
Óleo sobre tela de Nela Vicente
Esta magia é redonda
como aquela aguarela ali adiante que salpica de verniz açucarado
o albergue de mil folhas de cetim.
É azulada como a saia do pastor. Não tem segredo nenhum.
Esta magia vem do fundo do mar
E traz com ela a sapiência do valor.
Revela a ilustração absurda,
A limpidez da travessia,
O escuro do luar.
Esta magia vem do fundo do mar.
Cheira a jasmim, rosas e bergamota.
Faz-me corar.
Empalideço quando a escuto,
Reconheço que tem razão: é fruto da minha imaginação!
(Poema da Azul)
segunda-feira, abril 10, 2006
Esta magia é redonda...
sexta-feira, abril 07, 2006
Verbo amar...

Pintura de Freydoon Rassouli
Há um verbo que eu quero em abundância
Dizer hoje e sempre, na vida inteira,
(Fazê-lo suavemente, qual fragrância)
Na singular pessoa que é a primeira!
Um verbo que quero ouvir com muita ânsia,
Como se a hora fosse a derradeira,
Que o digas apartada de arrogância
E ao dizê-lo a alma seja verdadeira.
Há um verbo que quero no presente,
Como se ouvido no tempo passado
Não tivera o mesmo som a acolhê-lo:
Porque o amor no passado está ausente.
Pois que me vale a mim ter sido amado
Se hoje não sinto, nada, estar a sê-lo?
(Poema do JL aqui)
quarta-feira, abril 05, 2006
... poema de amor...

"Misterios de una luna" by Claudia Olivos
Anda…
Segue-me
Persegue-me
Envolve-me
Com um lenço de seda
Projectado pela retina inflamada do desejo
Anda…
Olha para o que não tocas
Anda…
Passo a passo a meu lado
Contorce-te ao som dos meus gemidos
Numa noite gélida, sobre o céu azul-escuro
Anda…
Ama-me
Anda…
Olha-me nos olhos
Anda…
Beija-me os lábios pintados de rubro inflamado
Anda…
Amassa-me em cornucópias de abraços apertados
Anda…
Cola-me ao teu corpo suado
Anda…
Tira-me o folgo
Anda…
Num labirinto feito de seda,
Deslizar, trocar o olhar, que nos ilude.
Num labirinto feito de seda,
Dispo-me
Esfrego-me
Confundindo-te com a seda.
Alimento a alma sequiosa do limiar que nos separa
A retina perdida,
Numa conjunção de traços dispersos sobre a pele desfeita
Num labirinto feito de seda,
Danço para ti
Num labirinto feito de seda,
Vergo-me a ti
Num labirinto feito de seda,
A eternidade do meu amor
Rodopia em círculos invisíveis
Até te alcançar.
Anda…
Dá-me a mão
Fecha os olhos
Anda…
O labirinto feito de seda chama por nós
Anda…
Dá-me os lábios para saborear
As mãos para que elas toquem no fundo da minha alma
No fundo do poço…
Aquele poço em que te queres perder
Ele não tem fim
É um cair eterno dentro de mim
Anda…
O labirinto não tem fim, nem principio
Ele é feito dos nossos corpos nus…
O labirinto chama por nós
Anda…
(Poema da Nadir in Unus Mundus)
segunda-feira, abril 03, 2006
Oferenda...

"The Offering" by Joop Frohwein
Dei-te meu corpo de lua
E desejos de viagem
Fiz a noite sempre tua
Dei-te meu corpo de lua
Dei-te o barco e a coragem...
Dei-te o mar da existência
E uma vida de aventura
Do sol a incandescência
E a mim, presente-ausência
Da saudade que tortura...
Dei-te meu corpo de bruma
Nos brocados do anil
Aragem, coisa nenhuma
Dei-te meu corpo de bruma
Nas alvoradas de Abril!...
(Poema Abril de Maria Mamede aqui)
sexta-feira, março 31, 2006
Fim de semana, com amor e alegria...
Traz-me lírios e malmequeres
Meu amor, quando voltares,
Traz-me ramos de rosas
e túlipas aos pares.
Traz flores que encham,
todas as jarras vazias
do nosso lar.
Traz contigo
beijos e carinho
Em forma de presente.
Em troca,
pinto um quadro
em forma de jardim,
Os dois passeando de mãos dadas
E tu sorrindo para mim.
( Poema da Clitie aqui)
quarta-feira, março 29, 2006
escuto o cantar do vento...

louco o vento
no sopro vibrante da melodia
cantou agitado
bailou nas folhas outonais
sóbrio
impertinente
flutuou nos sonhos
despertou preguiçoso
no jejum do dia
saudando a branca manhã
sem peso renova-se
sem medos, sem sustos
sopra no coração
poderoso e livre
torna a doce brisa amarga
engana de frente ou pelas costas
em gritos esfumados
arrasa cruel sem se deter
quebra pela força
a beleza da vida presente
(Poema e Imagem da Lena in Cabana de Palavras)
sábado, março 25, 2006
Porque…precisamos de Amigos para Viver…
Não atravessa povos, montes, vales,
Não vê as cenas bíblicas das eiras,
Nem mulheres de infusa, equilibradas,
Nem carros lentos, chiadores,
Nem homens suados,
Quem vive como o insecto cativo no seu redondel,
Cria mil olhos para nada...
Irene Lisboa
... eu saí da minha... e fui aqui ter... e trouxe comigo estas palavras...

Imagem daqui
Amigo!
apetece gritar ao mundo
ir por aí dizer a toda a gente
Dizer que não é tarde
que vale a pena esperar
amar e crer
sorrir e no sorriso dar-se
A hora sempre chega!
E, então..
o ribombar da tempestade
é doce sol nascendo
luz filtrando-se nos bagos da chuva
o sol, o firmamento
as terras, os mares
o trinado dos pássaros
o coaxar das rãs
o rugido das feras
o rumorejar do vento nos sobreiros
a calma do sorriso
o soluço no choro
é vida...vida!
A alma volteia em passos de dança
loucos, muito loucos.
Vestiste-a de brancos folhos, Amigo!
e ela rodopia
dança, dança, dança...
escorrega aqui, mas logo retoma
na mais louca das danças
ao ritmo voluptuoso da Alegria pura!
Ouve, Amigo,
Ouve!
És tu quem colocou na pauta
o dó , o ré, o mi...
as notas todas!
És tu, Amigo quem conduz a minha alma
quem doira de luz o salão
onde ela rodopia!
Debruçado nos prados, nos vales, nas montanhas
nos ribeiros, nas fontes
na vastidão do mar
na imensidão do espaço...
és tu... Amigo...
Poema da Seila
terça-feira, março 21, 2006
A todos os Poetas... este Dia...
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
(Ary dos Santos in Original é o Poeta)
segunda-feira, março 20, 2006
A Morte do Poeta...
Espalham-se os guardas, as milícias
e vibram as sirenes estridentes.
Pelas ruas farejam cães-polícias:
procuram o Poeta entre as gentes.
Todos sabem que ele é um subversivo
temido, perigoso cadastrado
que afirma o direito de estar vivo
e de andar vertical por todo o lado.
Procuram nas notícias dos jornais
a cara do Poeta fugitivo
tentando descobrir alguns sinais
que o tornem, desde logo, conhecido.
Na rádio, na TV, noticiários
já lançaram apelos lancinantes
pedindo que se evitem riscos vários
de infecção com versos delirantes.
A cidade agitada, no pavor
de se envolver em tal epidemia,
não deixava que alguém fizesse amor
porque o Amor, às vezes, contagia...
Deixaram as pessoas de sorrir,
aos jovens proibiu-se namorar,
os músicos deixaram de se ouvir,
os pássaros pararam de cantar.
Impediu-se o luar de aparecer
p'ra não alimentar o romantismo.
Proibiu-se ao Homem e à Mulher
a mínima atitude de erotismo.
Decretou-se que o Dia era cinzento,
foi imposto o silêncio por decreto,
ergueu-se à Tristeza um monumento,
aboliu-se a Ternura e o Afecto.
O Poeta, acusado de loucura,
na solidão mais densa se escondia
refém de si mesmo e da amargura
que a Verdade nos outros produzia.
Apareceu então à luz do dia
com o rosto tingido de ternura.
Dois tiros acertaram no seu peito
matando a loucura em pleno dia.
Mais tarde descobriu-se o que foi feito:
Morreram o Poeta... e a Poesia!
sábado, março 18, 2006
Voltei...
...ao tema Poesia da Blogosfera.
Um longo caminho tem percorrido o autor do poema que hoje vos apresento.
É pela sua luta, pela força do seu interior, pela sua sensibilidade, que o escolhi para retomar este tema…
Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Aparado em dado momento
No ventre de uma Mulher!
Meu corpo é magistral!
Brutal! Perfeito! Soberbo!
De início não era verbo
Agora sou o verbo ser
Tenho comigo segredos
Segredos do universo
Transporto no corpo recados
Que escrevo em forma de verso.
Venho dos limites do tempo
Não sei o que fui e sou:
Deserto? Nascente?
Já fui Norte, já fui Sul
Pó astral, mar azul!
Luar, estrela cadente.
Eu me vou!
Partirei num cometa qualquer
E serei novamente pôr-do-sol.
Cor-de-rosa, aloendro, malmequer!
Voltei...Já cá estou!
Agora sou pensamento
Nascido em dado momento
Do ventre de uma Mulher!
(Rogério Simões in "Voltei" )
segunda-feira, março 13, 2006
Um Poema para hoje...
Este foi o último livro de Poesias que adquiri.
Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.
Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.
( Manuel Filipe in "Por distracção" )
sexta-feira, março 10, 2006
Caixinha de música...
impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
(Poema de Ana Mafalda Leite)
quarta-feira, março 08, 2006
Neste Dia da Mulher...
...dedicado a todas as Mulheres, mas em especial, às Viúvas do Mar…
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
(Poema "Destino" de Eugénia Tabosa)
domingo, março 05, 2006
Vem por entre desejos floridos...
Vem por entre os floridos desejos
que esta meiga Primavera nos anuncia!
Mas traz em tua mão um ramo de giesta em flor!
E diz-me dos barcos perdidos
que levados pelas auras do Sol-Poente
lançaram âncora no doirado mar!
Diz-me da seiva túrgida e generosa
que fecunda e silenciosa corre
pelos braços e pelos sulcos de todas as coisas!
Diz-me do apelante pólen que tudo penetra
e se agita fecundante nas rubras corolas!
Diz-me das amorosas melodias
que os pássaros soltam gementes
quando o sol se abriga em seu palácio de coral!
E diz-me das cinzentas nuvens
onde os pássaros de fogo fazem ninho
e onde se gera a perenidade dos deuses!
De tudo me dirás, quando se abrir
a silenciosa porta que conduz à recolha
dos apelos que gritam pela eternidade!
(José Nuno Pereira Pinto in "O Tempo dos Desejos Floridos")
sexta-feira, março 03, 2006
Asa no espaço...
Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento,
Quero vogar nos braços da Lua!
Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.
Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.
Castelos fluídos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!
(Poema de Fernanda de Castro)
Desconheço a autoria da imagem
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Boneco Desfeito...
Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...
Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.
No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.
...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!
(Poema de José Régio)
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Hora
Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.
Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.
E dormem mil gestos nos meus dedos.
Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.
Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.
E de novo caminho para o mar.
(Poema de Sophia de M B Andresen)
Imagem de autor desconhecido
domingo, fevereiro 19, 2006
Branco e vermelho...

Pintura de Alice Candeias
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila).
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fonte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo.
Caem, Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem!
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...
(Poema de Camilo Pessanha)
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Primaveras Românticas...
Eu sou a concha das praiasQue anda batida da onda
E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar
No seio... ali adormece
E é ali seu descansar.
Pois sou a concha da praia
Que anda batida da onda...
Sê tu esse seio infante,
Aonde a triste se esconda!
Eu sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto,
Contando por suas dores
As areias do deserto.
Mas se um palmar, no horizonte,
Se vê, súbito, surgir,
Tem ali a tenda e a fonte
E é ali o seu dormir.
Pois sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto...
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda no deserto!
Sou o peito sequioso
E o viúvo coração,
Que em vão chama, em vão procura
Outro peito, seu irmão.
Mas se avista, um dia, a alma
Por quem andou a chamar,
Tem ali ninho e ventura
E é ali o seu amar.
Pois sou quem anda chorando
À procura dum irmão...
Sê tu a alma que me fale,
Inda uma hora ao coração!
(Poema de Antero de Quental )
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Loas à chuva e ao vento...
Deixo-o aqui…
Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Mas cai de mansinho.
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Muito de mansinho
Em meu coração
Já não tenho lenha
Nem tenho carvão...
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Que canto tão frio,
Que canto tão terno,
O canto da água,
O canto do Inverno...
Pingue...
Que triste lamento,
Embora tão terno,
O canto do vento
O canto do Inverno...
Vu...
E os pássaros cantam
E as nuvens levantam.
(Poema de Matilde Rosa Araújo in "O Livro da Tila")











