quarta-feira, agosto 15, 2007
segunda-feira, agosto 13, 2007
Ode ao Mar
Fotografia de Sandra V.
Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...
Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.
Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...
Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!
* Miguel Torga, in Odes,(1946)
* Poeta, contista, romancista, diarista, ensaísta e dramaturgo, Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Saber Amar
Pintura de Peder Severin Kroyer
Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.
Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.
Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.
É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.
(Poema de Maria Teodora in Thornlessrose)
sábado, agosto 04, 2007
O discurso do sol...
Aquarela de Gisele
O sol abriu os seus braços
Mostrou o melhor sorriso
E disse:
Da rotina solta os laços
Ganha tino, ganha siso,
Toma o barco da ousadia
E zarpa rumo ao futuro...
Onde há noite, vai ser dia,
Olhar forte, rosto duro,
Sorriso vestindo esperança
À bolina navegando,
Tens o leme da mudança
Na alma... o sonho brilhante,
O mar, é todo bonança,
Vai, e não olhes p'ra trás...
És a coragem que avança
Porto seguro verás,
E... saciado o desejo,
Ancora no meu olhar
Bem doce... te dou um beijo
E... em ti... vou mergulhar!...
quarta-feira, agosto 01, 2007
Silêncio
Imagem de autor desconhecido
Diz-se o silêncio,
Não são precisas palavras,
Fala-nos por si e no meio de tanta gente,
Faz-nos sentir quanto é premente,
Vencer as barreiras que nos aporta o tempo...
Diz-se o silêncio,
Impõe-se, belisca-nos, agita-nos...
Porque nos mexe na alma e nos morde o corpo
Ao trazer até nós a premência, a urgência,
que nos impele ao outro...
Diz-se o silêncio,
Ele é de ouro ou de prata,
Porque nos eleva,
Mesmo quando a saudade mata,
Sobe em nós a temperatura da consciência,
Ao penarmos pela ausência,
Mas sabemos que há uma memória que cura
e uma esperança que colmata...
(Poema de Beatriz Barroso in Porosidade Etérea)
Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
sexta-feira, julho 27, 2007
pedem à palavra
Imagem da mgbon
pedem à palavra
que semeie harmonia
canções
novelos de adubo
em campos fatigados.
pedem à palavra
que socorra
o choro
dos inocentes
nomeie a patente
dos vencedores.
que a palavra
honre
os poetas e as pomposas musas
os políticos e os demagogos
os funcionários e os burocratas
mendigos e feiticeiros.
pedem tanto à palavra.
que a palavra
emigra
foge dos palanques
esgueira-se
pelos canaviais.
deserta.
exausta e presa
na infindável
rede de significados
a palavra apenas pede
que a salves
que lhe dês o teu cheiro
a tua boca
que lhe mates a sede
com a água dos teus olhos.
que a acordes
no mais escuro dos silêncios
na hora mais bravia
pedem à palavra
arremedos
milagres
truques de magia
versos para a fanfarra e para os noivos
rimas de finalistas.
e a palavra
sente
que só encontra significado
lida em ti.
escrita no teu corpo.
palavra que te chama
quando te ausentas.
palavra que te grita
quando o sono
te vence.
palavra que te beija
acaricia, excita
na clandestina leitura
de todos os dias.
(Poema de Alberto Serra in noites-de-lua-branca)
terça-feira, julho 24, 2007
Perto de Ti
Foto da autora
Estou aqui perto de ti
Embora não me oiças
Regressei do silêncio
Do qual um dia parti
Não sentes o assobio
Do vento na esquina?
O outro lado da vida
Que tua vida não viu
(Poema de Eduardo Graça in Caderno de Poesia )
terça-feira, julho 17, 2007
Paráfrase sobre a "Canção das Canções"
Pintura de Gianni Strino
Desce a noite. Despedi-me dos pastores.
Inebriado pelo perfume do mosto olho para a minha amada.
Surge-me como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol.
Desperta no leito de cedro coberta de penas de pomba.
A mais bela de todas as mulheres extasia-se ao ver-me.
E pelo seu corpo verdejante como floresta perfumada
Pastam rebanhos de gazelas, corços, veados saltaricando na sombra dos seus cabelos.
A sua voz doce de favos, reclama-me e extasia-me.
- Leva-me contigo, meu amado. Ou deita-te a meu lado e canta-me amores.
Sou morena. Sou formosa. Sou tua. Ponho no meu pescoço
O colar de pérolas que exala o perfume do nosso vinho.
Repousa a tua cabeça nos meus seios, no meu ventre de lírios,
Na doçura da minha boca de frutos silvestres,
Quero desfalecer de amor nos teus braços fortes. Conforta-me.
Como és encantador e belo, meu amor. Vamos para o festim da floresta
Que já entoa a chegada da Primavera.
E introduz-me uvas passas na minha boca que espera a tua.
Saboreia a minha saliva e ouve a minha voz que te segreda palavras de conforto
Porque esta noite procurei-te e não te encontrei. Desejo ser tua
Como na primeira vez quando nos encontrámos nos outeiros.
Quero conceber dum amor frenético, penetrante, quente, aromático.
Oh! Meu amado amigo e esposo. Os ninhos já estão prontos.
Escolhamos o nosso.
E faz-me ouvir a tua voz desfalecida quando me abraças e me possuis.
Como são deliciosos os teus afagos, as tuas carícias,
Os beijos com que cobres o meu corpo inteiro. O aroma que vem de ti
Excede o de todos os aromas.
Desfaleço de amor. Os teus lábios são lírios, que destilam a mirra mais preciosa.
Bebe do nosso vinho perfumado, sacia a tua sede de desejo e toma-me.
Leva-me.
Desfaleço de amor mas não tenhamos pressa.
Quando regressarem os pastores
Estamos escondidos na ilha dos amores.
(Poema de Luís Pinto in Porosidade Etérea)
domingo, julho 15, 2007
Resposta do amigo
Imagem de Pages of Iink
as minhas velas
não ardem até ao fim:
apago-as sadicamente
sufocando-as do ar
com que me consomem
ou esmago o caule da chama
no poço líquido da cera quente
(nas intermitências da luz
e da morte
escondem-se os fantasmas
que abrigo debaixo da cama)
apagadas
deixam-se ficar na memória
acesas e coradas
como uma memória
nunca acendo as velas que apaguei:
extintas não me queimariam
(Poema da Inominável)
quinta-feira, julho 12, 2007
Em tuas águas...
Pintura de Diji Scales
Em tuas águas navego
Em ti
resumo o périplo
da minha volta ao mundo.
Fora de ti,
não há saída ou rumo
É em ti
que me salvo
... ou que me afundo.
Propício Ancoradouro
amena Enseada
em ti fundeei minha jangada
em tuas águas balouça
o meu escaler.
Fora do teu Mar
eu não sou nada
sou peixe
que estrebucha na areia calcinada
da praia
... até morrer
Em ti criei raiz
Em ti habito
Em ti me reconheço
Em ti palpito
Em ti eu esmoreço
Em ti resisto
Em ti eu caio
Em ti eu me levanto
Em ti eu choro e rio
Em ti eu desisto e recomeço
Em ti eu vivo
... Em ti pereço.
É de ti
que me nutro.
Em ti mergulho
Tu és Partida e Meta
a Flecha e o Alvo.
Em ti se anula e esbate
o meu orgulho
É em ti que me perco
... ou que me salvo
(Poema de António Melenas)
O meu especial agradecimento à Sulista pela nova imagem (de Verão) do Profile deste Blogue…
terça-feira, julho 10, 2007
ADEUS, SOPHIA
Imagem daqui
Por fim, Sophia
desatados os laços
vencidos os limites
estende-te o mar o seu tapete de ondas
como quem estende os braços
Respondes ao convite?
Guardou, só para ti
na tua metade maresia
prodígios, espantos, maravilhas
estranhos como Giocondas…
Esperam-te as ilhas
que sonhaste
E esses corcéis que nunca cavalgaste
sacodem já as crinas
em desafio
Segue o teu fio
de praias extasiadas
de manhãs cristalinas
até que se te acabem as areias
e te venham buscar
breves, aladas
as vagas por que anseias
Vai, ruma ao Norte
desprende-te do Sul
que a tua sorte
não é daqui, é de outro azul
Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia
Adeus, Sophia.
(Poema de AV in Porta do Vento)
domingo, julho 08, 2007
É sempre em Julho
Foi em Julho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em Julho que, dos teus olhos,
se avista um oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.
(Poema de Graça Pires in Ortografia do Olhar)
quarta-feira, julho 04, 2007
Uma sede de rosas...
Imagem de Ivan Kustura
uma sede de rosas.
uma sede tantálica, silenciosa,
como uma brasa ardente queimando.
incendiando as memórias, constante.
como uma inflorescência de cactos abrindo a noite.
cingida de espinhos, o silêncio perfurando.
e a carne.
em labaredas algemada, arfante, felina.
agrilhoada, salina de sangue, vibrante.
na ausência de uma frescura de rosas,
sinal algum pulsa a meu favor.
nem a fresca brisa que afaga os cactos mansos.
a única luz que fulgura e subsiste
é a do fanal do fragoso rochedo
que esquadria as brumas e os mares de escolhos
da minha noite negra povoada de medos:
- a saudade dos teus olhos.
[quem diz que a larga ausência causa olvido,
ignora que a saudade tem memória]
(Poema de Zénite in Castelos de Vento)
domingo, julho 01, 2007
Mais leves que o destino
Regressámos a pé no sossego da água
mas deixámos na praia um rasto cúmplice
de vento longínquo
alguns sinais de algas
recados e um desejo de repartir sementes
Talvez por isso cheirem a maresia
os poros deste chão
e os nossos lábios soltem pássaros generosos
Talvez por isso tivéssemos regressado
pelas dunas inconsistentes
e finalmente nos descobríssemos
nus e criadores
a voar num império de areias
Hoje quase compreendemos
porque são as aves mais leves
que o seu destino
(Poema de Eufrázio Filipe in Mar Arável)
quinta-feira, junho 28, 2007
Não me recordo
Imagem de Elena Chernenko
Não me recordo se havia alguma flor
no meu jardim.
Talvez fosse Verão... mas todas as manhãs, ao acordar,
inexplicavelmente sentia saudades de mim.
Só sei chorar em português. Se minha mãe soubesse...
Como detesto os meus brinquedos de criança.
Talvez fosse Verão, e houvesse flores...
Eu é que não fui um jardim na minha infância.
Todos os astros se perderam no infinito.
Que saudades eu sinto de não ter sido um outro.
Talvez fosse Verão, sei lá, e houvesse flores.
Só eu não fui ninguém entre o meu ser
e o sonho de outro.
(Poema de Heitor Aghá Silva)
(in «Nove Rumores do Mar»,
org. de Eduardo Bettencourt Pinto,
Instituto Camões, 2000)
quinta-feira, junho 07, 2007
Porque o descanso é preciso…
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
(Nuno Júdice in “366 poemas que falam de amor” pág.311)
Até breve...
domingo, junho 03, 2007
Nome
Imagem de Joel Santos
Não há raças, há seres
Não há religiões, há crenças
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Não há seres, não há raças
Não há crenças nem religiões
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Há tantos seres de todas as raças
Cheios de fome
Armas imensas sem nome
Doenças e tantas desgraças
Com nome
(Poema de João Sevivas)
quinta-feira, maio 31, 2007
Preso entre nada...
Imagem de autor desconhecido
Preso entre nada a prender-me,
Na infindável imensidão do não ser,
Atravesso universos que não conheço.
Dilaceram-me esses sóis que sem crepúsculos
Vejo morrer sangrados pelo finito.
Regidas por secretos repousos,
Gravitam em torno do tempo
Elipses forjadas pelo eterno movimento.
Se tento libertar-me, fico pendente
Nas arestas da incerteza.
Quando liberto, o sonho evapora frio
E o absoluto fragmenta-se.
(Poema de Bernardo Bomtempo)
terça-feira, maio 29, 2007
Aos Putos da Beira Rio
Reduzia-se às ruas conhecidas
E o próprio horizonte estava à mão
Das brincadeiras simples, divertidas.
Era o jogo do arco e do pião,
Era o brincar, também, às escondidas.
Em cada um havia um campeão
Esforçando-se, alegre, nas corridas.
No Douro, com toninhas descuidadas,
Éramos já pequenos navegantes
Embarcando no sonho dum vapor
Rumo a terras distantes, ignoradas,
Nadando nesse rio fascinante
Libertados da roupa e do pudor.
O Tempo, que não pára, foi marchando...
Os caminhos diversos que trilhámos
Lentamente nos foram afastando
Dos percursos que outrora partilhámos.
Envelhecendo, fomos caminhando
Nos projectos diversos que encetámos
E, só de longe a longe, recordando
O longínquo Passado que habitámos.
Nesse Livro da Vida que escrevemos
Não temos o direito de esquecermos
As páginas da nossa mocidade.
Porque é nelas que ainda hoje vemos
A forma solidária de vivermos
E que, afinal, nos traz tanta saudade!
(Poema e Imagem de Fernando Peixoto)
domingo, maio 27, 2007
Ausente dos homens e das flores
Imagem de J S Rossbach
Ausente dos homens e das flores
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.
Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me etérea no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.
Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!
(Poema de Mel de Carvalho)




