quarta-feira, outubro 05, 2005

Trova do Vento que Passa


Imagem de Norberto Martini


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

(Poema de Manuel Alegre)


- dedicado ao Luís Oliveira -

24 comentários:

Luís Oliveira disse...

Menina Marota

Obrigado por tamanha gentileza.
O poema dele é lindo como todos o são, além de que direccionados.
Mas neste país, talvez valha a pena recordar, também, os cantores ed Abril e, entre eles, o Zé Mário Branco, qunado ele diz:
"houve aqui alguém que se enganou".
Jinhos

Xavier Zarco disse...

Nada melhor - no dia em que se assinala a Implantação da República - do que "ouvir" a beleza poética de Manuel Alegre, que agora partiu para uma nova aventura: a defesa da própria essência republicana.

Anónimo disse...

**Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

[...]
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.**

Digamos NÃO àquilo que o primeiro ministro nos quer impingir!
Digamos não a um Cavaco que não soube auxiliar o PSD a ir para o poder
Digamos sim a Manuel Alegre!!!*****

Bjocas

Dina

AmigaTeatro disse...

Um dia disseram-me que há coisas que não se comentam, nomeadamente a Poesia. Esta deve ser sentida e quando é, de facto, boa é muito difícil comentá-la!

...

:)*

AmigaTeatro disse...

Ahh,
e adorei o verde da imagem!!! ;)

lobices disse...

...venho agradecer e retribuir a amável visita... :)*

Paula Raposo disse...

Um verdadeiro poeta, Manuel Alegre, não me canso de o dizer, já o disse noutros comentários...poderoso e imortal, como um poeta deve ser! Beijos

Mitsou disse...

Agradeço a visita e descubro um oásis de poesia na aridez prosaica dos dias que correm. Este é um dos poemas que mais me toca. Um beijinho e bem hajas por isso.

susana disse...

um dos meus poemas favoritos sem duvida........


abraço,
pastora de estrelas

lazuli disse...

descobri-te:)

José disse...

Mais um blog descoberto, mais um blog a visitar. Parabéns pelo blog e pela lembrança deste poema de M. Alegre, que tão bem retrata anos fascistas.

batista filho disse...

Fico por cá, a beber desses versos maravilhosos e o tempo passa de leve, deixando marcas como só o versejar da melhor qualidade consegue deixar.
Grato.

Elise disse...

cara poesia, passa no crepúsculo e diz-me que música queres. encontrei várias.

abraços :)

Vagabundo disse...

é o espelho de Manuel Alegre, um grande poeta e um resistente.

Abraço Vagabundo

Maria do Céu Costa disse...

Um poema que transmite uma resistência. Beijinhos.

lualil disse...

Ah o Manuel que nos torna também alegres!
lindo!
beijos

Sulista disse...

Mais beijitos
...já lá passei no outro síitio...
At+e breve! mt work agora mas no fds falamo0s melhor :-)

Vota bem! ehehehehe falamos entrtantto...

Abraço Grande!

Cristina disse...

Mais um lindo poema
:)
beijinhuuu

Daniel Aladiah disse...

Querida PP
Das mais lindas daquele que pode vir a ser o presidente da junta.
Um beijo
Daniel

Su disse...

gostei muito e faz bem lembrar que:
"há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não"
jocas maradas

Bárbara disse...

Olá. Encontrei por acaso o teu blog e gostei muito do facto de dares importancia à poesia portuguesa. Daí nada mais apropriado do que te aqui deixar um poema do Miguel Torga. Diga-se um dos maiores poetas portugueses.

Tantum Ergo

"Meu Deus: aqui, onde não chega o teu amor,
É tudo igual
Ao teu gesto de desprezo...
A Vida não tem sentido,
E o próprio sol que nos mandas
Nem regela nem aquece!
Nem a cor da tua força
Parece!...

Tudo lembra
A inútil persistência
Dum rio a correr pró mar:
O mar nunca fica doce...
(Ah! se o teu amor viesse,
Outro tanto mar que fosse!...)

Assim,
Dizem que não vale a pena...
Apenas luto eu, por ser Poeta
E ser teu inimigo desde o berço!...
Os outros,
Caídos pelos caminhos,
Nem são homens, nem são nada!
São apenas, cada um,
Aquela tua lastimosa ovelha
Tresmalhada..."

O Outro Livro de Job - Miguel Torga

Este poema está postado no meu blog se tiveres curiosidade...

Desculpa a extensão do comentário.
Espero que gostes e já agora vou passar por cá de vez em quando=p

Adryka disse...

Adorei o poema que saudades tenho de o ouvir, até sorri ao o ler. Beijinhos

O Turista disse...

Grande poema...
:)
Adorei relê-lo...

Raquel V. disse...

Como a Su, as duas últimas frases...