quarta-feira, abril 26, 2006

Canto para os teus nomes


Muitos nomes te dei:
amiga
mar
chuva caindo
odores de terra e espuma...
dei-te nome
de paz que achamos em nós
nome com gosto a amoras
na tua boca
Primavera
casa
exílio
porto sem amarras
aonde me fundeio
Chamei-te chuva
chamei-te lume
chamo-te calor
Teus nomes
permanecem
no teu rosto
em qualquer distância
Teus nomes
onde vivo projectado
(barro moldado como imagem)...
Na bruma da memória
te construo
oleiro que sou nas horas vagas
meus dedos
desenham-te as feições
dizem o teu nome
um nome só para ti
secreto e único
nome de qualquer ausência
mais presente.
Um nome das horas sós
quando tu estás.

(Poema Jorge Esteves)


Imagem enviada por email, de autor desconhecido

terça-feira, abril 25, 2006

Homenagem...






Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse


(Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen
Dedicado a
Salgueiro Maia)

segunda-feira, abril 24, 2006

Oh! Liberdade!

Falar de Liberdade, é também falar de Timor…
Dedicado à Milu e ao
José Gomes, pela sua força e espírito combativos…



Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver; do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor.

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies de capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor.

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor.

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor.

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

(Poema de Xanana Gusmão-1998)

Imagem de autor desconhecido

sexta-feira, abril 21, 2006

Ode à Paz...



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego,
dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves Outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

(Poema de Natália Correia)


Imagem de autor desconhecido

quarta-feira, abril 19, 2006

As Portas que Abril Abriu...


Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.

Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.


Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.

Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.

Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.

Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.

Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.

(Excerto)

(Poema de José Carlos Ary dos Santos)
(Leia
aqui o Poema completo)

Imagem de autor desconhecido

segunda-feira, abril 17, 2006

A poesia de Abril...

…fala-me de Liberdade… de Ser… de Sonhar… de Existir…
Porque de Abril todos nós colhemos um pouco…e, nesse pouco, temos que olhar o Futuro…
É Abril que vos deixo…



Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.

(José Carlos Ary dos Santos in "O Futuro")


Imagem enviada por email, de autor desconhecido

sexta-feira, abril 14, 2006

A todos...


Aguarela de Marcos Milewski


Chegaste
Com o teu passo lento
Como se de água se tratasse
Aos meus lábios peregrinos
Ávidos de amor e de paz

Mostraste
Que a noite também tem brilho
E pelas espadas de fogo
Da voz se abrem caminhos

Indicaste
O amargo doce dos sonhos
Da transmutação dos ciclos
Que a Terra consigo traz

E quando
No seio das águas deslizo
No círculo da chama me fixo
Do deserto provo o sal
Entendo o canto
Suspenso
No pêndulo do tempo
No suave olhar da brisa
E esse sentir em menina
Que perdura sereno
Nos laços de um sorriso

"Esse sentir... em menina"

(Poema da
Amita)






quarta-feira, abril 12, 2006

Palavras...


Imagem de autor desconhecido


O mundo é de palavras.
Tudo muda,
As palavras ficam.
Escritas, gravadas, impressas,
Decoradas, transmitidas, floridas,
Doces, agressivas, rudes, compreensivas,
Meigas, brutas, cínicas, honesta,
Maldosas, inocentes,
Concretas, incoerentes,
Gritadas, cantadas, surdinas,
De amor ou de ódio,
Sinceras, fingidas,
No campo e no pódio
Na rua, na cama,
De longe, ao ouvido,
Agudas ou cavas,
O Mundo é Palavras.

Não tenho mais palavras.

(Poema de João Norte)

segunda-feira, abril 10, 2006

Esta magia é redonda...


Óleo sobre tela de Nela Vicente


Esta magia é redonda
como aquela aguarela ali adiante que salpica de verniz açucarado
o albergue de mil folhas de cetim.
É azulada como a saia do pastor. Não tem segredo nenhum.

Esta magia vem do fundo do mar
E traz com ela a sapiência do valor.

Revela a ilustração absurda,
A limpidez da travessia,
O escuro do luar.

Esta magia vem do fundo do mar.

Cheira a jasmim, rosas e bergamota.
Faz-me corar.
Empalideço quando a escuto,

Reconheço que tem razão: é fruto da minha imaginação!

(Poema da Azul)

sexta-feira, abril 07, 2006

Verbo amar...


Pintura de Freydoon Rassouli


Há um verbo que eu quero em abundância
Dizer hoje e sempre, na vida inteira,
(Fazê-lo suavemente, qual fragrância)
Na singular pessoa que é a primeira!

Um verbo que quero ouvir com muita ânsia,
Como se a hora fosse a derradeira,
Que o digas apartada de arrogância
E ao dizê-lo a alma seja verdadeira.

Há um verbo que quero no presente,
Como se ouvido no tempo passado
Não tivera o mesmo som a acolhê-lo:

Porque o amor no passado está ausente.
Pois que me vale a mim ter sido amado
Se hoje não sinto, nada, estar a sê-lo?

(Poema do JL aqui)

quarta-feira, abril 05, 2006

... poema de amor...


"Misterios de una luna" by Claudia Olivos


Anda…
Segue-me
Persegue-me
Envolve-me
Com um lenço de seda
Projectado pela retina inflamada do desejo
Anda…
Olha para o que não tocas
Anda…
Passo a passo a meu lado
Contorce-te ao som dos meus gemidos
Numa noite gélida, sobre o céu azul-escuro
Anda…
Ama-me
Anda…
Olha-me nos olhos
Anda…
Beija-me os lábios pintados de rubro inflamado
Anda…
Amassa-me em cornucópias de abraços apertados
Anda…
Cola-me ao teu corpo suado
Anda…
Tira-me o folgo
Anda…
Num labirinto feito de seda,
Deslizar, trocar o olhar, que nos ilude.
Num labirinto feito de seda,
Dispo-me
Esfrego-me
Confundindo-te com a seda.
Alimento a alma sequiosa do limiar que nos separa
A retina perdida,
Numa conjunção de traços dispersos sobre a pele desfeita
Num labirinto feito de seda,
Danço para ti
Num labirinto feito de seda,
Vergo-me a ti
Num labirinto feito de seda,
A eternidade do meu amor
Rodopia em círculos invisíveis
Até te alcançar.
Anda…
Dá-me a mão
Fecha os olhos
Anda…
O labirinto feito de seda chama por nós
Anda…
Dá-me os lábios para saborear
As mãos para que elas toquem no fundo da minha alma
No fundo do poço…
Aquele poço em que te queres perder
Ele não tem fim
É um cair eterno dentro de mim
Anda…
O labirinto não tem fim, nem principio
Ele é feito dos nossos corpos nus…
O labirinto chama por nós

Anda…

(Poema da Nadir in Unus Mundus)

segunda-feira, abril 03, 2006

Oferenda...


"The Offering" by Joop Frohwein


Dei-te meu corpo de lua
E desejos de viagem
Fiz a noite sempre tua
Dei-te meu corpo de lua
Dei-te o barco e a coragem...

Dei-te o mar da existência
E uma vida de aventura
Do sol a incandescência
E a mim, presente-ausência
Da saudade que tortura...

Dei-te meu corpo de bruma
Nos brocados do anil
Aragem, coisa nenhuma
Dei-te meu corpo de bruma
Nas alvoradas de Abril!...

(Poema Abril de Maria Mamede aqui)

sexta-feira, março 31, 2006

Fim de semana, com amor e alegria...

Imagem da Isabel Filipe


Traz-me lírios e malmequeres
Meu amor, quando voltares,
Traz-me ramos de rosas
e túlipas aos pares.

Traz flores que encham,
todas as jarras vazias
do nosso lar.

Traz contigo
beijos e carinho
Em forma de presente.

Em troca,
pinto um quadro
em forma de jardim,
Os dois passeando de mãos dadas
E tu sorrindo para mim.



( Poema da Clitie aqui)

quarta-feira, março 29, 2006

escuto o cantar do vento...


louco o vento
no sopro vibrante da melodia

cantou agitado
bailou nas folhas outonais

sóbrio
impertinente
flutuou nos sonhos

despertou preguiçoso
no jejum do dia
saudando a branca manhã

sem peso renova-se
sem medos, sem sustos
sopra no coração

poderoso e livre
torna a doce brisa amarga

engana de frente ou pelas costas
em gritos esfumados
arrasa cruel sem se deter

quebra pela força
a beleza da vida presente

(Poema e Imagem da Lena in Cabana de Palavras)

sábado, março 25, 2006

Porque…precisamos de Amigos para Viver…

Quem não sai da sua casa
Não atravessa povos, montes, vales,
Não vê as cenas bíblicas das eiras,
Nem mulheres de infusa, equilibradas,
Nem carros lentos, chiadores,
Nem homens suados,
Quem vive como o insecto cativo no seu redondel,
Cria mil olhos para nada...
Irene Lisboa

... eu saí da minha... e fui aqui ter... e trouxe comigo estas palavras...

Imagem daqui


Amigo!
apetece gritar ao mundo
ir por aí dizer a toda a gente
Dizer que não é tarde
que vale a pena esperar
amar e crer
sorrir e no sorriso dar-se
A hora sempre chega!
E, então..
o ribombar da tempestade
é doce sol nascendo
luz filtrando-se nos bagos da chuva
o sol, o firmamento
as terras, os mares
o trinado dos pássaros
o coaxar das rãs
o rugido das feras
o rumorejar do vento nos sobreiros
a calma do sorriso
o soluço no choro
é vida...vida!
A alma volteia em passos de dança
loucos, muito loucos.
Vestiste-a de brancos folhos, Amigo!
e ela rodopia
dança, dança, dança...
escorrega aqui, mas logo retoma
na mais louca das danças
ao ritmo voluptuoso da Alegria pura!
Ouve, Amigo,
Ouve!
És tu quem colocou na pauta
o dó , o ré, o mi...
as notas todas!
És tu, Amigo quem conduz a minha alma
quem doira de luz o salão
onde ela rodopia!

Debruçado nos prados, nos vales, nas montanhas
nos ribeiros, nas fontes
na vastidão do mar
na imensidão do espaço...
és tu... Amigo...

Poema da Seila

terça-feira, março 21, 2006

A todos os Poetas... este Dia...


Pintura de Almada Negreiro



Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho ás palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce á rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.



(Ary dos Santos in Original é o Poeta)

segunda-feira, março 20, 2006

A Morte do Poeta...

Imagem de autor desconhecido



Espalham-se os guardas, as milícias
e vibram as sirenes estridentes.
Pelas ruas farejam cães-polícias:
procuram o Poeta entre as gentes.
Todos sabem que ele é um subversivo
temido, perigoso cadastrado
que afirma o direito de estar vivo
e de andar vertical por todo o lado.

Procuram nas notícias dos jornais
a cara do Poeta fugitivo
tentando descobrir alguns sinais
que o tornem, desde logo, conhecido.

Na rádio, na TV, noticiários
já lançaram apelos lancinantes
pedindo que se evitem riscos vários
de infecção com versos delirantes.

A cidade agitada, no pavor
de se envolver em tal epidemia,
não deixava que alguém fizesse amor
porque o Amor, às vezes, contagia...

Deixaram as pessoas de sorrir,
aos jovens proibiu-se namorar,
os músicos deixaram de se ouvir,
os pássaros pararam de cantar.

Impediu-se o luar de aparecer
p'ra não alimentar o romantismo.
Proibiu-se ao Homem e à Mulher
a mínima atitude de erotismo.

Decretou-se que o Dia era cinzento,
foi imposto o silêncio por decreto,
ergueu-se à Tristeza um monumento,
aboliu-se a Ternura e o Afecto.

O Poeta, acusado de loucura,
na solidão mais densa se escondia
refém de si mesmo e da amargura
que a Verdade nos outros produzia.
Apareceu então à luz do dia
com o rosto tingido de ternura.
Dois tiros acertaram no seu peito
matando a loucura em pleno dia.
Mais tarde descobriu-se o que foi feito:

Morreram o Poeta... e a Poesia!



sábado, março 18, 2006

Voltei...


...ao tema Poesia da Blogosfera.
Um longo caminho tem percorrido o autor do poema que hoje vos apresento.
É pela sua luta, pela força do seu interior, pela sua sensibilidade, que o escolhi para retomar este tema…





Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Aparado em dado momento
No ventre de uma Mulher!

Meu corpo é magistral!
Brutal! Perfeito! Soberbo!
De início não era verbo
Agora sou o verbo ser

Tenho comigo segredos
Segredos do universo
Transporto no corpo recados
Que escrevo em forma de verso.

Venho dos limites do tempo
Não sei o que fui e sou:
Deserto? Nascente?
Já fui Norte, já fui Sul
Pó astral, mar azul!
Luar, estrela cadente.

Eu me vou!
Partirei num cometa qualquer
E serei novamente pôr-do-sol.
Cor-de-rosa, aloendro, malmequer!

Voltei...Já cá estou!
Agora sou pensamento
Nascido em dado momento
Do ventre de uma Mulher!



(Rogério Simões in "Voltei" )
Imagem de autor desconhecido

segunda-feira, março 13, 2006

Um Poema para hoje...


Este foi o último livro de Poesias que adquiri.





Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.

Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.



( Manuel Filipe in "Por distracção" )


É também um caminho que percorro na blogosfera… Vinde conhecê-lo aqui

sexta-feira, março 10, 2006

Caixinha de música...

Imagem de autor desconhecido


impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes

em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado

encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro

caixinha de música
dentro
com bailarina que dança




(Poema de Ana Mafalda Leite)