A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São a minha biografia e são meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas
Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada
(Sophia de Mello Breyner Andresen in Poema)
domingo, abril 30, 2006
Neste ultimo dia de Abril... Poema...
quarta-feira, abril 26, 2006
Canto para os teus nomes
Muitos nomes te dei:
amiga
mar
chuva caindo
odores de terra e espuma...
dei-te nome
de paz que achamos em nós
nome com gosto a amoras
na tua boca
Primavera
casa
exílio
porto sem amarras
aonde me fundeio
Chamei-te chuva
chamei-te lume
chamo-te calor
Teus nomes
permanecem
no teu rosto
em qualquer distância
Teus nomes
onde vivo projectado
(barro moldado como imagem)...
Na bruma da memória
te construo
oleiro que sou nas horas vagas
meus dedos
desenham-te as feições
dizem o teu nome
um nome só para ti
secreto e único
nome de qualquer ausência
mais presente.
Um nome das horas sós
quando tu estás.
(Poema Jorge Esteves)
Imagem enviada por email, de autor desconhecido
terça-feira, abril 25, 2006
Homenagem...
Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido
Aquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite
Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício
Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse
(Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
Dedicado a Salgueiro Maia)
segunda-feira, abril 24, 2006
Oh! Liberdade!
Dedicado à Milu e ao José Gomes, pela sua força e espírito combativos…

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver; do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor.
Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies de capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor.
Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor.
Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor.
Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!
(Poema de Xanana Gusmão-1998)
Imagem de autor desconhecido
sexta-feira, abril 21, 2006
Ode à Paz...
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego,
dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves Outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
(Poema de Natália Correia)
Imagem de autor desconhecido
quarta-feira, abril 19, 2006
As Portas que Abril Abriu...
Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
(Excerto)
(Poema de José Carlos Ary dos Santos)
(Leia aqui o Poema completo)
segunda-feira, abril 17, 2006
A poesia de Abril...
Porque de Abril todos nós colhemos um pouco…e, nesse pouco, temos que olhar o Futuro…
É Abril que vos deixo…
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
(José Carlos Ary dos Santos in "O Futuro")
Imagem enviada por email, de autor desconhecido
sexta-feira, abril 14, 2006
A todos...

Aguarela de Marcos Milewski
Com o teu passo lento
Como se de água se tratasse
Aos meus lábios peregrinos
Ávidos de amor e de paz
Mostraste
Que a noite também tem brilho
E pelas espadas de fogo
Da voz se abrem caminhos
Indicaste
O amargo doce dos sonhos
Da transmutação dos ciclos
Que a Terra consigo traz
E quando
No seio das águas deslizo
No círculo da chama me fixo
Do deserto provo o sal
Entendo o canto
Suspenso
No pêndulo do tempo
No suave olhar da brisa
E esse sentir em menina
Que perdura sereno
Nos laços de um sorriso
"Esse sentir... em menina"
(Poema da Amita)
quarta-feira, abril 12, 2006
Palavras...
Imagem de autor desconhecido
O mundo é de palavras.
Tudo muda,
As palavras ficam.
Escritas, gravadas, impressas,
Decoradas, transmitidas, floridas,
Doces, agressivas, rudes, compreensivas,
Meigas, brutas, cínicas, honesta,
Maldosas, inocentes,
Concretas, incoerentes,
Gritadas, cantadas, surdinas,
De amor ou de ódio,
Sinceras, fingidas,
No campo e no pódio
Na rua, na cama,
De longe, ao ouvido,
Agudas ou cavas,
O Mundo é Palavras.
Não tenho mais palavras.
(Poema de João Norte)
segunda-feira, abril 10, 2006
Esta magia é redonda...
Óleo sobre tela de Nela Vicente
Esta magia é redonda
como aquela aguarela ali adiante que salpica de verniz açucarado
o albergue de mil folhas de cetim.
É azulada como a saia do pastor. Não tem segredo nenhum.
Esta magia vem do fundo do mar
E traz com ela a sapiência do valor.
Revela a ilustração absurda,
A limpidez da travessia,
O escuro do luar.
Esta magia vem do fundo do mar.
Cheira a jasmim, rosas e bergamota.
Faz-me corar.
Empalideço quando a escuto,
Reconheço que tem razão: é fruto da minha imaginação!
(Poema da Azul)
sexta-feira, abril 07, 2006
Verbo amar...
Pintura de Freydoon Rassouli
Há um verbo que eu quero em abundância
Dizer hoje e sempre, na vida inteira,
(Fazê-lo suavemente, qual fragrância)
Na singular pessoa que é a primeira!
Um verbo que quero ouvir com muita ânsia,
Como se a hora fosse a derradeira,
Que o digas apartada de arrogância
E ao dizê-lo a alma seja verdadeira.
Há um verbo que quero no presente,
Como se ouvido no tempo passado
Não tivera o mesmo som a acolhê-lo:
Porque o amor no passado está ausente.
Pois que me vale a mim ter sido amado
Se hoje não sinto, nada, estar a sê-lo?
(Poema do JL aqui)
quarta-feira, abril 05, 2006
... poema de amor...
"Misterios de una luna" by Claudia Olivos
Anda…
Segue-me
Persegue-me
Envolve-me
Com um lenço de seda
Projectado pela retina inflamada do desejo
Anda…
Olha para o que não tocas
Anda…
Passo a passo a meu lado
Contorce-te ao som dos meus gemidos
Numa noite gélida, sobre o céu azul-escuro
Anda…
Ama-me
Anda…
Olha-me nos olhos
Anda…
Beija-me os lábios pintados de rubro inflamado
Anda…
Amassa-me em cornucópias de abraços apertados
Anda…
Cola-me ao teu corpo suado
Anda…
Tira-me o folgo
Anda…
Num labirinto feito de seda,
Deslizar, trocar o olhar, que nos ilude.
Num labirinto feito de seda,
Dispo-me
Esfrego-me
Confundindo-te com a seda.
Alimento a alma sequiosa do limiar que nos separa
A retina perdida,
Numa conjunção de traços dispersos sobre a pele desfeita
Num labirinto feito de seda,
Danço para ti
Num labirinto feito de seda,
Vergo-me a ti
Num labirinto feito de seda,
A eternidade do meu amor
Rodopia em círculos invisíveis
Até te alcançar.
Anda…
Dá-me a mão
Fecha os olhos
Anda…
O labirinto feito de seda chama por nós
Anda…
Dá-me os lábios para saborear
As mãos para que elas toquem no fundo da minha alma
No fundo do poço…
Aquele poço em que te queres perder
Ele não tem fim
É um cair eterno dentro de mim
Anda…
O labirinto não tem fim, nem principio
Ele é feito dos nossos corpos nus…
O labirinto chama por nós
Anda…
(Poema da Nadir in Unus Mundus)
segunda-feira, abril 03, 2006
Oferenda...
"The Offering" by Joop Frohwein
Dei-te meu corpo de lua
E desejos de viagem
Fiz a noite sempre tua
Dei-te meu corpo de lua
Dei-te o barco e a coragem...
Dei-te o mar da existência
E uma vida de aventura
Do sol a incandescência
E a mim, presente-ausência
Da saudade que tortura...
Dei-te meu corpo de bruma
Nos brocados do anil
Aragem, coisa nenhuma
Dei-te meu corpo de bruma
Nas alvoradas de Abril!...
(Poema Abril de Maria Mamede aqui)
