quinta-feira, setembro 28, 2006

Embriaguez


Imagem de Daniel Costa-Lourenço


O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.

É tudo o que temos,
Quando nos temos…

(Poema de db in mar.da.Palha)

13 comentários:

Teresa David disse...

Um erotismo terno atravessa todo o poema e mesmo a imagem. Bonito.
Bjs
TD

Passeando no Parque disse...

Um poema muito intimista e com a dose certa de erotismo.
Beijão pra vc

Nilson Barcelli disse...

Um belíssimo poema.
Vou ao mar da palha para ver mais.
Um beijo.

gaivotadaria disse...

Sentimentos arrebatadores são sempre vividos como se fosse a última vez...as palavras que os descrevem como estas de Daniel soam como acordes...
Estive a ver o blogue, gostei porque gosto de palavras simples,gostei porque é assim que eu gosto da poesia, sem grandes malabarismos, pura.

DE PROPOSITO disse...

'É TUDO O QUE TEMOS
QUANDO NOS TEMOS'.
A embriaguês é um estado de euforia em que se tem tudo, sem se ter nada. Funciona como um escape para alívio de tensões, para esquecer desaires amorosos, infortúnios e muito mais coisas.
Evidente que esta embriaguez é outra, é a embriaguez da doçura, da ternura, do querer sempre mais. No entanto não deixa de ser embriaguez e tanto uma como outra quando a nuvem se dissipa acordamos para a realidade.
Fica bem.
Manuel

antonior disse...

Gostei muito.
Precipícios que não acabam, são, por vezes, vidas inteiras. Acaba a vida e acaba o precipício?!Lugar ao Mistério.

Beijinhos

Samantar Mohi disse...

Já há um tempo que não dava aqui um pulinho...este poema agradou-me...as crónicas do nevoeiro de embriaguez e a paixão mergulhada em etanol...talvez para melhor conservá-la nos sentidos...

www.samantarmohi.blogspot.com
www.geracao-update.blogspot.com

Sandra Cardoso disse...

Muito belo este poema. Parabéns.

João Mãos de Tesoura disse...

Encontros furtuitos, certamente!
Já aqui não passava há uns tempos.
Vou retomar o hábito.
Abraço

Fernando Palma disse...

Curios: passei por aqui e descobri que seu post "embriaguez" tem tudo haver com o meu desta semana la no meu blog.

"sem bússola,"
um sentimento nunca usa bussula, ou mapa ou qualquer direção. Um sentimento simplismente vai...e não decora o caminho de volta.

abs!

antonio silva disse...

Viver por viver é cobardia
devemos enfrentar os perigos
e desviarmo-nos dos maus caminhos
tiunfará assim a coragem e ousadia.

antaubarsilva@mail.pt

Diogo Ribeiro disse...

"É tudo o que temos, quando nos temos". Mesmo...

Abraços, bom fim de semana.

In Loko disse...

E não é pouco quando damos e recebemos em... volúpia, em ternura, em entrega partilhada e consentida... sóbrios ou toldados tanto faz! Abraço.