quarta-feira, julho 11, 2012

Escrevo com as mãos nuas



Escrevo com as mãos nuas
sobre esta folha de papel sem fundo.
Sobre este musgo gélido onde escrevo
nem sequer existe o rumor da folhagem.
As palavras continuam assustadas
como um arbusto que não pára de tremer…

Escrevo com as mãos nuas.
A nudez permite a transparência das sílabas,
o decantar das sombras na escadaria da noite,
a penetração no obscuro, a revelação do invisível.
No olhar encandeado, há candelabros acesos
como um espelho polvilhado de estrelas.
O corpo deseja-se, invade a noite de seduções…

Mas não conseguirei nunca alcançar a luz
que pela primeira vez sagrou nossas pupilas:
gélido, será sempre o longe que nos afasta das estrelas.

Albino Santos in “A Evocação do Teu Nome”, a págs. 53