Dedicado à Milu e ao José Gomes, pela sua força e espírito combativos…

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver; do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor.
Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies de capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor.
Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor.
Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor.
Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!
(Poema de Xanana Gusmão-1998)
Imagem de autor desconhecido











































