sábado, outubro 01, 2011

Traço sem nitidez para um Mar Incerto


Fotografia de José Rodrigues




"Lá não verá Inverno triste e escuro,
Não ventos, não tormentas, mão mudanças
Mas tudo quieto em Deos, tudo seguro."

In A Diogo Bernardes em resposta d’outra sua, Livro II, 34,75 de Pêro Andrade de Caminha



Inventados os nomes do Livro,
Refeito o traço em desenho de viagem
Aqui colocarei uma página de prata,
Ali adiante uma nuvem de fogo,
E mais além um mar desconhecido.

Criar é noção, é primeiro fingimento,
De cada [cousa] que toma o lugar;
“Não vento, não tormenta, não mudança”
Apenas dum pouco de céu
E duns restos de água e sal,
Comprimo em ar o vento,
Em corpo o mar.
E do Livro, o mundo invento
O improviso do tempo na sua passagem
De todas as almas meu corpo casa,
Dos passos nas ruas do improvisados becos
Meu sangue mesa,
Criação é réplica, é súplica, é fim
Do primeiro momento.

De regresso e partida, a viagem
De descanso o Livro que abandonado
Descansa o corpo exausto neste colchão,
Em concha em forma de estrado, de estrada
E aqui colocarei um lâmpada iluminada,
Ali adiante uma vela de cera salgada
E mais além, um vagabundo,
Mais um no mundo, ilusório pilar de vida,
Que trémula pedra gigante
Esta terra de pedintes.

De regresso e partida, os contrários
A imaginária rota quase corpo construído,
De certeza em certeza, a absoluta manhã
Que não conhecerá o dia.
Contrária é a ousada sabedoria,
De quem se diz alheio em alheio caminho
E na página em prata de desfaz a poeira,
Na nuvem de fogo a mão derradeira
E mais além, do momento o instante,
Breve corpo de chão tecto armário cadeira,
Aprendiz da letra segura, traço dum deus errante.

Se tudo é breve, tudo é mundo,
Tudo é caminho, um pouco de estrada;
Destino do ponto mais distante,
Do incerto fim, vaga letra vaga-lume
Vaga estante onde se pousam os rascunhos,
O amargo fruto que restou do primeiro
Dia. Deste projecto,
Que da cinza regressará ao nada.

Poema de
Leonardo B. in a barca dos amantes



Nota: Este poema inicia um "passatempo" que tem como objectivo a escolha do poema a ser gravado pelo Sons da Escrita e publicado no Youtube. A escolha do poema seleccionado para aquele efeito ficará a cargo dos comentadores.
A cada sábado será publicado um novo poema. No início de cada mês, será feita a selecção.
O mais comentado, ganha a gravação.
Um incentivo para aqueles que ainda fazem da Blogosfera um local de acesso à Poesia……

6 comentários:

Virgínia do Carmo disse...

Um poema imenso.
Profundo e transversal. Pleno.
Gostei imenso.

Um abraço

Poesia Portuguesa disse...

Caros Comentadores.
Por motivos obvios não são permitidos comentários anónimos.

Todos são livres de expressar a sua opinião, civilizadamente, mas desde que se identifiquem.

Obrigada.
Um abraço,

Leonardo B. disse...

[Faz sentido agradecer, faz sentido retribuir uma palavra, dez, cem mil, mesmo quando já nos faltam formas de não banalizar a palavra, o sentimento de gratidão. Mais que uma palavra, deixo]

Um grato e imenso abraço,
pelo acolhimento, pela divulgação, pela partilha!

Leonardo B.

marlene edir severino disse...

[Do breve, improviso do tempo,
tua poesia nessa rota,
intensa,
imensa, sempre!]

Abraço daqui, Leonardo

Marlene

Heloisa disse...

Simplesmente, SUBLIME!

ESTAO DE PARABENS O POETA E...A AMIGA E POETA, OTILIA MARTEL, PELA EXCELENTE (como sempre...)INICIATIVA!

OBrigada,minha Amiga, por me fazer chegar a informacao!

BEIJINHOS E MUITO SUCESSO!

Heloisa

Poesia Portuguesa disse...

Caros Visitantes e Comentadores, pela dificuldade de muitos dos visitantes que, sem serem da Blogosfera desejam comentar e tiveram, segundo queixas que me chegaram via email, dificuldade em o fazer, o Blogue continua com os comentários abertos a todos, incluindo, os que não se registam.

Convém salientar que os comentários por email, não são considerados.
Obrigada,

Cumprimentos,