sexta-feira, junho 15, 2012

Poemas Escolhidos - Graça Pires

Vicente Romero Redondo


As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afectivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.

Graça Pires in, Poemas Escolhidos 1990-2011, pág. 57

4 comentários:

Rita Freitas disse...

Lindíssimo!!!

Bjs

Mar Arável disse...

A nossa Graça

Anónimo disse...

Excelente e otima escolha.
Estão de parabens pela página fantastica que têm aqui.
Adoro essa grande senhora que é a D. Graça Pires
Dina Moreira

Monte Cristo disse...

O dilúvio aí está! De mágoas e medos, de grilhetas e látegos invisíveis. Uma nova forma de holocausto.

Um dia, os poemas serão proibidos, caso questionem (ponham em causa) o PODER.

Não te cales!