quarta-feira, maio 31, 2006

Momentos...

Gosto dos momentos em que deslizo por aqui...É dos poucos locais sem acesso a comentários onde permaneço fiel…e volto sempre, mesmo naquelas noites de insónia, quando busco alimento para a minha alma…esta noite, dormi com este quadro no pensamento…



pintura de Marta Mestre

"(come chocolates, pequena;
come chocolates!)"
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
...
o dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
...
... e o dono da Tabacaria sorriu.

(nacos de TABACARIA / 1928)

Júlio César in "Álvaro de Campos à QUARTA de cinzas"


Imagem do Júlio César daqui

segunda-feira, maio 29, 2006

O mundo completo


Imagem de Alex Krivtsov


Estes gestos de vento,
estas palavras duras como a noite,
estes silêncios falsos,
estes olhares de raiva a apertarem as mãos,
estas sombras de ódio a morderem os lábios,
estes corpos marcados pelas unhas!. . .

Esta ternura inventando desejos na distância,
esta lembrança a projectar caminhos,
este cansaço a retratar as horas!...

Amamo-nos. Sem lírios
sobre os braços,
sem riachos na voz,
sem miragens nos olhos.

Amamo-nos no arame farpado,
no fumo dos cigarros,
na luz dos candeeiros públicos.

O nosso amor anda pela rua
misturado ao buzinar dos carros,
ao relento e à chuva.

O nosso amor é que brilha na noite
quando as estrelas morrem no céu dos aviões.

(Poema de António Rebordão Navarro in "A Condição Reflexa")

sexta-feira, maio 26, 2006

O corpo do poema...


Desconheço a autoria da imagem

Vamos fazer um poema
suave
como a doçura da pele
ao toque.
Deixa soltarem-se as frases
leves
quais beijos à flor do corpo
quente.
Palavras ganhando ritmo
em mim
rimas que rolam loucas
por ti.
O poema a surgir completo
em nós.
Na busca do final perfeito
o grito,
sentir enfim pleno o corpo
do poema.

(Poema da Água Quente)

quarta-feira, maio 24, 2006

Próxima vez


Desconheço o autor da imagem

Da próxima vez,
Vou apostar na tua loucura,
Deitar por terra toda essa ternura,
Soltar-te as asas para não te esquecer.

Da próxima vez,
Vou libertar-te da minha verdade,
Vou dar-te força para tanta vaidade,
Olhar-te sempre sem nunca te ver.

Da próxima vez,
Vou desafiar a minha coragem,
Tirar paragens da nossa viagem,
Contar-te tudo o que quiseres saber.

Da próxima vez,
Vou sentir-te a cada segundo,
Deixar-te crer que vais mudar o mundo,
Mostrar-te o lado doce do meu ser.

(Poema do GNM)

segunda-feira, maio 22, 2006

Falaremos. Num murmúrio


Imagem de autor desconhecido


Falaremos. Num murmúrio.
Do pó de estrelas que semeámos
ao pentear os cabelos dos amantes.

Falaremos. Dos cometas que largámos.
Dos sóis que retirámos
do calor do nosso lume.
Das estrelas que tirámos
do céu e colocámos no mar.

Falaremos. Falaremos das outras.
Das que inventámos
nos sonhos ainda não sonhados
e ancoraremos
em céus por descobrir.

Falaremos sós.
Sorriremos fazendo nascer o sol
e partiremos.
Completos e cumpridos.

(Poema de Conceição Paulino - TMara
in As Tarefas Transparentes, editado em 1993)

sexta-feira, maio 19, 2006

Jogos no Parque...




O tempo pára feito luz desmesurada
sobrevindo no pinheiro
em vénia longa curvado à terra.
Foram ventos que o dobraram ou propósito
no coração da semente, germinando sonhos
de amor e cavalgadas?
Riem connosco os pardais. Olha-os de cima:
burel de penas, mendicantes, o vivo olhar -
que faz esta alegria
entre as sombras que há na terra?

Já se erguem do rio névoas,
mas sobre nós a luz
e persiste a boca manifesta.
O crescente não fulge ainda,
excepto no teu olhar que a lua circunda.
No mais tudo é solar, e o pinheiro
oferece o tronco a cabeleira em reverência
como se as coisas e as circunstâncias
se dispusessem porque um dia
viríamos juntos os dois.

(Poema de Soledade Santos aqui)


Imagem de autor desconhecido

quarta-feira, maio 17, 2006

Maio...




em que outro mês caberia
um dia só
do trabalho?
e do silêncio?

que outra lua seria
o branco de todas as noivas?

que outras cores se não todas
para maio
das papoilas?

de que outra mãe serias filho
Hermes?

(Poema de Luís Natal Marques)


Imagem de autor desconhecido

segunda-feira, maio 15, 2006

Maio sonhado



Que venha Maio
e traga nos dias a plenitude da terra,
renascer de promessas que Abril plantou!
Que seja então Maio,
cheiro de brisa suave que em si carrega
mil águas caídas no solo que secou!
Floresça Maio agora
nesta hora de bandeiras caídas no chão,
cravos desfraldados no tempo de outrora
e traga de novo
a força que sonhámos ter dentro da mão!


(Poema da Lique)



Imagem de autor desconhecido

sexta-feira, maio 12, 2006

Como um barco...



Como um barco assim cheguei
na calma ondulação das tardes
e a ti eu aportei...

E lento eu desfiz
a armação das velas e te amei
enquanto o sol brilhava...

E nas gotas que ficaram
nas curvas do teu corpo
dos suores de nós...

Reentrei firme e fundo
e nessas águas inventamos
o caminho para casa...


(Poema de Eduardo Leal)





Imagem de autor desconhecido

quarta-feira, maio 10, 2006

Mulher Maio...


Imagem de Margaret Ballif Simon


Bom dia minha amiga digo em Maio
És uma rosa à beira de um tractor
Neste campo de Abril onde não caio
A nossa sementeira já deu flor

Bom dia minha amiga, eu sou um gaio,
Um pássaro, liberto pela dor
Tu és a companheira, donde saio
Mais limpo de mim próprio mais amor

Bom dia meu amor estamos primeiro
Neste tempo de Maio a tempo inteiro
Contra o tempo do ódio e do terror

Se tu és camponesa eu sou mineiro
Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador


(Poema de José Carlos Ary dos Santos)

segunda-feira, maio 08, 2006

Um Poema em Maio...


Óleo de Diane Romanello


a noite quente de Maio
tem gente,
que nasceu das papoilas,
dos malmequeres, dos poentes.

Toda a gente tem camisa aberta, t shirt,
sorriso, ritmo, luz, uma brisa que sopra lentamente.

as palavras circulam, derretidas, na roupa, na mão contra a mão,
no afago do passo no passeio.

a lua espraia indolente a luz macia na festa na varanda dos vizinhos
defronte, até às tantas.

Há choupos, urzes, fetos e carvalhos no jardim lúdico da minha mente.
ribeiros, charcos, grilos e lençois brancos da minha memória na piscina.

Tudo diferente do jornal malicioso das notícias, dos concursos electrónicos de televisão, das bielas giratórias dos automóveis, dos irritantes casamentos milionários monárquicos, da estupidez, do hediondo, do rídiculo.

uma ideia na ponta do cigarro, uma letra no dedo mindinho, um trevo no desejo,
...um sono profundo...


um poema em Maio


(Poema de Constantino Alves*)



*(Autorizado pelo Autor e lido na Noite de Poesia de Vermoim, dedicada ao tema Cantigas de Maio)

sábado, maio 06, 2006

Maio...

Imagem de Barbara Mathews


falo-te em Maio do pão
dias de Abril que lá vão
em Maio por ter de ser algo maior que o viver
grita em Maio a Primavera
lamenta-se quem fica à espera
perdido na contradança de perder de si a esperança

e há sempre punhos cerrados contra muros de opressão
feridas as mãos de Maio
como se flores em desmaio
feridas as flores no chão
por temores alucinados e combates de uma vida
a combater pelo pão

mas chega já Maio ao mar de giestas descobertas
numa ânsia de crescer
que não se vende o amor
e mesmo as nuvens incertas tapam o Sol por temor
de que lhes morra o voar por não saberem crescer

e eu aqui a falar de pão neste Maio de espantar
dias de Abril que lá vão
e há tanto aí por crescer
e há tanto amor por amar
que o mar nem chega a secar por mais que o seque o Verão.

(Poema de Jorge Castro)


( lido na Noite de Poesia de Vermoim, dedicada ao tema Cantigas de Maio)

quinta-feira, maio 04, 2006

O corpo...


É pêssego
Tangerina
E é limão

Tem sabor a damasco
e a alperce

Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe

De maça guarda o pecado
e a sedução

Do mel
o açúcar que reveste

Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece

Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce

Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece

Devagar mexo sem tino
as minhas mãos

Provando de ti
o que de ti viesse

O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece

(Poema de Maria Teresa Horta in Só de amor,1999)


Imagem enviada por email, de autor desconhecido

terça-feira, maio 02, 2006

Maio... ou a Canção da Primavera...

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
pois que maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul,calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar,não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

(Poema de José Régio)

(Imagem de Luana Silence)