terça-feira, maio 24, 2016

O QUE SEI DE POESIA

Um texto provavelmente longo, para quem aprecie leituras breves... 
Mas vale a pena ler todo o seu conteúdo.


Desenho de Jason Morrow


O QUE SEI DE POESIA

Não sei falar de literatura. Não sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei que a poesia não se explica, a poesia implica, como costuma dizer a minha amiga Sophia de Mello Breyner. Sei que a energia, como diz o meu amigo Herberto Hélder, é a essência do mundo e que “os rit­mos em que se exprime constituem a forma do mundo". Sei, como o poeta russo Mandelstam, que "escrever é um acontecimento cósmico". E que cada palavra é um pedaço de universo. Ou como dizia Klebnikov: "Na natureza da palavra viva, esconde-se a matéria luminosa do universo." Talvez tudo isto seja a poesia. Ou talvez ela não seja mais do que o primeiro verso, aquele que nos é dado, como sempre dizia Miguel Torga, porque os outros têm de ser conquistados. Talvez tudo esteja nesse primeiro verso, que é o instante da revelação e da relação mágica com o mundo através da palavra poética. Talvez o poeta, afinal, não seja muito diferente daquele sujeito que vemos nas tribos primitivas, de plumas na cabeça, repetindo palavras mágicas enquanto dança e pula ao ritmo de um tambor. O poeta é esse feiticeiro. Dança com palavras ao som de um ritmo que só ele entende. Ou é talvez o adivinho. 

Como já não pode ler nas vísceras das vítimas, procura decifrar os sinais dos tempos através de múltiplos sentidos ou dos semi-sentidos da palavra. De qualquer modo, como nas sociedades primitivas, que tinham uma concepção mágica do mundo, o poeta de hoje é como esse xamã antigo que, através da repetição rítmica de palavras e imagens, convoca as forças benfazejas ou tenta exorcizar as forcas maléficas.

A poesia é, assim, antes de tudo, uma forma de medição. Um presságio do sul, como diz o meu amigo José Manuel Mendes. Uma encantada, encantatória e desesperada tentativa de captar a essência do mundo e de, através da palavra, "mudar a vida", como queria Rimbaud. Uma forma de alquimia. Que procura o impossível. Ou seja: o verso que não há.

A poesia é também a língua. E para mim a língua começa em Camões, que tinha uma flauta mágica. 

A música secreta da língua. A arte e o ofício da língua e da linguagem.. Nem foi por acaso que Dante chamou a Arnaut Daniel "il migiior fabbro". O poeta, dizia Cioran, "é aquele que leva a sério a linguagem". E o que é levar a sério a linguagem? Eu creio que é estar atento aos sinais. Os sinais mágicos da palavra. Os sinais da essência do mundo que por vezes se revelam na palavra poética. Ou talvez o duende e aquela ferida de que falava Lorca. Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve "sonidos negros". É então que a poesia acontece.

Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais.


Manuel Alegre, in “Obra Poética”,
a págs 903/904 (2000)




(Texto escrito e lido durante uma sessão consagrada a "Trinta Anos de Poesia” na Faculdade de Letras da Universidade Católica de Viseu, Maio de 1996)

6 comentários:

Graça Pires disse...

Maravilhoso texto do Manuel Alegre. E quem falaria melhor sobre poesia?
Um beijo MM.

Thalita Leandra disse...

"É então que a poesia acontece"

Thalita Leandra disse...

"É então que a poesia acontece"

Anjopoesia Anp disse...

Poesía é vida, em tudo e por tudo existe poesia...parabéns pelo Blog

Jose Leite disse...

Poesia no seu melhor... até na prosa... jose manuel leite sá - rouxinoldebernardim.blogspot.com

Rosa Lía disse...

Bom texto sobre a poesía, é isso e muito mais! Rosa Lía