segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Teia...

Imagem daqui



Teci uma teia
Com gotas de orvalho
O sol reluzia imenso...

Indolente enleou-se
Pelos misteriosos fios
Ávida de fome e de sede
Quis sentir a felicidade
Num ímpeto de loucura.

Viajei sem parar.
Tudo era perfeito;
Envolvi-me inteira.

A transparência desbotou-se
Suavemente….
Caí… levantei…

No silêncio e sabedoria
Rompi os fios mal cerzidos
Colados pela fantasia .

Lavei o rosto com orvalho
Libertei as amarras;
Sonhos, ilusões... é passado.
Levanto voo…a alma desprende-se
Encaro a realidade.

Caminho, sorrindo, pisando firme
No ventre da terra fria.


É a minha vida!


(Poema da Singularidade)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Cantai ainda

Pintura de Diva Teresinha Canassa



Cantai ainda, sob as árvores
à beira rio, entre noite e dia.

Que as chuvas vos acordem
num dilúvio
de gestos feitos de alegria.

A fresca madrugada
se abra à luz
sonora e alada.

E que seja brando o vento
dos dias caindo devagar
sobre o teu rosto

de olhar, por fim, a terra amada
à luz do sol resplandecente

na pura harmonia do poema.

(Poema de
Vieira Calado)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Deixa-me ser o teu presente

Tendo recebido vários pedidos de publicação, de um poema dedicado ao dia de S. Valentim, mais conhecido por Dia dos Namorados, a minha escolha recaiu num poema que a Pi gentilmente me cedeu...
Fotografia de Carlos Silero


Deixa-me… deixa-me ser tua
cerrar os olhos e sentir o sabor
da partilha nos meus lábios
acorrentados aos teus

Deixa-me ler-te como se fosses
uma brochura que reconheço
sem tão-pouco virar
as páginas revividas de tão lidas

Deixa-me perdurar no que não dizes
pois eu sei
recordar o teu feitiço
mesmo que nem esboces um sorriso

Deixa-me esculpir a ferro e fogo
tudo o que em ti existe
ou em raios laser
cinzelar-te completo para mim

Deixa-me… deixa aconchegar-me
toda em ti, sentir-te tão perto
tão meu, tão conivente que no futuro
ninguém nos possa separar
Deixa-me… deixa-me ser o teu presente
(Poema da 
Piedade Araújo Sol)


...e que dedico a todos os Apaixonados

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Passo a passo...

Fotografia de Nuno Sousa



Passo a passo, cãibra doce e perpétua.
Ganho corpo de estrada, vincada de sulcos,
de esgares, de solturas de gritos, de rubros....
A roupa que trazes e que eu queria segurar perpétuamente.
O hálito como que a procurar a cama;
o teu hálito como que a provocar o drama,
solto.
Solto-te mas receio que me perca;
perco-me mas receio que te encontre.
Descubro esta cidade que não se escreve
nem se deixa escrever,
nem se julga poeta, dissidente das palavras;
ainda que por exaustão se encarregue de as desenhar letra a letra.
Seguro o teu nome encaixilhado;
seco o teu nome,amanso-o, aliso-o...
Nada me consola.
Nada me separa desse ter-te resumidamente nos dedos.

(Poema de
SombrArredia)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Concerto para os peixes que habitam os meus sonhos

Imagem de autor desconhecido




O som dos grilos é estonteante
e o marulhar junta-se
nesta orquestra de cio
estranha atitude
destes insectos que migraram
dos campos prenhes de rubras papoilas
para virem escutar os peixes
é caótico este momento de êxtase
em que a lua nua de luz
se mostra em toda a sua nudez muda e excitante
porque toda a natureza desperta
da letargia que o verão
provoca
trazendo cheiros distantes
e persistentes
porque
as narinas fremem
de desejo fundeado
neste mar
onde campeiam espumas
e o que resta de nós
servirá de repasto
aos pássaros loucos



(Poema de Rogério Saviniano Telo
Traz Outro Amigo Também)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Há quem diga

Fotografia de Luís Lobo Henriques



Há quem digaque o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizemque um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.

(Poema de Nilson Barcelli in
NimbyPolis)



Nota: O Poesia Portuguesa passará a publicar na sua versão original, ou seja, às segundas, quartas e sextas-feiras.
Um abraço a todos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Poema felino...


Imagem dos Queridos Gatos


Sou gato.
Que terror!
Faça lá o favor,
De não ser fatalista!
Sou gato.
Gato preto, bem preto.
E vivo como um senhor,
Neste mundo,
Que a todos, nos desafia...

Sou gato.
Gosto muito de minha cor,
Quando de toda a ninhada,
Minha mãe a viu pintada,
No terceiro gato que dela nascia,
Deu-me com todo o amor,
Uma inesquecível lambidela,
Que na minha memória de gato,
Me ficou ela gravada,
Para o resto de minha vida!

Sou Gato Preto.
Assumido.
Que presunção,
É a minha!
Mas se vos intimida a cor.
Olhem-me para os olhos,
Que vos espreitam agora,
De forma tão tranquila.
São vivos,
Atentos,
Em permanente expectativa.
A cor?
O Verde da esperança,
Já viram?
Tenho a certeza que vos inspira,
Muito mais autoconfiança.

E neste instante de partilha,
Faço eu meu auto-retrato,
Que por princípio, eu não queria.
Sou gato.
Mas que mistério...
Tanto silêncio me vem desse lado,
Fale-me agora de si,
Pois eu sou como todo o gato,
Que se preza de o ser,
Muito curioso.
Venha daí agora com muita auto- estima,
Aquilo que de si também me fala,
Sua bela fisionomia!

Poema de Beatriz Barroso in
Porosidade Etérea

domingo, janeiro 27, 2008

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Verde acinte


Imagem de Pedro Moreira



A minha retina
Enamorada
Com a minúcia melancólica
Do verde acinte
Nervurado

A todos os espaços
Lágrimas de prata orvalhadas
Se recolhem no debrum
Até ao leito das rotas
De um tempo breve
Que nos tem à escuta

Ambiguidade
entre o verso e o reverso
que se frui
a cada gesto
lentamente despojando
até à nudez final que só a língua testa

(Poema de ContorNUS)

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Roda

É com uma satisfação muito pessoal, que hoje trago aqui um Poeta que admiro e cuja obra já foi merecedora de vários prémios.
Recentemente, foi o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica.
Pela sua simbologia, deixo-vos este poema que retrata um "mundo" muito actual…


Imagem Crestomatia



digo que estes homens de kiev estão a viver
no contentor azul e amarelo e nele dormem, preparam
as frugais refeições no único bico de gás disponível,
cosem as meias, descascam cenouras e batatas e comem
em pratos de alumínio com garfos de plástico, e rezam
em silêncio ao deus ucraniano que sempre os ignora,
o deus que os acompanha nas obras públicas e nos prédios suburbanos
em construção onde trabalham, que os turistas de albufeira
não tardarão a ocupar, com os olhos cheios de um sol que nunca viram,
nunca sentiram queimar assim na sua pele.

digo que estes homens de kiev enchem a boca de um lamento profundo,
que estes homens enchem os olhos de lágrimas que se não vêem
e aqui sonham sem sonhos, com um murmúrio negro a invadir-lhes a cabeça,
como se estivessem para além do último limite, a última exasperação,
estes homens de kiev que não sabem como o mundo pára às vezes
e ao mesmo tempo se amplia, como o coração desesperado
de alguém que viu a partida iminente e, por um instante, estacou,
ainda a neve não derreteu na primeira estação ou os pássaros
nidificaram uma e outra vez na dolorida luz de kiev.

digo que estes homens de kiev devem como todos nós um galo a asclépio
e perscrutam no que é visível tudo o que está invisível nas coisas,
transversal e faminto, amplo e escuro nos subúrbios de albufeira,
procurando na brancura as semelhanças possíveis com o que nunca verão,
tendo já visto tudo, tendo já visto
o mar a inclinar-se sobre os seus corações, num momento longínquos,
nas ruas de albufeira, noutro momento próximos dos subúrbios de kiev,
a pesar argumentos, a exorcizar a morte, a recolher nos braços
uma tristeza infinita, indizível.

digo que no próximo ano estes homens de kiev hão-de chamar
para aqui as mulheres e os filhos, estes ucranianos que vivem no contentor
azul e amarelo na periferia de albufeira, estes violinistas,
estes médicos, estes professores de línguas, que agora dão
serventia de pedreiro e usam a picareta, a pá e a betoneira e sabem
a quantidade exacta de areia e cimento e água e ferro para levantar
estes arcos, onde vibra a tumultuosa música do sofrimento,
talvez como alicerce, talvez como definitivo ajuste de contas
entre isto que se vê e eles não dizem, ou se não vê e eu digo,
como um deus ucraniano de passagem pela periferia de albufeira.

Poema de Amadeu Baptista
(Antecedentes Criminais, Antologia Pessoal 1982-2007)

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Nós, os outros


Imagem daqui


Nós, os outros, habitamos a textura
aquosa e impura da cidade adormecida
quando o negro nela se abate

Nós, os outros, abrigamos o frio
nos jornais remexidos,
aninhados no vazio dos recantos
que o cimento e a pedra calam

Somos gente sem nome nem destino
em tempo indeterminado;
andarilhos na mão que se estende,
vestidos de invisibilidade

Nós, os outros, também sonhamos
a metáfora ténue dos papeis gastos,
da vida a essência dos dias plenos
entre a existência dos muros lentos
levantados pela hibridez da hora em viragem

Assim caminhamos o esquecimento
sob a trama da luz baça da cidade


(Poema da Amita in Branco e Preto)

domingo, janeiro 13, 2008

Começar 2008...

No iniciar de mais um ano, em que esta página sobreviveu pelo apoio e carinho que os seus frequentadores têm demonstrado por ela, é tempo de reviver e criar novos alentos.
O Poesia Portuguesa nasceu da partilha das palavras que mais lhe tocaram e que ia descobrindo, em blogues de língua Portuguesa.
É tempo de voltar a essa partilha e, continuar a alimentar sonhos e esperanças…


Imagem Google


quero sonhar
acordar e saber que sorriste
quero amar
e pensar que amar é saber que da dor caíste
hummm, queria provar o sabor da minha infância
correr, correr e não mais crescer
das pedras calcadas pelo calor saber delas beber
como é bom ser sonho de criança

tou sozinho
mexo-me e sinto-me vivo
é tão bom esse teu néctar
esse teu desejo infinito de saber a magia
penso em ti
mexeste onde tou sozinho
nos meus pensamentos desertos
quero-te assim
onde meu navio parou
parou num tempo sem vela
e sem rumo e que só te quer bela

mas como não posso parar digo-te
ou digo-me a mim
que a noite tem esperança
que o tempo pode ser meu
que os desejos podem viver em prazeres
que o vento que se descobre a ele próprio é vivo
e que o amor parecendo banal, pode ser infinito

"suspiro"a quem te enganas
ela dançou para ti
e não foste capaz de dizer simplesmente
que naquele momento a amaste sem fim...


(Poema "Desabafo" do Poeta Vagabundo)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Mulher


Pintura de Gustave Coubert


nos momentos de incerteza
quando apetece fugir
e desistir da viagem

quando cansado de tudo
me sento à beira da estrada
e adormeço a coragem

são os teus gestos
mulher
que me chamam
para a vida

e sinto de novo a fúria
de desenhar um país


(Poema de Vieira da Silva)

domingo, dezembro 30, 2007

Outro Ano...






Contei quantos anos tem um dia
Adormecido à porta da madrugada
em esperas vãs cansadas de agonia
tomba o dia, o ano, nesta estrada...

entra outro, o novo...o desejado
a fervilhar em taças de ilusões
e diz o velho na folha do passado:
- conseguirás tu, trazer as soluções?

tal como tu, nasci com espirros de luz
e termino no delírio da'nsiedade
do sentimento humano que traduz
o sonho de uma nova realidade.

benditos os anjos de asas quebradas
morrem sem glória e o mundo esquece
numa taça de quimeras deslumbradas
como fumo, porque o fumo, não aquece...

deixo espelhos sombrios em herança
ruínas, guerras, fome, má bonança,
catástrofes, desventuras doloridas,
lágrimas sufocadas, mãos estendidas

e as promessas, são rosários lentos
nas mãos de quem luta dia-a-dia.
retira 2008 a cruz do desalento
dá à vida, sol, saúde, amor e alegria

ser novo ou velho...pouco importa
se houver no mundo, pão, paz e harmonia
e o direito ao sol em cada porta
para a noite desta estrada... se fazer dia.



(Poema de Teresa Gonçalves)


quinta-feira, dezembro 20, 2007

O Natal aproxima-se...


Natal do nascimento do Menino, que desde muito pequenina em casa do meu avô, me acostumei a ver deitado nas palhinhas e também, durante muitos anos, em casa dos meus Pais.

Desses Natais, guardo memórias infindáveis, de outro Menino em palhas deitado...


Seguindo a tradição, continuei a deitar o Menino nas palhinhas todos os Natais, pensando em quantos meninos, nem palhinhas tinham para se deitar.


Mas em todos os Natais, cada vez menos se recorda o M
enino, nem o motivo pelo qual ele nasceu, sendo prioritário o consumismo que se gera nesta época.

Por isso, quando hoje acordei com vontade de aqui colocar um poema de Natal, recordando o Menino que já nasceu, dei a minha habitual volta pela blogosfera, em busca de palavras que me fizessem sentir o verdadeiro espírito do Natal... não aquele espírito comercial, que leva a compras desenfreadas, a trânsito interminável, a troca de prendinhas quase obrigatórias, entre familiares, que por vezes, só para o próximo Natal é que se voltam a encontrar, mas aquele espírito que eu sentia há anos, quando me contaram porque motivo o Menino tinha nascido...

Ao final do dia, descubro uma pequena maravilha, que me atrevi a "roubar" à
Maria Pedrógão, da Casa de Maio e que me fez recordar os cânticos de Natal da minha infância e que aqui vos deixo…

Toca o sino pequenino
Toca o sino pequenino
Sino de Belém,
Já nasceu o Deus Menino
Que a Senhora tem.

É Natal, é Natal,
Vamos sem demora,
Já nasceu o Deus Menino
Que a Senhora adora.





Presente de Natal
Quero que todos os dias
Sejam dias de Natal
Para todos terem alegria
E a ninguém lembrar o mal

Ò menino! Não te esqueças
De me dar um presente
Transforma todos os dias
Em Natais p'ra toda a gente.

Em Natais quentes de amor
Com cestos cheios de pão
Com homens todos irmãos


(do Cântico tradicional)











sábado, dezembro 15, 2007

A amizade e a ternura aumentaram - Pág 161

Confesso que me senti deveras envergonhada quando hoje, com um tempo (pouco) livre para mim, decidi visitar alguns dos blogues que tenho tido curiosidade (feminina) de saber o que têm postado, durante esta minha já longa ausência deles.
E senti-me envergonhada porque, a
Júlia Moura Lopes, do blogue O Privilégio dos Caminhos, fez o favor de citar o Poesia Portuguesa numa corrente, "O Meme da página 161" e só agora desse facto tive conhecimento, que com prazer aceito e, passo a referir as regras do mesmo:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª) Abrir na página 161
3ª) Procurar a 5ª frase completa
4ª) Postar essa frase no seu blog
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

O livro que tenho aqui mesmo ao meu lado, porque o estou a ler, é o livro de poemas de Natércia Freire, intitulado Poesia Completa, com Prefácio de Maria Gabriela Llansol, das Edições Quasi.
Abro a referida página 161 e deparo-me com um poema que gosto muito, intitulado “UM SÓ DIA”.
Infringindo a terceira regra da corrente, permito-me transcrever uma das partes do poema que mais gosto, da já citada pág. 161:


Pintura de Héctor Becerini


"Ao sol, ao raio de oiro da manhã.
Ao vento, à comoção dos seus sentidos…
À rajada que desce da montanha,
Ao orvalho do sonho, à impaciência
Do seu beijo macio,
Ao fluir de rio
Em sucessiva ausência…
À palavra pequena, ao som de búzio
Que vem do grande mar
E no ouvido se alonga e se insinua
- posse, algema, vertigem
Que a flor vai navegar…"

(excerto, poema de Natércia Freire)

Passo o testemunho a 6 blogues:

As velas ardem até ao fim
Carlos Peres Feio
Des-encantos
Diogo Ribeiro
Dulce
Piedade Araújo Sol


Imagem de autor desconhecido

domingo, dezembro 09, 2007

anseio a noite...


daqui


anseio a noite
o sono o sonho
suspensa a confusão da luz
cravo as mãos no corpo
atingir o interior do rio
longe das vozes do dia
acaricio a música
o correr das águas
no leito novo
a quietude do coração
adormecido na margem


(Poema de
Memória Perturbada)

terça-feira, novembro 20, 2007

O Mar...

E porque o Mar foi tema de destaque, no blogue Porosidade Etérea da Inês Ramos, deixo aqui os poemas que foram seleccionados para serem gravados em áudio…


Fotografia de Pedro Moreira (Meia-laranja, Praia da Granja)



Penélope fala a Ulisses, ou outras falas
1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora,

que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo


2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
— rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei

Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual –

Ana Luísa Amaral(poema inédito, que será incluído no seu próximo livro)



Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)


Fotografia cedida gentilmente pelo Almaro

Morrer devia ser assim:
lavar a cara com areia fina
e mergulhar no mar adormecido.


Joaquim Alves

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

O meu agradecimento a Inês Ramos pela disponibilidade e partilha.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Campo… de Mar

Há palavras que são momentos… e momentos que não precisam de palavras.
O meu agradecimento à
Cris por este momento que deixou nos comentários e que peço licença para aqui transcrever…


Olhar o mar como se olha para o céu como se olha para o campo...
As estrelas estão lindas, brilhantes, num firmamento trigal.
Os peixes são agora papoilas e as ondas mil flores silvestres, ondulando sob nuvens, vagas de espuma em flor!
E as algas entrelaçam-se, trepadeiras, namorando os astros, quais frutos em árvores frondosas.
O coral é já sol-posto, repousado em rochedos, horizontes sobre oceanos, prados a perder de vista...
Já se adivinha o encanto...

A maré-cheia corre, estende seus braços de água e, transformada em ribeira, ladeia, cantarolando, o imenso areal dourado, qual eira, enchendo-a duma frescura tão marinha, tão campestre!
Brotam os búzios viçosos e as conchas são borboletas, com asas de madrepérola...
E cantam, com voz de aroma de marés vivas, sobre campos azuis, prontos para serem ceifados.
Dormem os pescadores...descansa a faina...sonham que são lavradores...

Veste-se a praia de verde e pede à noite que se junte à fantasia; que lhe traga o vento para com ela bailar ao som da melodia das dunas tão moçoilas, lindas ceifeiras!
Lá longe a montanha sorri e a festa vai durar, estender-se pela madrugada até que o dia os avise que é tempo de recolher porque a noite quer ir deitar-se e o sol-posto vai ser de novo coral.

Descansa o encanto nos braços do dia mas promete voltar!
Trará com ele a noite e será outra vez festa, num campo verde, no mar!
E vai fazer os pescadores dormir de novo, repousando da faina sonhando que são lavradores.
E a praia vai tornar a vestir-se de verde, vai bailar, descalça, com a brisa pelos ombros...
Mas desta vez, num mar que se tornou campo, olhada pelas dunas ceifeiras, nos braços ternos do vento.

Cris in Campo… de Mar

sexta-feira, outubro 19, 2007

O mar tão perto...


São estes os caminhos que percorro diariamente, que fortalecem a minha alma e acalmam o meu espírito.


O mar estava perto,
Fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves,
só alma e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto
puríssimo, doirado.

(Poema de Eugénio de Andrade)



É deste mar que retiro toda a essência que percorre as minhas veias e nele procuro a nascente onde vou beber a minha sede.

(fotos minhas...)