segunda-feira, março 13, 2006

Um Poema para hoje...


Este foi o último livro de Poesias que adquiri.





Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.

Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.



( Manuel Filipe in "Por distracção" )


É também um caminho que percorro na blogosfera… Vinde conhecê-lo aqui

sexta-feira, março 10, 2006

Caixinha de música...

Imagem de autor desconhecido


impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes

em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado

encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro

caixinha de música
dentro
com bailarina que dança




(Poema de Ana Mafalda Leite)

quarta-feira, março 08, 2006

Neste Dia da Mulher...


...dedicado a todas as Mulheres, mas em especial, às Viúvas do Mar…

Imagem de autor desconhecido


No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.

Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.

O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.

Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.

Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.



(Poema "Destino" de Eugénia Tabosa)

domingo, março 05, 2006

Vem por entre desejos floridos...

Imagem de Naoko (Woman with Calla Lilies)



Vem por entre os floridos desejos
que esta meiga Primavera nos anuncia!

Mas traz em tua mão um ramo de giesta em flor!

E diz-me dos barcos perdidos
que levados pelas auras do Sol-Poente
lançaram âncora no doirado mar!

Diz-me da seiva túrgida e generosa
que fecunda e silenciosa corre
pelos braços e pelos sulcos de todas as coisas!

Diz-me do apelante pólen que tudo penetra
e se agita fecundante nas rubras corolas!

Diz-me das amorosas melodias
que os pássaros soltam gementes
quando o sol se abriga em seu palácio de coral!

E diz-me das cinzentas nuvens
onde os pássaros de fogo fazem ninho
e onde se gera a perenidade dos deuses!

De tudo me dirás, quando se abrir
a silenciosa porta que conduz à recolha
dos apelos que gritam pela eternidade!



(José Nuno Pereira Pinto in "O Tempo dos Desejos Floridos")

sexta-feira, março 03, 2006

Asa no espaço...




Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento,
Quero vogar nos braços da Lua!

Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.

Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.

Castelos fluídos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!



(Poema de Fernanda de Castro)


Desconheço a autoria da imagem

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Boneco Desfeito...

Imagem daqui


Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...

Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.

No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.

...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!


(Poema de José Régio)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Hora



Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.



(Poema de Sophia de M B Andresen)


Imagem de autor desconhecido

domingo, fevereiro 19, 2006

Branco e vermelho...

É um pouco longo, mas vale a pena...


Pintura de Alice Candeias

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila).
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fonte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo.
Caem, Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem!
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

(Poema de Camilo Pessanha)

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Primaveras Românticas...




Eu sou a concha das praias
Que anda batida da onda
E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar
No seio... ali adormece
E é ali seu descansar.
Pois sou a concha da praia
Que anda batida da onda...
Sê tu esse seio infante,
Aonde a triste se esconda!

Eu sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto,
Contando por suas dores
As areias do deserto.
Mas se um palmar, no horizonte,
Se vê, súbito, surgir,
Tem ali a tenda e a fonte
E é ali o seu dormir.
Pois sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto...
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda no deserto!

Sou o peito sequioso
E o viúvo coração,
Que em vão chama, em vão procura
Outro peito, seu irmão.
Mas se avista, um dia, a alma
Por quem andou a chamar,
Tem ali ninho e ventura
E é ali o seu amar.
Pois sou quem anda chorando
À procura dum irmão...
Sê tu a alma que me fale,
Inda uma hora ao coração!


(Poema de Antero de Quental )


Imagem enviada por email, de autor desconhecido

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Loas à chuva e ao vento...

As pequenas gotas batiam na janela, embalando o meu sono. Aconcheguei melhor o rosto na almofada e recordei um Poema que em tempos li. 
Deixo-o aqui…


Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Mas cai de mansinho.
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Muito de mansinho
Em meu coração
Já não tenho lenha
Nem tenho carvão...
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Que canto tão frio,
Que canto tão terno,
O canto da água,
O canto do Inverno...
Pingue...
Que triste lamento,
Embora tão terno,
O canto do vento
O canto do Inverno...
Vu...
E os pássaros cantam
E as nuvens levantam.


(Poema de Matilde Rosa Araújo in "O Livro da Tila")


Desconheço a autoria da imagem, a quem souber, agradeço indicação de autor...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Não empregar o nome em vão…

"Ao dar início a este Blog foi minha intenção valorizar os autores Portugueses por vezes tão mal amados por aqueles que falam a sua língua."



Este foi o intróito que escrevi, quando resolvi incluir nas páginas deste blog, poemas e textos de outros blogues, que pela sua força e sensibilidade, achei que os deveria aqui partilhar, sabendo de antemão que não eram escritos por nomes sonantes da nossa Poesia.

Este Blog era um projecto que acarinhava na minha mente, em dar a conhecer Poesia e Poetas de Língua Portuguesa, independentemente de serem conhecidos ou não.


Foi isso que fiz.


Parti à aventura, “navegando” por entre palavras profundas de almas sensíveis, que sem qualquer interesse, ofereciam a quem as lia, toda a profundidade de sabedoria de sentires e afectos, que conquistaram o meu coração.


Por isso, quando li o comentário de um anónimo, que se assina por SA dizendo: - Aproveita para leres Poesia Portuguesa. Não empregues o seu nome em vão.veio-me à memória os Poetas mal-amados, desprezados, humilhados, pela sociedade que os não compreendia (estou a lembrar-me de António Aleixo), mas que anos depois, os elogiam, lhes levanta monumentos e, os trata quase como heróis…


“Não empregues o seu nome em vão” 


Como se pode empregar o nome da Poesia Portuguesa em vão, num local onde a prioridade é dá-la a conhecer?

Não poderia deixar passar este comentário em branco, não por considerar que afecta as minhas escolhas, mas sim os autores que escolhi pela beleza, sensibilidade e força das suas palavras.


É por eles, que aqui estou.


Deixo-vos um poema de alguém, que ainda hoje é tão mal amado por aqueles que falam a sua língua…


Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.



( Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage)


Imagem de autor desconhecido

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O Silêncio




Quando a ternura
parece já do ofício fatigada,

E o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

Quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas



(Poema de Eugénio de Andrade)


 Escultura de Laurent Cachard

domingo, janeiro 22, 2006

Um breve olhar...

Imagem daqui


Lá em cima, no ar
Sobre a monotonia de estas casas
Sulcando, sereníssimas, os céus,
Abrem a larga rima das suas asas,
Lenços brancos do azul, dizendo adeus
Ao vento e ao mar.

Eu fico a vê-las
E meus olhos, de as verem, vão partindo
E fugindo com elas;
E a segui-las eu penso,
Enquanto o olhar no azul se espraia e prega,
Que há uma graça, que há um sonho imenso
Em tudo o que flutua e que navega…

Para onde se desterram as gaivotas,
Contra o vento vogando, altas e belas,
Essas voantes e pairantes frotas,
Essas vivas e alvas caravelas?

Vão para longe… E lá desaparecem,
Ao largo, por detrás do monte;
E os nossos olhos olham e entristecem
Com as vagas saudades que merecem
As coisas que se somem no horizonte!

(In "Canção do Vento" de Afonso Lopes Vieira)

…porque há momentos em que nos faltam as palavras, esta é a forma de expressar o meu reconhecimento e afecto a todos aqueles que mantiveram a chama acesa neste blogue, enquanto recuperava da lesão que me afectou…

OBRIGADA

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Morrendo de saudades...



Por motivos imprevistos e ligados à minha saúde, estarei por breves dias (espero…) ausente, pelo que estarei impedida de actualizar os meus blogues e de vos ler também.


Um abraço carinhoso e saudoso a todos,
espero voltar muito em breve...

sexta-feira, janeiro 06, 2006

O Pássaro da Alma

As palavras saídas dos lábios das crianças têm um misto de ingenuidade, sentimento e poesia… porque a poesia está em cada palavra saída do fundo do coração, do fundo da nossa alma…especialmente as que saem do coração de uma criança. Quero assim com a ingenuidade das palavras de uma criança comemorar, desejando-vos um


FELIZ DIA DE REIS

Visage De La Paix(Serigraph)by Pablo Picasso


"João, paras quieto ou tenho que te dar uma palmada?"

Ficou quieto de repente, saltou para o meu colo, no sofá, e perguntou-me com um ligeiro sorriso, vestido de espanto:


"Foi o teu pássaro da alma que abriu a gaveta de estar zangado?"


Foi a minha vez de experimentar o espanto. Apanhada completamente de surpresa, não conseguia perceber se estava a tentar distrair-me a atenção do que me tinha feito zangar ou se estava simplesmente a "mangar" comigo...


"Tu não penses que me fazes esquecer a palmada. Ora volta lá a fazer a mesma asneira e vais ver se há pássaro que te salve... Ai, ai, ai""Mas tu não me respondeste. Foi o teu pássaro da alma?"

"Mas que conversa é essa?"

"Então tu não sabes que vive um pássaro dentro de nós? Oh, mãe, eu conto-te!Ele chama-se Pássaro da Alma e vive num sítio muito fundo, dentro do peito das pessoas... foi a Mafalda que nos contou hoje..."

"E esse sítio é...?"
"É a nossa alma, mãe! E lá, no fundo dela, há muitas gavetas... a gaveta de estar zangado, a gaveta de ficar contente, a de ter sono, a de ter fome, a de ficar triste, a de chorar... e até há gavetas de ter vontade de dar coisas às pessoas!"

" Que coisas, filho?"

"Beijinhos... queres um? Se eu te der um beijinho pode ser que o teu Pássaro da Alma feche a gaveta de estar zangado..."


Olhei bem no fundo daqueles olhitos expectantes e não consegui disfarçar a ternura de um sorriso. Nesse momento, senti no fundo do meu peito o movimento de uma velha gaveta a fechar... e o crescer de umas asas que me impeliram a voar ao mundo do meu menino-homem que, ainda no meu colo, esperava ansiosamente uma resposta minha, como se essa fosse a confirmação da veracidade daquela história lindíssima, contada pela Mafalda! Abracei-o devagarinho, muito devagarinho para que tivesse tempo de perceber a imensidão do meu Sim... e sosseguei-o:


"O Pássaro da Alma já fechou a gaveta de estar zangado, mas disse-me que voltava a abri-la se tu fizesses asneira outra vez... Por isso vamos lá a pensar os dois no que havemos de fazer para o Pássaro só abrir as gavetas das coisas boas... O que achas?""Mas eu sei! Olha, não podemos trancar as gavetas sem ele ver porque essas gavetas não têm chaves, mas podemos ter vontade de fazer as coisas bem e o Pássaro da Alma passa as coisas boas para as gavetas de cima e esquece-se das gavetas de baixo, onde ficaram as coisas más... Ele gosta de beijinhos e tu também. Eu dou-te muitos beijinhos, não faço asneiras e pronto!

"Combinado! Vamos lá ajudar o Pássaro da Alma a arrumar as coisas boas nas gavetas de cima! Dá cá um beijo grandeeeeeeeeeeee!"


Agora já entendo os ruídos da Alma nos dias cinzentos... 


É o Pássaro da Alma a arrumar as gavetas! Logo que se esquece das debaixo, a alma serena e a paz invade-me! Eu pedi-lhe que reservasse a gaveta mais acima de todas para colocar lá estes momentos doces da minha vida... e que a deixasse sempre aberta!...

Composição de Cris (Do Fundo do Meu Arco-íris)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

nascimento do Menino

óleo de Margarida Cepêda (pormenor de quadro)


A Rosa como símbolo da abertura do Coração

A Rosa que está no centro é o ponto de confluência entre "o que está em cima" e "o que está em baixo" .
E o que está em cima é o Sol, e o que está em baixo é a Terra.
O Coração está entre a Terra e o Sol,tal como a Rosa.
O que nasce a partir do centro do Coração, pela actividade do Amor e do Conhecimento, é o Menino .
Este é o Natal.

É no duplo movimento do "saber dar" e do "saber receber" que o Caminho Iniciático começa e conduz ao Nascimento.

Saber Amar abre muitas portas

Poema e imagem de
Maat in Arde o Azul

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Natal...


Presépio em roda de madeira


Natal, a tal
época das luzes,
dos enfeites, dos presentes
ausentes
das casas vazias
das mágoas perdidas
em colos de amargura.
Natal, sinal
de paz incapaz
de esconder
as lágrimas frias
das estrias da dor,
das crianças sozinhas
dos velhinhos abandonados.
Natal de cor, incolor
do cinzento
pensamento,
nas vaidades
das sociedades
em cerimónias
de solidariedades.
Natal viral
de um vírus do amor
onde tu e eu
somos actores,
num palco de cor
de comodismo
de olhos vendados
às verdades,
das cidades, dos países
Natal esse que tal
que te enche a mesa
de excessos que abandonas
em caixotes do lixo
rebuscados
pelos enfeitiçados do nada.
Natal, uma viagem
de contrastes
de muitas artes
de tudo e de nada!

Poema e imagem de Imar in Fala B (a)ixinho

terça-feira, janeiro 03, 2006

Está prestes a acabar




Está prestes a terminar
O Natal deste ano
A muita gente vai faltar
Dinheiro para o fim do ano

A euforia foi visível
Nas áreas de comercialização
O negócio foi possível
Mesmo em tempo de recessão

Não é pois compreensível
Este fenómeno consumista
Numa atitude irreversível
De quem anda a dar nas vistas

Muitos não se querem privar
De festejar a passagem de ano
Vão-se mesmo aperaltar
Nos restaurantes dançando

Depois surgem os lamentos
De quem não sabe controlar
Os seus escassos proventos
Que nem chegam para o lar

Entram pois no novo ano
Aumentando a sua divida
Nem se lembram estar gastando
Duma forma desmedida



Poema de Contradições in Insinuações

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O Natal pelos olhos da criança…


deixo-vos um delicioso poema que encontrei no Blog 
Sombra do Deserto



O Natal inocente


Natal é uma menina,
que me vem dar a mão.
Natal é o Pedro e o João.

Natal é dar um beijo,
pela manhã ao pai e à mãe.
Natal é dar amor a quem
o quer e não tem.

Natal é lá na escola,
quando todos dão as mãos,
abrem a sacola e repartem
o seu pão.

Natal é ÀÀÀ, III, óóó.
Natal é não estar lá.
É estar aqui e não estar só.

domingo, janeiro 01, 2006

Não vamos fingir por ser Natal...

Presépio de lata in Que bem cheira a Maresia


já não tocam os sinos
nem cantam as vozes
agora suplicam crianças
e adultos
todos querem
querem prendas
e esperam dádivas
não rezam
nem demonstram fé
consomem
consomem o que não querem
o que não lhes serve de nada
desejam tudo
tudo o que vêm
cobiçam com olhares
depois compram
compram tudo
movidos pela vaidade
e pela alienação
parecem saqueadores
talvez o sejam
dos seus próprios tesouros
depois discutem
pelo meio falam em paz
mas discutem
de tanto consumir
de tanto desperdiçar
discutem
até ao fim discutem
por vezes ainda se dão conta de si
nessa altura são solidários
são altruístas
e redentores
querem ser deuses
heróis do seu próprio ego
basta-lhes vencer por um dia
no que será um desejo comum
depois esquecem
seguem os seus rumos
como se tudo fosse apenas um sonho



Nota: O autor deste Poema José Gomes Ferreira, é homónimo de um Grande Poeta Português José Gomes Ferreira, e é titular de um Blog a conhecer o Labirinto de silencios