O crepúsculo em combustão lenta
Entre anjos e
E criaturas novas
A urgência do mundo
que bate o pé
A arte de ser
uma nova estrela
Os hóspedes tão desconhecidos
quanto influentes,
A teia e a aura:
Paralelas que talvez se encontrem.

Pintura de Márcio Melo
de que medidas somos feitos?
quantas peças encaixam, moldes utilizados
olhos que nos vêem, de que modo?
fosses um bosque
uma pedra vento fogo
inanimado
fosses flor
água terra
não sendo nada és
sou espírito navegante
ouves o que permito
tocas no alcançável
o resto é mato
(Poema de Teresa Durães in Voando por Aí)

Imagem Sandra Perez
Atravessamos o deserto descalços
Alegres
Desprendidos
Enfaixados em sonhos
Carregamos esperanças
Elexíres de domínio
Projectando momentos
Fragmentos do que não foi
Mas atravessamos o deserto descalços
Porque as certezas dissipam-se nas areias
E o óbvio é acessório
(Poema de Daniela Mann in Amar-Ela)

Sebastião da Gama
Confesso que ao começar a ouvir as primeiras palavras ditas aqui me emocionei bastante.
E reportei-me anos atrás, onde uma voz tranquila lia em certos momentos, palavras que se foram interiorizando em mim. Tal como estas:
“Há palavras alegres e há palavras
tristes. E essa tristeza ou essa alegria
umas vezes está nelas, outras no
modo de as dizer.”
As palavras do Luís Gaspar despertaram em mim recordações há muito guardadas na memória dos afectos. Confesso que enquanto o ouvia, uma lágrima rolava no meu rosto. Da minha meninice e dos meus tempos de estudante, guardo recordações maravilhosas. E sei que muito do amor às letras que tenho, vêm desses tempos.
Hoje num turbilhão de sentimentos, recordei momentos, factos e pessoas que guardei sempre no meu coração. Um deles, a pessoa que me ensinou a amar as letras, que lia na sua voz doce e que me transmitia e a toda a classe que leccionava, toda a candura de um Poeta que ela própria respeitava e admirava: a minha Professora, que também era a minha melhor Amiga e minha Mãe.
É a ela e por ela, que hoje neste Poesia Portuguesa me atrevo a deixar aqui a voz do Luís e este
Apareces tão pouco...
Apareces tão pouco nos meus sonhos que quando os sonho chego a ter saudades tuas.
E entretanto tu és ainda a mesma continuas a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato, a idealizar uma casa ao rés das ondas (mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos) e a fazer da Vida precisamente a ideia que fizeste de mim desde a primeira hora.
Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus sonhos. E como eu, pela minha, calculava a tua pressa, fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.
O tempo era o das flores... E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la ao maior e melhor de todos os poetas. Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas, e era já acordado que beijava as tuas mãos, pois desceras comigo do sonho e à minha volta o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas eram tua presença verdadeira ...
Por que não vens agora? Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas...E tu pensas de mim o que pensaste sempre e bordas nos lençóis as nossas iniciais. Por que não vens? Chegarias ainda rosada e ofegante. Não virias molhar de lágrimas meus sonhos, porque não sabes nada ... Nem sequer que até esqueci a cor e o corte do vestido que tu estreaste (há quantas Primaveras?) no último sonho em que sonhei contigo ...
(Sebastião da Gama )
Sebastião da Gama foi Professor. Muitos alunos o recordam. Um deles o próprio Luís Gaspar e são dele estas palavras que finalizam o Palavras de Ouro 63:
"Vou reler e reler o “Diário” de Sebastião da Gama onde ele, a certa altura fala de um dos seus alunos como um tal Micróbio alcunha que me acompanhou durante muito tempo na Escola Veiga Beirão. "

Imagem Mário Galvão Ferreira Galante [Magal]
Talvez nunca a ternura fosse tanta
como entre os montes amadurecidos
e quando as casas se elevam
entre o ouro e o fumo da tarde.
Silêncio que parece vir do lento
passado,
vozes que se dão
em resignada melancolia
e tomam a forma dos frutos,
vinho e sombra que apagam o mar
nas árvores
onde não tardará o abandono
memória do que somos.
Repousam sobre a noite os grous
enquanto as cidades crescem à nossa volta
contra o sul vencido.
Vento, ramo e sombra que caem
sobre as janelas ardentes:
lá onde a púrpura se reclina
sobre a água e a beleza
a verdade começa a surgir da espuma.
(Poema de Henrique Dória in Odisseus)

Óleo de John William Waterhouse
Hoje já pela noite
Fiz-me ao mar ...
Libertei sereias
para cantar
em vozes transparentes
e calmas...
Transformei gaivotas
inquietas...
voando
em voos de rasos
de almas
planando...
Desencalhei navios
afundados
soltei barcos
naufragados...
Sacudi a folhagem
mudei a paisagem...
Desfolhei flores
de mil cores...
Perfumei o vento !
Pintei o tempo!
(Poema da Perdida)

Fonte da imagem: Clarence Signormori
Subo a escadaria
De mármore polido
Até ao topo
Derrapo nos últimos degraus
Quase me estatelo
Equilibro-me a custo
Dum golpe de rins
Bem delineado
Alcançando a muralha
Donde consigo avistar
Aquilo que tu não queres ver
Quando subires
A escadaria de mármore polido
Cuidado nos últimos degraus
Eles escorregam...
(Poema de Paula Raposo in Canela e Erva Doce)
No próximo dia 14 de Outubro às 18.30, será lançado o livro de poesia "Canela e Erva Doce". Mais detalhes aqui

Imagem de Adriarual
Tatuaste
no teu corpo, a minha
cor
entrando... nos teus poros
corro-te
no sangue...
livre
A alada curvatura do meu seio
Não evita o doce peso dos teus dedos
Um favo, onde se junta toda a doçura – sem receio
Vestes a nudez do meu liso ventre – com segredos
Doce mel do teu olhar desliza...
Pequenas gotas em meus lábios caem
Como palavra absoluta, envolvida na melissa
No íntimo desprender, aquando tocamos – a margem
O teu coração
movendo-se na boca
inaudível dos teus dedos...
(Poema de Betty Branco Martins in Fragmentos)

Imagem de Luis Caeiro
O que é Poesia?
Porquê escrever?
É uma triste alegria,
É um amargo prazer.
Em versos, o poeta tem
Um desafogo da alma,
A emoção que lhe vem,
É ânsia, loucura, calma...
Escrevendo, sente-se bem,
Sente-se algo, sente-se alguém,
Num mundo que não é seu.
O que ao poeta dói, o que sente,
É que o mundo, não compreende,
O que, tão sentido, escreveu.
(Poema de Luis Caeiro in grão-de-luz )

Imagem de Jeff Novak
Chegaste
De mãos dadas
Com o Outono,
E em pleno
Rio Tejo,
Olhaste-me
E pediste-me
Aquele beijo.
Não são lamúrias
Que ouço cantar,
Nem pedras de sal
Que vejo chorar.
São dois corações
Impetuosos
Pela dor,
Que fraquejam
Por saber
Que de tudo
O que menos ficou
Foi o amor.
(Poema de Natalie Afonseca in A minha teia)

Pintura de Sandonís Martín
Manhã de sábado
Manhã de praça
Manhã de compras
Ó freguesa, não vai um cheirinho?
Manhã de luz de Setembro
Manhã das coisas que me lembro
Manhã de acordar ao relento
Ó freguês, não vai um cafezinho?
Manhã de orvalho
Manhã de gotas suadas
Manhã de sinfonias, a soarem de galho em galho
Ó fregueses, então não vai um abracinho?
(Poema de João Firmino in Circulo de Poesia)

Imagem de Daniel Costa-Lourenço
O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.
É tudo o que temos,
Quando nos temos…
(Poema de db in mar.da.Palha)

Imagem de Olga Fonseca
1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
2.
Só o desejo é matinal.
3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.
4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.
6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.
7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?
(Poema de Eugénio de Andrade)
A todos os que gostam de Poesia, permito-me chamar a atenção para as palavras de Luís Gaspar através do Estúdio Raposa – Lugar aos Outros 19 .
Quem estiver interessado em aderir à iniciativa sugerida e nas próprias palavras do Luís seria…“organizar a edição de um livro com a Poesia que anda pela Blogaria”…
Deixo do aqui o desafio…
(Poema da {{Coral}})

Imagem Google
Acaba-se imperceptivelmente o fulgor do Verão
Vai-nos caindo sobre...
esta lassidão de Outono.
A luz já não é bem luz
mas uma pasta que se mistura com a Terra.
Dela se ergue uma bruma da sua cor,
diluída, esparsa.
O cheiro entra-nos na pele
absorve-nos
dispensa as narinas.
é acre
intenso
quase agressivo.
As estrelas baixaram no céu
teimosamente entre nós.
Ensombra-nos uma ténue cortina -
futuras nuvens
ainda medrosas de o serem.
O céu já não é a donzela
desconhecedora de vergonhas
descuidando-se brilhante no seu virginal fulgor.
É, agora, pudica menina
tentando encobrir a nudez
em indiscreta cortina translúcida.
(As fêmeas deveriam sempre aleitar nesta estação.
Então, os vagidos das crias sequiosas ou o ronronar da saciedade, soariam abafados docemente na penumbra, de manhã a manhã, como uma almofada de lã fofa e transparente e as crias, rolando dos leitos, vagueariam nesta maciez onde a gravidade quase se anula.)
Se Paz houvesse, ela seria proclamada em cada início de Outono!
(Poema da Seila)

Imagem de Dionísio Leitão
Hoje, fumei um cigarro.
Emprestaram-me o isqueiro,
deram-me o invólucro branco-laranja,
e foi com a alma em franja
que cheguei à sala do fumeiro
e entre a impestação alheia por catarro
me esfumarava inteiro.
Entrou uma mulher;
"Tem lume?" – mordendo o cigarro ao meu fogo ofertado
"Sim" – passando-lhe para a mão o mecanismo emprestado
Surpresa, não se conteve; "Julguei ser um cavalheiro!"
Rindo-me retorqui, com o meu ar mais matreiro:
"Que maior confiança deposito que ter na mão o meu isqueiro?"
É que nestas convenções de cavalheiros
escondem-se sagazes predadores de atenção,
mas são os que não procuram ser certeiros
que guardam os melhores sorrisos
no coração!
(Poema de Rui Diniz)

Pintura de Edward J. Poynter
Quero ser…
Existir nos teus lábios…
Quero estar…
Possuir as tuas mãos…
Quero, quero ser a montanha que te recebe.
Silencia os nossos gemidos,
cala os nossos choros…
Serei fonte que te bebe sem sede,
onde estou, serei vida que te leva como numa rede.
O que sou sem a tua luz não me transporta,
deixei de ser, abandonei a matéria morta.
Quero ir…
Existir nas tuas palavras…
Quero voltar…
Possuir os teus erros…
Quero, quero ir na corrente que te leva.
Grita na melodia do nosso silêncio,
Revela o nosso sorriso…
Serei o pó que recebes,
onde vou, crescer no teu mundo como sebes.
O que fui, perguntas, apenas matéria,
passarei a ser, tão vivo como uma artéria.
(Poema de Joca-João C. Santos)

Imagem de Zhaoming Wu
Perfilo-me à beira da vida
tentando
evitar o inevitável.
Dobro as esquinas com cuidado
evitando as surpresas.
Espreito os becos desertos
com a esperança de neles ver surgir
o in(esperado).
Fujo do confronto,
de olhar em frente
o que quero não ver mais.
Encolho-me no meu canto
e escolho
a imobilidade
pensando assim passar
despercebida.
A invisibilidade é o
que mais pretendo.
A instabilidade é o que possuo.
A paz é o que procuro
mas a desilusão espreita em cada passo.
Desilusão.
A ilusão desiludida.
Instabilidade.
Instável estabilidade.
Escondo-me do futuro
escudada na ilusão,
e à beira da vida, aguardo.
Imóvel.
Salto?
(Poema da Dulce)

1000Imagens FilipeSantos
Eis que a ti me entrego e a ti recebo,
é a unificação do nosso ser.
Que maior maravilha pode haver
do que beijar-te a alma, o meu abrigo?
Deixa que a ternura que em mim sentes, seja a estrada de sonho
em que caminhes, e caminhando tu irei contigo.
Deixa pois que o infinito seja o fim, e que até lá
na doce comunhão do nosso amor, eu consiga a ventura
de te ter ao pé de mim.
(Mesmo que as vagas sejam muitas
eu vencerei distâncias).
O marulhar bramindo
não será mais forte
do que os meus lábios
teus olhos cobrindo
ao cair da noite.
Deixa pois que me atreva
a ser superior à humanidade;
que subjugue o ciúme,
o tédio e o esquecimento com a minha vontade.
(Deslizarei bem junto a ti, abraçarei os teus joelhos
e assim, reinarei submissamente).
Depois te contarei os lindos sonhos que para ti criei.
Consente amor que a tua alma embale docemente,
que o frémito que existe
nos meus lábios
circule no teu sangue, e te mantenha
o fogo
eternamente.
(Poema d' A rapariga)

Pintura impressionista de Berthe Morisot
Um Outono...
amarelece,
lentamente vai descaindo.
Flutuações osciladas.
Pelos dedos
escorrem os últimos sóis
(de um calor).
De longe,
restos de pó,
memórias do tempo...
entre as folhas,
resvalam luzes
aquietadas,
mornas.
Uma despedida,
talvez
um regresso...
(Poema de Joaquim Sobral Gil)
Adenda sobre a pintura de hoje: Berthe Marie Morisot, foi a primeira mulher a juntar-se aos pintores impressionistas franceses.
Apesar da oposição de familiares e amigos, ela continuou a lutar pela arte em que acreditava e pelo seu reconhecimento.

Imagem de autor desconhecido
a rua respira de um amarelo minúsculo,
nos dedos a poesia gasta-se.
com algemas nasceu uma rosa corroendo a paisagem,
e é Setembro.
chegaram os sopros pungentes da iluminação.
certamente vestirei um acto inútil,
perderei do sentido a noção.
ouve-me,
ainda que as esferas no meu sangue se esbarrem, o vento
continua a empurrar as aves
que conduzem trenós, e a ternura é veloz.
(Poema "A rua respira" de Maria Gomes)

Imagem de daqui
As palavras que penso, nunca digo
são secretas, quase como o universo
viajando com elas, somente em verso
para se encontrarem apenas contigo
Abraçando cada palavra na solidão
deslizo nas vagas deste pensamento
que me acalmam sempre o sofrimento
estendo-te os braços, dou-te a mão
Finjo não entender as desilusões
das palavras que vou arrastando
quando tocam fundo no teu peito
Afinal, tudo não passa de ilusões
que ambos vamos aguentando
neste cintilar único, quase perfeito...
(Poema de Friedrich)

Pintura de John Collier
neste minuto igual a qualquer outro
queria guardar ciosamente o meu corpo
ser a essência e a matéria
ter o brilho mágico de uma estrela
e cultivar para ti a flor da espera
mas entranço o tempo na viola
a pendurar memórias pelas cordas
a emoldurar o olhar nas tardes de ócio
como se vomitasse todo o mar
e seus trágicos despojos
aqui reclino as noites se te espero
desperto as madrugadas se te ouço
este é o lugar mais seguro que conheço
para te amar na concha do segredo
e te esquecer na métrica de um verso
aqui sou essência de toda a matéria
que prevalece na fusão do beijo
depois da tua língua sugar com arrojo
tudo o que me vai dentro do corpo…
ergo agora o cristal deste momento
e brindo ao fruto do teu corpo doce arinto
como Lady Godiva nua de alma
saboreando só o fruto do silêncio…
(Poema de Aziluth)

Pintura de Edward Robert Hughes
Gosto particularmente
de amores
eternos
assim que principiam
A estranha sensação de déjà-vu
«...já te conheço!»
A doce pretensão
«não te mereço!...»
A louca rendição
em ardores
ainda assim ternos
de que os corpos se arrepiam.
Gosto particularmente
que perdure
nos infernos
mal se extinga
Pois não existe coisa mais bonita
do que um amor extinto
que crepita
(Poema de Fata Morgana)

Eis a primeira grande conquista da minha vida,
de armas em punho e refinadas,
– usei o charme, esperteza e olhar estratégico:
lá me aproximei, pé ante pé pelo flanco,
espalhando miadelas narcotizantes de cativação,
tonteando o Adamastor de olhar durão.
Depois de conquistada a pata e dorso,
torturando-o com lambidelas de carícias mortais,
o matulão estava sob meu domínio felpudo,
cravei-o com garras bem afiadas de festas,
subi-o e desci-o com ron-rons de encanto, para seu pesadelo...
A partir daqui está dominada a besta sodomizada...
A partir de agora sei que posso conquistar o mundo!...
(Poema e imagem de Carlos Reis-In_loko-)
BOM FIM DE SEMANA

A arte de Isabel Filipe
não sei de que silêncios
me falam as manhãs
descobertas na lura
de todos os exílios.
não sei quais os segredos
se escondem e cativos
nos rios, e das árvores
submersas na memória
não sei nomes nem frutos;
são as sombras e os limbos
que vão rasgando a pele
na mancha das desoras.
não sei de que torrentes
quero agarrar a água
que se planta nas margens
à beira de uma sede.
não sei de que relâmpagos
se retira a centelha
a cor, a luz, o fogo
com que se queima a dor.
não sei de tudo isto
nem de como sentir
mesmo que seja frágil,
o sabor de uma amora.
(Poema de José Félix)

Seios pequenos, discretos,
Seios rebeldes, erectos,
Feitos desejos secretos.
Seios redondos e quentes,
Seios desnudos, frementes,
Colos d'amor, exigentes.
Seios luxúria, vibrantes,
Seios gulosos, de amantes,
Dons de paixões escaldantes.
Seios crescidos, maduros,
Seios pujantes, seguros,
Sons de silêncios impuros.
Seios enormes, caídos,
Seios vazios erguidos,
Resto de tempos vividos.
(Poema e imagem de Vitor Cintra)

Lisboa - Óleo sobre tela de Francisco Smith(1920)
Mas que criança alegre ali vinha,
Arrastada pela mão da sua presumível mãe,
Com o cabelo amarelo em desalinho,
A tagarelar e a bisbilhotar
Os artigos expostos nas prateleiras.
Eu observava a cena,
Enquanto esperava ser chamado
Para levantar uma encomenda
Que o carteiro não me trouxe a casa -
Preferiu deixar o aviso
Na minha caixa de correio.
A mãe, muito magra, deambulava
Com uma caixa de sapatos verde,
Sem tampa, estendia-a às pessoas
Para que nela depositassem,
Por caridade, uma esmola.
Muito jovem, diria mesmo, jovem demais.
Para já ter uma filha de dois ou três anos?
Até podia ser a irmã mais velha de uma família cigana
Que faz da mendicidade profissão.
Não havia sinal de sofrimento na cara da pedinte,
Saiu cedo para trabalhar (acho)
E à tarde, quando regressar,
Alguém irá pedir-lhe contas
“E se não for?”, pensei.
Talvez seja mesmo mãe da criança
E esteja sozinha neste mundo,
Que insensível sou ao sofrimento alheio.
Que merda!
Aproximou-se de mim por trás
E estendeu-me a caixa.
Olhei de lado para dentro dela.
Vazia, completamente vazia, a caixa!
Depois de ter passado por dez ou mais pessoas!
Mundo vadio, que mundo bestial!
Porque é que um ser humano,
Que tem uma criança tão alegre e saudável,
Não há-de dispor de meios
Para assegurar a sua existência
E a do filho sem precisar pedir?
Nem percebo porque é que esta situação
Tão corriqueira entre nós,
Me causa tamanha dor!
– Eu próprio já recusei tantas esmolas,
Não, uma esmola destas acho que não.
Que posso fazer?
Sei que a minha esmola não é solução.
Se lhe der a esmola,
Apenas fico de consciência aliviada,
Ela, ficará na mesma
Hesitei. Numa fracção de segundo, ainda pensei:
“A vida tem uma duração finita, são dias, são anos,
São décadas e pouco mais; se eu lhe der uma esmola,
Talvez ela e a criança cheguem ao fim do dia sem fome;
(Ao fim e ao cabo nós todos
Só queremos chegar ao fim dos dias sem fome.)
Estreei a caixa vazia das moedas com uma moeda,
E ela lá continuou a sua ronda sem espanto.
Desta vez, já outros seguiram o meu exemplo,
E puseram mais moedas na caixa sem vazio.
Saíram as duas (mãe e filha?),
E fiquei a espreitá-las
Através da fachada envidraçada dos correios.
Atravessaram a rua para o outro lado,
E vi-as entrar no café de defronte,
Todas contentes. Afinal tinham mesmo fome.
E veio-me à mente o sempiterno verso
Que enforma a minha própria mente:
"Mas as crianças, Deus meu…"
Só então percebi plenamente
Porque tive tanta pena daquela gente.

Imagem de Mel Gama
Porque são tão tristes os poetas?
Porque têm os olhos sempre no infinito?
Porque caminham sempre cabisbaixos?
Porque passam tanto tempo à beira do rio?
Porque deambulam tanto pela grande cidade?
Porque percorrem as ruas depois da chuva?
Sempre sozinhos, pensativos...
Alguns há que correm pelos campos,
Como veados tresloucados,
Na ânsia de absorver
Toda a essência do mundo.
Outros há que se embriagam com palavras,
Que fumam nos cafés,
Que bebem nos cabarés,
Que se esquecem que em breve surgirá a madrugada...
Muitos não têm amigos
Alimentam-se de fatias de solidão
Que devoram em grandes garfadas.
Outros, odeiam a Lua,
Porque passeia indiferente às suas desgraças.
Outros ouvem rádio toda a noite
Nalguma vivenda da linha do Estoril.
São tão estranhos, os poetas...
(Poema de Pedro Cordeiro)

Caminho por sobre as pétalas da rosa por ti desfolhada,
Mergulho na fragrância intensa que em mim despertas.
Dispo o véu dos preconceitos em doce chama aprisionada,
E me dou por inteira quando em teus braços me apertas.
Pérola romântica me tornei depois de por ti ser encontrada,
Perfumando o teu corpo com a essência intensa do meu.
Excitando os sentidos prendidos nesta espera acabada,
Te aguardo na bruma cerrada em que o espírito se perdeu.
Ao te insinuares, meigamente me envolve e me prende,
Por sobre meu peito, teu peito se deleita e se estende.
Nossas almas se contorcem nessa entrega desejada.
Nossos corpos se fundem nesta rendição terminada.
E na pele escorrem gotas perfumadas de intenso sabor,
Não me perguntes agora, se é paixão ou se vai ser amor.
(Poema e imagem da Lagoa Azul)

Trabalho a lápis de Carlos Peres Feio
(poema a escrever hoje, ou nunca)
não dei por ele,
talvez brisa no
pescoço
e na orelha,
o primeiro arrepio de prazer
talvez tenha sido isso
leve, começo a senti-lo
refresca-me
mas cresce,
torna-se forte
antevejo um tornado,
com todos os sentimentos
no centro
a elevar-se em
espiral,
para fora de mim e
do mundo dos ventos
amor-vento
já uma tempestade
abre-me os olhos,
amor-água
escorre-me pelo rosto
pelo corpo
as cordas das velas do meu passado
esticam rangem vibram,
as cruzes nelas bordadas
partem com o vento
e a minha alma fica
branca
pura
disponível
para receber as tuas marcas,
só as tuas!
(Poema de Carlos Peres Feio)

Imagem de Morgane
Os nossos dias são de cheiro,
que é mesmo de admirar
Há dias que cheiram a limoeiro,
o que é de espantar
Outro dias cheira a Pinheiro,
esses são mais de aceitar
Outros dias de Dinheiro,
nesses ninguém vai acreditar
E de outros dias de cheiros, podemos falar
onde alguns agradáveis são, ou não
Mas os dias de cheiros que mais gostas,
são os que dizem mais do coração
Porque os dias de cheiros ao amor,
esses, dias não tem
Eles, os dias de cheiros até podiam ter cor,
e algum sabores também
Mas os dias que cheiram aos teus lábios,
os meus eles adoçam
Aqueles dias de cheiros dos beijos muito sábios,
nos meus eles roçam
Ainda há os dias de cheiros a natureza,
que até trazem muitas cores
Eles, os dias de cheiros vem com toda a beleza,
cheirar teus lábios de sabores
Assim os dias, em tudo tem cheiro,
e nós muitos amores
Os cheiros dos dias não são feios,
nem nossos lábios têm pudores
Sempre nos dias que têm cheiros,
brotam todos seus odores
Os dias têm muitos cheiros?
Têm sim senhor
(Poema de Fernando Ramos)

Imagem Geocities
Retratos são mentiras e verdades, sugeridas
ao correr dos olhos de quem quer olhar:
A menina que posa, não pode ser mentira,
quando dança sem dançar longos bailados
no palco brilhante dos olhos do seu pai;
a mulher que se expõe só pode ser verdade,
quando deixa a tristeza esvoar-se de dentro
e pintar nas nuvens o peso do chumbo.
Mas o ser no retrato não diz a menina
que brincou às bonecas antes de posar,
e não diz a mulher que se banhou nua
na lua de Março, não diz como riu,
se lavou da tristeza nesse riso de estrelas
e como, depois disso, foi jantar
(Poema de Vasco Pontes)

Imagem da Silvia
E o poema como o germinar do trigo
Brotou do caos húmido e escuro da mente
Primeiro um impulso quase imperceptível
Depois mais forte mais convicto
Por fim já tensão de músculos e gestos
A extravasarem-se em sons
Rolaram sons na minha cabeça na busca inquieta e dorida
Da forma pura
Que ânsia de cruzar sons e versos
Com o impulso de te agarrar nos braços
E pôr nas rimas fugidias os beijos certeiros
De palavras quentes
Mas a sombra negra do vazio
Ameaça como uma mancha de tinta negra
Os versos esculpidos
A golpes de emoção contida
E tolhida de esgares
Que vêem no poema
O sopro interdito do desejo.
(Poema de Manuel Sousa)

Foto de Adri Berger
Vou abrir as asas e navegar...
Soltar-me incandescente
No Oceano, do desejo
Sucumbir
A este quer mais.
Ficar derramada na espuma das ondas...
Erguer-me depois...
Voo da gaivota,
Planando no ar...
O meu destino são estas voltas
Reviro e viro-me no Céu
Desço
Voo picado sobre mim mesma.
Atiro-me ao Mar...
Sou esta pedra que se move.
Sou esta incerteza que as marés cobrem.
Há algas,
No lugar de cabelos,
Prendem-se nos corais
E voltam a escapar-se...
Ergo-me, derrubo-me...
Transporto-me nas ondas
Termino em espuma.
E é sobre a areia que volto ao ar,
Sabendo sempre
Que descerei em voo picado,
Perfurarei como pedra o Mar.
Oceano longinquo
Onde me metarmorfosei-o
E encontro no irreal
O que de real há na vida...
Corais inesqueciveis...
(Poema da Ar)

Imagem de autor desconhecido
Alvoreces, despertas e acordas longe,
Ao meu lado.
Adormeces, madrugas no enlevo,
Revelas-te criança-mulher,
Inundada de mim, vazia de ti,
Tanto faz…
Abres os olhos e sonhas-te criança,
A caminhar
Na areia da praia a esboçar trilhos para mim.
Entregas-te mulher no calor das dunas,
Onde te escondo do sonho,
Que amanheço,
E estanco as vagas de choro que o mar verte,
Ao ver-te no regresso impossível ao começo.
O mar é cão, nós ouvimo-lo a morder,
Encheu-te os ouvidos de búzios
E o teu corpo quente de moliço ou sargaço,
Tanto faz,
Para que ouças e sintas, no sonho,
As carpideiras em pranto
De lágrimas e salpicos de mar,
Tanto faz,
Pelo naufrágio da tua fantasia de sal
Ao largo de um cabedelo tinto de luar.
Mas eu sonho-te, cinjo-te num abraço,
Alago-te de um mar chão de ruídos.
O mar é bom, salvo-te, torno-te lua
Perto de mim, nos quartos ou cheia,
De coração espelhado a incendiar a noite
Onde te vejo nua,
Por cima de mim
Ou dobrada no espelho de sal e areia,
Tanto faz…
(Poema do Nilson)

Imagem de Louisa Schlepper
(Poema de Natividade Negreiros
in "Lugares Secretos")

Imagem de Christophe Vacher

Óleo de Ina Lukauskaite
Vem para mim,
Mas olha primeiro o mar.
Traz-me o seu azul
Reflexo no olhar
(com o cheiro da maresia)
De relance deita uma mirada
Rápido ao sol e
assim reterás o amarelo.
(com um aroma de canela)
Peço-te mais,
Que me tragas
o arroxeado do poente
(olorado por lilases)
E o verdejante dos vales
na Primavera
(com o sabor do alecrim).
Queria também
nos teus olhos
O terno e quente
alaranjado
(mais o cheiro do jasmim)
Com que se pinta o céu
Na alba de mais um dia
Desejado.
Contigo, vem o vermelho,
(com um aroma de violetas)
Nesses rios
que te escorrem do peito,
aberto em borbotões.
Vem para mim
Com esse corpo
esguio e anilado
Meu arco-íris
Sentido, vivo,
Belo e só por mim sonhado
Vem para mim
Com esse teu cheiro
De mil aromas feito
A amor amado
(Poema do Vic)

Girassóis da Vera Cymbron - Açores
Ontem,
fiquei em silêncio!
Roubaste-me,
palavras com beijos.
Abraçaste-me,
sem dor e sem medo.
Trataste-me,
o corpo e a alma.
Amaste-me,
com sede e desejo…
Ontem,
curaste a doença.
Tiraste-me,
a fome e foste alimento.
Carregaste-me,
a dor e fizeste-a tua.
Apagaste-me,
os pesadelos e fantasmas.
Recriaste-me,
os sonhos e as alegrias.
Devolveste-me,
o sono e a paz.
Ontem,
Nos teu braços, ao sabor dos teus beijos,
Quando olhei no fundo dos teus olhos
E me envolvi no calor do teu corpo…
Senti que hoje estaria melhor,
Porque tu és a minha cura.
(Poema da Vera Cymbron)

Imagem Alexandru Darida
O sol, dia após dia, não queimava
o meu corpo soturno e sombrio.
E eu ambicionando um mar de lava
que me abrasasse o coração vazio...
A cada noite a lua minguava,
no meu quarto, crescente só o frio.
E eu ansiando a luz que fosse escrava
dum farol que orientasse o meu navio...
Foi então que te vi, de sete cores,
avivando o meu céu, serena e nua,
num arco que apagou todas as dores.
Encheste de clarões a minha rua,
cobriste a minha cama de mil flores,
tornaste-te meu sol e minha lua.
(Poema do Fernando-Cidadão do Mundo)

Num campo de papoilas
O meu sonho
Num oceano frio
O teu olhar
Nas areias da praia
O teu cabelo às ondas
No vento do deserto
O meu amar
Na curva do caminho
O teu ar sério
No cume da montanha
O meu querer
Numa cidade à noite
O teu mistério
Num vale de espera cor-de-nada
O meu sofrer
Nas asas de uma pomba
As mãos com que te afago
Na palidez da Lua
O teu sorrir
Numa noite sem estrelas
O teu sono
Num rio impetuoso
O meu sentir
Num lago gelado
A minha mágoa
Numa manhã cinzenta
O teu torpor
O teu desejo
Numa poça d´água
Numa terra distante
O meu amor
Num prado verdejante
A minha esperança
Numa ilha deserta
A minha solidão
Num livro em branco
Meu sonho de criança
Numa história de Amor
A minha inspiração...
Poema e Imagem de Berenice

Imagem daqui
Olá, Amigo, resolvi escrever-te
só para dizer que não há nada de novo.
Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.
Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.
Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.
Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.
Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.
Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.
Como vês, vai tudo normal.
Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.
Enfim, virão tempos melhores.
De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.
E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também,
menos mal.
(Poema da Aspásia)