Pintura de Alice Candeias
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila).
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fonte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo.
Caem, Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem!
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...
(Poema de Camilo Pessanha)
domingo, fevereiro 19, 2006
Branco e vermelho...
10 comentários:
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Cumprimentos,
o mestre que«ensinou a sentir veladamente».Gosto tanto dele que dei ao meu blogue o nome de Ao longe os barcos de flores...Parabén pelo seu blogue, que é de excelência
ResponderEliminarDesconhecia este poema por completo. Mas o adorei.
ResponderEliminar[Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!]
Meu Deus, de que alma sairam estas palavras? Belo.
Parabéns pelo seu Blog é muito belo mesmo!
Sónia Azevedo
Não conheço a obra de Camilo Pessanha, nem conhecia este poema. É um pouco longo, sim, e contém uma amálgama de sentimentos e emoções entranhados em cada verso…
ResponderEliminarVermelho, cor de sangue...cor da vida :)
ResponderEliminarBjx
Como consegues? :D
ResponderEliminarMagnífico! ;)
Um poema maravilhoso. Sem palavras.
ResponderEliminarVê lá as coincidências! Ainda ontem assisti a um concerto-teatro na Sociedade Guilherme Cossoul, baseado nesse poema. E hoje encontro-o aqui. Foi muito agradável lê-lo assim. :)
ResponderEliminarBeijinhos
Gosto muito de Camilo Pessanha:) beijos
ResponderEliminarParabéns pela divulgação. Uma maravilha.
ResponderEliminarÓscar Saraiva
uma partilha maravilhosa, consegues sempre trazer algo de magnifico
ResponderEliminaramei reler
beijinhos muitos
lena