sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Identificação

Pintura de Zhaoming Wu


Sei quanto me queres porque te quero
e queremo-nos ambos com ardor.
Esperas-me também porque te espero
e nessa espera aumenta o nosso amor.

Eu vejo à minha frente os teus desejos
no brilho dos meus olhos reflectidos,
e sinto nos meus lábios os teus beijos
despertando-me todos os sentidos.

Eu leio nos teus versos os meus versos
e ao ler-te tenho esta visão suprema
de ver fundir-se os nossos universos
na imensa galáxia de um poema.

E sem te ter eu tenho-te ao meu lado
e tu, que estás distante, estás tão perto,
que acabo por dormir sempre acordado
no berço do teu colo em que desperto.

Que este amor, meu Amor, é mesmo assim
e o que parece ser contradição,
não é mais, afinal, que a afirmação
de que eu só sou quem sou porque és em mim.

(Poema de
Fernando Peixoto in Arca de Ternura)

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O Silêncio da Noite


Pintura de Fulvio de Marinis


Começo a noite ao teu lado!
Entras nos meus sonhos
e espero por ti nas palavras
que se acendem
no fogo de uma noite inextinguível,
no desespero dos labirintos
onde sinto a solidão da sede,
nos minutos de noites intermináveis…

A porta ficou aberta,
nada te impede de transpor o limiar.
Há um desejo que te empurra
como se fosses um corpo inabitado
buscando a luz de um sim, que respira
a voragem da tua nudez completa.

Chegas! Rompeste a névoa,
Trespassaste a hegemonia da sombra,
com palavras nuas na solidão da noite,
com o fulgor de um começo puro,
com a fragrância dos teus olhos matinais.

É este o tempo que temos!
Dias que serão breves momentos
de um silêncio que tem voz…
Tempo de dar vida aos sentimentos
que pulsam em de cada um de nós!...

(Poema de
Albino Santos in Poemas de Amor)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Virás

Pintura de Peter Nixon


Virás solene e belo
com o brilho da prata
e o verde dos limos
e a maciez das pétalas
e a ternura inconfessada
dos guerreiros.

Sorrirás pelos trilhos da alva
desviando as facas
domando as fúrias
do meu descaminho.

Perguntarás:
Mulher quem és agora?
Lavarei as mãos
nos meus ribeiros
para nelas beber a tua voz.

Não te responderei
antes do anoitecer
quando o meu corpo
se esquecer do cardo
e se fizer o lírio.

Aguardarás sereno
como uma prega
na espádua do tempo.

A hora chegará
de retalhar as cordas
e atravessar o espelho
e apagar o lume
na casa da montanha.

Só então te direi:
Sou a pedra de canto
do sítio que habitavas.
Meu nome um monossílabo
como tu como eu
como chão como céu.

(Poema de
Licínia Quitério in O Sítio do Poema)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Nevoeiro

Imagem daqui


Há quanto tempo
não escorrem lágrimas
e riem as pedras
no longo caminho percorrido?

Há quanto tempo
não choram as calçadas
e gritam inanimadas
as flores do jardim aqui?

Já me esqueci.

Foi há tanto tempo
que me perdi por aí,
sem lágrimas, sem risos,
sem gritos e só
no frio nevoeiro de ti.

(Poema de
Paula Raposo)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Dias

Fotografia de Nelson d'Aires



dias de espera
nas tardes frias.
transportam o passaporte
dum tempo indiferente.

ignoram a sede
que humedece um corpo
e, caminham ébrios
nos corredores da memória.

dias soltos
em outras paisagens.
gritos de gente,
num segredo cúmplice

aromas de glicínias
na penumbra do silêncio sólido,
horas gigantes e mal contadas
nas palavras pululantes.

dias sem rosto,
roubados ao lixo fingido,
ao ardor dum tempo restrito
diferentes de um passado mudo.

dias longos, na viagem do corpo
num sorriso que ainda dura!

(Poema de Lena Maltez in
Cabana de Palavras)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Teia...

Imagem daqui



Teci uma teia
Com gotas de orvalho
O sol reluzia imenso...

Indolente enleou-se
Pelos misteriosos fios
Ávida de fome e de sede
Quis sentir a felicidade
Num ímpeto de loucura.

Viajei sem parar.
Tudo era perfeito;
Envolvi-me inteira.

A transparência desbotou-se
Suavemente….
Caí… levantei…

No silêncio e sabedoria
Rompi os fios mal cerzidos
Colados pela fantasia .

Lavei o rosto com orvalho
Libertei as amarras;
Sonhos, ilusões... é passado.
Levanto voo…a alma desprende-se
Encaro a realidade.

Caminho, sorrindo, pisando firme
No ventre da terra fria.


É a minha vida!


(Poema da Singularidade)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Cantai ainda

Pintura de Diva Teresinha Canassa



Cantai ainda, sob as árvores
à beira rio, entre noite e dia.

Que as chuvas vos acordem
num dilúvio
de gestos feitos de alegria.

A fresca madrugada
se abra à luz
sonora e alada.

E que seja brando o vento
dos dias caindo devagar
sobre o teu rosto

de olhar, por fim, a terra amada
à luz do sol resplandecente

na pura harmonia do poema.

(Poema de
Vieira Calado)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Deixa-me ser o teu presente

Tendo recebido vários pedidos de publicação, de um poema dedicado ao dia de S. Valentim, mais conhecido por Dia dos Namorados, a minha escolha recaiu num poema que a Pi gentilmente me cedeu...
Fotografia de Carlos Silero


Deixa-me… deixa-me ser tua
cerrar os olhos e sentir o sabor
da partilha nos meus lábios
acorrentados aos teus

Deixa-me ler-te como se fosses
uma brochura que reconheço
sem tão-pouco virar
as páginas revividas de tão lidas

Deixa-me perdurar no que não dizes
pois eu sei
recordar o teu feitiço
mesmo que nem esboces um sorriso

Deixa-me esculpir a ferro e fogo
tudo o que em ti existe
ou em raios laser
cinzelar-te completo para mim

Deixa-me… deixa aconchegar-me
toda em ti, sentir-te tão perto
tão meu, tão conivente que no futuro
ninguém nos possa separar
Deixa-me… deixa-me ser o teu presente
(Poema da 
Piedade Araújo Sol)


...e que dedico a todos os Apaixonados

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Passo a passo...

Fotografia de Nuno Sousa



Passo a passo, cãibra doce e perpétua.
Ganho corpo de estrada, vincada de sulcos,
de esgares, de solturas de gritos, de rubros....
A roupa que trazes e que eu queria segurar perpétuamente.
O hálito como que a procurar a cama;
o teu hálito como que a provocar o drama,
solto.
Solto-te mas receio que me perca;
perco-me mas receio que te encontre.
Descubro esta cidade que não se escreve
nem se deixa escrever,
nem se julga poeta, dissidente das palavras;
ainda que por exaustão se encarregue de as desenhar letra a letra.
Seguro o teu nome encaixilhado;
seco o teu nome,amanso-o, aliso-o...
Nada me consola.
Nada me separa desse ter-te resumidamente nos dedos.

(Poema de
SombrArredia)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Concerto para os peixes que habitam os meus sonhos

Imagem de autor desconhecido




O som dos grilos é estonteante
e o marulhar junta-se
nesta orquestra de cio
estranha atitude
destes insectos que migraram
dos campos prenhes de rubras papoilas
para virem escutar os peixes
é caótico este momento de êxtase
em que a lua nua de luz
se mostra em toda a sua nudez muda e excitante
porque toda a natureza desperta
da letargia que o verão
provoca
trazendo cheiros distantes
e persistentes
porque
as narinas fremem
de desejo fundeado
neste mar
onde campeiam espumas
e o que resta de nós
servirá de repasto
aos pássaros loucos



(Poema de Rogério Saviniano Telo
Traz Outro Amigo Também)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Há quem diga

Fotografia de Luís Lobo Henriques



Há quem digaque o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizemque um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.

(Poema de Nilson Barcelli in
NimbyPolis)



Nota: O Poesia Portuguesa passará a publicar na sua versão original, ou seja, às segundas, quartas e sextas-feiras.
Um abraço a todos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Poema felino...


Imagem dos Queridos Gatos


Sou gato.
Que terror!
Faça lá o favor,
De não ser fatalista!
Sou gato.
Gato preto, bem preto.
E vivo como um senhor,
Neste mundo,
Que a todos, nos desafia...

Sou gato.
Gosto muito de minha cor,
Quando de toda a ninhada,
Minha mãe a viu pintada,
No terceiro gato que dela nascia,
Deu-me com todo o amor,
Uma inesquecível lambidela,
Que na minha memória de gato,
Me ficou ela gravada,
Para o resto de minha vida!

Sou Gato Preto.
Assumido.
Que presunção,
É a minha!
Mas se vos intimida a cor.
Olhem-me para os olhos,
Que vos espreitam agora,
De forma tão tranquila.
São vivos,
Atentos,
Em permanente expectativa.
A cor?
O Verde da esperança,
Já viram?
Tenho a certeza que vos inspira,
Muito mais autoconfiança.

E neste instante de partilha,
Faço eu meu auto-retrato,
Que por princípio, eu não queria.
Sou gato.
Mas que mistério...
Tanto silêncio me vem desse lado,
Fale-me agora de si,
Pois eu sou como todo o gato,
Que se preza de o ser,
Muito curioso.
Venha daí agora com muita auto- estima,
Aquilo que de si também me fala,
Sua bela fisionomia!

Poema de Beatriz Barroso in
Porosidade Etérea