segunda-feira, março 13, 2006

Um Poema para hoje...


Este foi o último livro de Poesias que adquiri.





Ao fim de tantos anos em silêncio
descobrimos
que uma lágrima ainda sulca o rosto árido.
Com ela cultivamos esquálidos jardins
na varanda solitária
que cuidamos como parte de nós próprios.

Mais tarde, diremos "Bom-Dia"
aos pardais tranquilos no meio das flores
e, do outro lado da rua,
talvez alguém, distraído, nos sorria.



( Manuel Filipe in "Por distracção" )


É também um caminho que percorro na blogosfera… Vinde conhecê-lo aqui

sexta-feira, março 10, 2006

Caixinha de música...

Imagem de autor desconhecido


impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes

em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado

encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro

caixinha de música
dentro
com bailarina que dança




(Poema de Ana Mafalda Leite)

quarta-feira, março 08, 2006

Neste Dia da Mulher...


...dedicado a todas as Mulheres, mas em especial, às Viúvas do Mar…

Imagem de autor desconhecido


No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.

Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.

O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.

Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.

Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.



(Poema "Destino" de Eugénia Tabosa)

domingo, março 05, 2006

Vem por entre desejos floridos...

Imagem de Naoko (Woman with Calla Lilies)



Vem por entre os floridos desejos
que esta meiga Primavera nos anuncia!

Mas traz em tua mão um ramo de giesta em flor!

E diz-me dos barcos perdidos
que levados pelas auras do Sol-Poente
lançaram âncora no doirado mar!

Diz-me da seiva túrgida e generosa
que fecunda e silenciosa corre
pelos braços e pelos sulcos de todas as coisas!

Diz-me do apelante pólen que tudo penetra
e se agita fecundante nas rubras corolas!

Diz-me das amorosas melodias
que os pássaros soltam gementes
quando o sol se abriga em seu palácio de coral!

E diz-me das cinzentas nuvens
onde os pássaros de fogo fazem ninho
e onde se gera a perenidade dos deuses!

De tudo me dirás, quando se abrir
a silenciosa porta que conduz à recolha
dos apelos que gritam pela eternidade!



(José Nuno Pereira Pinto in "O Tempo dos Desejos Floridos")

sexta-feira, março 03, 2006

Asa no espaço...




Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma flutua!
Quero voar nos braços do vento,
Quero vogar nos braços da Lua!

Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.

Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.

Castelos fluídos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!



(Poema de Fernanda de Castro)


Desconheço a autoria da imagem

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Boneco Desfeito...

Imagem daqui


Surgiu no palco, um dia um bailarino,
Surgiu soberbamente nu, - jogando
Nas mãos ageis de clown e de menino
Cem máscaras rodando, rodopiando...

Sobre um décor violento e sibilino
Cegamente bailou, tombou bailando,
Como se mais não fora seu destino
Que os eu bailado altivo e miserando.

No palco jaz agora um mutilado:
Jaz morto e nu, decapitado, olhado
Por milhões de olhos sem pudor nem vista.

...Que as máscaras sem fim que ele jogara
Não eram mais, talvez, que a própria cara
Dum desgraçado e humano ilusionista!


(Poema de José Régio)

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Hora



Sinto que hoje novamente embarco
Para as grandes aventuras,
Passam no ar palavras obscuras
E o meu desejo canta --- por isso marco
Nos meus sentidos a imagem desta hora.

Sonoro e profundo
Aquele mundo
Que eu sonhara e perdera
Espera
O peso dos meus gestos.

E dormem mil gestos nos meus dedos.

Desligadas dos círculos funestos
Das mentiras alheias,
Finalmente solitárias,
As minhas mãos estão cheias
De expectativa e de segredos
Como os negros arvoredos
Que baloiçam na noite murmurando.

Ao longe por mim oiço chamando
A voz das coisas que eu sei amar.

E de novo caminho para o mar.



(Poema de Sophia de M B Andresen)


Imagem de autor desconhecido

domingo, fevereiro 19, 2006

Branco e vermelho...

É um pouco longo, mas vale a pena...


Pintura de Alice Candeias

A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser, suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso...
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila).
Na areia imensa e plana
Ao longe a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana...
A inútil dor humana!
Marcha curvada a fonte.
Até o chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Palidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo.
Caem, Soergue-os o terror...
Até que enfim desmaiem!
Por uma vez desmaiem!
Ei-los que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor...
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos.
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas fontes calmas.
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa...
Tudo vermelho em flor...

(Poema de Camilo Pessanha)

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Primaveras Românticas...




Eu sou a concha das praias
Que anda batida da onda
E, de vaga em outra vaga,
Não tem aonde se esconda.
Mas se um menino, da areia
A colher e a for guardar
No seio... ali adormece
E é ali seu descansar.
Pois sou a concha da praia
Que anda batida da onda...
Sê tu esse seio infante,
Aonde a triste se esconda!

Eu sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto,
Contando por suas dores
As areias do deserto.
Mas se um palmar, no horizonte,
Se vê, súbito, surgir,
Tem ali a tenda e a fonte
E é ali o seu dormir.
Pois sou quem vaga perdido,
Sob o sol, com passo incerto...
Sê tu sombra de palmeira,
Sê-me tenda no deserto!

Sou o peito sequioso
E o viúvo coração,
Que em vão chama, em vão procura
Outro peito, seu irmão.
Mas se avista, um dia, a alma
Por quem andou a chamar,
Tem ali ninho e ventura
E é ali o seu amar.
Pois sou quem anda chorando
À procura dum irmão...
Sê tu a alma que me fale,
Inda uma hora ao coração!


(Poema de Antero de Quental )


Imagem enviada por email, de autor desconhecido

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Loas à chuva e ao vento...

As pequenas gotas batiam na janela, embalando o meu sono. Aconcheguei melhor o rosto na almofada e recordei um Poema que em tempos li. 
Deixo-o aqui…


Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... Vu...Vu...
Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Mas cai de mansinho.
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Muito de mansinho
Em meu coração
Já não tenho lenha
Nem tenho carvão...
Pingue... Pingue...
Vu... Vu…
Que canto tão frio,
Que canto tão terno,
O canto da água,
O canto do Inverno...
Pingue...
Que triste lamento,
Embora tão terno,
O canto do vento
O canto do Inverno...
Vu...
E os pássaros cantam
E as nuvens levantam.


(Poema de Matilde Rosa Araújo in "O Livro da Tila")


Desconheço a autoria da imagem, a quem souber, agradeço indicação de autor...

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Não empregar o nome em vão…

"Ao dar início a este Blog foi minha intenção valorizar os autores Portugueses por vezes tão mal amados por aqueles que falam a sua língua."



Este foi o intróito que escrevi, quando resolvi incluir nas páginas deste blog, poemas e textos de outros blogues, que pela sua força e sensibilidade, achei que os deveria aqui partilhar, sabendo de antemão que não eram escritos por nomes sonantes da nossa Poesia.

Este Blog era um projecto que acarinhava na minha mente, em dar a conhecer Poesia e Poetas de Língua Portuguesa, independentemente de serem conhecidos ou não.


Foi isso que fiz.


Parti à aventura, “navegando” por entre palavras profundas de almas sensíveis, que sem qualquer interesse, ofereciam a quem as lia, toda a profundidade de sabedoria de sentires e afectos, que conquistaram o meu coração.


Por isso, quando li o comentário de um anónimo, que se assina por SA dizendo: - Aproveita para leres Poesia Portuguesa. Não empregues o seu nome em vão.veio-me à memória os Poetas mal-amados, desprezados, humilhados, pela sociedade que os não compreendia (estou a lembrar-me de António Aleixo), mas que anos depois, os elogiam, lhes levanta monumentos e, os trata quase como heróis…


“Não empregues o seu nome em vão” 


Como se pode empregar o nome da Poesia Portuguesa em vão, num local onde a prioridade é dá-la a conhecer?

Não poderia deixar passar este comentário em branco, não por considerar que afecta as minhas escolhas, mas sim os autores que escolhi pela beleza, sensibilidade e força das suas palavras.


É por eles, que aqui estou.


Deixo-vos um poema de alguém, que ainda hoje é tão mal amado por aqueles que falam a sua língua…


Chorosos versos meus desentoados,
Sem arte, sem beleza e sem brandura,
Urdidos pela mão da Desventura,
Pela baça Tristeza envenenados:

Vede a luz, não busqueis desesperados,
No mudo esquecimento a sepultura;
Se os ditosos vos lerem sem ternura,
Ler-vos-ão com ternura os desgraçados:

Não vos inspire, ó versos, cobardia
Da sátira mordaz o furor louco,
Da maldizente voz a tirania:

Desculpa tendes, se valeis tão pouco;
Que não pode cantar com melodia
Um peito, de gemer cansado e rouco.



( Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage)


Imagem de autor desconhecido

sexta-feira, janeiro 27, 2006

O Silêncio




Quando a ternura
parece já do ofício fatigada,

E o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

Quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas



(Poema de Eugénio de Andrade)


 Escultura de Laurent Cachard

domingo, janeiro 22, 2006

Um breve olhar...

Imagem daqui


Lá em cima, no ar
Sobre a monotonia de estas casas
Sulcando, sereníssimas, os céus,
Abrem a larga rima das suas asas,
Lenços brancos do azul, dizendo adeus
Ao vento e ao mar.

Eu fico a vê-las
E meus olhos, de as verem, vão partindo
E fugindo com elas;
E a segui-las eu penso,
Enquanto o olhar no azul se espraia e prega,
Que há uma graça, que há um sonho imenso
Em tudo o que flutua e que navega…

Para onde se desterram as gaivotas,
Contra o vento vogando, altas e belas,
Essas voantes e pairantes frotas,
Essas vivas e alvas caravelas?

Vão para longe… E lá desaparecem,
Ao largo, por detrás do monte;
E os nossos olhos olham e entristecem
Com as vagas saudades que merecem
As coisas que se somem no horizonte!

(In "Canção do Vento" de Afonso Lopes Vieira)

…porque há momentos em que nos faltam as palavras, esta é a forma de expressar o meu reconhecimento e afecto a todos aqueles que mantiveram a chama acesa neste blogue, enquanto recuperava da lesão que me afectou…

OBRIGADA

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Morrendo de saudades...



Por motivos imprevistos e ligados à minha saúde, estarei por breves dias (espero…) ausente, pelo que estarei impedida de actualizar os meus blogues e de vos ler também.


Um abraço carinhoso e saudoso a todos,
espero voltar muito em breve...

sexta-feira, janeiro 06, 2006

O Pássaro da Alma

As palavras saídas dos lábios das crianças têm um misto de ingenuidade, sentimento e poesia… porque a poesia está em cada palavra saída do fundo do coração, do fundo da nossa alma…especialmente as que saem do coração de uma criança. Quero assim com a ingenuidade das palavras de uma criança comemorar, desejando-vos um


FELIZ DIA DE REIS

Visage De La Paix(Serigraph)by Pablo Picasso


"João, paras quieto ou tenho que te dar uma palmada?"

Ficou quieto de repente, saltou para o meu colo, no sofá, e perguntou-me com um ligeiro sorriso, vestido de espanto:


"Foi o teu pássaro da alma que abriu a gaveta de estar zangado?"


Foi a minha vez de experimentar o espanto. Apanhada completamente de surpresa, não conseguia perceber se estava a tentar distrair-me a atenção do que me tinha feito zangar ou se estava simplesmente a "mangar" comigo...


"Tu não penses que me fazes esquecer a palmada. Ora volta lá a fazer a mesma asneira e vais ver se há pássaro que te salve... Ai, ai, ai""Mas tu não me respondeste. Foi o teu pássaro da alma?"

"Mas que conversa é essa?"

"Então tu não sabes que vive um pássaro dentro de nós? Oh, mãe, eu conto-te!Ele chama-se Pássaro da Alma e vive num sítio muito fundo, dentro do peito das pessoas... foi a Mafalda que nos contou hoje..."

"E esse sítio é...?"
"É a nossa alma, mãe! E lá, no fundo dela, há muitas gavetas... a gaveta de estar zangado, a gaveta de ficar contente, a de ter sono, a de ter fome, a de ficar triste, a de chorar... e até há gavetas de ter vontade de dar coisas às pessoas!"

" Que coisas, filho?"

"Beijinhos... queres um? Se eu te der um beijinho pode ser que o teu Pássaro da Alma feche a gaveta de estar zangado..."


Olhei bem no fundo daqueles olhitos expectantes e não consegui disfarçar a ternura de um sorriso. Nesse momento, senti no fundo do meu peito o movimento de uma velha gaveta a fechar... e o crescer de umas asas que me impeliram a voar ao mundo do meu menino-homem que, ainda no meu colo, esperava ansiosamente uma resposta minha, como se essa fosse a confirmação da veracidade daquela história lindíssima, contada pela Mafalda! Abracei-o devagarinho, muito devagarinho para que tivesse tempo de perceber a imensidão do meu Sim... e sosseguei-o:


"O Pássaro da Alma já fechou a gaveta de estar zangado, mas disse-me que voltava a abri-la se tu fizesses asneira outra vez... Por isso vamos lá a pensar os dois no que havemos de fazer para o Pássaro só abrir as gavetas das coisas boas... O que achas?""Mas eu sei! Olha, não podemos trancar as gavetas sem ele ver porque essas gavetas não têm chaves, mas podemos ter vontade de fazer as coisas bem e o Pássaro da Alma passa as coisas boas para as gavetas de cima e esquece-se das gavetas de baixo, onde ficaram as coisas más... Ele gosta de beijinhos e tu também. Eu dou-te muitos beijinhos, não faço asneiras e pronto!

"Combinado! Vamos lá ajudar o Pássaro da Alma a arrumar as coisas boas nas gavetas de cima! Dá cá um beijo grandeeeeeeeeeeee!"


Agora já entendo os ruídos da Alma nos dias cinzentos... 


É o Pássaro da Alma a arrumar as gavetas! Logo que se esquece das debaixo, a alma serena e a paz invade-me! Eu pedi-lhe que reservasse a gaveta mais acima de todas para colocar lá estes momentos doces da minha vida... e que a deixasse sempre aberta!...

Composição de Cris (Do Fundo do Meu Arco-íris)

quinta-feira, janeiro 05, 2006

nascimento do Menino

óleo de Margarida Cepêda (pormenor de quadro)


A Rosa como símbolo da abertura do Coração

A Rosa que está no centro é o ponto de confluência entre "o que está em cima" e "o que está em baixo" .
E o que está em cima é o Sol, e o que está em baixo é a Terra.
O Coração está entre a Terra e o Sol,tal como a Rosa.
O que nasce a partir do centro do Coração, pela actividade do Amor e do Conhecimento, é o Menino .
Este é o Natal.

É no duplo movimento do "saber dar" e do "saber receber" que o Caminho Iniciático começa e conduz ao Nascimento.

Saber Amar abre muitas portas

Poema e imagem de
Maat in Arde o Azul

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Natal...


Presépio em roda de madeira


Natal, a tal
época das luzes,
dos enfeites, dos presentes
ausentes
das casas vazias
das mágoas perdidas
em colos de amargura.
Natal, sinal
de paz incapaz
de esconder
as lágrimas frias
das estrias da dor,
das crianças sozinhas
dos velhinhos abandonados.
Natal de cor, incolor
do cinzento
pensamento,
nas vaidades
das sociedades
em cerimónias
de solidariedades.
Natal viral
de um vírus do amor
onde tu e eu
somos actores,
num palco de cor
de comodismo
de olhos vendados
às verdades,
das cidades, dos países
Natal esse que tal
que te enche a mesa
de excessos que abandonas
em caixotes do lixo
rebuscados
pelos enfeitiçados do nada.
Natal, uma viagem
de contrastes
de muitas artes
de tudo e de nada!

Poema e imagem de Imar in Fala B (a)ixinho

terça-feira, janeiro 03, 2006

Está prestes a acabar




Está prestes a terminar
O Natal deste ano
A muita gente vai faltar
Dinheiro para o fim do ano

A euforia foi visível
Nas áreas de comercialização
O negócio foi possível
Mesmo em tempo de recessão

Não é pois compreensível
Este fenómeno consumista
Numa atitude irreversível
De quem anda a dar nas vistas

Muitos não se querem privar
De festejar a passagem de ano
Vão-se mesmo aperaltar
Nos restaurantes dançando

Depois surgem os lamentos
De quem não sabe controlar
Os seus escassos proventos
Que nem chegam para o lar

Entram pois no novo ano
Aumentando a sua divida
Nem se lembram estar gastando
Duma forma desmedida



Poema de Contradições in Insinuações

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O Natal pelos olhos da criança…


deixo-vos um delicioso poema que encontrei no Blog 
Sombra do Deserto



O Natal inocente


Natal é uma menina,
que me vem dar a mão.
Natal é o Pedro e o João.

Natal é dar um beijo,
pela manhã ao pai e à mãe.
Natal é dar amor a quem
o quer e não tem.

Natal é lá na escola,
quando todos dão as mãos,
abrem a sacola e repartem
o seu pão.

Natal é ÀÀÀ, III, óóó.
Natal é não estar lá.
É estar aqui e não estar só.

domingo, janeiro 01, 2006

Não vamos fingir por ser Natal...

Presépio de lata in Que bem cheira a Maresia


já não tocam os sinos
nem cantam as vozes
agora suplicam crianças
e adultos
todos querem
querem prendas
e esperam dádivas
não rezam
nem demonstram fé
consomem
consomem o que não querem
o que não lhes serve de nada
desejam tudo
tudo o que vêm
cobiçam com olhares
depois compram
compram tudo
movidos pela vaidade
e pela alienação
parecem saqueadores
talvez o sejam
dos seus próprios tesouros
depois discutem
pelo meio falam em paz
mas discutem
de tanto consumir
de tanto desperdiçar
discutem
até ao fim discutem
por vezes ainda se dão conta de si
nessa altura são solidários
são altruístas
e redentores
querem ser deuses
heróis do seu próprio ego
basta-lhes vencer por um dia
no que será um desejo comum
depois esquecem
seguem os seus rumos
como se tudo fosse apenas um sonho



Nota: O autor deste Poema José Gomes Ferreira, é homónimo de um Grande Poeta Português José Gomes Ferreira, e é titular de um Blog a conhecer o Labirinto de silencios

sábado, dezembro 31, 2005

Nasceu em Belém...

Continuando com a publicação de Poemas de Natal, oriundos de vários Blogues Portugueses, até ao próximo dia de Reis, venho deixar o meu abraço carinhoso e que tenham um

FELIZ ANO NOVO


O nosso Menino Jesus
Nasceu em Belém
Nasceu tão somente
Para querer o bem
Nasceu sobre as palhas,
O nosso Menino
Mas a Mãe sabia
Que ele era divino
Gloria, gloria in excelsis deo.

Poema e imagem de Bona Musica

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Noite de Consoada...

Imagem de Ricardo Biquinha
in Luz.de.Tecto




Cozi o bacalhau,
As batatas, as couves
E o ovo a acompanhar.
Coloquei a toalha azul na mesa,
Guardanapos de papel a condizer
Garrafa de vinho aberta, do Dão,
E o copo à sua espera.
Olhei à volta e sorri…
Estava rodeado de pessoas
De quem eu gosto:
As minhas filhas, os meus sobrinhos
E os que sempre comigo estiveram:
Os que nunca me abandonaram!
Mesmo só senti-me acompanhado!
Olhei novamente e reparei que não havia maldade
Invejas ou hipocrisias;
Nem mirones a ver a qualidade das prendas,
Nem o número das que se ofereceram,
Ou se receberam…
Servi-me:
Estava branca, a posta do peixe "natalício", deliciosa,
Vos juro!
As couves a acompanhar e as batatas ao lado,
O ovo…Ah! As cores do ovo!...
Azeite alentejano, este ouro líquido e vinagre qb.
Sentei-me!
Fiz um brinde às pessoas especiais que trago sempre comigo
E não deixo em lado nenhum…
Coloquei a mão no peito, morada de quem amo.
Brindei à alegria, à honestidade e à força de lutar.
Não me esqueci de ninguém!
Comi umas fatias de queijo saloio
E rematei com um pouco desse vinho:
Alegre, revigorante, quente!...
Bebi o café e, não sendo hábito, bebi um digestivo.
Novamente um brinde a quem me acompanhou.
Um jantar de consoada em que me revi, reli e redescobri.
Meditei na vida, nos objectivos, nos azares, nas sortes…
O pai natal esteve longe mas com tanto para fazer…
Para o ano caber-me-á ser um dos contemplados.
Sorri novamente e antes de me levantar
Sorri também aos que guardo em mim.
Fui dar uma volta e deleitei-me com as cores das luzes reflectindo na baía.
Sorrateiramente olhei o céu:
Nublado e nem uma estrela (cadente) me deixou ver…malandreco!
Regressei a casa, sereno e preparei a deita.
Um bom dia de Natal para todos
E que seja sempre dia de Natal porque eu
Brindar-vos-ei sempre…
todos os dias!...



quinta-feira, dezembro 29, 2005

Revisitando O NATAL...



Natal
É ser
É nascer
É dar-se
Dar-se é ir de porta em porta
com uma mensagem
de flores no sorrir
e estrelas nos olhos.
Uma ponte de palavras
formada
entre ti e os outros,
construída, encontrada
entre a vida, o amor e a morte.
Natal
é seres, em cada dia, não de ti, mas de todos.
Universo novo não planeado,
não programado, mas vivido e amado,
num desejo constante de ternura-dádiva, de fraternidade.
Natal é ser criança cada dia em cada ventre de mulher. 

Todas as mulheres
TUA MÃE



Poema de TMara
in Círculo de Poesia



Imagem Pessoal da autora do Blogue

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Natal... Luz...






Luz
Luz do fogo
Aquece meu corpo
Com a Força do teu calor
Para o manter activo
No trabalho, na saúde e no rigor.

Luz
Luz da vela
Aquece e ilumina minha alma
Com a Beleza da tua chama
Para quebrar a ira e o apego que me trama
E fazer raiar a alegria, o amor e a calma.

Luz
Luz da Estrela
Ilumina o meu mental
Com a Sabedoria da tua Graça
Para abolir as fronteiras que o ego meticulosamente traça
E resplandecer a Faúlha do Uno que tudo abraça.



Poema de Jorge Moreira

terça-feira, dezembro 27, 2005

Um Poema de Natal por dia...

Que
será,
Senhor,
neste Natal
armar uma ár-
vore dentro do
meu coração e nela
pendurar, em vez de
presentes, os nomes de
todos os meus amigos. Os
amigos de longe e de perto. Os
antigos e os mais recentes. Os que
vejo todo dia e os que raramente encon-
tro. Os sempre lembrados e os que, às vezes,
ficam esquecidos. Os constantes e os intermi-
tentes. Os das horas difíceis e os das horas alegres.
Os que, sem querer, eu magoei ou, sem querer, me ma-
goaram. Aqueles a quem conheço profundamente e aqueles
de quem não me são conhecidos a não ser as aparências.
Os que pouco me devem e aqueles a quem muito devo. Meus
amigos humildes e meus amigos importantes. Os nomes de todos os
que já passaram pela minha
vida. Uma árvore de raízes
muito profundas, e de ramos
muito extensos, e para que
seus nomes, nunca sejam,
arrancados do meu coração.
Para que novos nomes, vindos de todas as partes,
venham juntar-se aos existentes. De sombra muito
agradável para que nossa amizade seja um mo-
mento de repouso nas lutas da vida. 

"Que os mo-
mentos alegres de Natal iluminem todos os dias do
ANO que se inicia". 

São os meus sinceros votos!


Poema e imagem de Nahar

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Consoada

Paul Seignac in Christmas Morning 


É Natal!
Vêm minhas Sombras visitar-me
Na hora crucial do Nascimento;
Chegam alegres, sem dor
E vêm sossegar-me
Ao dizer que acabou seu sofrimento...
Que cor beleza nos fica na luz
Que aroma indizível a perfumar a sala!
E contam que falaram com Jesus
E mostram uma Paz, que nada iguala!...
Todos os que mais amo
E que partiram
Vêm abraçar-me
Nesta noite fria
E até os Anjos no Presépio
Me sorriram
E as luzes, no pinheiro
Fazem da noite, dia...
Vinde ó meus Amores
Sombras queridas
Vinde, chegai-vos à lareira!
Fiquemos aqui adormecidas
Que bom que estais de novo
À minha beira!...
Sei que ficareis por pouco tempo
Que a estada é curta
Mas que importa?
É sempre de magia este momento
Em que atravessais a nossa porta!...
Se não puder ser antes
Voltai o ano que vem;
Talvez eu ainda esteja aqui ...
Mas, se assim não for
É porque estou bem
Quero dizer, bem melhor,
Porque parti!...

Poema de Maria Mamede

sábado, dezembro 24, 2005

Menino Jesus da minha cor


Presépio
Dili, Dezembro 2003 - Tózé


Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau [1]
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak [2]
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda [3]
E o bafo quente dos seus pulmões.
E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ínan [4], quem é?
- É o Maromak-Filho [5] e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu irmão: firma-lhe bem os teus olhos, meu amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo n’Ele.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!

(Poema de Fernando Sylvan-Timor Leste)


Poema e imagem recolhidos em Chuviscos...onde encontrarão a explicação do Poema.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Natal, hoje


Imagem daqui


Jesus hoje
num qualquer canto do terceiro mundo.
Reis, não terá em adoração
talvez algum chefe da guerrilha
se comova com o choro daquele frágil ser.
Mais um miúdo, afinal, para morrer cedo.
Pastores, talvez
que ainda os há, de olhos doridos
e mãos sem ofertas.
A vida depende das contas bem certas.
Menino com fome, doenças
fugindo das minas, das bombas, das balas
dormindo ao de leve, sem sono profundo.
Se o avião que passa não acertar na gruta
se outra guerrilha não olhar o pardieiro
se escapar à doença
se encontrar comida
dirá a mensagem ao mundo inteiro.
Não terá apóstolos, chega a televisão.
Expulsará os vendilhões
que lhe infestam os templos
políticos, lobbies, multinacionais
e outros que mais.
Dirá:
Amai-vos uns aos outros!

E morrerá assassinado num qualquer buraco
que amor é palavra punida hoje em dia
como naquele tempo
em que, com estrela, reis e pastores
num pequeno estábulo de Belém
um natal de esperança acontecia.

Poema da Jesus hoje
num qualquer canto do terceiro mundo.
Reis, não terá em adoração
talvez algum chefe da guerrilha
se comova com o choro daquele frágil ser.
Mais um miúdo, afinal, para morrer cedo.
Pastores, talvez
que ainda os há, de olhos doridos
e mãos sem ofertas.
A vida depende das contas bem certas.
Menino com fome, doenças
fugindo das minas, das bombas, das balas
dormindo ao de leve, sem sono profundo.
Se o avião que passa não acertar na gruta
se outra guerrilha não olhar o pardieiro
se escapar à doença
se encontrar comida
dirá a mensagem ao mundo inteiro.
Não terá apóstolos, chega a televisão.
Expulsará os vendilhões
que lhe infestam os templos
políticos, lobbies, multinacionais
e outros que mais.
Dirá:
Amai-vos uns aos outros!

E morrerá assassinado num qualquer buraco
que amor é palavra punida hoje em dia
como naquele tempo
em que, com estrela, reis e pastores
num pequeno estábulo de Belém
um natal de esperança acontecia.

Poema da Lique (Alice Duarte)
in Movimentum II

sábado, dezembro 17, 2005

Carta ao Menino-de-Sempre



Menino, meu Menino,

que Te trocam as voltas, Te esquecem o nome e Te substituem por um velhote de vermelho vestido que só traz presentes…
Meu Menino de olhos doces,
que numa noite longínqua trouxeste a Esperança
e, em Teu nome, os Anjos cantaram a Paz a todos de boa vontade…
Meu Menino, hoje e aqui, olhando-Te em mais um Natal que chega, vou escrever-Te com-palavras-do-coração:

Meu Menino, deitado eternamente em palhinhas,
olha pelos outros meninos-tão-meninos como os outros mas que não têm eira nem beira.

Meu Menino dos cânticos de amor,
olha por todos os meninos sem carinho e que só sabem o que é sofrimento.

Meu Menino da igualdade entre os meninos-de-sempre-e-todas-as-eras,
olha pela justiça e equidade entre os homens.

Meu Menino, há mais de dois mil anos nascido,
promessa da Vida e do Caminho,
do perdão, da união, da verdade,
olha pelos meninos que não têm razão para sorrir.

Meu Menino, que moras em redenções e vontades adiadas,
Olha por todos os pequeninos, meu Menino.

Meu Menino, oh meu Menino,
Ouve as preces dos outros meninos
e deixa-me ver-lhes nos olhos
esta ventura de ser de novo Natal.


de , Maria Mar in Cartas de Marinhar

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Em Natal hoje

Continuando com a Poesia de Blog’s em Português, o tema Natal inicia com um Poema que foi lido pelo José Gomes na Noite de Poesia de Vermoim e referenciado no Blog Movimentum II


Imagem da M.P.daqui


Hoje em Natal
Há solidão
Alienação
Há aparências
Carências Vidas destroçadas
Ignoradas
Há necessidades
Pobreza
Escondida
Envergonhada.

Hoje em Natal
Há cor
Luzes mil
Há muita gente
Em afã febril
Há consumo
Há compras
Há muito
Há nada.

Hoje em Natal
Quer-se
Tradição
Simula-se
Sentimento
Afecto
Emoção.

Hoje em Natal
há Natal
Sem
Natal

Hoje em Natal
Procura-se
O Natal.

(Poema da M.P. publicado no Blog Movimentum II)

sábado, dezembro 10, 2005

Anda daí...





Anda, vem sentir o cheiro da
terra molhada
Depressa, antes que seque e
não reste mais nada
Até esta folha no chão caída
tem marca visível da linha
da vida

Pega nela, leva-a para ti
marca uma página no livro
antes do fim
Engana essa lágrima na
chuva que cai, retém o
arco-íris que aos poucos
se esvai.



Poema de Gaivota in Gaivota da Ria


Imagem daqui

quarta-feira, dezembro 07, 2005

Rotas clandestinas




Por que mares, que rotas, que corrente
Que imaginárias linhas te orientam?
Que forças, que vontade, que vertente
Que marés, que navios, que sextante,
Que maré desconhecida e imprudente
Te conduz por essa rota tão distante?

És a grande equação duma viagem
Que naufraga no meio dos meus braços
Sem indícios de azul ou descoberta
Que ao mesmo tempo oprime e me liberta
Na rota clandestina dos teus passos

Não sei onde se cruza o acaso e o destino
Não sei por onde passa a linha invisível
Dessa geometria desafiando o impossível
Que sinto nos meus olhos rasos de ânsia
Fitando a vaga e proibida azul distância

Mas sei que em cada rua há uma esquina
Entre o tédio e a rotina há uma abertura
Há sempre uma hora de fogo e aventura
Há um mar imaginário em cada ensejo
E hás tu, onde nasce o sonho e o desejo

Não me venham pois dizer que nunca mais
Não me falem do rigor dos pontos cardeais
Não me venham dizer que se acaba o infinito
Estão aquém do sonho as leis que me ensinais
É nas leis que há em mim que eu acredito

E por mais que seja exacta a geografia
Depois de tanto tempo a esperar por um só dia
Nasceu dentro de mim um Sésamo dourado
Que há-de encontrar o teu nome nas marés,
Nos becos da cidade, num semáforo fechado
Num sentido proibido, em qualquer lado
Todos os olhares me dirão quem és!...



Poema de Frog
(Junho de 2005)


(Lançamento do Livro de Poemas "Gotas de Luz" de Albino dos Santos Ferreira (Frog), no próximo dia 10 de Dezembro pelas 18 horas, no auditório da Fnac / Gaia Shopping.
Mais informações em Blog
Outra Voz )

sábado, dezembro 03, 2005

Vem para mim




Vem para mim,
Mas olha primeiro o mar.
Traz-me o seu azul
Reflexo no olhar
(com o cheiro da maresia)
De relance deita uma mirada
Rápido ao sol e
assim reterás o amarelo.
(com um aroma de canela)
Peço-te mais,
Que me tragas
o arroxeado do poente
(olorado por lilases)
E o verdejante dos vales
na Primavera
(com o sabor do alecrim).
Queria também
nos teus olhos
O terno e quente
alaranjado
(mais o cheiro do jasmim)
Com que se pinta o céu
Na alba de mais um dia
Desejado.
Contigo, vem o vermelho,
(com um aroma de violetas)
Nesses rios
que te escorrem do peito,
aberto em borbotões.

Vem para mim
Com esse corpo
esguio e anilado
Meu arco-íris
Sentido, vivo,
Belo e só por mim sonhado
Vem para mim
Com esse teu cheiro
De mil aromas feito
A amor amado


Imagem e Poema de Yardbird
(7 de Junho 2004)

quarta-feira, novembro 30, 2005

Garras Amargas da Indiferença...




Apareces em circulação... como corre depressa a noticia da indiferença!
Não te sinto nada perdido... aliás, vi-te muito encontrado!
Engraçado quando somos vistos sem saber!
Tantos sinais tantos... Quem queres Salvar agora?
É tarde, afoguei-me, cama mole, mar de lágrimas escusadas!
Foi na noite de ontem, olhei e bastou para
entender o código das tuas/vossas respostas... Era uma vez,
contem-me histórias, cantem-me músicas,
toquem-me doces melodias, melosas, peganhentas, caramelo,
sempre iguais, iguais, iguais...e será que nunca aprendo?
"O mal é bom e O bem é cruel"alguém cantou...
Fechaduras forçadas, portas arrombadas,
e a minha vida escancaradamente trancada.
São os presentes acres que estes meus (des) amores deixam,
breves amores... longos... eternos... ausente... presente...
todos bic laranja de tinta impermanente.
Não há excepção à regra,
cada um de maneiras, jogos, palavras, sonoridades diferentes,
cada um como cada qual...mas todos do mesmo circo!
Dura enquanto dura o imaginar,
cativar a gazela, apanhar, caçar, e no fim... este amargo de boca!(dá-me um rebuçado!)
E será que nunca aprendo?
O bem é cruel, é esperança estúpida de encontrar o eterno e sonolento aconchego...
O mal é bom, é voltarem sempre quando as minhas Garras crescem...
Amor meu, afecto mais bonito do mundo, mil vezes meu querido...
diferente de todos mas sem excepção, asas, com todas as minhas penas e saudade... desculpas educadas!
E a ti, tu que te queres salvar no meu llanto triste, que morres porque me vês sorrir...
a ti, a ele, ao outro, ao que está e já foi... a todos que "tropeçam de ternura" por mim,
deixo-vos o bem(cruel),
o meu sol, o meu maior sorriso, a minha ilha, brisa,
a sonora gargalhada, o doce gelado, a fruta do sono, o cheiro, o palco, toque de pele,
o que foi e podia ter sido, o som, viagem que fizemos,
musica que me escreveste, abraço dado no T.
e toda a minha paixão despejada dentro da tua caneca de INTENSO CAPPUCCINO ( sin azucár añadido)
que tanto amavas/detestavas por ser acre e doce.
Aos meus Homens Meninos,
devolvo tudo o que me deixaram,
...Garras da minha Amarga Indiferença!



da,  A. em "Gozo a brisa que me dão..."


Imagem Google

sábado, novembro 26, 2005

Aurora Boreal...

Fotografia de Phil Hoffman daqui


Já não me lembro
da última noite
que consegui
adormecer.....

com Xanax,
carneiros
sobre
cercas celestiais,
Valium,
Meditação,
Yoga,
Leite quente,
Chá de tília,
Conversas sem nexo,
Cansaço...

Já não me lembro!

Agora adormeço,
pouco,
apenas
embalado
por
Tangos,
Valsas,
e a música do teu nome!

E, meu amor,
se a manhã chegar
numa
imensa,
Mágica,
AURORA BOREAL,
deslizarei
pelo teu mapa astral,
até ao umbigo
de todos os teus planos,
para depositar
carícias plenas
e fazer brotar
uma fonte de água fresca,
que nos sacie aos dois....



Poema de Antonior in Red Grine & Blu

quarta-feira, novembro 23, 2005

Traço Fino



Um traço negro e fino abraçado pela emoção
mede o estado caótico da felicidade.


Ignoro ignoto calhau colocado no mar
para onde correm todos os meus rios
e de onde partem os sopros da vida.
Não atendo seus sussurros, seus desejos,
suas súplicas e bastos tons em pulsão transmitidos,
mas filtrados por cerebral entendimento.
Não sei, se me dispa de preconceitos,
se me abstenha de outros tempos,
não cavalgue o vento de freios aparelhados,
ou me abandone ao luar longo de uma noite quente…
Apetece dançar com as bruxas no círculo de fogo crepitando
em que o escorpião desiste e o frio não passa…
Aventura brilhante
emoldurada de cinzas negras ganhando asas
e escurecendo… os outros!
Um fado soando triste
e acordando reminiscências de ruas e becos inertes,
certezas e incertezas juncadas de flores
e caça e caçador unidos em preguiça…
Igual seria
sentar a sombra na borda de uma fresta
e escutar o guinchar da roda rodando,
roubando liquido vital da Terra lacerada numa veia…

Um traço negro e fino que não parte, mas apetece,
segurando os temas roucos de rostos doces e olhos doentes
e rugas rasgando de alto a baixo
juventude passada sem presente!
Não me quero enganar…
Vitrificada a pele em transparência,
colorida de cores que só a luz sabe compor,
num instante o estilhaçar:
de beleza incomum, mas danos irreparáveis!
Prefiro pendurar meu corpo num gancho
e deixá-lo algures, no caos,
nesse traço negro que não compomos, não sabemos,
apenas,
ao sabor da vida!



Poema de Nobody in Marginal

sábado, novembro 19, 2005

O Velho da Baixa...



Sinto que a vida nunca te sorriu,
Nas poucas vezes que passei por ti
Estavas sempre sentado neste mesmo banco,
A qualquer hora do dia que reinventas,
À espera de uma outra vida que nunca chega.
Invejo-te a capacidade de fazer parar o tempo
Esquecendo que ele passa.
Conservas esta figura altiva de senhor nobre,
Quem sabe, um dia o foste.
Tentei seguir o teu olhar, mas perdi-me…
Fico sempre à espera de um gesto teu
Um olhar, um talvez…
De um nada que nunca acontece.
Aprendeste a ignorar-nos os passos,
Os sons, as palavras e até mesmo os olhares.
Nem sei dizer-te do meu olhar,
Um misto de inveja e tristeza…
Uma curiosidade de saber a tua história,
Os sonhos que nunca realizaste,
O amor que sentiste,
A calçada por onde andaste,
Os muros que ergueste…
E temo um engano.
Quantos olhares se perderam em ti?
Quantos olhares perdeste em nós?
Quantos de nós nos enganamos?
Quantos de nós queres que se enganem?
(Poema e Imagem de Vera Cymbron em Sentidos Ocultos)


Depois de conhecer pessoalmente a Vera, sinto no meu coração porque escreveu este Poema.
Obrigada por seres como és…

quarta-feira, novembro 16, 2005

A Voz Silenciosa

A Poesia está em cada palavra que sentimos no coração.
E, o texto que vou transcrever, tocou no mais fundo da minha alma.
E com ele se faz, também... Poesia.


Imagem do Ognid daqui


A Língua Gestual é uma língua bonita e enérgica.
É até um desporto para as mãos! Elas contorcem-se com magia, voam e dançam capazes de se transformar nas mais belas formas.

A Língua Gestual é uma voz silenciosa e extremamente visual. Cada gesto corresponde a um significado despido de palavras. As mãos, a face e o corpo desenham acções e pincelam emoções carnais sob o olhar do silêncio mais profundo.

Mas…
Cada palavra da Língua Portuguesa é amachucada, engolida por cada gesto, tornando-se praticamente invisível.
Por exemplo, a palavra “amigo”. A Língua Gestual não mostra as valiosas sílabas “a–mi–go”, não se pronuncia em voz alta “amigo”, vê-se apenas os braços a cruzar no peito…
Até os verbos gestuais são espremidos e arredondados em esponjas de diferentes cores. “Vou”, “fui” e “irei”. Estes três tempos verbais têm o mesmo gesto, que é um indicador apontado e em movimento. A diferença está na expressão facial.

Por isso, imploro para que falem comigo em Língua Portuguesa. Preciso de ver palavras, todos os verbos e as estruturas frásicas. Preciso de “ouvir” diariamente a Língua Portuguesa! Necessito de conversas difíceis e inteligentes, salpicadas de vocabulário rico. Melhor, necessito conversas de adulto ouvinte! Quero conversas longas e não curtas.
Senão, o meu Português e a minha Cultura esfumam-se…

Palavras da Silencebox aqui

sábado, novembro 12, 2005

Poema vadio


Imagem da Isabel Filipe daqui



Queria escrever o poema perfeito.
Colocar as palavras ordenadas
Obter a sintonia dos sentimentos
Cruzar os tempos
Expor únicos momentos
Mas tudo me quebra o pensamento
Hoje,
Que queria escrever o poema perfeito.
Ou é o gato da vizinha
Ainda que belo mas chato
Porque geme de cio junto à cozinha
Ou o carro que cruza a estrada
E estupidamente buzina,
E eis agora que entra um amigo
(E eu que queria escrever o poema perfeito!
Que faço?)
Ora viva! Venha de lá esse abraço!
Conversa, conversa e mais um cigarro
Que isto de ouvir lamentos de amor
Leva o seu tempo e eterna paciência
Por isso venha mais uma cerveja
Para aliviar essa dor.
E com tudo isto
Já se foi a inspiração
E o poema perfeito está longe de o ser
Morreu, o sacana,
Antes mesmo de nascer.

Assim,
Desisto e vou à tasca do Manel.
Lá tem bons petiscos
E sempre atenuo a decepção nos tintos.
É Liz, a esposa, quem me chama
(Que dizem as más bocas ser boa de cama):
Que vai ser?
Quero presunto fino. Pão. Azeitona. Tinto.
Saboreio o suíno
Um pedaço de pão,
O vinho.
.
.
Quantos euros devo? Uma dezena!?
É pena.
Dou-te cinco e fica lá com este poema!




Poema de Luís Miguel in Vertentes

terça-feira, novembro 08, 2005

Mar Revolto/Mar Azul ...


Autor: Abel Manta (1888-1992) daqui

Há um fogo
pelas ruas da cidade

Há um ranger de ossos quebrados
detrás daquela viela

Há um velho bêbado
entoando uma canção

Há um táxi em corrida
pelas pedras da calçada

Há um grupo de marines,
beiços de duvidosos prazeres

Há a puta da esquina
e o chulo atrás da porta

Há a mulher que olha
meio sorriso na face

Há jovens filhos do dia
em weekend's prolongados

Há o homem que engata
uma gaja muito boa

Há a noite,
há a vida,
corre o sangue em ti,
Lisboa

Poema "Olhar" da Lina (Mar Azul-Sesimbra)


Autor: Jacqueline Klein daqui

Nas voltas
E meias voltas
Das voltas
Que a vida dá
Perdemos tempo
Com voltas
e
Nem sempre
Chegamos a tempo
de
Nos encontrarmos
Na volta
De uma
Meia volta
De um p’ra cá
e
Dois p’ra lá...

Poema "Nas Voltas" da Lina (Mar Revolto-Braga)

Poemas de Mar Revolto/Mar Azul daqui

sábado, novembro 05, 2005

Vade retro



Gostava de falar sobre um rio
Mas só o sei descrever revolto e agitado.
Gostava de escrever sobre as nuvens
Mas só as digo quando cinzentas
Carregadas de tempestade.
Gostava de encantar com a beleza das flores
Mas as que gosto
Não estão expostas em montras de floristas
Nascem selvagens rasgando rochas áridas, infecundas.
O azul transparente do rio
A leveza da nuvem/algodão que flutua
A beleza da flor domada
Deixo para os outros
Que falam disso bem melhor que eu.
Eu dou o outro lado
O rio revolto, a nuvem carregada
A flor única, a rocha infecunda.
Exorcizo-me em tentativas de poemas
Construo espanta-espíritos de palavras
Desnudo-me em frases incompletas
Poemas pequenos de pessoa pequena.
Não sei fazer rendilhados de palavras
Tecer poemas perfeitos
Usar figuras de estilo
Metáforas, métrica e rima.
O que sei é isto
Fazer das palavras um "vade retro"
Ousadia, provocação, amor, luta
E acabar assim cansada
Vazia, desfeita
Como se tivesse sido desbravada
Vencido uma batalha
Ou acabado de fazer amor.

Poema da Encandescente in Erotismo na Cidade
Com a devida autorização
(Foi editado o Livro de Poemas - "Encandescente"
Mais informações no Blog da
Autora)

quarta-feira, novembro 02, 2005

A palavra



Eu disse a palavra é uma arma
Que explode quando queremos
E quando a soubermos empunhar
Basta o momento e lugar certo
Eu escrevo e as palavras
São a minha parceria
Infiltradas nas folhas em que eu garatujo
Fieis e leais à espera de serem
Preenchidas com letras perfeitas

Eu disse a palavra transforma
A outra guerra que gera a paz
Que procuramos dentro de nós
Com ímpeto e exultação
E nem sempre conseguimos
As palavras podem sair
Assim lascadas
Em mil excertos
E se as soubermos usar
Com elas faremos um poema

Eu disse
As palavras são uma arma
E ninguém entendeu
E eu quis fazer uma
Arma das palavras
Que escrevi
Como se elas fossem rosas brancas
Que nasceram roseiral
Da minha idealidade

Eu disse...

Poema de Piedade Araújo Sol em olhares em tons de maresia