Esgota-se o tempo

Pintura de Vladimir Kush
já não há tempo para que a poesia se dê ao luxo
de passear nos bosques encantados e nos egos poluídos
dos intelectuais de escrivaninha.
já não há tempo para que os versos se ostentem,
bem rimados, construídos, bem ritmados, bonitos,
nos corações vazios da burguesia.
é urgente que as palavras ganhem o peso das pedras,
se revoltem com os que vivem sem poesia e sem pão.
não há tempo para brincar aos poetas, ao depressivo snob en vogue.
só nos resta tempo para que se não nos acabe o tempo,
para que gritemos ainda que não abdicámos do futuro,
com propriedade, ou mesmo sem.
Poema de Miguel Tiago

10 Comentários:
Às 29 Outubro, 2011 23:16 ,
Domingos da Mota disse...
(...)//
Poetas, abaixo a rima
(se ela for a prisão
onde o poema definha).
Estou farto da poesia
«que não é libertação».
Gostei do poema, e do «peso das pedras».
Às 30 Outubro, 2011 00:26 ,
Vera disse...
Um poemas com versos para reflectir sobre a própria poesia!
Às 02 Novembro, 2011 14:41 ,
tretas disse...
Já não há tempo...há! o tempo da incerteza ,da inquietude, do desamor, da desordem ,desumanidade da avaresa, há tempo e sem limite, sempre haverá para a raça humana manifestar toda a sua brutalidade.
Tretas
Às 02 Novembro, 2011 15:04 ,
xinola disse...
Ainda não te conhecia em "poesia"! :) Gostei!
Às 02 Novembro, 2011 15:35 ,
Jaime A. disse...
A poesia em (re)definição.
Gostei muito da força, da expressão.
Às 02 Novembro, 2011 17:01 ,
Peter disse...
Gostei do final. Este blogue consta dos n/links:
conversas.xaxa@gmail.com
Peter e bluegift
Às 03 Novembro, 2011 20:08 ,
tecas disse...
Belo poema para refletir. Haverá sempre tempo para a poesia. A imagem é deliciosa. Bjito amigo e uma flor.
Às 03 Novembro, 2011 20:31 ,
Fanzine Episódio Cultural disse...
Os filhos de Abraão
Os gritos ainda ecoam
Em cada canto, em cada trincheira,
Em todos os túmulos.
Restos mortais exibidos
Como souvenires
Enchem de orgulho
O primitivo estágio ariano.
O sangue do cordeiro
Continua a jorrar
No solo árido.
Até que ponto a Bestialidade
Deixará de existir em um mundo
Que se deseja mais humano!
Crente ou ateu
Incrédulo ou cético,
Auschwitz continua vivo em nossa memória:
Um pesadelo que brotou
E nunca mais se apagou.
Inocentes ali pereceram,
Sobreviventes dali morreram,
Levaram todos para o túmulo
O sacrifício dos filhos de Abraão.
*Do livro (O Anjo e a Tempestade) de Agamenon Troyan
Às 05 Novembro, 2011 19:13 ,
© Piedade Araújo Sol disse...
acho que tem que sobrar tempo para as coisas que nos dão prazer.
no meu caso pessoal terei sempre tempo para a poesia, e mesmo que se diga que ela é inútil eu gosto da sua inutilidade,
um poema um pouco forte.
Às 05 Novembro, 2011 23:38 ,
Maria João Brito de Sousa disse...
Um bom poema! Gostei, embora quase possa garantir que a rima sempre aproximou o povo da poesia... e a poesia do povo.
Parabéns, Miguel Tiago.
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