível bofetada de amor inscrita na face. Sou eu beijo ou inspiração boca a boca ao último verso. És tu a enlouquecer pouco a pouco horas acrescentadas no colo da eternidade. Somos nós corpo a corpo salpicados com um tiro de imaginação em papel de embrulhar sonhos.

Não posso escrever poemas apenas com poesia. Um dia não se cura de uma ferida para a outra e apenas saudade não basta para te esconder da minha ausência.

in ParadoXos

26 comentários:

Carlos Ferreira disse...

Eis um belíssimo exemplo de texto em que a Prosa de confunde com Poesia.
Metáforas que velam o pensamento como diáfanos véus a cobrir a nudez das palavras cruas.
Poesia sim !. ".. chegar ao fim do copo ... sem beber uma única palavra”.
Parabéns ao autor. E, sobretudo, parabéns à Olília, por partilhar connosco estes preciosos momentos de Poesia feita Prosa.

Anónimo disse...

Mais uma das excelentes escolhas que a autora deste blogue há anos nos oferece.Parabéns. Gostei muito.
Um Abraço do
Daniel Fonseca

Sónia Costa Campos disse...

Olá, bonitos textos, parabéns.

Criei um grupo no Facebook para juntarmos e divulgarmos todos os poetas portugueses, chamei-lhe Clube dos Poetas Loucos, preciso de ajuda para a divulgação: http://www.facebook.com/group.php?gid=10150099732075121&ref=mf

Obrigada,
Sónia Costa Campos

Anónimo disse...

Por via dum amigo aqui vim parar e apreciei este elaborado trabalho e a dedicação à poesia portuguesa. Estão de parabéns os autores do blogue e os poetas aqui inscritos.
Santiago Lacerda

Moon_T disse...

andava a vaguear pela blogosfera e deparei-me com este "manifesto de poesia". gostei. gostei ao ponto de cá voltar a fim de explorar os tantos outros que por aí andam e partilham este gosto pelas letras.


obrigado.



ps. fica, obviamente, o convite a visitar o meu canto ("Gritos").

Ana Tapadas disse...

Excelente prosa poética1
bj

Nicotina Magazine disse...

A Nicotina Magazine e a Nicotina Editores estão a preparar o lançamento de um nova antologia de poesia contemporânea portuguesa, de nome «poetas sem medo». Os interessados podem consultar aqui o regulamento de inscrição, enviando por mail os seus poemas. As inscrições estão abertas durante os próximos meses. Esta iniciativa visa ajudar a Fundação Santo António Maria Claret, uma fundação com um papel fundamental no apoio à infância, 3.ª idade, e cidadãos portadores de deficiência.

http://nicotinamagazine.net/noticias.php?id=52

rouxinol de Bernardim disse...

Uma meditação poetizante capaz de nos fazer meditar um pouco sobre o universo multifacetado da poesia...

É de facto assim memso.-

Afranio do Amaral disse...

`


Amar a poesia não é possível,
como não o é deixa-la da amar.

Está-se dentro dela sem entrar
e uma vez ali, nunca se sai.


`

Eduardo Leal disse...

Olá!

Passei por aqui para sugerir que me visites para poderes ficar a par do lançamento do meu livro "como um rio".
É já no dia 20, no Porto e no dia 28 em Lisboa.

Conto com todos!

Victor Colonna disse...

Olá, segue aí um poema do meu livro "CAbeça, tronco e versos". Quem quiser entrar em contato é só acessar meu blog. Abraços!!

ANTI-ÍCARO (VICTOR COLONNA)


Não sei se foi vôo
Ou queda.

O abismo me encontrou
Quando pus os pés no chão.

Não desejei estrelas
Nem derreti as asas
Ao procurar o sol.

Caí sem ter subido aos céus

Imagem e Poesia disse...

Amo poesia, amo música e imagens bonitas e tudo isso encontrei aqui, mais uma vez!
Adoro este teu sitio.
Beijinhos
Ceiça

ZezinhoMota disse...

Para mim será uma "Reflexão à Poesia".
Afinal, nada me admira na amiga. Por que a "A Alma de Poetisa é e será até ao fim".

Bjnhs da minha admiração por si.

ZezinhoMota

"A Poesia do Zezinho - http://zezinhomota.blogspot.com"

R&C disse...

Gostei muito, parabens pelo blog.

Mar Arável disse...

Boa memória

Marina disse...

Lindo lindo adorei

Geraldo Brito (Dado) disse...

Forte e ao mesmo texto viceral e bonito.

Nuno Hipólito disse...

Boa tarde, queria só informar que o meu site "O Major Reformado" (http://omj.no.sapo.pt) mudou de endereço para http://www.umfernandopessoa.com e agora chama-se "Um Fernando Pessoa".

Pedia o favor de mudar os links que tem no seu blog para o meu site.

Obrigado,
Nuno.

Isabel-F. disse...

Adorei.
É soberbo este texto.

obrigada pela partilha.

bjs

###a.l.#### disse...

Poesia e Evolução Humana
Ensaio sobre a importância da poesia para a humanidade
Autor: Orácio Felipe
Descrição :
Qual a contribuição da Poesia para a evolução da humanidade? Numa rápida abordagem conversamos com os leitores sobre o significado e importância da poesia para "derreter" as algemas que muitas vezes nos aprisionam. A poesia é também uma manifestação simbólica, que revela o universo do autor mas também influi no universo do leitor, proporcionando uma expansão da consciência. Em muitos casos leva até a revolução. Listando algumas poesias e músicas evidenciamos momentos onde a evolução cultural beirou a revolução e libertou. Quiçá pudéssemos alimentar nossos educandos com boa literatura desde tenra idade.

www.clubedosautores.com.br

Å®t Øf £övë disse...

MM,
Está aqui um texto em que juntando as palavras conseguimos sentir a poesia em prosa.
Bjs.

Rúben Nogueira disse...

Excelentes textos, e uma iniciativa louvável! Tenho pena de ter encontrado este blog apenas hoje. De qualquer das formas, muitos parabéns (:

Segue em baixo o meu blog com alguns textinhos, quem quiser pode consultar (: É óptimo ter opinião de diferentes pessoas, e como tal, são sempre bem vindos !

http://folhasdepapeldoirado.blogspot.com

Resto de um bom dia,

Rúben Nogueira

MalDragon disse...

Ah, que belo espaço este! Só lendo este pequeno pedaço já fiquei convencida, irei cá voltar...

Sou apenas mais uma pessoa a dar uma pequena contribuição para a poesia portuguesa...
http://www.rasgosdapena.blogspot.com/

MalDragon

Rúben Nogueira disse...

Excelente texto, realmente muito bom! Deixo o convite a quem quiser passar pelo meu blog e dar uma opinião (:

http://folhasdepapeldoirado.blogspot.com

obrigado a todos !

Rúben N

Valdecy Alves disse...

Amigos poetas blogueiros, parabéns por utilizarem a internet como forma de dividir com o mundo o seu pensar, o seu compreender, desempenhando a missão do poeta que é se afirmar como ser humano, sobretudo perante si mesmo, captar os arquétipos coletivos de sua época e princípios universais, permitindo após compreender-se ou não compreender-se, que pela sua obra os da sua época tenham referência alternativa para fazer a leitura do mundo e as gerações posteriores entenderem a própria história da humanidade. Tudo temperado pelo sonho, pela sensibilidade e pela utopia. PASSOU A ÉPOCA DE ESCREVERMOS E GUARDAR NA GAVETA NOSSAS CRIAÇÕES DEPOIS DOS MAIS PRÓXIMOS FINGIREM TER LIDO PARA NOS AGRADAR. Através do meu blog quero aprensentar-lhes a video-poesia, que usa várias linguagens de uma só feita, a serviço do texto. Se gostar divulgue e compartilhe com os seus contatos. Acessar em:

www.valdecyalves.blogspot.com

Jaques de la Morte disse...

antes de mais, quero dar os parabens aos autores deste blogue pelo excelente trabalho, em segundo lugar quero apresentar-me como "aspirante a poeta".
desde cedo que escrevo poesia, embora nunca tenha mostrado os resultados a ninguem. parei por algum tempo e recomecei há semana.
gostaria de expor o meu trabalho, mas nao sei bem como, como tal gostaria de saber se poderia expor alguns poemas neste blogue.
se eventualmente esta hipotese se puser espero resposta no email:homemdamorgue@gmail.com