
Fotografia de Joel Santos
Por dentro de mim corre um longo rio
De seiva, ao por do sol de um campo arado,
E a ceifeira, que ceifa ao desafio,
Esquecida de o ceifar, passou-lhe ao lado…
Talvez volte amanhã, se fizer frio,
Ou se o vento, ao soprar, tiver lembrado
O leito das razões que nele desfio
Na seiva em que o descrevo humanizado
Entretanto, outras foices de ceifeiras
Passaram já por ele de outras maneiras
Mas nunca desaguaram nessa foz
Que, a jusante de mim, beija as ribeiras
Quando elas se lhe oferecem, sempre inteiras
E recomeça o mar dentro de nós…
Poema de Maria João Brito de Sousa
sábado, outubro 22, 2011
O Mar Dentro de Nós
sábado, outubro 15, 2011
Ensaio sobre o esquecimento

Imagem de Fefa Koroleva
O tempo tudo apaga e a rasura
desaba repentina sobre os olhos:
os dedos da memória sem espessura
começam a safar como se escolhos
os poemas que atirei pela janela
numa garrafa cheia de vazio
(não sei se para os bolsos de uma estrela
se para o leito seco de algum rio)
Eis como sinto a sílabas que outrora
circulavam no sangue das palavras,
a súbitas perdidas, pois agora
almejam ser apenas anuladas:
esquecidas que foram para alguém
o corpo dos poemas de ninguém
Poema de Domingos da Mota in A espessura do tempo
sábado, outubro 08, 2011
Gosto de Gente

Pintura de Luiza Maciel
Gosto de gente honesta
Que faz da vida uma festa
Que partilha e se entrega
Que se oferece mas não se verga
Gosto de gente que vive
De gente que me cative
De gente com brilho nos olhos
De gente com alegria aos molhos;
Gosto de gente sem pressa
De gente simples que tropeça
Da que cai e se levanta
De gente que em sofrimento canta
Gosto de gente de todas as cores
De gente que gosta de flores
De gente transigente
De gente assim bem diferente
Gosto de gente com alma cheia
De gente com sangue na veia
De gente que sonha acordada
Que caminha de mão dada
Gosto de gente directa
De pensamento lavado
Com passo lento ou apressado
Que caminha com e sem gente ao lado
Gosto de gente com imaginação
De gente que tenha paixão
De gente que seja ousada
De gente rica ou descamisada
Gosto de gente inteligente
De gente que seja indulgente
De gente que se atira e se mostra
De gente que nunca se prostra
Gosto de gente que olha de frente
De gente que me acalente
De gente que não tem medo
De gente que guarda um segredo
Gosto de gente divertida
De gente que seja atrevida
De gente que seja versada
Gosto de gente com gargalhada
Poema de Fernanda Paixão
sábado, outubro 01, 2011
Traço sem nitidez para um Mar Incerto

Fotografia de José Rodrigues
"Lá não verá Inverno triste e escuro,
Não ventos, não tormentas, mão mudanças
Mas tudo quieto em Deos, tudo seguro."
In A Diogo Bernardes em resposta d’outra sua, Livro II, 34,75 de Pêro Andrade de Caminha
Inventados os nomes do Livro,
Refeito o traço em desenho de viagem
Aqui colocarei uma página de prata,
Ali adiante uma nuvem de fogo,
E mais além um mar desconhecido.
Criar é noção, é primeiro fingimento,
De cada [cousa] que toma o lugar;
“Não vento, não tormenta, não mudança”
Apenas dum pouco de céu
E duns restos de água e sal,
Comprimo em ar o vento,
Em corpo o mar.
E do Livro, o mundo invento
O improviso do tempo na sua passagem
De todas as almas meu corpo casa,
Dos passos nas ruas do improvisados becos
Meu sangue mesa,
Criação é réplica, é súplica, é fim
Do primeiro momento.
De regresso e partida, a viagem
De descanso o Livro que abandonado
Descansa o corpo exausto neste colchão,
Em concha em forma de estrado, de estrada
E aqui colocarei um lâmpada iluminada,
Ali adiante uma vela de cera salgada
E mais além, um vagabundo,
Mais um no mundo, ilusório pilar de vida,
Que trémula pedra gigante
Esta terra de pedintes.
De regresso e partida, os contrários
A imaginária rota quase corpo construído,
De certeza em certeza, a absoluta manhã
Que não conhecerá o dia.
Contrária é a ousada sabedoria,
De quem se diz alheio em alheio caminho
E na página em prata de desfaz a poeira,
Na nuvem de fogo a mão derradeira
E mais além, do momento o instante,
Breve corpo de chão tecto armário cadeira,
Aprendiz da letra segura, traço dum deus errante.
Se tudo é breve, tudo é mundo,
Tudo é caminho, um pouco de estrada;
Destino do ponto mais distante,
Do incerto fim, vaga letra vaga-lume
Vaga estante onde se pousam os rascunhos,
O amargo fruto que restou do primeiro
Dia. Deste projecto,
Que da cinza regressará ao nada.
Poema de Leonardo B. in a barca dos amantes
Nota: Este poema inicia um "passatempo" que tem como objectivo a escolha do poema a ser gravado pelo Sons da Escrita e publicado no Youtube. A escolha do poema seleccionado para aquele efeito ficará a cargo dos comentadores.
A cada sábado será publicado um novo poema. No início de cada mês, será feita a selecção. O mais comentado, ganha a gravação.
Um incentivo para aqueles que ainda fazem da Blogosfera um local de acesso à Poesia……
terça-feira, setembro 27, 2011
"De amor nada mais resta que um Outubro"
Os O’s de mim… costumava rir-me ao referi-los.
Do Outono guardo a memória de uma certa infância calcando as folhas secas da Serra de Sintra que percorria pela mão do meu Avô esperando as queijadinhas que me iria oferecer de mimo… o cheiro da terra a anunciar a chuva e a ternura com que a minha Mãe lia poesia perante uma assembleia atenta.
Do Outubro, anos mais tarde, recordo as viagens a Malange, a visão das Palancas Negras, animais imponentes, misteriosos, que avistava ao longe, enquanto percorríamos os quilómetros que nos levariam às Quedas do Duque de Bragança (designadas, presentemente, com outro nome) um local cujas palavras não conseguem traduzir o verdadeiro sentimento que se tem frente à grandiosidade da Natureza.
Pelo caminho, passávamos pelas “Pedras Negras” que eram enormes pedras com centenas e centenas de anos e que estão aliadas a uma lendária história de uma rainha africana de nome D. Ana de Sousa.
Vem este preâmbulo a propósito da ideia que o Poesia Portuguesa a partir de Outubro e, em parceria com o Sons da Escrita, vai impulsionar.
Como sabem, este é um blogue de divulgação da poesia de Blogues Portugueses e de autores que através deles partilham a sua poesia com o mundo internético.
Dentro da selecção mensal aqui partilhada, o poema mais comentado terá, no início do mês seguinte, um prémio de incentivo ou seja, a gravação em vídeo efectuada pelo Sons da Escrita na voz de José-António Moreira e publicitado no Youtube.
Deixo-vos o poema de Natália Correia "O sol nas noites e o luar nos dias" na voz de José-António Moreira a quem agradeço, desde já, a gentileza da Parceria .
(desligar, por favor, a música de fundo, para ouvir o vídeo)
terça-feira, agosto 30, 2011
Insensatez

Imagem de Alexey Andreev
Não foi o vento nem as marés que levaram das águas o brilho,
Não foi o sol nem a lua que se apagaram e fizeram esse escuro,
Não foram os passos que correram cansados e dolentes esse trilho
Que agora feito de pedras e de sombras se tornou mais duro...
Não foram as palavras, antes flores, que murcharam
Nem as suas emoções que me perfumaram
Que alagaram esse canteiro cuidado
E o fizeram abandonado...
Não foi a noite que chegou sem aviso,
Mostrando somente sombras e penumbras
E do dia tirou e levou o sorriso....
Foi o silêncio cortante que cantaste
E fizeste soar calando o mar,
Secando a areia onde te deitaste,
Em que não soubeste sonhar
Nessa permanente insensatez
Poema de Delfim Peixoto in Serenata às estrelas
sexta-feira, julho 15, 2011
Sentir

Pintura de Cliff Warner
As palavras hesitam
no abraço das madrugadas do poema.
Deslizam nas linhas nascentes,
fugazes e tímidas,
como uma jovem que se desnuda pela primeira vez
perante o seu desejo.
Palpitante,
o papel aconchega o seu espaço,
para nele acolher o derrame virginal do sentir dos poetas.
Do vazio,
surge sentido,
na recolha dos sentidos,
em silhuetas esboçadas na procura de significados.
O poema é sentir.
Sinto.
Poema de João Carlos Esteves in Gotas de Silêncio
quarta-feira, junho 29, 2011
Como pintar o Sol todas as manhãs

Pintura de Margusta
Como pintar o sol todas as manhãs
no jardim onde florescem os lírios
se tenho as mãos vazias
de certezas
e de versos?
Sonho, tão-somente, versos obscuros,
versos lua nova.
Não versos quarto crescente
- a aspergir luar -
acalentados pelo som das harpas
dos anjos com brilhos de mistério
e asas de papel.
Papel de seda... de seda
para vestir e amaciar o tempo
de pintar o sol no tempo dos lírios.
Amaciar o tempo das mãos vazias
e da tristeza à flor da pele.
Poema de Maripa
domingo, maio 29, 2011
As Tentações

o que existe. Nem sequer sabemos
alguma vez de nós no frémito do sonhos
onde vivemos e perdemos a vida.
Nenhuma sombra (a luz) nos conduz
à existência,
sequer com a existência celebramos o encontro,
e tudo o mais são sombras violentas.
Violento é o ar que respiramos,
sofregamente respiramos a existência,
desde que nascemos e sabemos o que existe.
Não sabemos o que existe. Nem sequer
sabemos que nome alastra na grandeza
de estarmos vivos e irmos para o mar
perscrutar a existência
com as mão rendidas
ao mar intrépido da nossa ignorância.
Sabemos o que existe. Não sabemos.
Imagem de Fefa Koroleva
sábado, março 05, 2011
como desenhar um rio inscrito na pele?
Não é fácil, nos tempos que correm, cumprir a missão a que nos destinamos e que foi dar a conhecer a poesia da blogosfera, mas a desistência não está, de forma alguma, nos planos de quem se propôs levar a cabo tal missão.
Hoje trago-vos a poesia de alguém que apesar de já voar fora da blogosfera a ela permanece fiel e é carne e sangue de um Poeta que muito amo…

Pintura de Vladimir Volegov
como desenhar um rio inscrito na pele?
há palavras na boca que dizem a palavra, o início, há palavras que dizem pão,
há palavras no rosto há palavras há um rosto de palavras
na minha mão.
há uma fricção entre o rosto do mundo e o mundo do rosto
há a Voz de um rosto que resiste e revela por entre as mãos
há num rosto um olhar e um espelho,
um animal insubmisso, há uma substância mental
num rosto encontro um mapa de alianças, um fluxo de água
num rosto confluem poema e tempo
uma melodia de palavras em gestação
Poema de Gisela Ramos Rosa
terça-feira, dezembro 28, 2010
De uma memória tão antiga
Outro a aproximar-se devagarinho e, como nos anos anteriores, desejamos sempre que algo de novo nos traga.
Este blogue cumpriu, muito discretamente, no passado mês de Setembro, cinco anos de existência enriquecidos com palavras dos Autores que aqui foram partilhados ao longo deste tempo.
Cinco anos se cumpriram, é verdade!
A autora deste blogue sente-se feliz por ter partilhado, com emoção, a sensibilidade que foi descobrindo no mundo da blogosfera.
Muitos dos blogues provavelmente já não existem mas, aqui ficou, para a posteridade, o seu registo.
Outros caminhos de divulgação foram surgindo, é verdade, mas o Poesia Portuguesa continua a senda a que se propôs aqui...
Neste final de ano e através do blogue da Graça Pires Poeta Portuguesa de grande mérito e para quem vai a minha grande admiração, partilho o poema que lá descobri e que muito me sensibilizou.

Pintura de Gaudiol
dizer Dezembro como se o mar tocasse a voz
ou dizer uma rosa rubra atravessada
por lábios de luz.
dizer o oriente de uma estrela
e vestir a pele de um poema.
mas a palavra é uma criança tolhida de frio
nos cabelos nevrálgicos que a árvore segura.
e assim amanhecemos, tardios e ébrios
no carrossel que orquestra a cidade
com tambores de solidão.
dizer corpo e ser ponte sábia para o outro lado
e a vida ser tão simples como a mão
que toca a pele da sílaba
de uma memória tão antiga
como as solas de uma infância gasta.
dizer amor, esse fósforo que incendeia
e ser fogueira na nervura da palavra.
despir o olhar desta erosão de distância.
agasalhar os pés e resguardar
o dorso lírico do sangue
como se a um poema de Natal bastasse
o verde inflamado de um arbusto:
o labor inteiro do meu coração de terra.
Poema de Luísa Henriques
Com o desejo de um...

quinta-feira, dezembro 23, 2010
Natal.
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se,
Em por de amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se,
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender-se a mão?
Poema “Natal de 1971”
de Jorge de Sena in, De palavra em punho
FELIZ NATAL
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Petição Inicial

Pintura de Caspar David Fredrich
Dá-me um cavalo uma alma uma nave
Algo que voe ou galope ou navegue
E seja azul ou de outra cor mas leve
No seu vagar qualquer coisa que lave
Dá-me uma curva um espelho uma pausa
Algo que brilhe e demore e seduza
E se transforme ao ar em luz difusa
Ou nada ou coisa que não tenha causa
Dá-me um comboio um apito um berlinde
Algo que parta ou que role ou decida
E ao passar perto da hora perdida
Nos traga a rima precisa de brinde
Dá-me um baloiço um esquadro uma vez
Algo que meça que oscile que seja
Uma surpresa o gesto que se beija
A última loucura que se fez
Dá-me um segredo uma cor uma uva
Algo que importe ou se cheire ou escorregue
(Mas não tropece nem ceda nem negue)
Por entre dedos ou gotas de chuva
Dá-me uma febre um papel uma esquina
Algo que rasgue ou se dobre ou estremeça
E que se esconda e mais tarde apareça
Sombra de vulto subindo a colina
Dá-me um arco que seja íris
Dá-me um sonho que seja doce
Dá-me um porto que tenha barcos
Dá-me um barco que nunca fosse
Dá-me um remo
Dá-me um prado
Dá-me um reino
Dá-me um verso
Dá-me um cesto
Dá-me um cento
Dá-me só
Um universo
Poema de Mário Domingos(Alien8)
terça-feira, novembro 23, 2010
Poetisas

Pintura de Mela Villalta
A este país, de Florbelas e Adílias?
Sem sequer saber sentir
Que nas nossas veias corre
Aroma de jasmins e buganvílias.
Sou passageira em viagem
Sempre em constante busca
Uma espécie de voragem
Uma estranha inquietação
Pouco me interessa quem chame
Se me sinto Gaspara Stampa
Irmanada na nudez e solidão.
Posso ser quem eu quiser
Fedra, Mariana ou só mulher
Auto-determinada para o Ser
Nesta errância da fatalidade.
Tenho assim por desígnio
Dolorosa e imensa tarefa,
Aperfeiçoar a arte de
Morrer Soror Saudade.
Não sem antes, ousar sonhar
Que sou Safo, que me corre
No corpo um frémito,
O coração bate apressado
Desfaleço e caio
E continuo a viagem
Sem ao fim ter já chegado.
Ah Soror Saudade,
Soror das Mágoas
Neste país a quem chamam
Das Adílias e Florbelas
Soubessem amá-las
E seria sim um jardim
À beira mar plantado.
Cheio das flores mais belas!
Poema de Arroba
quarta-feira, outubro 27, 2010
Os Poetas

Imagem Photobucket
Para que terei então chegado aqui"
Nuno Júdice
a poesia não é inútil!
inúteis são todos os poetas
porque ninguém conseguiu ainda entende-los.
inútil sou eu quando escrevo um poema
simples e cristalino
latejando de verdade
sofrendo nesta cidade tranquila.
inútil sou eu que clamo
a magia do poema feito
numa tarde inexplicavelmente quente de setembro.
inúteis são os sonhos decepados
as palavras gastas
os gestos inexpressivos.
inúteis são todos os poetas
porque ninguém quer
entende-los.
quarta-feira, outubro 06, 2010
Tomai e comei...

Óleo sobre tábua de Pieter Claesz
Turvam-se os caminhos. Mas do sangue
Apenas o que farejo no barroco empolgante de Coppola
Nos mistérios nocturnos da Transilvânia
Nas oníricas danças das Parcas
No mistério decadente dos vampiros
E no absoluto amor do conde de Drácula...
Fora esse
Apenas o sangue da fêmea com cio
Ou arrancado ao peito para alimento dos famintos
Ou o sangue selo secreto
Das cumplicidades da vida.
E o sangue abortado de uma flor vermelha
Ou o virginal rubor das manhãs sem nome
Que me entram pela janela...
Ou a ceifeira morta. Ou a papoila decepada...
Ou o vermelho da romã nos lábios febris do beijo
Primevo.
Fora esse
Apenas o sangue quente do vinho e do mel
Em que ondas me expludo e teimo
Longe de caminhos palmilhados...
Este o meu corpo: tomai e comei!...
de Heretico in Relógio de Pêndulo
sexta-feira, outubro 01, 2010
Concurso Literário

Informamos todos os interessados que está a decorrer o primeiro Concurso Literário – CONTO por CONTO organizado pela Alfarroba Edições, nas seguintes condições:
- limite 24 páginas, redigidas em tamanho A4, Arial corpo 12, espaço 1,5
- trabalhos apenas em língua portuguesa
- inscrições até 15 Dez 2010
- cinco primeiros classificados verão o seu conto publicado em livro pela Alfarroba
"Há a história do gato, do tio, da avó. A história da vizinha, da escola, do autocarro.
Todos os dias há histórias. As que nos acontecem e aconteceram. As que contamos aos nossos amigos e as que fazem apenas sentido lembrar.
E depois há as outras. As que deviam ou podiam ter acontecido. Mas apenas fazem eco nas nossas cabeças, brincando connosco.
Todas estas pequenas histórias merecem ser contadas. Ponto por ponto, conto por conto."
Outras informações aqui e aqui
Atreva-se a este desafio!
terça-feira, setembro 21, 2010
Vida

Pintura de Bernardus Johannes Blommers
"Capitão no seu posto"
Fez-se ao mar o marinheiro...
Ondinha vai, ondinha vem
O barco avança, vai mais além.
Lançou as redes o marinheiro,
Veio cardume bom e inteiro,
Peixe sadio e variado,
Mas, marinheiro, fardo pesado!
Ondinha vai, ondinha vem,
O barco avança, vai mais além.
Há vagas altas,
Há sobressaltos,
O barco balança,
Mas logo serena
Com a bonança,
Ondinha vai, ondinha vem,
O barco avança, vai mais além.
Não se desvia da sua rota.
Há muito mar para navegar,
Há muito peixe para colher,
Há horizontes por desvendar,
Há sol ao longe por descobrir,
Há onda e onda por florir...
Ondinha vai, ondinha vem
O barco avança, vai mais além.
Poema de Ibel (Maria Isabel)
domingo, agosto 15, 2010
Ilha

Imagem de Fabio Pallozzo
Há, no horizonte, uma ilha.
Na ilha, a voz distante de um clamor.
É de verde que se veste o coração. Expectante.
(Fechas os olhos e
encerras, no seu eixo,
o segredo de que ainda só
suspeitas.
Não sabes. Mas esperas.
E a luz, dentro deles,
revela o sonho que te conduz.)
No horizonte, uma ilha.
Nos teus olhos, o horizonte.
Poema de Susana Duarte in Terra de Encanto
quinta-feira, agosto 12, 2010
103 anos depois...
Miguel Torga
"Segredo" na voz de Luis Gaspar
SEGREDO
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
in "Diário VIII"
Nota: Para ouvir o poema desligar a música de fundo do Blogue, por favor.
sexta-feira, julho 23, 2010
... poema de amar

Fotografia de Alexander Flemming
gostava de fazer-te um poema de amar,
fazer um poema para te amar,
de fazer um poema ao amar-te.
porquê amar, amar-te a ti?
porque me amo mais por amar-te,
porque nos amo aos dois?
sim e não,
sim porque amar, é amar-te a ti.
não porque amar-te, não é amar.
porquê perguntar, perguntar-te a ti
e não a mim mesma?
sim e não, pergunto-te?
ontem sim, hoje não,
amanhã talvez?
talvez não ontem, como hoje
e talvez não amanhã.
mas amo amar-te,
e amava puder amar-te mais.
gostei de fazer-te um poema de amar,
fazer um poema para te amar,
um poema ao amar-te.
e ao amar-te, fiz um poema de amar.
e ao te amar, faço um poema para amar-te mais.
Poema de Luísa Azevedo
quarta-feira, junho 16, 2010
ausência

Imagem de Marta Dahig
À sombra da tua ausência
Repouso os meus olhos
Fechados, inertes
Vagueiam por mim
Procurando destroços
Em que despertes,
De repente…
Sei-te ausente,
- Mesmo…
Sei que não posso
esperar-te
- De todo…
Mas este vício
De aguardar-te
Prende-me como lama,
Lodo
Atrofiante, espesso…
E como nódoa
Entranhada
Permaneces como gesso
Colado à parede
Do meu afecto
Qual vinagre
Na minha sede
Qual erro
De tudo
Quanto em mim
Está certo…
Poema de Virgínia do Carmo
sexta-feira, maio 21, 2010
ASAS

Imagem de Fabio Pallozzo
Quando chegava o Verão
Sentavas-te
À tardinha
Debaixo da figueira
Onde a brisa
Suave
Anunciava
O rumor das cotovias
Então pegavas
Delicada
Na minha mão
E contavas
Baixinho
Era uma vez um potrinho
Que adormecia
Feliz
A ouvir
As histórias do vento...
Sentia-te perto
E o tempo
Adormecido
No cantar do ribeiro
Parava
Enlevado
Para nos ver
Assim eram os dias
No tranquilo Paraíso
Em que desenhavas
Minuciosa
O crescer das minhas asas
E eu sentia
Maravilhado
O vigor do teu voar.
Poema de AC in Interioridades
segunda-feira, maio 17, 2010
De novo... "portas" abertas!
Por algum motivo incompreensível a password de acesso foi bloqueada e os esforços que entretanto foram efectuados, inclusive por alguns Amigos da “casa”, tiveram os seus frutos: estamos de novo no “ar”.
Numa mensagem deixada no texto de 20 de Novembro, p.p. Bruno Pereira da Revista AlterWords dizia-nos o seguinte:

Revista AlterWords
“Numa altura em que muitos dizem que a Poesia vai perdendo espaço na literatura (o que espero bem que não aconteça porque a Poesia é algo muito português) apresentamos hoje um blog dedicado a publicitar a poesia portuguesa no espaço virtual.
Com poemas de boa qualidade é sem dúvida um bom blog para apreciar o que se vai fazendo em Portugal neste estilo.
O blog já leva 4 anos de existência e apesar dos objetivos mudarem mantém a tentativa de divulgação
"Há um mundo poetico por descobrir: autores publicados, ou por edição própria ou através de editoras, mas que por circunstâncias diversas, não são conhecidos do grande público; autores, igualmente, de grandes capacidades literárias, mas que nunca tiveram sobre si os flashes do sucesso" in www.portuguesapoesia.blogspot.com
esta é a publicidade que vai aparecer na Revista AlterWords Nr.13 porque blogs como este merecem. “
E assim aconteceu...
Na página 26 do nº. 13 da Revista AlterWords o nosso blogue com “capa” do Poema Colectivo postado em 29 de Janeiro último, Bruno Pereira dá a conhecer o nosso blogue Poesia Portuguesa com aquelas palavras de apreço.
Congratulando-me em nome do Poesia Portuguesa e de todos os que têm permanecido fiéis a este projecto, endereço o meu agradecimento à Revista AlterWords na pessoa do Bruno Pereira. Obrigada.
Um grande abraço a todos.
quinta-feira, fevereiro 18, 2010
360 graus de poesia
Não posso escrever poemas apenas com poesia. Poesia são sonos que vou dormir com o tempo que me resta até ser hoje. É poesia chegar ao fim do copo às vezes sem beber uma única palavra. Acrescentar mais uma hora à eternidade e entornar à tona da tua boca todos os desejos que sorvo quando não escrevo por ser de silêncio o tempo que te basta para ser feliz. São poesia corpos de água que peço ao céu para te embriagar com doses de esquecimento. São poesia sons que me ensurdecem pela garganta abaixo. Arcos de quem flecha uma janela no meio dum coração em pé de aços. Aguarelas de chuva que se fazem eco caindo em catadupa de duas gotas.
São poesia dardos em direcção ao oeste este incêndio à flor da pele este barco estes remos contra a maré estas asas este voo enevoado estes dedos de beliscar as estrelas depois das palavras. São poesia céus para voar transformados em obstáculo. Pontos cardeais que não chegam a nenhum poente. Caminhos de andar desnorteado entre o norte e o luar. Enxadas que descascam a paisagem. Sinais de fumo que nos atravessam em procissão poesia as fracturas de luz e traços de alegria e cores de azul. São de prosa as rosas do vento que nos revela até onde é infinito o sono que vamos levando aos poucos.
São de prosa.
A cama electrodoméstico de fazer metáforas quando a noite se enche de alma. A bússola que não me cura deste jeito imundo de apedrejar as palavras. O almoço que fica mais pequeno quando retiro metade para servir de jantar. O lavatório sujo de manhãs por esfregar. O pão duro matinal fora do alcance dos dentes. Os cigarros que perfumo como incenso. Doesse tudo isso como uma imperceptível bofetada de amor inscrita na face. Sou eu beijo ou inspiração boca a boca ao último verso. És tu a enlouquecer pouco a pouco horas acrescentadas no colo da eternidade. Somos nós corpo a corpo salpicados com um tiro de imaginação em papel de embrulhar sonhos.
Não posso escrever poemas apenas com poesia. Um dia não se cura de uma ferida para a outra e apenas saudade não basta para te esconder da minha ausência.
in ParadoXos
sexta-feira, janeiro 29, 2010
Poema Colectivo.
no centro
do coração
e que a voz
se erga
pulando a cerca da noite
em balidos de veludo
despertando sobre a areia
no aroma da aurora
um beijo
um beijo ao lado do coração
para depois o agarrar
na noite perdida e achada
sem nunca a voz derrubar
da boca nasce então um grito
nas mãos
cravos vermelhos
no coração
amor novo
nascido na madrugada
que aqui não chegou
nesta minha terra não se podia cantar
até que um cravo de liberdade
nos fez levantar e gritar
as vozes ergueram-se em uníssono
e um canto fizeram despertar
eis agora
no centro do cravo coração
alma de novo a pulsar
não pode perder a noção
não pode deixar-se calar
desperta voz do amor
desprende deste cravo
as notas suaves
mas graves
de arpejos quase sem dor
escuta
o olhar preso na miséria do povo
ouve o soldado poeta
de mãos a gemer
ejaculando ecos de raiva
com que bordava as estrofes
pressentindo em júbilo
que um abril havia de acontecer
e no perfil dum tempo a correr
atiram as palavras-mal-paridas
como balas abatendo os cravos que nasciam
no coração do poeta
olha os passos fardados
olha o ganir do medo
vampiros vorazes
procurando sugar o puro sangue
da madrugada
sem o tempo da aurora
que fazer
que fazer
deste tempo
daquele tempo
pára
pára tempo
tempo não pares
olha o futuro
futuro
onde
para onde
para ontem
para amanhã
porque hoje
não és porto de abrigo
cada um escolheu seu jardim florido
nos verdes sonhos da juventude que escoa
onde nossos filhos abraçarão
gaia
que lhes deixaremos como
terra queimada e desilusão
sabes
não me perguntes
como vivi o futuro
porque eu quero
sepultar o tempo
o passado é amanhã
e por ti vou esperar
nos silêncios gastos
enrolados nas areias
ansiando um tempo novo
serenos
aguardamos
o que somos
o que fomos
fruto da seiva
escorrida da terra ferida
de onde nasceram
cravos vermelhos
que ousaram
perpetuar o nome de
liberdade
direi então
mais do que nunca
um beijo
no centro
do coração e que a voz
se erga
ao nascer
da aurora
Imagem de Isabel Monteverde in Artista Maldito
Ideia original do Blogue Poemar-te
Isabel Monteverde,
Ana Paula Sena Belo,
Fátima,
BC-SLetras,
Vasco,
Desnuda,
Marta Vasil,
Betty Martins,
Menina Marota,
Poetaeusou,
Rosa Brava,
José Marinho.
(A versão em bruto (original) poderá ser vista no próprio Blogue)
quarta-feira, janeiro 13, 2010
Janeiro
Não chove nem faz sol na minha rua.
É a hora triste. Aquela hora morta
em que uma sombra nos espreita a porta
e pelas frinchas gastas se insinua.
Monótona e distante quer a lua
reflorir ao luar, na minha horta,
aquela cerejeira velha e torta
que há muitos anos amanhece nua.
Um cão sujo, faminto, vagabundo,
com ar de quem já sabe o que é o mundo,
para ali se ficou lambendo uns pratos…
Passa gente embrulhada em roupas velhas…
E sobre as casas, através das telhas,
A sinfonia bárbara dos gatos.
Fernanda de Castro in, Cidade em Flor
pág. 27/28 (1924)
sábado, dezembro 19, 2009
Natal...
Velho Menino-Deus que me vens ver
Quando o ano passou e as dores passaram:
Sim, pedi-te o brinquedo, e queria-o ter,
Mas quando as minhas dores o desejaram...
Agora, outras quimeras me tentaram
Em reinos onde tu não tens poder...
Outras mãos mentirosas me acenaram
A chamar, a mostrar e a prometer...
Vem, apesar de tudo, se queres vir.
Vem com neve nos ombros, a sorrir
A quem nunca doiraste a solidão...
Mas o brinquedo... quebra-o no caminho.
O que eu chorei por ele! Era de arminho
E batia-lhe dentro um coração...
NATAL, de Miguel Torga
terça-feira, dezembro 15, 2009
Criança eterna…
Vi nos voos dos pássaros
O entardecer escapar-se por entre
Os traços verdes do arvoredo.
Sob os olhos do anoitecer uma alma
Amparada no florir de um beijo
Em instantes de sol e doçura;
Um coração a sangrar por nada ter
Para dar e tudo perder e um homem
Que toda a sua riqueza consigo transporta.
E vi sombras de fogo num peito,
Uma alegria descontente em horas
Que são minutos quando dois corpos
Em seu leito se enamoram; e vi bolsos
De mar e de luz no desassossego
E em tudo vi a criança eterna…
Vi-me a mim.
De Alves Bento Belisário in, Inquietudes, pág. 38 (2005)
sexta-feira, novembro 20, 2009
Poesia Portuguesa...
Confesso, que foi um projecto que acarinhei com muita alegria desde o seu início, que me deu uma perspectiva maravilhosa da partilha que se faz neste mundo virtual.
O início deste projecto, tinha um objectivo que, infelizmente, não se concretizou por variadíssimas razões, incluindo a que muitos autores começaram a editar pessoalmente os seus trabalhos, o que me deixa muito feliz, porque nalguns dos casos, esta página serviu de incentivo para isso.
Mas existe um tempo para tudo e, o tempo da minha busca, por esse mundo internauta, cessou.
Mas, como não se esgota a Poesia Portuguesa na imensidade dos seus variadíssimos temas, de autores famosos, só conhecidos ou, simplesmente, desconhecidos, esta página continua, mas numa outra perspectiva, sem obrigatoriedades.
Há um Mundo Poético por descobrir: autores publicados, ou por edição própria ou através de editoras, mas que, por circunstâncias diversas, não são conhecidos do grande público; autores, igualmente, de grandes capacidades literárias, mas que nunca tiveram sobre si os flashes do sucesso.
São esses autores que pretendo trazer ao Poesia Portuguesa e, essa finalidade leva-me a pedir a vossa participação: se tem um livro de poemas de algum autor desconhecido de que gosta muito, remeta ao endereço Portuguesapoesia@sapo.pt com indicação do nome do autor, título do poema e do livro, bem como o número da página; poderá ainda, se o entender, enviar a capa do livro, que será ou não publicada, consoante a oportunidade de postagem.
É este o novo desafio que vos faço, não obstante esta página poder, do mesmo modo, partilhar poesia de autores consagrados, apesar de já disponíveis em muitos sites de poesia na blogosfera, dependendo das opções de escolhas.
A Poesia vive e viverá sempre no coração de quem a ama.
E a estrela perdeu-se na noite deserta...
Tentar procurá-la, para quê, se era em vão?
Deixaram-me em casa com a porta aberta.
Mas eu bem compreendo que estou em prisão.
Talvez que pensassem mal imaginário
a mágoa duns olhos em rosto bravio.
Mas eu bem me sinto peixe em aquário,
e sei a amargura de sonhá-lo rio.
Mas eu bem compreendo o cruel desalento
dos gestos frustrados, perdidos no ar.
Foi curta a mensagem, findou meu tormento.
E não vale a pena o que está por contar.
(Poema “Bandeira Branca” de Maria Manuela Couto Viana
in, antologia das mulheres poetas portuguesas, pág.s 179/180)
quinta-feira, novembro 05, 2009
Podia dizer-te...
Podia dizer-te como te vejo,
mas aquilo que os meus olhos vêem é pouco para dizer-te.
Vejo-te, é certo,
vejo-te como outros captaram nos olhos aquilo que decerto os meus também vêem nas vistas.
Ver é uma coisa para quem tem vistas
e não apenas para quem tem olhos.
E eu tenho vistas.
Às vezes são ouvidos, as vistas,
outras são mãos, ou esse odor que o meu corpo respira quando passas.
Ver-te, ver-te, ver-te...
só de te ver em verde meu coração se transformaria
ou se tu fosses uma rosa, uma rosa vermelha como o sangue
que se agarra aos espinhos.
Mas a vida é outra coisa, a vida é para quem tem olhos
e eu só tenho estas vistas.
Estas vistas cansadas dos escolhos dos abismos dos outros.
Vistas cansadas de te seguir na corrente onde mergulhaste.
Vistas exaustas por ter ficado ali, parado, a ver
e não a olhar.
Para onde,
para que mar?
Estou deitado na relva do jardim.
Ainda florescem rosas
e eu descanso a vista.
Poema de José Miguel de Oliveira
segunda-feira, outubro 05, 2009
Setembro já se foi, mas...
É uma metade de Lua
Desajeitada no céu.
Grito contínuo de esquecimento,
Nudez ao léu.
De novo estranhos.
Praia deserta, sem mais respostas
Nem límpidas mentiras
Em calorosos banhos.
O vento traz pétalas em forma de safiras.
Restos de festas evasivas
Convidam à recapitulação,
Ousada e pouco racional,
De escolhas emotivas dissuasivas.
O amor é uma rua abismal.
Fresca aragem sem aroma,
Adeus adiado e promíscuo
Cuja sede de eternidade
Constitui o maior sintoma.
Que ausência de fecundidade...
Que expressão pálida:
A estrada do Guincho
Coberta de cirros,
De vegetação árida.
O horizonte carece de navios.
Os olhos carecem de lágrimas,
Porque Setembro é um sentimento:
É uma metade de Lua
Desajeitada no céu.
Grito contínuo de esquecimento
– Nudez ao léu.
(Poema "Setembro" de D. B. Radou)
domingo, setembro 27, 2009
Asas do meu pensamento
Nas asas do meu pensamento,
Levito,
Procuro no ser espelhado de cada um,
O que me transforma e me alimenta,
Voo na direcção do que me complementa,
Conheço o desconhecido que me atrai,
Suspiro por um qualquer momento que divago,
Aspiro sentimento em tudo o que encontro.
Ave rara essa que voa sem rumo,
Rumo talvez encontrado,
Num qualquer momento que me apazigua,
Ave que pinta,
Que paira nas nuvens que encontra,
Que se delicia no vazio que preenche.
Indomável ser,
Que sou,
Que encontro no sonho,
A razão da existência,
E que na porta entreaberta,
Procuro um qualquer ser humano,
Rico no pensar,
Rico no sentir.
Rico em tudo o que abriga.
Poema de Renata Pereira Correia
sábado, setembro 19, 2009
Que aprendi eu
Que aprendi eu
-
Aprendi tudo o que do nada se faz grande
-
Deixei cair ferramentas
aos saberes a mim os moldei
na helicoidade temporal em que se fundem
-
Declinei títulos e graus honoríficos
a burocracia que impera
e não deixa ver
-
Canto e não canto
toco e nada toco
sei e nada sei
choro o que deixei
-
Pouco ou nada sou
na papelada que esqueci
nem cito
o que não vi
-
Que serei eu no que aprendi
-
Sou
-
Sou o que se vê
e cresce
neste lugar
-
Sou
o que do nada eu escrevi
e escrevo
e canto
e toco envolto em manto
-
Sou ou não sou
dizei-me em vosso espanto
-
Se não sou
o que é que é isto
Poema de Jaime Latino Ferreira
domingo, julho 05, 2009
O berço vazio

A Persistência da Memória, de Salvador Dali
Ao perto essa parede sempre branca
Caiada por um trapo de peneira
Cuidava dessa cal como quem canta
A retratar famílias, à lareira.
Nesse cuidado branco de quem espanta
Eu me revi e aos meus na erma eira.
Em outra aberta o ritual que encanta
O dar as mãos assim, junto à fogueira.
E foi então que descobri a tela
Um prego forte, um cravo por trás dela
Mãe vestida de negro, o olhar frio.
As mãos pousadas no regaço e um terço
Ajoelhada, com o olhar disperso
E ao lado um berço, esperança, mas vazio.
Soneto de José M. Barbosa
Breve nota:
Oportunamente comuniquei aqui a criação do Club de Poetas Vivos, um espaço que tinha a finalidade de juntar Poesia e Poetas e que conta, neste momento, com mais de 500 associados.
Contudo, problemas técnicos levaram-me a tomar a decisão de abandonar o CPV e o próprio Facebook.
Não foi fácil tomar esta decisão, diria até bastante penosa, mas ela foi tomada e aqui é assumida.
Grata a todos os que me deram a honra e privilégio de percorrer este caminho, que foi, contudo, bastante aliciante e me deu a coragem de levar esta ideia através do Roteiro Poético, pelo que estão convidados a uma “viagem” por aquele espaço.
Obrigada.
terça-feira, junho 23, 2009
Da dança

Pintura de Jacqui Faye
Concede-me por hoje apenas
Por um instante
Por um segundo
Por uma vez [que importa?]
Num rodopiar de verbos substantivos e acervos de lembrança
Os teus dedos [toca-me]
Os teus nervos [sente-me]
O borbulhar de sangue em tua aorta
O teu corpo
Contra
O meu corpo. Os meus nervos. Os meus dedos.
in Acto de entrega e fé.
A máscara que me oculta Não temas: é branca.
[O rosto que vendo, não vês, tem de ti secular arquivo:
Um alaúde toca em proximidade longínqua,
Estudante de Coimbra em serenata…
O Mondego ao fundo e Pedro e sua Inês…].
Concede-me a dança.
Passo a passo
Ponto a ponto
Num compasso miscigenado de fúria e calma: tango ou valsa.
Essência de fogo em ponta de lança. Ou espelho d’água.
Sou. Somos. És…
Poema de bonecadetrapo[em saltos altos]
segunda-feira, junho 15, 2009
Caída da vida
As chamadas redes sociais nunca me atraíram já que, a minha simpatia, vai para o mundo da blogosfera, pela forma intercultural de comunicação.
Quase a perfazer um mês (nasceu a 18 de Maio) com 284 membros efectivos, no Club dos Poetas Vivos pretende-se juntar todos aqueles que partilham o mundo literário, quer com as suas próprias palavras, quer com as dos outros.
É, igualmente, um local onde poderão dar "asas" à imaginação, publicando, interrogando, afirmando e partilhando tudo aquilo de que gostam.
Aderiram à administração deste projecto e a quem agradeço desde já a disponibilidade Isabel Maria Cruz, a Wind do WebClub, Carlos Peres Feio de Podiamsermais e Luís Pinto colaborador da Truca do Estúdio Raposa e de Queridos Gatos.
Neste sentido, os poemas aqui publicados passarão a constar no Club dos Poetas Vivos.
Obrigada a todos.

Marcha para o palpável
esta ilharga soprada
e crua que me acerba
os elementos.
Vida para trás, a razão
do ritmo abrasa-me o pensamento
exaltante. Faísca o tão poliglota
perfume do lume que alumia
em volta o corpo virado
do avesso, como se o crânio
deixasse o agir filtrado
pela luz do osso.
Vida para trás, miúdo para a frente,
junto ao sistema de atirar
o invólucro da mãe
ao casco granito choro
e adeus brotado conjugado
com o jogo do grito.
Fala à frente da saudade, olhos
em flecha atirada à conjugação
da palavra nunca. A vida move-se,
o viver pára onde o sujeito se divide
em inerências e arranques
atacantes à madeira fechada, ao granito
frio, ao corpo que era quente
de amor.
Há cada vez menos fenómenos de amor
no mundo.
******
Poema de pedro s. martins in escara voltaica
Imagem:Pintura Medieval de autor desconhecido
segunda-feira, maio 25, 2009
Silhueta
De forma a criar um ponto de encontro onde, igualmente, os poetas possam difundir as suas páginas e as suas palavras, nasceu o Club dos Poetas Vivos que está disponível a todos os que a ele queiram aderir.
Partilhe e divulgue.

Imagem de Fabio Pallozzo
A tua silhueta
De contornos suaves
Habita num frenesim
De momentos fugazes
Clepsidra inconstante
De regressos vorazes
Onde me perco e encontro
Em carícias mordazes
Paleta de tons esparsos
Que a natureza verteu
Num devir extemporâneo
Que agora cedeu
Sobressaem os contornos
Do corpo que é teu
Eternizado que está
Na candura do breu
(Poema de Helder in Letras do Imenso Desconhecido)
(desligar a música de fundo para ouvir o poema, p.f.)
Nota
quinta-feira, maio 14, 2009
"Um por todos, TODOS por UM"
Muitos têm sido os pedidos que, como se pode constatar, inclusive, nos comentários, de envio deste ou daquele poema por pessoas que, muitas vezes, até se mantêm nos comentários anónimas e que se servem de emails para os seus intentos.
Estando identificados todos os trabalhos aqui colocados com a indicação dos respectivos nomes e linkes dos autores é essa a resposta que dou sempre: “os pedidos deverão ser remetidos aos próprios autores que, se assim o entenderem, os remeterão.”
Cada um de nós é responsável. Todos somos responsáveis. Não poderemos ficar indiferentes porque o que hoje parece não nos afectar, amanhã poderá ser a nossa própria luta.
"Um por todos, TODOS por UM"

Imagem Google
Será que em alguma vez
Eu plagiei, sem querer?!
É a dança dos porquês
Que rondam o meu viver.
Se da rima me abeiro
Em constante explosão
É porque lhe sinto o cheiro
Que me rega a inspiração.
Mas de palavras sou fraca,
E de saber muito menos;
Não gosto de quem me ataca
Quando os erros são pequenos.
Se há plágio intencional
Deve ser denunciado
Porque o autor afinal
É que se sente lesado.
E quem por norma indica
A fonte e nome da obra
Bem consigo sempre fica
E nada então se cobra.
Mas quem deturpa o texto
E o valor cultural
É como roubar com cesto
Sem fundo intelectual.
Rosa Silva ("Azoriana")
terça-feira, abril 28, 2009
Nunca provoquei...

Imagem de Paul Alfred de Curzo
Nunca provoquei nenhum fogo que daí não
assumisse as reais consequências: os meus defeitos
são outros.
Nunca me queimei na dignidade de uma
fogueira nem nunca feri ninguém.
Muito pelo contrário.
Conservo, assim, o meu cadastro limpo,
imaculado e o orgulho redito de nunca ter traído
a verdade.
Assim me conservo só, conscientemente presa
às minhas verdades, às minhas promessas
enterradas na planície quente, num dia de
Outono para que o vento as não levasse.
Amo-te, oh se te amo, como sempre te amei
até ao fim dos nossos dias, quando formos apenas
pó numa caixinha de arroz
E estou pura. Digo-te.
Imaculada.
Assim os primeiros beijos que te dei
numa estrada sem sentido rumo aos mares
do sul da poesia. Caminho que hoje pisamos.
Até ao fim dos nossos dias.
Quente, como esta água de verão.
Pó, numa caixinha guardado.
(Poema de Maria Teresa Lopes in Uma Flor à Janela)
quarta-feira, abril 15, 2009
Sopro de Vida

Imagem de Victor Farat
Somos sombras
de qualquer coisa incerta
pedaços de vidro
num grito de alerta .
O toque de um piano
por trás de uma porta
um raio de luz
que sem querer corta
um golpe profundo
que toca na alma
temor escondido
que brinca na calma
e traz o sossego da vida agitada
fazendo uma dança na ponta da espada.
somos também
um sopro esquecido
de enorme alegria por termos vivido.
(Poema de Angelo Morgado in Realidades Imaginarias)
quinta-feira, fevereiro 19, 2009
Retorno

Pintura de Victor Farat
Retorno a um sonho de criança.
Eis que os meus dedos leves tocavam
A tua tão doce textura, suave lembrança
Da madeira fria ao meu toque enquanto viajavam
Pelas teclas livremente já sem medos nem receios
Apenas leves suspiros e anseios...
Cada toque retomava em mim um doce sentimento
Anos de tormento se apagaram
Pela magia que no espaço onde seu nome reflecte cada momento
Dos que por lá passam, foram e ficaram
Alma, planície que nasceste na mente de um sonhador.
Moldaste-te, cresceste, ganhaste forma em nosso redor
Que continues a ser espelho de uma mente
Que não tem receio de mostrar o que sente
Que a ti regressem as boas almas, puras de espírito
Que as acolhas como refúgio mesmo quando alguém está perdido
Alma tens em ti uma força que muitos sentem
Percebendo-a ou não, ficam os espíritos da paz
Encerras em ti um mistério tão grande quanto o do sonhador que te alimenta
Continua a ser o lar calmo e tranquilo
O porto de abrigo
De quem, de ti precisa, na tormenta
De quem a ti se entrega nas horas más
E de quem apenas passa e todos sentem.
Bem vindo, fica connosco, saremos teu tormento.
Aconchegamos-te neste momento
Partilha connosco tuas mágoas ou alegrias
Une-te; deixa uma vez mais a mente voar
Flutuar
Alegria encontrar.
(Poema de Mifá in Secret desire)
sexta-feira, janeiro 30, 2009
pálpebras

Imagem de Carole C.Oueijan
a minha,
a tua...
não havia gritos,
mas sussurros...
era noite!
o sonho nunca se misturou com o sono
ou o sono se misturou com o sonho.
não houve sono ou sonho, não houve pesadelo.
toda a noite os meus olhos abriram e fecharam.
pálpebras exaustas na tentativa de falar.
tímpanos doridos na tentativa de calar.
toda a noite...
não houve um minuto para silêncios.
os sussurros cansaram,
descansados.
toda a noite te ouvi a ti!
(Poema da Pin Gente)
domingo, janeiro 18, 2009
Terra

Imagem pessoal
Aqui te habito...
Tuas fúrias levam-me,
trazem-me...
surpreso da tua força,
tento reerguer-me,
numa fugaz luta desigual.
E tu sorris,
sorris sempre,
do que faço
para te agarrar,
não me fugires,
com esses outros,
também teus,
meus irmãos de rota,
nesta fragata
que nunca ancora,
que sempre voga,
e que de baixo de si,
ao seu ventre,
inadiável,
hei-de baixar...
(Poema de Jaime A.)
terça-feira, janeiro 06, 2009
O Mar… Tu e eu!
O poema que hoje vos trago foi-me enviado por uma leitora que quis manter o anonimato e pediu-me para o publicar, porque fazia anos de casada e gostaria de o dedicar ao marido Valdemar J…esclarecendo que "o poema não é dela, pois não escreve poesia, mas sim de alguém que gosta muito de ler e também comentar" .
Não pude ficar indiferente a este pedido. Sou uma romântica por natureza e estes momentos deliciam-me…
Parabéns a ambos.

Imagem que acompanhou o poema...
Neste poema, fora eu o mar,
E tu, nas minhas praias, uma fraga,
Eu vinha de mansinho para beijar
A tua face, como quem te afaga!
Quando na maré-alta, o mar alaga,
Me enfunava também, para te inundar!
Num abraço de amor, em terna vaga,
Lágrimas te deixando, ao recuar…
E naquele vaivém, constantemente,
Levava uns pedacinhos, docemente,
De ti, na mais afável erosão…
Sem se notar, milhares de anos depois,
O mar sereno, éramos nós dois,
Um todo só, na mais linda união.
(poema de Robinson Crusoe)
domingo, janeiro 04, 2009
FIM DE ANO

Imagem pessoal
São os meses
São os dias
as horas todas as vezes
Quantas depois
se iniciam
retornando ao seu alpendre
São os anseios
São o sonhos
a esperança e o devaneio
Quando o ano
no seu fim
torna ao começo em seu veio
Poema, por cortesia, de Maria Teresa Horta
Lisboa, 30 de Dezembro de 2008















