sexta-feira, janeiro 20, 2012

Rui Costa (1972 - 2012)

"Rui Filipe Morais Aguiar da Costa, de 39 anos, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerceu a profissão de advogado durante seis anos em Lisboa e Londres, concluiu um mestrado em Saúde Pública em Leeds, residia há dois anos no Brasil e morreu durante a sua recente estada no Porto para as festas do Natal e passagem de ano com a família.

Era considerado um dos mais inovadores e promissores autores da nova literatura portuguesa.

Com "A Nuvem Prateada das Pessoas Graves", que publicou em 2005 nas Quasi Edições, ganhou o Prémio de Poesia Daniel Faria e, em 2007, recebeu o Prémio Albufeira de Literatura pelo romance "A Resistência dos Materiais".

Também em 2007, traduziu o livro de poesia "Só Mais Uma Vez", do poeta espanhol Uberto Stabile, para a coleção Palavra Ibérica, e em 2008 traduziu "Quarto Com Ilhas", do poeta espanhol Manuel Moya, para a mesma coleção, na qual publicou, em 2009, "O Pequeno-Almoço de Carla Bruni".

No mesmo ano, lançou ainda "As Limitações do Amor São Infinitas", pela editora Sombra do Amor.

Co-organizou a Primeira Antologia de Microficção Portuguesa (Exodus, 2008) e colaborou em diversas publicações, como "Poema Poema -- Antologia de Poesia Portuguesa Actual (Huelva, 2006); "A Sophia" -- Homenagem a Sophia de Mello Breyner Andresen (Caminho, 2007); "Um Poema para Fiama" (Labirinto, 2007); "Sulscrito" -- Revista de Literatura; Revista Big Ode e Revista Piolho nº 2.

Em 2010, estava a trabalhar numa tese de doutoramento em Ciências da Saúde sobre o discurso e experiências de transformação do sector da saúde em Portugal e no Brasil
."
(Fonte)


Rui Costa


Elegia Azul

Clara, como talvez tu antes da última esquina da noite,
uma imagem redonda colava-se aos meus dedos por entre
as folhas de papel que lentamente ardiam. Foram sempre
mais as páginas que juntei do que aquelas de que pude
separar-me, naquele T1 pequeno com vista para Monsanto
e para o teu corpo sempre azul.
Infelizmente, não fora capaz de preparar
o silêncio que sempre se segue a tudo o que
não somos, dirias tu, o rumor de instantes que nos apanha
na canga e nos sugere o vale sem luzes e a varanda grande.
Parado sei que isso é poesia, um sonho, pequenas alucinações
de primavera sem apelo no fundo destas veias e sei também
que continuas a existir e vais ser minha muitas vezes,
como eu quero ser teu intermitentemente em cada lua nossa.
Mas tu sabes como os astros nos pregam partidas ao telefone,
como em certos dias a pique para o sol embatem nas antenas,
e este ligeiro pesadelo é apenas o desconforto baço de saber
que há coisas demasiado belas para não serem tristes.


Poema de
Rui Costa in "Os Dias do Amor", selecção de Inês Ramos, pág. 370

6 comentários:

Eduardo Aleixo disse...

Sentida homenagem a um valor poético ceifado desta vida tão cedo, homenagem a que me junto.

Canto da Boca disse...

Que triste, não é?

:(

elvira carvalho disse...

Obrigada Otília por esta partilha que me trouxe um autor do qual eu me penitencio pela minha ignorância, mas desconhecia completamente.
Um abraço e bom fim de semana

Isabel Branco disse...

A minha humilde homenagem ao poeta Rui Costa no Programa DIZER POESIA:

http://soundcloud.com/misabelbranco/76-programa-rui-costa-dizer

Poesia Portuguesa disse...

Muito grata, Isabel Branco pelos programas de homenagem a Rui Costa e Mário Domingos, que poderão ser ouvidos aqui:
http://www.rtp.pt/multimediahtml/audio/dizer-poesia/2012-03-06/108700

Um grande Abraço

Elizabeth Artmann disse...

Rui, que teus versos ecoem aqui e além. Que o útero do universo te acolha na origem do Verbo e aquém.
Teus passos aqui grafados
continuarão e as saudades
marcam com força, tua passagem
por aqui no Rio, no Brasil.
Foi um privilégio conhecer-te
Poeta português, e almoçar e
conversar, trocar idéias
E discutir um texto, uma
inacabada, mas que deixou uma semente de diálogo aberta à reflexão.
Elizabeth Artmann,
Pesquisadora da ENSP
Orientadora de doutorado de Rui Costa