sexta-feira, janeiro 29, 2010

Poema Colectivo.

Pintura de Üzeyir Lokman Çayci


um beijo
no centro
do coração
e que a voz
se erga
pulando a cerca da noite
em balidos de veludo
despertando sobre a areia
no aroma da aurora

um beijo
um beijo ao lado do coração
para depois o agarrar
na noite perdida e achada
sem nunca a voz derrubar

da boca nasce então um grito
nas mãos
cravos vermelhos
no coração
amor novo
nascido na madrugada
que aqui não chegou

nesta minha terra não se podia cantar
até que um cravo de liberdade
nos fez levantar e gritar

as vozes ergueram-se em uníssono
e um canto fizeram despertar

eis agora
no centro do cravo coração
alma de novo a pulsar
não pode perder a noção
não pode deixar-se calar
desperta voz do amor
desprende deste cravo
as notas suaves
mas graves
de arpejos quase sem dor

escuta
o olhar preso na miséria do povo
ouve o soldado poeta
de mãos a gemer
ejaculando ecos de raiva
com que bordava as estrofes
pressentindo em júbilo

que um abril havia de acontecer
e no perfil dum tempo a correr
atiram as palavras-mal-paridas
como balas abatendo os cravos que nasciam
no coração do poeta

olha os passos fardados
olha o ganir do medo
vampiros vorazes
procurando sugar o puro sangue
da madrugada
sem o tempo da aurora

que fazer

que fazer
deste tempo
daquele tempo

pára
pára tempo
tempo não pares
olha o futuro

futuro

onde

para onde
para ontem

para amanhã
porque hoje
não és porto de abrigo

cada um escolheu seu jardim florido
nos verdes sonhos da juventude que escoa
onde nossos filhos abraçarão
gaia
que lhes deixaremos como
terra queimada e desilusão

sabes

não me perguntes
como vivi o futuro
porque eu quero
sepultar o tempo
o passado é amanhã
e por ti vou esperar
nos silêncios gastos
enrolados nas areias
ansiando um tempo novo

serenos
aguardamos
o que somos
o que fomos
fruto da seiva
escorrida da terra ferida
de onde nasceram
cravos vermelhos
que ousaram
perpetuar o nome de
liberdade

direi então
mais do que nunca

um beijo
no centro
do coração e que a voz
se erga
ao nascer
da aurora


Imagem de Isabel Monteverde in Artista Maldito


Ideia original do Blogue Poemar-te


Participaram neste poema, com pequenos retoques do José Marinho, autor da ideia e igualmente participante:

Isabel Monteverde,
Ana Paula Sena Belo,
Fátima,
BC-SLetras,
Vasco,
Desnuda,
Marta Vasil,

Betty Martins,
Menina Marota,

Poetaeusou,
Rosa Brava,
José Marinho.

(A versão em bruto (original) poderá ser vista no próprio Blogue)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Janeiro

Pintura de Carlo Carrà


Não chove nem faz sol na minha rua.
É a hora triste. Aquela hora morta
em que uma sombra nos espreita a porta
e pelas frinchas gastas se insinua.

Monótona e distante quer a lua
reflorir ao luar, na minha horta,
aquela cerejeira velha e torta
que há muitos anos amanhece nua.

Um cão sujo, faminto, vagabundo,
com ar de quem já sabe o que é o mundo,
para ali se ficou lambendo uns pratos…

Passa gente embrulhada em roupas velhas…
E sobre as casas, através das telhas,
A sinfonia bárbara dos gatos.


Fernanda de Castro in, Cidade em Flor
pág. 27/28 (1924)