quarta-feira, novembro 29, 2006

...das palavras, se faz Poesia...





o corpo.

cumpro as horas,
nessa
penumbra
que te cobre
e onde pouso as mãos.
com gestos lentos
e num sangrento
silêncio,
(onde escondo
a tristeza
que me corre
entre cigarros),
escavo
o abismo
onde me és pão e vinho.
o corpo,o teu,ainda.
só aí me lembro ou sei.
como quem acosta,
fosforescente,
ao desabar espumoso
de madrugadas no mar.


(Amadis de Gaula in abattoirblues)

Pintura de Tamara de Lempicka

segunda-feira, novembro 27, 2006

Trovas Soltas


Pintura de Nela Vicente

A Vida é luta infindável
que todos querem ganhar;
mas vencer é improvável,
por isso, é aconselhável
com perspicácia jogar.

Muitos houve que trilharam
caminhos de perdição;
outros que desesperaram,
corpo e alma destroçaram,
por obter libertação.

Tenho sede de Absoluto
e ânsia de Perfeição…
Eu sou diamante em bruto
que sonha a cada minuto
na sua lapidação.

Se dizem que ele houve um Deus
que de Si me copiou,
rasgarei da noite os véus
e indagarei dos céus
se esse Ser me originou.

Se é loucura querer saber
e pecado querer amar,
pecadora quero ser
e, alienada, sofrer
escárnio da gente vulgar.

Procuro fazer crescer
o pouco que tive em sorte;
quero amar, rir e sofrer
− pois não é por não viver
que terei perdão da Morte.



(Poema da Aspásia in O Jardim de Aspásia)

quinta-feira, novembro 23, 2006

Estado de Espírito


Imagem de BGallery


Tira-me do silêncio,
Sussurrando palavras lapidadas,
Na intemporalidade,
Dos teus pensamentos.

Absorvidos de desejo!

Gravuras esculpidas,
Numa utopia,
Inexistente e abstracta,
Do emudecimento apaixonado.

Longínquo ou perto,
Ritmando os nossos corpos,
Na ilha da tentação,
Fundeando a luz
Na descrição.

De um amor envolvente,
E profundo.


(Poema de @Memorex )

segunda-feira, novembro 20, 2006

Mulheres da minha Vida...

(Balanço final)


Imagem de BGallery


Mulheres da minha vida, não queirais
Que eu diga, nesta hora, por favor,
Qual foi a que de vós eu gostei mais,
À qual me consagrei com mais ardor

Sendo a mulher flor tão delicada,
Como escolher entre uma e outra flor?
Se colho a rosa por ser tão perfumada
desmereço ao cravo e ao nardo o seu valor?

E a violeta, o jasmim e a açucena
Ignorá-las quem não teria pena?...
Por isso todas guardo em meu canteiro

Não me pergunteis, pois, qual mais amei
Nenhuma de vós jamais eu olvidei
E amo ainda todas, por inteiro


(Poema de
António Melenas in Escritos Outonais)


Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

quinta-feira, novembro 16, 2006

Poesia em fuga...


Imagem de F. Agell


A poesia perdeu-se nos labirintos da emoção,
escapou por alamedas nubladas de dor...
Horizontes tristes tresmalhados do coração
que envergam a nostalgia de um amor.

Onde estão as flores que despontavam
nas alamedas secretas dos sonhos,
aromas de infinito que embalavam
auroras enamoradas, pensamentos risonhos?

Ó poesia que fugiste nas asas do vento...
Levaste contigo os lírios de ternura
que esculpiam estrelas no firmamento!

Agora imersa estou num vazio de tortura...
Tudo em mim é angústia e lamento...
Sou um jardim sem flores... em amargura.


(Poema da *Fanny* in Simplesmente Murmúrios...)

terça-feira, novembro 14, 2006

Neste muro branco





Neste muro branco
segredam-se histórias caladas na cal.
Recordam-se breves fragmentos
de um dia singular,
onde papoilas dançam ao vento
e uma criança tropeça no teu olhar.

Neste branco muro
vivem-se histórias pintadas na pedra.
Anseiam-se beijos quentes
que tardam em principiar,
onde as mãos se procuram lentas
na nudez inquieta do teu respirar.

E é neste muro de cal branca,
que se revivem histórias de cada luar,
são histórias minhas e tuas,
memórias de todos os que souberam amar.


(Poema e imagem de Jose Fontinha in aZArt)

sábado, novembro 11, 2006

Beija-me...


Lápis de Andrei Protsouk


beija-me uma vez
beija-me sete
beija-me setenta vezes
vezes sete

que te beijo uma vez
te beijo sete
beijo-te setenta vezes
vezes sete

amor que nunca esquece
o beijo mais fecundo
que só ao amor obedece
sete vezes, vezes o mundo


(Poema de P Az in O Zigurate)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Olhos – reflexo da alma...


Imagem modificada pela *Fanny*


Olhares, contemplam tudo por fora
Reflectem tudo por dentro
Interiorizam pensamentos para a alma
A alma dá-lhes embelezamento

De fora vem beleza e angústia
De dentro vem a significação
Lágrimas vêm do fundo da alma
Beleza embeleza o coração

Olhos tristes revelam alma consternada
Exaustos da força de sofrimento e mágoa
Olhos jubilosos espelham alma suave
Compartilham paz de alma profunda e leve

Olhos misteriosos de pessoas misteriosas
Olhares e mistérios que se devem venerar
Do pouco que suas almas mostram
Mostram que muito mais têm para dar

Olhos profundos procuram profundidade
Vêem o exterior internamente
Enfraquecem com tão forte invasão no espírito
Engrandecem a alma com poderoso adorno vitalício

Olhos belos são os que procuram profundidade
Olhos profundos de profunda sagacidade
Que sua alma lhes implora por beleza intensa
Olhos belos são reflexo de alma sempre imensa


(Poema de Simão Cabral in Mente Delirante)

terça-feira, novembro 07, 2006

...delírios de azul...


Imagem de autor desconhecido


Ouso de ti gostar. Olhar-te
Do alto do haver-te e amar-te
Num rasgo de criação e loucura
Entre finos lençóis de sol e de querer.
Amar do teu corpo a melodia
E fragrância, a floração da carne
Debaixo das minhas mãos a crescer…
Um mais querer… paixão e desejo
De abraçar nos lábios a frescura de uma
Rosa que o aljôfar da alvorada vestiu;
Dois corpos vestidos com a nudez
Das fontes que ao entardecer
Se tocam em delírios de azul.


(Poema de Alves Bento Belisário in "Inquietudes" )

sábado, novembro 04, 2006

Deixa!....


Imagem de Georges Barbier


Deixa que faça das palavras beijos
E beijos de cada palavra que te escrevo.
Deixa que as letras se cruzem entre si
Formando ideias e lamentos.

Deixa que cada palavra seja um grito desesperado.
Deixa, as palavras serem mimos
Deixa que me encontre em ti
Quando já nada resta
A não ser a perdição.

Lê mesmo nas palavras que não digo
Naquelas que inventei
Nas outras que não invento, mas imagino.
Lê nos silêncios sem palavras
Mas lê em cada palavra um beijo.

Deixa que percorra o teu corpo de sabores e ânsias
Com lábios de palavras que são beijos.
Deixa que sejam os beijos a serem palavras que não preciso escrever
Mas beijos.

Deixa, que a languidez de todo o meu ser
Te toque
Percorrendo cabelos, pernas de lavas
Quentes
Pernas sem palavras e desejos
Sem palavras
Beijos.

Mergulho na tua doce boca, calando palavras
Buscando os beijos de letras
De poemas sem poeta
Espumas de mar, e palavras.

Deixa que sejam os beijos, as palavras.
E que as palavras sejam beijos.
Assim, posso tocar o teu corpo
Mergulhar nele
Com lavas ardentes de desejos
E palavras, que são, afinal beijos.

(Poema de *António José Pinto Correia)


*Autor do livro Insónias e afins recentemente editado

quinta-feira, novembro 02, 2006

Vieste...


Imagem de autor desconhecido


E tu vieste assim…
Devagar, lentamente, como uma folha
Que cai devagar, com medo de tocar o chão!
Assim me despertaste, como a aragem da manhã,
E me envolveste nos teus braços
E tu vieste assim,
Como quem quer sentir somente o calor
De chegar a casa e descansar
Nos braços de alguém!

E tu vieste assim,
Como quem
Quer um lar
Para o coração!

E ficaste, em mim!

(Poema de Delfim Peixoto)

Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

segunda-feira, outubro 30, 2006

Solidariedade e Poesia...

Porque a Poesia são sentimentos que partilhamos com os outros e também um elo que pode ligar e estabelecer afectos, resolvi partilhar o conteúdo de um email que recebi recentemente, onde a solidariedade e a poesia andam de mãos dadas.
Através do
Padre Mário de Oliveira tive conhecimento desta obra de solidariedade e de divulgação de cultura, onde está inserido o Poetas Somos que têm um projecto de editar um Livro de Poesias, sem custos para os Poetas e cuja receita reverterá a favor da Obra que defendem.
Vamos conjugar esforços e ajudar com dois ou três poemas de cada um de vós, esta
Obra e no final quem sabe, nos possamos reunir todos numa daquelas salas e, recitar Poesia



Imagem autor desconhecido


Há uma casa no olhar
de um amigo.
Nela entramos sacudindo a chuva.
Deixamos no cabide o casaco
fumegando ainda dos incêndios do dia.
Nas fontes e nos jardins
das palavras que trazemos
o amigo ergue o cálice
e o verão
das sementes.
Então abre as janelas das mãos para que cantem
a claridade, a água
e as pontes da sua voz
onde dançam os mais árduos esplendores.

Um amigo somos nós, atravessando o olhar
e os véus de linho sobre o rosto da vida
nas tardes de relâmpagos e nos exílios,

onde a ira nómada da cidade arde
como um cego em busca de luz.

(Poema "Um Amigo" de Eduardo Bettencourt Pinto)

sexta-feira, outubro 27, 2006

Tingida de noite...


Imagem autor desconhecido



Tingida de noite tropeçaste em mim,
triturada pela desilusão de uma dança.
Tango Argentino decorei nas tuas ancas e seios,
tatuado de tempo e vontade indiferente.

Tua voz silenciosa envolveu-me sem avisar,
telepática e inigualável, oscilou o meu mundo.
Temperaturas mortas te gelavam as mãos,
tocaste-me com o suspiro de vida que escondias.

Toxinas conquistadoras te colonizavam,
tumores possessivos de momentos vividos.
Tela alheia de fantasias cúmplices,
textura ardente em sopro oscilante.

Trovoadas pincelámos em ecos pintados,
tormentas apaziguamos e enchemos de nada.
Torneios de vendavais e calmarias nos embriagam,
tentações da vida, essa ilusionista infinita e perfeita.

Traí o rótulo do amor que se deseja cego,
testemunha fui de que te amei com um olhar.


(Poema do Dilbert)

quarta-feira, outubro 25, 2006

Plantador de sonhos...


Imagem daqui



No teatro da vida, solitário,
Unicamente em sintonia com a fantasia,
Fui o artista que gerou imagens
Para consolo de ânsias sem fim.

Fui aquele que criou
formas de vida pelo sentimento,
O génio insano que idealizou amores
Para amparo, sustento da esperança.

Louco alquimista dos mistérios,
Tradutor de desejos
E ensaísta da volúpia eterna.

Fui plantador de sonhos...

(Poema de Louco de Lisboa in In§†an†e§ ðe µm £oµ¢o)

segunda-feira, outubro 23, 2006

O crepúsculo em combustão lenta...

Confesso que o poema que vos trago hoje, pertence a um dos blogues de cinema que mais gosto de visitar…e porque o cinema é outra das minhas paixões, aqui vos deixo... wasted blues


Imagem de Pedro Moreira

O crepúsculo em combustão lenta
Entre anjos e

E criaturas novas

A urgência do mundo
que bate o pé

A arte de ser
uma nova estrela

Os hóspedes tão desconhecidos
quanto influentes,
A teia e a aura:
Paralelas que talvez se encontrem.

(Poema de wasted blues)

sexta-feira, outubro 20, 2006

de que medidas somos feitos?


Pintura de Márcio Melo

de que medidas somos feitos?
quantas peças encaixam, moldes utilizados
olhos que nos vêem, de que modo?

fosses um bosque
uma pedra vento fogo
inanimado

fosses flor
água terra

não sendo nada és
sou espírito navegante
ouves o que permito
tocas no alcançável
o resto é mato


(Poema de Teresa Durães in Voando por Aí)

quarta-feira, outubro 18, 2006

Paixão...


Imagem Sandra Perez



Atravessamos o deserto descalços
Alegres
Desprendidos
Enfaixados em sonhos

Carregamos esperanças
Elexíres de domínio
Projectando momentos
Fragmentos do que não foi

Mas atravessamos o deserto descalços
Porque as certezas dissipam-se nas areias
E o óbvio é acessório


(Poema de
Daniela Mann in Amar-Ela)

segunda-feira, outubro 16, 2006

Apareces tão pouco...

"-Tens muito que fazer?
-Não. Tenho muito que amar.
(Não entendo ser professor de outra maneira. E não me venham dizer que isto cansa e mata; morrer-se sempre se morre: e à minha maneira tem-se a consolação de não ser em vão que se morre de cansaço.)" in Diário de Sebastião da Gama




Sebastião da Gama

Confesso que ao começar a ouvir as primeiras palavras ditas aqui me emocionei bastante.
E reportei-me anos atrás, onde uma voz tranquila lia em certos momentos, palavras que se foram interiorizando em mim. Tal como estas:


“Há palavras alegres e há palavras
tristes. E essa tristeza ou essa alegria
umas vezes está nelas, outras no
modo de as dizer.”


As palavras do Luís Gaspar despertaram em mim recordações há muito guardadas na memória dos afectos. Confesso que enquanto o ouvia, uma lágrima rolava no meu rosto. Da minha meninice e dos meus tempos de estudante, guardo recordações maravilhosas. E sei que muito do amor às letras que tenho, vêm desses tempos.
Hoje num turbilhão de sentimentos, recordei momentos, factos e pessoas que guardei sempre no meu coração. Um deles, a pessoa que me ensinou a amar as letras, que lia na sua voz doce e que me transmitia e a toda a classe que leccionava, toda a candura de um Poeta que ela própria respeitava e admirava: a minha Professora, que também era a minha melhor Amiga e minha Mãe.
É a ela e por ela, que hoje neste Poesia Portuguesa me atrevo a deixar aqui a voz do
Luís e este


Apareces tão pouco...

Apareces tão pouco nos meus sonhos que quando os sonho chego a ter saudades tuas.
E entretanto tu és ainda a mesma continuas a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato, a idealizar uma casa ao rés das ondas (mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos) e a fazer da Vida precisamente a ideia que fizeste de mim desde a primeira hora.
Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus sonhos. E como eu, pela minha, calculava a tua pressa, fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.
O tempo era o das flores... E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la ao maior e melhor de todos os poetas. Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas, e era já acordado que beijava as tuas mãos, pois desceras comigo do sonho e à minha volta o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas eram tua presença verdadeira ...
Por que não vens agora? Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas...E tu pensas de mim o que pensaste sempre e bordas nos lençóis as nossas iniciais. Por que não vens? Chegarias ainda rosada e ofegante. Não virias molhar de lágrimas meus sonhos, porque não sabes nada ... Nem sequer que até esqueci a cor e o corte do vestido que tu estreaste (há quantas Primaveras?) no último sonho em que sonhei contigo ...

(Sebastião da Gama )

Sebastião da Gama foi Professor. Muitos alunos o recordam. Um deles o próprio Luís Gaspar e são dele estas palavras que finalizam o Palavras de Ouro 63:

"Vou reler e reler o “Diário” de Sebastião da Gama onde ele, a certa altura fala de um dos seus alunos como um tal Micróbio alcunha que me acompanhou durante muito tempo na Escola Veiga Beirão. "

sexta-feira, outubro 13, 2006

Outono


Imagem Mário Galvão Ferreira Galante [Magal]


Talvez nunca a ternura fosse tanta
como entre os montes amadurecidos
e quando as casas se elevam
entre o ouro e o fumo da tarde.

Silêncio que parece vir do lento
passado,
vozes que se dão
em resignada melancolia
e tomam a forma dos frutos,
vinho e sombra que apagam o mar
nas árvores
onde não tardará o abandono
memória do que somos.

Repousam sobre a noite os grous
enquanto as cidades crescem à nossa volta
contra o sul vencido.

Vento, ramo e sombra que caem
sobre as janelas ardentes:
lá onde a púrpura se reclina
sobre a água e a beleza
a verdade começa a surgir da espuma.

(Poema de Henrique Dória in Odisseus)

quarta-feira, outubro 11, 2006

Pintar o tempo...


Óleo de John William Waterhouse


Hoje já pela noite
Fiz-me ao mar ...

Libertei sereias
para cantar
em vozes transparentes
e calmas...

Transformei gaivotas
inquietas...
voando
em voos de rasos
de almas
planando...

Desencalhei navios
afundados
soltei barcos
naufragados...

Sacudi a folhagem
mudei a paisagem...
Desfolhei flores
de mil cores...

Perfumei o vento !
Pintei o tempo!

(Poema da Perdida)