domingo, março 03, 2013

Poeta atirado aos bichos

Pintura de John Landa

Meu amor:
Nem tu percebes ainda o bater
ansioso dos tendões nos afinados
motores bem mainatos passando a ferro
o capim debaixo das obscenas chapas
na maquilhagem embelezando
a escarlate as picadas.

E
tua ostra de chamas
cerra-me no seu íman de con-chá
palpitando as mornas pétalas do teu gerânio
um belo coiso de gemidos no tálamo
de capim onde alongamos os nossos
pesadelos em fragmentos
dispersos na mata à ferroada
dos insectos de obuses.

Porque
confesso-te, meu amor
não são bem propriamente o que eu desejo
estes pervertidos versos sem rima e sem nada
mas unicamente nacos fixes de um poeta
de carne em sangue no meio deste zôo
atirado aos bichos!

Poema de José Craveirinha (Moçambique)

2 comentários:

heretico disse...

saudades. é sempre um deslumbramento passar aqui.

beijos

Anónimo disse...

Poeta tão pouco divulgado que deveria merecer mais atenção. Gostei muito de ter encontrado aqui. Abraço
Daniel Ferreira Almeida