quinta-feira, janeiro 26, 2012

“O Despertar dos Verbos”

Algures no tempo e através das habituais viagens pela blogosfera descobri o Alien8 em Título Qualquer Serve que originou que a sua Petição Inicial fosse o poema escolhido para aqui ser partilhado.

Alien8”, bloguista; Mário Domingos, advogado e poeta; em Dezembro último publicou o seu primeiro livro de poemas “O Despertar dos Verbos”.



Mário Domingos



À procura das palavras

I
Subi então até à raiz do poema
e aí encontrei uma flor petrificada.
Olhei em volta, à procura das palavras
que pudesse comprar a minha sede:
- Era um deserto de nervos
Com margens de sangue
A paisagem na raiz do poema - eu.
Murmurei vagamente uma oração antiga
E quase me desfiz em pó de tanto olhar
E me arder a vista atroz, incendiada, no crepúsculo
inigualável. Silêncio e mais silêncio.

II
A água corria, corria por entre as pedras,
levava no corpo destroços de cidades,
laranjas esquecidas na penumbra,
raparigas ironicamente vestidas, vestidas de verde,
raparigas-água impressionantes, sorridentes.
A água corria e era muita e era bela. Levava
A palavra procurada, a palavra do poema
algures no corpo, recatada e mansa, talvez adormecida.
Eu sabia apenas que entretanto amanhecera.

III
Tenho sede. Ergo-me de repente e abandono
o amável leito de todos os dias. Veloz como
o navio que sabe seguro o porto, ganho
o espaço ritual que me separa de mim.
Tenho sede. O meu pulso é algo de concreto e latejante,
assim me sinto e reconheço, à procura das palavras
na raíz incandescente do poema - eu.
São de pedra as cidades, são enormes e movem-se
no ritmo lógico em torno dos meus ombros.
A flor petrificada olha-me heroicamente, meigamente,
o seu espanto é de carne rigorosa. Tem cinco pétalas
azuis emocionadas, inscritas pouco a pouco nos meus olhos
maravilhosos de ironia, incrivelmente densos.

Poema de
Mário Domingos


Porque os Poetas não morrem ficarão para sempre as tuas palavras gravadas no Universo.

Até sempre, Alien8. Até sempre, Mário Domingos.
R.I.P.

sexta-feira, janeiro 20, 2012

Rui Costa (1972 - 2012)

"Rui Filipe Morais Aguiar da Costa, de 39 anos, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de advogado durante seis anos em Lisboa e Londres, concluiu um mestrado em Saúde Pública em Leeds, residia há dois anos no Brasil e morreu durante a sua recente estada no Porto para as festas do Natal e passagem de ano com a família.

Era considerado um dos mais inovadores e promissores autores da nova literatura portuguesa.

Com "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", que publicou em 2005 nas Quasi Edições, ganhou o Prémio de Poesia Daniel Faria e, em 2007, recebeu o Prémio Albufeira de Literatura pelo romance "A Resistência dos Materiais".

Também em 2007, traduziu o livro de poesia "Só Mais Uma Vez", do poeta espanhol Uberto Stabile, para a coleção Palavra Ibérica, e em 2008 traduziu "Quarto Com Ilhas", do poeta espanhol Manuel Moya, para a mesma coleção, na qual publicou, em 2009, "O Pequeno-Almoço de Carla Bruni".

No mesmo ano, lançou ainda "As Limitações do Amor São Infinitas", pela editora Sombra do Amor.

Co-organizou a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa (Exodus, 2008) e colaborou em diversas publicações, como "Poema Poema -- Antologia de Poesia Portuguesa Actual (Huelva, 2006); "A Sophia" -- Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2007); "Um Poema para Fiama" (Labirinto, 2007); "Sulscrito" -- Revista de Literatura; Revista Big Ode e Revista Piolho nº 2.

Em 2010, estava a trabalhar numa tese de doutoramento em Ciências da Saúde sobre o discurso e experiências de transformação do sector da saúde em Portugal e no Brasil
."
(Fonte)


Rui Costa


Elegia Azul

Clara, como talvez tu antes da última esquina da noite,
uma imagem redonda colava-se aos meus dedos por entre
as folhas de papel que lentamente ardiam. Foram sempre
mais as páginas que juntei do que aquelas de que pude
separar-me, naquele T1 pequeno com vista para Monsanto
e para o teu corpo sempre azul.
Infelizmente, não fora capaz de preparar
o silêncio que sempre se segue a tudo o que
não somos, dirias tu, o rumor de instantes que nos apanha
na canga e nos sugere o vale sem luzes e a varanda grande.
Parado sei que isso é poesia, um sonho, pequenas alucinações
de primavera sem apelo no fundo destas veias e sei também
que continuas a existir e vais ser minha muitas vezes,
como eu quero ser teu intermitentemente em cada lua nossa.
Mas tu sabes como os astros nos pregam partidas ao telefone,
como em certos dias a pique para o sol embatem nas antenas,
e este ligeiro pesadelo é apenas o desconforto baço de saber
que há coisas demasiado belas para não serem tristes.


Poema de
Rui Costa in "Os Dias do Amor", selecção de Inês Ramos, pág. 370

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Em dia de aniversário de nascimento... recordar Eugénio de Andrade

José Fontinhas Rato nasceu na Póvoa de Atalaia em 19 de Janeiro de 1923 tendo falecido no Porto em 13 de Junho de 2005 e foi conhecido no mundo cultural como Eugénio de Andrade




Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Poema de
Eugénio de Andrade

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Atribuição do prémio Dezembro/2011...

O público comentarista escolheu, com dezanove (19) comentários registados o poema "as coisas elementares " de António José Cravo terminando com esta atribuição o passatempo que esteve disponível desde Outubro passado.

A gravação em vídeo efectuada pelo Sons da Escrita e voz de José-António Moreira está disponível no Youtube.



(Desligar a música de fundo para ouvir o vídeo, p.f.)


O Poesia Portuguesa agradece a todos os que tornaram possível o “passatempo do poema mais comentado” em especial ao Sons da Escrita pelo trabalho realizado na produção dos vídeos dos poemas premiados e ao José-António Moreira por ter dado voz aos mesmos.