Num campo de papoilas
O meu sonho
Num oceano frio
O teu olhar
Nas areias da praia
O teu cabelo às ondas
No vento do deserto
O meu amar
Na curva do caminho
O teu ar sério
No cume da montanha
O meu querer
Numa cidade à noite
O teu mistério
Num vale de espera cor-de-nada
O meu sofrer
Nas asas de uma pomba
As mãos com que te afago
Na palidez da Lua
O teu sorrir
Numa noite sem estrelas
O teu sono
Num rio impetuoso
O meu sentir
Num lago gelado
A minha mágoa
Numa manhã cinzenta
O teu torpor
O teu desejo
Numa poça d´água
Numa terra distante
O meu amor
Num prado verdejante
A minha esperança
Numa ilha deserta
A minha solidão
Num livro em branco
Meu sonho de criança
Numa história de Amor
A minha inspiração...
Poema e Imagem de Berenice
sexta-feira, junho 16, 2006
Percurso
quarta-feira, junho 14, 2006
Pintor
Se eu fosse pintor
Pintava-te nua
Com minhas mãos trémulas
Misturava as cores em pinceladas desiguais
Perdia-me tacteando
Nas curvas redondas de teus seios
Entre a linha do horizonte e o por do sol.
Mas porque não sou pintor nem tenho jeito
Quero que me perdoes se te usei, no pensamento
Ou ousei desnudar-te, e ver-te assim exposta entre o sol e o horizonte
E profanado as curvas de teus seios
Neste fim de tarde do Outono que termina.
O meu amor por ti ou a ausência do teu por mim
São algo que não se confessa mas se sente
Sei que te usei, modelo em nu artístico
Porque sonho contigo
Sei que és a desculpa do meu sonho instituído
Por isso, se fosse pintor
Pintava-te nua de cabelos ao vento…
Poema de Lobo do Mar
Imagem de Tiago Estima
segunda-feira, junho 12, 2006
Carta ao Amigo...

Imagem daqui
Olá, Amigo, resolvi escrever-te
só para dizer que não há nada de novo.
Olha, saí, meti-me no carro
e chegando ao semáforo seguinte
vi o mesmo pedinte
com que há anos deparo.
Dei-lhe uma moeda de vinte.
Na fila de trânsito,
vi as mesmas caras agressivas
por dentro dos vidros embaciados.
Sorrisos não vi, nem expressões vivas:
só olhares cansados.
Também quis entrar no café,
mas era tal a fumaça lá dentro
que achei melhor adiar o momento
e fugi dali a sete pés.
Deu-me para comprar o jornal,
mas também não sei para quê:
já ontem, na TV, disseram tudo igual.
Parece que o principal
é que caiu um avião no Mar do Norte.
Mas olha, tiveram sorte:
dos noventa só morreram vinte e tal,
incluindo um doente de Sida, por sinal,
a quem já tinham lido a sentença de morte.
Os pais do rapaz até deram graças
por ele ir de repente
e não o verem mais pela casa
a morrer lentamente.
Das famílias dos outros vinte e tal
é que não sei o que disseram,
não vinha no jornal,
talvez não tenha sido tão sensacional.
Como vês, vai tudo normal.
Passei ali pelos arredores
e lá estavam os arrumadores
à porta do Centro Comercial
a arrumarem os senhores doutores.
Também estavam uns ciganos vendedores
discutindo com eles um espaço vital
para estenderem no chão uns cobertores
onde exporem o material.
Mas apareceu um carro da polícia
e debandaram todos por igual.
Enfim, virão tempos melhores.
De saúde, olha, vou assim-assim,
uns dias pior, outros menos mal.
Que se há-de fazer? É fatal.
E assim cheguei ao fim.
Como vês, não há nada de especial.
Fica bem, ou, pelo menos, tu também,
menos mal.
(Poema da Aspásia)
sexta-feira, junho 09, 2006
Tango
Imagem do Ognid
Dança comigo uma dança latina.
Qualquer uma.
vermelha
quente
sensual.
Apenas nós numa pista de dança
madeiras velhas
candeeiros quebrados
ambiente vermelho
orquestra decrépita.
Deixa-me agarrar-te
guiar-te os passos
rodopiar contigo
dobrar-me sobre ti
suspender o tempo
quase beijar-te.
Recomeçar
e repetir
até que os nossos corpos
suados de desejo e de cansaço
rubros do esforço
nos obriguem a parar.
(Poema do Ognid)
quinta-feira, junho 08, 2006
Um Amor Libertador...
Resolvi partilhar...
Vou-to contar:
(Autor: Anónimo)
segunda-feira, junho 05, 2006
Ser, sentindo...
Monte da Lua - Óleo de JP
Sei de um lugar,
Onde o mundo acaba, onde as terras desabam,
Onde o rio se abre ao mar
Sei um sentir,
Entregar-se ao abraço, aliviar o cansaço
Mas saber deixar-te partir...
Pois sei de cor os teus silêncios
E sei de cor o teu olhar
Ser livre e leve na certeza,
No teu laço ser princesa das histórias
De encantar...
(Poema da Princesa)
sexta-feira, junho 02, 2006
Outras Águas...
Amarás o pássaro
cantando.
Amarás a lua
respirando
sobre o corpo das mulheres
e das cidades.
Amarás a curva delicada
no adeus da folha do salgueiro
a caminho do Outono.
Não hesites.
Ama em cada instante
a música que nasce e nunca voltará.
Este é o teu destino:
branco sobre branco.
Água deslizando
a caminho
de outras águas.
Poema de José Fanha
quarta-feira, maio 31, 2006
Momentos...
pintura de Marta Mestre
"(come chocolates, pequena;
come chocolates!)"
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
...
o dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
...
... e o dono da Tabacaria sorriu.
(nacos de TABACARIA / 1928)
Júlio César in "Álvaro de Campos à QUARTA de cinzas"
Imagem do Júlio César daqui
segunda-feira, maio 29, 2006
O mundo completo
Imagem de Alex Krivtsov
Estes gestos de vento,
estas palavras duras como a noite,
estes silêncios falsos,
estes olhares de raiva a apertarem as mãos,
estas sombras de ódio a morderem os lábios,
estes corpos marcados pelas unhas!. . .
Esta ternura inventando desejos na distância,
esta lembrança a projectar caminhos,
este cansaço a retratar as horas!...
Amamo-nos. Sem lírios
sobre os braços,
sem riachos na voz,
sem miragens nos olhos.
Amamo-nos no arame farpado,
no fumo dos cigarros,
na luz dos candeeiros públicos.
O nosso amor anda pela rua
misturado ao buzinar dos carros,
ao relento e à chuva.
O nosso amor é que brilha na noite
quando as estrelas morrem no céu dos aviões.
(Poema de António Rebordão Navarro in "A Condição Reflexa")
sexta-feira, maio 26, 2006
O corpo do poema...
Desconheço a autoria da imagem
Vamos fazer um poema
suave
como a doçura da pele
ao toque.
Deixa soltarem-se as frases
leves
quais beijos à flor do corpo
quente.
Palavras ganhando ritmo
em mim
rimas que rolam loucas
por ti.
O poema a surgir completo
em nós.
Na busca do final perfeito
o grito,
sentir enfim pleno o corpo
do poema.
(Poema da Água Quente)
quarta-feira, maio 24, 2006
Próxima vez
Desconheço o autor da imagem
Da próxima vez,
Vou apostar na tua loucura,
Deitar por terra toda essa ternura,
Soltar-te as asas para não te esquecer.
Da próxima vez,
Vou libertar-te da minha verdade,
Vou dar-te força para tanta vaidade,
Olhar-te sempre sem nunca te ver.
Da próxima vez,
Vou desafiar a minha coragem,
Tirar paragens da nossa viagem,
Contar-te tudo o que quiseres saber.
Da próxima vez,
Vou sentir-te a cada segundo,
Deixar-te crer que vais mudar o mundo,
Mostrar-te o lado doce do meu ser.
(Poema do GNM)
segunda-feira, maio 22, 2006
Falaremos. Num murmúrio
Imagem de autor desconhecido
Falaremos. Num murmúrio.
Do pó de estrelas que semeámos
ao pentear os cabelos dos amantes.
Falaremos. Dos cometas que largámos.
Dos sóis que retirámos
do calor do nosso lume.
Das estrelas que tirámos
do céu e colocámos no mar.
Falaremos. Falaremos das outras.
Das que inventámos
nos sonhos ainda não sonhados
e ancoraremos
em céus por descobrir.
Falaremos sós.
Sorriremos fazendo nascer o sol
e partiremos.
Completos e cumpridos.
(Poema de Conceição Paulino - TMara
in As Tarefas Transparentes, editado em 1993)
sexta-feira, maio 19, 2006
Jogos no Parque...
O tempo pára feito luz desmesurada
sobrevindo no pinheiro
em vénia longa curvado à terra.
Foram ventos que o dobraram ou propósito
no coração da semente, germinando sonhos
de amor e cavalgadas?
Riem connosco os pardais. Olha-os de cima:
burel de penas, mendicantes, o vivo olhar -
que faz esta alegria
entre as sombras que há na terra?
Já se erguem do rio névoas,
mas sobre nós a luz
e persiste a boca manifesta.
O crescente não fulge ainda,
excepto no teu olhar que a lua circunda.
No mais tudo é solar, e o pinheiro
oferece o tronco a cabeleira em reverência
como se as coisas e as circunstâncias
se dispusessem porque um dia
viríamos juntos os dois.
(Poema de Soledade Santos aqui)
Imagem de autor desconhecido
quarta-feira, maio 17, 2006
Maio...
em que outro mês caberia
um dia só
do trabalho?
e do silêncio?
que outra lua seria
o branco de todas as noivas?
que outras cores se não todas
para maio
das papoilas?
de que outra mãe serias filho
Hermes?
(Poema de Luís Natal Marques)
Imagem de autor desconhecido
segunda-feira, maio 15, 2006
Maio sonhado
Que venha Maio
e traga nos dias a plenitude da terra,
renascer de promessas que Abril plantou!
Que seja então Maio,
cheiro de brisa suave que em si carrega
mil águas caídas no solo que secou!
Floresça Maio agora
nesta hora de bandeiras caídas no chão,
cravos desfraldados no tempo de outrora
e traga de novo
a força que sonhámos ter dentro da mão!
(Poema da Lique)
Imagem de autor desconhecido
sexta-feira, maio 12, 2006
Como um barco...
Como um barco assim cheguei
na calma ondulação das tardes
e a ti eu aportei...
E lento eu desfiz
a armação das velas e te amei
enquanto o sol brilhava...
E nas gotas que ficaram
nas curvas do teu corpo
dos suores de nós...
Reentrei firme e fundo
e nessas águas inventamos
o caminho para casa...
(Poema de Eduardo Leal)
Imagem de autor desconhecido
quarta-feira, maio 10, 2006
Mulher Maio...
Imagem de Margaret Ballif Simon
Bom dia minha amiga digo em Maio
És uma rosa à beira de um tractor
Neste campo de Abril onde não caio
A nossa sementeira já deu flor
Bom dia minha amiga, eu sou um gaio,
Um pássaro, liberto pela dor
Tu és a companheira, donde saio
Mais limpo de mim próprio mais amor
Bom dia meu amor estamos primeiro
Neste tempo de Maio a tempo inteiro
Contra o tempo do ódio e do terror
Se tu és camponesa eu sou mineiro
Se carregas no ventre um pioneiro
Dentro de ti eu fui trabalhador
(Poema de José Carlos Ary dos Santos)
segunda-feira, maio 08, 2006
Um Poema em Maio...
Óleo de Diane Romanello
a noite quente de Maio
tem gente,
que nasceu das papoilas,
dos malmequeres, dos poentes.
Toda a gente tem camisa aberta, t shirt,
sorriso, ritmo, luz, uma brisa que sopra lentamente.
as palavras circulam, derretidas, na roupa, na mão contra a mão,
no afago do passo no passeio.
a lua espraia indolente a luz macia na festa na varanda dos vizinhos
defronte, até às tantas.
Há choupos, urzes, fetos e carvalhos no jardim lúdico da minha mente.
ribeiros, charcos, grilos e lençois brancos da minha memória na piscina.
Tudo diferente do jornal malicioso das notícias, dos concursos electrónicos de televisão, das bielas giratórias dos automóveis, dos irritantes casamentos milionários monárquicos, da estupidez, do hediondo, do rídiculo.
uma ideia na ponta do cigarro, uma letra no dedo mindinho, um trevo no desejo,
...um sono profundo...
um poema em Maio
(Poema de Constantino Alves*)
*(Autorizado pelo Autor e lido na Noite de Poesia de Vermoim, dedicada ao tema Cantigas de Maio)
sábado, maio 06, 2006
Maio...
Imagem de Barbara Mathews
falo-te em Maio do pão
dias de Abril que lá vão
em Maio por ter de ser algo maior que o viver
grita em Maio a Primavera
lamenta-se quem fica à espera
perdido na contradança de perder de si a esperança
e há sempre punhos cerrados contra muros de opressão
feridas as mãos de Maio
como se flores em desmaio
feridas as flores no chão
por temores alucinados e combates de uma vida
a combater pelo pão
mas chega já Maio ao mar de giestas descobertas
numa ânsia de crescer
que não se vende o amor
e mesmo as nuvens incertas tapam o Sol por temor
de que lhes morra o voar por não saberem crescer
e eu aqui a falar de pão neste Maio de espantar
dias de Abril que lá vão
e há tanto aí por crescer
e há tanto amor por amar
que o mar nem chega a secar por mais que o seque o Verão.
(Poema de Jorge Castro)
quinta-feira, maio 04, 2006
O corpo...
É pêssego
Tangerina
E é limão
Tem sabor a damasco
e a alperce
Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe
De maça guarda o pecado
e a sedução
Do mel
o açúcar que reveste
Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece
Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce
Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos
Provando de ti
o que de ti viesse
O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece
(Poema de Maria Teresa Horta in Só de amor,1999)
Imagem enviada por email, de autor desconhecido


