sexta-feira, maio 15, 2015

Num Campo de Papoilas



Nem sempre

Nem sempre a noite é clara
deixando perceptível
o encarnado vivo das papoilas.
nem sempre
a voz dos pássaros entoa cânticos
onde o silêncio ainda se consome
e a luz lunar prateia os campos,
e das estrelas saem purpurinas azuis ,
e a espuma das ondas salga a areia fina
onde deixamos marcados os nossos pés.
e os nossos corpos.

Nem sempre

Nem sempre da janela do meu quarto,
consigo ver a velha árvore
a suplicar-me que se faça mutismo,
a implorar-me o amainar dos ventos
para que, entre as minhas margens
se contenham as águas.
Sim as águas.
onde vagueiam hastes perdidas,
onde derretem fogos
ainda por extinguir, no rescaldo dos anos.

Mas hoje,

somente hoje,
e, desculpem-me a ousadia:

Faça-se silêncio!

O ruído é-me nefasto ao gesto,
e os dedos contorcem-se
enquanto o pensamento vagueia
entre as sete colinas desse campo
coberto de vermelho vivo,
tal e qual um manto de papoilas,
a afirmarem-se vida,
e a vidraça que nos separa.

Porque hoje,

somente hoje,
da janela do meu quarto,
quero ignorar a ponte secular
que desaba em ruínas,
quero enfeitar a velha árvore
com estilhaços luminosos
de bolas de sabão,
quero agigantar-me e,
extrapolar-me para além do corpo,
ou da pele,
ignorar as margens,
e quem sabe,
tornar-me ilha,
no cimo de uma montanha.

Somente hoje,
deixem-me pintar de azul - as papoilas -
e apagar tudo o mais, que for dissoluto.

Quer ao gesto. Quer ao pensamento. 

Pintura de Alexander Dolgikh

4 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

um belíssimo poema da Cristina Cebola, aliás como são todos os que ela escreve.
uma boa escolha da PP
parabéns
beijinhos
:)

Cristina Cebola disse...

A minha enorme gratidão, pela divulgação do meu poema, e pelo apreço demonstrado pelos meus desabafos...

Abraço amigo e sinta-se sempre à vontade. A poesia é de todos.

Graça Pires disse...

Mais um belíssimo poema de Cristina Cebola, a mostrar a grande poeta que é.
Obrigada, MM por a divulgar aqui.
Beijo.

Manuel Pintor disse...

nem sempre são claras as cores
num campo de papoilas
quiçá azuis no silêncio do gesto
quão vivas no pensamento