O crepúsculo em combustão lenta
Entre anjos e
E criaturas novas
A urgência do mundo
que bate o pé
A arte de ser
uma nova estrela
Os hóspedes tão desconhecidos
quanto influentes,
A teia e a aura:
Paralelas que talvez se encontrem.
Pintura de Márcio Melo
de que medidas somos feitos?
quantas peças encaixam, moldes utilizados
olhos que nos vêem, de que modo?
fosses um bosque
uma pedra vento fogo
inanimado
fosses flor
água terra
não sendo nada és
sou espírito navegante
ouves o que permito
tocas no alcançável
o resto é mato
(Poema de Teresa Durães in Voando por Aí)
Imagem Sandra Perez
Atravessamos o deserto descalços
Alegres
Desprendidos
Enfaixados em sonhos
Carregamos esperanças
Elexíres de domínio
Projectando momentos
Fragmentos do que não foi
Mas atravessamos o deserto descalços
Porque as certezas dissipam-se nas areias
E o óbvio é acessório
(Poema de Daniela Mann in Amar-Ela)
Sebastião da Gama
Confesso que ao começar a ouvir as primeiras palavras ditas aqui me emocionei bastante.
E reportei-me anos atrás, onde uma voz tranquila lia em certos momentos, palavras que se foram interiorizando em mim. Tal como estas:
“Há palavras alegres e há palavras
tristes. E essa tristeza ou essa alegria
umas vezes está nelas, outras no
modo de as dizer.”
As palavras do Luís Gaspar despertaram em mim recordações há muito guardadas na memória dos afectos. Confesso que enquanto o ouvia, uma lágrima rolava no meu rosto. Da minha meninice e dos meus tempos de estudante, guardo recordações maravilhosas. E sei que muito do amor às letras que tenho, vêm desses tempos.
Hoje num turbilhão de sentimentos, recordei momentos, factos e pessoas que guardei sempre no meu coração. Um deles, a pessoa que me ensinou a amar as letras, que lia na sua voz doce e que me transmitia e a toda a classe que leccionava, toda a candura de um Poeta que ela própria respeitava e admirava: a minha Professora, que também era a minha melhor Amiga e minha Mãe.
É a ela e por ela, que hoje neste Poesia Portuguesa me atrevo a deixar aqui a voz do Luís e este
Apareces tão pouco...
Apareces tão pouco nos meus sonhos que quando os sonho chego a ter saudades tuas.
E entretanto tu és ainda a mesma continuas a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato, a idealizar uma casa ao rés das ondas (mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos) e a fazer da Vida precisamente a ideia que fizeste de mim desde a primeira hora.
Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus sonhos. E como eu, pela minha, calculava a tua pressa, fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.
O tempo era o das flores... E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la ao maior e melhor de todos os poetas. Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas, e era já acordado que beijava as tuas mãos, pois desceras comigo do sonho e à minha volta o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas eram tua presença verdadeira ...
Por que não vens agora? Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas...E tu pensas de mim o que pensaste sempre e bordas nos lençóis as nossas iniciais. Por que não vens? Chegarias ainda rosada e ofegante. Não virias molhar de lágrimas meus sonhos, porque não sabes nada ... Nem sequer que até esqueci a cor e o corte do vestido que tu estreaste (há quantas Primaveras?) no último sonho em que sonhei contigo ...
(Sebastião da Gama )
Sebastião da Gama foi Professor. Muitos alunos o recordam. Um deles o próprio Luís Gaspar e são dele estas palavras que finalizam o Palavras de Ouro 63:
"Vou reler e reler o “Diário” de Sebastião da Gama onde ele, a certa altura fala de um dos seus alunos como um tal Micróbio alcunha que me acompanhou durante muito tempo na Escola Veiga Beirão. "
Imagem Mário Galvão Ferreira Galante [Magal]
Talvez nunca a ternura fosse tanta
como entre os montes amadurecidos
e quando as casas se elevam
entre o ouro e o fumo da tarde.
Silêncio que parece vir do lento
passado,
vozes que se dão
em resignada melancolia
e tomam a forma dos frutos,
vinho e sombra que apagam o mar
nas árvores
onde não tardará o abandono
memória do que somos.
Repousam sobre a noite os grous
enquanto as cidades crescem à nossa volta
contra o sul vencido.
Vento, ramo e sombra que caem
sobre as janelas ardentes:
lá onde a púrpura se reclina
sobre a água e a beleza
a verdade começa a surgir da espuma.
(Poema de Henrique Dória in Odisseus)
Óleo de John William Waterhouse
Hoje já pela noite
Fiz-me ao mar ...
Libertei sereias
para cantar
em vozes transparentes
e calmas...
Transformei gaivotas
inquietas...
voando
em voos de rasos
de almas
planando...
Desencalhei navios
afundados
soltei barcos
naufragados...
Sacudi a folhagem
mudei a paisagem...
Desfolhei flores
de mil cores...
Perfumei o vento !
Pintei o tempo!
(Poema da Perdida)
Fonte da imagem: Clarence Signormori
Subo a escadaria
De mármore polido
Até ao topo
Derrapo nos últimos degraus
Quase me estatelo
Equilibro-me a custo
Dum golpe de rins
Bem delineado
Alcançando a muralha
Donde consigo avistar
Aquilo que tu não queres ver
Quando subires
A escadaria de mármore polido
Cuidado nos últimos degraus
Eles escorregam...
(Poema de Paula Raposo in Canela e Erva Doce)
No próximo dia 14 de Outubro às 18.30, será lançado o livro de poesia "Canela e Erva Doce". Mais detalhes aqui
Imagem de Adriarual
Tatuaste
no teu corpo, a minha
cor
entrando... nos teus poros
corro-te
no sangue...
livre
A alada curvatura do meu seio
Não evita o doce peso dos teus dedos
Um favo, onde se junta toda a doçura – sem receio
Vestes a nudez do meu liso ventre – com segredos
Doce mel do teu olhar desliza...
Pequenas gotas em meus lábios caem
Como palavra absoluta, envolvida na melissa
No íntimo desprender, aquando tocamos – a margem
O teu coração
movendo-se na boca
inaudível dos teus dedos...
(Poema de Betty Branco Martins in Fragmentos)
Imagem de Luis Caeiro
O que é Poesia?
Porquê escrever?
É uma triste alegria,
É um amargo prazer.
Em versos, o poeta tem
Um desafogo da alma,
A emoção que lhe vem,
É ânsia, loucura, calma...
Escrevendo, sente-se bem,
Sente-se algo, sente-se alguém,
Num mundo que não é seu.
O que ao poeta dói, o que sente,
É que o mundo, não compreende,
O que, tão sentido, escreveu.
(Poema de Luis Caeiro in grão-de-luz )
Imagem de Jeff Novak
Chegaste
De mãos dadas
Com o Outono,
E em pleno
Rio Tejo,
Olhaste-me
E pediste-me
Aquele beijo.
Não são lamúrias
Que ouço cantar,
Nem pedras de sal
Que vejo chorar.
São dois corações
Impetuosos
Pela dor,
Que fraquejam
Por saber
Que de tudo
O que menos ficou
Foi o amor.
(Poema de Natalie Afonseca in A minha teia)
Pintura de Sandonís Martín
Manhã de sábado
Manhã de praça
Manhã de compras
Ó freguesa, não vai um cheirinho?
Manhã de luz de Setembro
Manhã das coisas que me lembro
Manhã de acordar ao relento
Ó freguês, não vai um cafezinho?
Manhã de orvalho
Manhã de gotas suadas
Manhã de sinfonias, a soarem de galho em galho
Ó fregueses, então não vai um abracinho?
(Poema de João Firmino in Circulo de Poesia)
Imagem de Daniel Costa-Lourenço
O vento espalha pétalas de lua sobre a calma da noite
Abrindo as nuvens de medos sussurrantes,
Revelando um céu quase virgem de olhares
Como se fosse a única vez que te tocasse
E a última,
De tal forma fulgurante
Que acendemos fogos sobre a água escura do rio
Com restos de entardecer,
Crepitando assustadoramente os nossos nomes,
O vernáculo que soltas quando nos temos,
Os nomes das coisas que inventamos, e fazemos
Sobre o suor das risos ao crepúsculo,
Dos suspiros que se confundem com o rumor da manhã,
Sem rumo, sem norte, sem bússola,
Perdidos,
Num recanto qualquer com vista para o Tejo,
Vagueando, algures na nossa embriaguez,
Devorando-nos em surdina,
Reclinados sobre um precipício que não acaba.
É tudo o que temos,
Quando nos temos…
(Poema de db in mar.da.Palha)
Imagem de Olga Fonseca
1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.
2.
Só o desejo é matinal.
3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.
4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.
5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.
6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.
7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?
(Poema de Eugénio de Andrade)
A todos os que gostam de Poesia, permito-me chamar a atenção para as palavras de Luís Gaspar através do Estúdio Raposa – Lugar aos Outros 19 .
Quem estiver interessado em aderir à iniciativa sugerida e nas próprias palavras do Luís seria…“organizar a edição de um livro com a Poesia que anda pela Blogaria”…
Deixo do aqui o desafio…
(Poema da {{Coral}})
Imagem Google
Acaba-se imperceptivelmente o fulgor do Verão
Vai-nos caindo sobre...
esta lassidão de Outono.
A luz já não é bem luz
mas uma pasta que se mistura com a Terra.
Dela se ergue uma bruma da sua cor,
diluída, esparsa.
O cheiro entra-nos na pele
absorve-nos
dispensa as narinas.
é acre
intenso
quase agressivo.
As estrelas baixaram no céu
teimosamente entre nós.
Ensombra-nos uma ténue cortina -
futuras nuvens
ainda medrosas de o serem.
O céu já não é a donzela
desconhecedora de vergonhas
descuidando-se brilhante no seu virginal fulgor.
É, agora, pudica menina
tentando encobrir a nudez
em indiscreta cortina translúcida.
(As fêmeas deveriam sempre aleitar nesta estação.
Então, os vagidos das crias sequiosas ou o ronronar da saciedade, soariam abafados docemente na penumbra, de manhã a manhã, como uma almofada de lã fofa e transparente e as crias, rolando dos leitos, vagueariam nesta maciez onde a gravidade quase se anula.)
Se Paz houvesse, ela seria proclamada em cada início de Outono!
(Poema da Seila)
Imagem de Dionísio Leitão
Hoje, fumei um cigarro.
Emprestaram-me o isqueiro,
deram-me o invólucro branco-laranja,
e foi com a alma em franja
que cheguei à sala do fumeiro
e entre a impestação alheia por catarro
me esfumarava inteiro.
Entrou uma mulher;
"Tem lume?" – mordendo o cigarro ao meu fogo ofertado
"Sim" – passando-lhe para a mão o mecanismo emprestado
Surpresa, não se conteve; "Julguei ser um cavalheiro!"
Rindo-me retorqui, com o meu ar mais matreiro:
"Que maior confiança deposito que ter na mão o meu isqueiro?"
É que nestas convenções de cavalheiros
escondem-se sagazes predadores de atenção,
mas são os que não procuram ser certeiros
que guardam os melhores sorrisos
no coração!
(Poema de Rui Diniz)
Pintura de Edward J. Poynter
Quero ser…
Existir nos teus lábios…
Quero estar…
Possuir as tuas mãos…
Quero, quero ser a montanha que te recebe.
Silencia os nossos gemidos,
cala os nossos choros…
Serei fonte que te bebe sem sede,
onde estou, serei vida que te leva como numa rede.
O que sou sem a tua luz não me transporta,
deixei de ser, abandonei a matéria morta.
Quero ir…
Existir nas tuas palavras…
Quero voltar…
Possuir os teus erros…
Quero, quero ir na corrente que te leva.
Grita na melodia do nosso silêncio,
Revela o nosso sorriso…
Serei o pó que recebes,
onde vou, crescer no teu mundo como sebes.
O que fui, perguntas, apenas matéria,
passarei a ser, tão vivo como uma artéria.
(Poema de Joca-João C. Santos)
Imagem de Zhaoming Wu
Perfilo-me à beira da vida
tentando
evitar o inevitável.
Dobro as esquinas com cuidado
evitando as surpresas.
Espreito os becos desertos
com a esperança de neles ver surgir
o in(esperado).
Fujo do confronto,
de olhar em frente
o que quero não ver mais.
Encolho-me no meu canto
e escolho
a imobilidade
pensando assim passar
despercebida.
A invisibilidade é o
que mais pretendo.
A instabilidade é o que possuo.
A paz é o que procuro
mas a desilusão espreita em cada passo.
Desilusão.
A ilusão desiludida.
Instabilidade.
Instável estabilidade.
Escondo-me do futuro
escudada na ilusão,
e à beira da vida, aguardo.
Imóvel.
Salto?
(Poema da Dulce)
1000Imagens FilipeSantos
Eis que a ti me entrego e a ti recebo,
é a unificação do nosso ser.
Que maior maravilha pode haver
do que beijar-te a alma, o meu abrigo?
Deixa que a ternura que em mim sentes, seja a estrada de sonho
em que caminhes, e caminhando tu irei contigo.
Deixa pois que o infinito seja o fim, e que até lá
na doce comunhão do nosso amor, eu consiga a ventura
de te ter ao pé de mim.
(Mesmo que as vagas sejam muitas
eu vencerei distâncias).
O marulhar bramindo
não será mais forte
do que os meus lábios
teus olhos cobrindo
ao cair da noite.
Deixa pois que me atreva
a ser superior à humanidade;
que subjugue o ciúme,
o tédio e o esquecimento com a minha vontade.
(Deslizarei bem junto a ti, abraçarei os teus joelhos
e assim, reinarei submissamente).
Depois te contarei os lindos sonhos que para ti criei.
Consente amor que a tua alma embale docemente,
que o frémito que existe
nos meus lábios
circule no teu sangue, e te mantenha
o fogo
eternamente.
(Poema d' A rapariga)