sábado, novembro 05, 2005

Vade retro



Gostava de falar sobre um rio
Mas só o sei descrever revolto e agitado.
Gostava de escrever sobre as nuvens
Mas só as digo quando cinzentas
Carregadas de tempestade.
Gostava de encantar com a beleza das flores
Mas as que gosto
Não estão expostas em montras de floristas
Nascem selvagens rasgando rochas áridas, infecundas.
O azul transparente do rio
A leveza da nuvem/algodão que flutua
A beleza da flor domada
Deixo para os outros
Que falam disso bem melhor que eu.
Eu dou o outro lado
O rio revolto, a nuvem carregada
A flor única, a rocha infecunda.
Exorcizo-me em tentativas de poemas
Construo espanta-espíritos de palavras
Desnudo-me em frases incompletas
Poemas pequenos de pessoa pequena.
Não sei fazer rendilhados de palavras
Tecer poemas perfeitos
Usar figuras de estilo
Metáforas, métrica e rima.
O que sei é isto
Fazer das palavras um "vade retro"
Ousadia, provocação, amor, luta
E acabar assim cansada
Vazia, desfeita
Como se tivesse sido desbravada
Vencido uma batalha
Ou acabado de fazer amor.

Poema da Encandescente in Erotismo na Cidade
Com a devida autorização
(Foi editado o Livro de Poemas - "Encandescente"
Mais informações no Blog da
Autora)

quarta-feira, novembro 02, 2005

A palavra



Eu disse a palavra é uma arma
Que explode quando queremos
E quando a soubermos empunhar
Basta o momento e lugar certo
Eu escrevo e as palavras
São a minha parceria
Infiltradas nas folhas em que eu garatujo
Fieis e leais à espera de serem
Preenchidas com letras perfeitas

Eu disse a palavra transforma
A outra guerra que gera a paz
Que procuramos dentro de nós
Com ímpeto e exultação
E nem sempre conseguimos
As palavras podem sair
Assim lascadas
Em mil excertos
E se as soubermos usar
Com elas faremos um poema

Eu disse
As palavras são uma arma
E ninguém entendeu
E eu quis fazer uma
Arma das palavras
Que escrevi
Como se elas fossem rosas brancas
Que nasceram roseiral
Da minha idealidade

Eu disse...

Poema de Piedade Araújo Sol em olhares em tons de maresia

sábado, outubro 29, 2005

Da nova estação agora sei

Desta forma dou os Parabéns ao AQUI pelo seu primeiro Aniversário...



Sim, agora sei
que no deserto também nascem flores.

Árida paisagem em que pousaram
corpos sem sombra, e passaram
cegos seguiam na cegues da contenda de honrarias.

Agora pernoitam nos muros.

E no deserto crescem as flores que vou colhendo
para ti e para ti



Poema de Maria do Céu Costa - AQUI

terça-feira, outubro 25, 2005

Dialogando




Vêde as horas, minha mãe
Tarde se faz, tenho d'ir
Tanto caminho a percorrer
Tantas letras para ler
Tenho mesmo que partir

Pressa? P'ra quê? O mar não sai do lugar
Brisa amena sopra, o sol continua a brilhar

Inclemente, nos dedos desliza a vida
Alteram-se marés e correntes
Rodopia o astro rei nos horizontes
Lâminas de fogo lançando
Lembrando
A mudança já sentida

As cores do arco-íris? A ternura dum sorriso?
Os sonhos do poeta? O voo no tempo contigo?

Minha mãe, assim eu corro...
As pontas d'ilusões, sonhos, agarro
Com toda a força restante
Num silêncio inquietante...
O cru voo do tempo seguro
Num meigo sorriso brilhante
Do poeta adormecido



Poema "Dialogando" da Amita 
in,  Branco e Preto II



Imagem Google

sexta-feira, outubro 21, 2005

Ainda haverá tempo para um hino?


Imagem daqui


terra de mortalhas
de canalhas
e do gume alucinado das navalhas cruentas dos interesses simulados
pasmo de ódios e de invejas
e dos cínicos pecados que se lavam na água benta e pia das igrejas

e depois da inveja a indiferença
temperada por ganâncias
cobardias
e a terra que nos morre em agonias

arde-nos esta terra
esta mágoa
(e que bem aqui ficavam uns olhinhos rasos de água…
mas o olhar seco de miragens só pelo fumo se destrambelha de lágrimas)

arde a cidade e a aldeia
arde a terra e a vontade
arde o verde de uma ideia
arde o Sol e o luar
há esta ardência no ar que pega até fogo à morte
que lança até fogo ao mar

fica uma raiva no peito
punho cerrado
escorreito
sem saber como gritar

arde nos olhos a urgência de trilhar outro destino
de sarar as cicatrizes que nos cruzam as raízes
deste solo amortalhado

toque-se a rebate o sino
a inventar outro hino só de esperança e de vontade
que num rasgo de ousadia rasgue os muros
rompa os ares
traga nova liberdade.

Poema de OrCa - Jorge Castro



(Lançamento do Livro de Poemas - "Contra a Corrente - poemas que eu digo" de Jorge Costa, no próximo dia 19 de Novembro de 2005 .
Mais informações em
Blog Sete Mares)

terça-feira, outubro 18, 2005

Mulher. Feminino singular


Ao dar início a este Blog, foi minha intenção valorizar os autores Portugueses por vezes tão mal amados por aqueles que falam a sua língua.
Mas, como estamos num mundo virtual, onde a Poesia corre como água num rio limpo e transparente, resolvi iniciar um ciclo de Poesias de autores de Blog’s, que pela sua qualidade e sensibilidade, me maravilham.


 A todos o meu muito Obrigada...




Hoje, quero dizer de ser mulher. Mulher, feminino singular.
Não filha de pai e mãe, menina preservada, protegida.
Não mulher de alguém, esposa amada, respeitada, com lugar certo na sociedade certa.
Não mãe de filhos(as), desvelada, dedicada, desfeita em preocupação e orgulho.

Mulher por si. Mulher em género e corpo.
Mulher que se (re)conhece ao olhar outra mulher.
Que aprende cedo a conviver com a dor física.
Que quando o desaprende, convive com outras dores.
Que tira da vida o que quer, sabendo muros que se levantam e que contorna ou derruba.
Que luta com outros seres humanos (de qualquer género) pelas suas convicções.
Que sabe da solidão. Da tristeza. Da procura do consolo.
Que pelas mãos e pela palavra conforta quem dela se abeira.
Que aprende o seu corpo como seu. Não de outrem.
Que sabe do desejo. Que o aceita.
Que sabe do prazer. Que o procura.
Que sabe do amor. Que o dá, sem limites, eterno e renovado em cada dádiva.



Poema "Mulher. Feminino singular"
da Lique

segunda-feira, outubro 17, 2005

Quando





Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente


Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, outubro 15, 2005

Revelação


Imagem Isabel Filipe daqui


Tinha quarenta e cinco... e eu, dezasseis...
Na minha fronte, indómitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.

Contavam dela: — Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco... e eu, dezasseis...
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!

Pela última vez foste mulher...
E eu, pela vez primeira, fui um homem!



(Pedro Homem de Mello in “Revelação”, Grande, Grande era a Cidade)

quarta-feira, outubro 12, 2005

Se só no ver puramente...


Glosa a mote alheio


"Vejo-a na alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo."





Se só no ver puramente

Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
"Vejo-a na alma pintada."
O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
"Quando me pede o desejo."

Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
"O natural que não vejo."



Poema de Luís de Camões

quarta-feira, outubro 05, 2005

Trova do Vento que Passa


Imagem de Norberto Martini



Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

(Poema de Manuel Alegre)




 dedicado ao Luís Oliveira -

terça-feira, outubro 04, 2005

Tenho amor, sem ter amores.



Tenho amor, sem ter amores.


Este mal que não tem cura,
Este bem que me arrebata,
Este rigor que me mata,
Esta entendida loucura
É mal e é bem que me apura;
Se equivocando os rigores
Da fortuna aos desfavores,
É remédio em caso tal
Dar por resposta ao meu mal:
Tenho amor, sem ter amores.

É fogo, é incêndio, é raio,
Este, que em penosa calma,
Sendo do meu peito alma,
De minha vida é desmaio:
E pois em moral ensaio
Da dor padeço os rigores,
Pergunta em tristes clamores
A causa minha aflição,
Respondeu o coração:
Tenho amor, sem ter amores.


(Poema de Soror Madalena da Glória (1672-?)
Antologia de Poesia Portuguesa
Publicações D. Quixote)

segunda-feira, outubro 03, 2005

Nada Se Pode Comparar Contigo

Imagem daqui



O ledo passarinho que gorjeia
Da alma exprimindo a cândida ternura
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia:

O sol, que o céu diáfano passeia;
A lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da aurora alegre e pura.
A rosa, que entre os zéfiros ondeia;

A serena, amorosa primavera,
O doce autor das glórias que consigo,
A deusa das paixões, e de Citera:

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera,
Nada se pode comparar contigo.



(Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage)

domingo, outubro 02, 2005

invisibilidades


Imagem daqui

Mastiguei um pedaço de luz
e
desenhei,
por inteiro, o Vazio
e
a nudez de um Rio, como se a memória adormecesse sem pesadelos, nem muros-caiados-de-silêncios…
Só as sombras eram brancas, frias, (des)luadas na noite que me dormia…
Despenteadas…
Bailarinas invisíveis,
que me consomem vampiras, o sentir e o Ver...


Poema de Almaro

sábado, outubro 01, 2005

Soneto imperfeito da caminhada perfeita


Imagem de Valverde Arte Visual


Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas,
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
- O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.

Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.


(Sidónio Muralha
Poeta: 1920 - 1982 in "A Argamassa dos Poemas")

sexta-feira, setembro 30, 2005

Natália Correia

Imagem daqui


Com a paixão desconcerta o pensamento
E ama. É fisica a profundidade.
Inspira Vénus o desejo ardente
Para nos mover à ultima ansiedade.

Num ser univoco o amor enleia
Os corpos nus. Na área da magia
Rompe a brancura; e cresce, ao tempo alheia,
A onda do prazer, causa da vida.

Segura no infinito a carne aberta
Atrai o sangue que corre para a verdade
Procurando na joia mais secreta
Do corpo a inicial da eternidade.

Um sol em agonia a tarde gera
E vai o espasmo ao mais fundo da alma
Buscar o grito casto que se enterra
Na terra femea e faz cair a mascara

Langues e lividas esfolham-se então nos corpos
estrelas caidas no trono da loucura.
O sangue enrosca-se e faz sair dos poros
Um fumo de almas que mastigam nuvens.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Uma pausa, não de plumas, mas elástica

Imagem daqui

1

Uma pausa, não de plumas, mas elástica,
que demorasse em si a paz ardente
e o ardor profundo de uma alta instância.
Que fosse o esquecimento na folhagem
e a espessa transparência da matéria.
O pulso pronunciaria a amplitude
do instante inocente. A obra acender-se-ia
na inteligência dos signos mais aéreos.

2

A inadvertência pode ser um prelúdio carnal
na volúvel leitura de quem adormeceu.
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre.
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se
na insolência branda de umas ruínas perfeitas.
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro.
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula.
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma.
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo.
É a abundâcia da origem e o seu orvalho azul.
São as armas vegetais sobre as janelas da terra.
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas.

3

Na justa monotonia do meio-dia
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida.
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente.
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência
de um denso torso que a nostalgia acende.
No silêncio sinto numa só cadência
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros.
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.

(Poema de António Ramos Rosa)

quarta-feira, setembro 28, 2005

Gota de água


Imagem daqui


Eu, quando choro,
não choro eu.
Chora aquilo que nos homens
em todo o tempo sofreu.
as lágrimas são minhas
mas o choro não é meu.

(Poema de António Gedeão)

terça-feira, setembro 27, 2005

A Arte Poética

Imagem daqui


A poesia do abstracto...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor...
Uma ideia
Só como sangue de problemas;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura;
Perde -
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

(Poema de Vitorino Nemésio)

segunda-feira, setembro 26, 2005

Eugénio de Andrade

Imagem daqui

Eugénio de Andrade (José Fontinhas (nome verdadeiro de Eugénio de Andrade) nasceu a 19 de Janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa ). Poeta e tradutor. Publicou mais de duas dezenas de livros entre os quais "As Mãos e os Frutos" (1948), "Rente ao Dizer" (1992), e "Os Sulcos da Sede" (2001). Faleceu em Junho de 2005. Entre a sua vasta poesia, escolhi esta...


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

domingo, setembro 25, 2005

Sê tu a palavra, (...o Início...)

Início este Blog com um poema de Eugénio de Andrade falecido em Junho deste ano. 

Esta é a minha homenagem.



Imagem daqui


1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.

7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?


 de. Eugénio de Andrade,