Imagem de Ivan Kustura
uma sede de rosas.
uma sede tantálica, silenciosa,
como uma brasa ardente queimando.
incendiando as memórias, constante.
como uma inflorescência de cactos abrindo a noite.
cingida de espinhos, o silêncio perfurando.
e a carne.
em labaredas algemada, arfante, felina.
agrilhoada, salina de sangue, vibrante.
na ausência de uma frescura de rosas,
sinal algum pulsa a meu favor.
nem a fresca brisa que afaga os cactos mansos.
a única luz que fulgura e subsiste
é a do fanal do fragoso rochedo
que esquadria as brumas e os mares de escolhos
da minha noite negra povoada de medos:
- a saudade dos teus olhos.
[quem diz que a larga ausência causa olvido,
ignora que a saudade tem memória]
(Poema de Zénite in Castelos de Vento)
quarta-feira, julho 04, 2007
Uma sede de rosas...
domingo, julho 01, 2007
Mais leves que o destino
Regressámos a pé no sossego da água
mas deixámos na praia um rasto cúmplice
de vento longínquo
alguns sinais de algas
recados e um desejo de repartir sementes
Talvez por isso cheirem a maresia
os poros deste chão
e os nossos lábios soltem pássaros generosos
Talvez por isso tivéssemos regressado
pelas dunas inconsistentes
e finalmente nos descobríssemos
nus e criadores
a voar num império de areias
Hoje quase compreendemos
porque são as aves mais leves
que o seu destino
(Poema de Eufrázio Filipe in Mar Arável)
quinta-feira, junho 28, 2007
Não me recordo
Imagem de Elena Chernenko
Não me recordo se havia alguma flor
no meu jardim.
Talvez fosse Verão... mas todas as manhãs, ao acordar,
inexplicavelmente sentia saudades de mim.
Só sei chorar em português. Se minha mãe soubesse...
Como detesto os meus brinquedos de criança.
Talvez fosse Verão, e houvesse flores...
Eu é que não fui um jardim na minha infância.
Todos os astros se perderam no infinito.
Que saudades eu sinto de não ter sido um outro.
Talvez fosse Verão, sei lá, e houvesse flores.
Só eu não fui ninguém entre o meu ser
e o sonho de outro.
(Poema de Heitor Aghá Silva)
(in «Nove Rumores do Mar»,
org. de Eduardo Bettencourt Pinto,
Instituto Camões, 2000)
quinta-feira, junho 07, 2007
Porque o descanso é preciso…
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
(Nuno Júdice in “366 poemas que falam de amor” pág.311)
Até breve...
domingo, junho 03, 2007
Nome
Imagem de Joel Santos
Não há raças, há seres
Não há religiões, há crenças
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Não há seres, não há raças
Não há crenças nem religiões
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Há tantos seres de todas as raças
Cheios de fome
Armas imensas sem nome
Doenças e tantas desgraças
Com nome
(Poema de João Sevivas)
quinta-feira, maio 31, 2007
Preso entre nada...
Imagem de autor desconhecido
Preso entre nada a prender-me,
Na infindável imensidão do não ser,
Atravesso universos que não conheço.
Dilaceram-me esses sóis que sem crepúsculos
Vejo morrer sangrados pelo finito.
Regidas por secretos repousos,
Gravitam em torno do tempo
Elipses forjadas pelo eterno movimento.
Se tento libertar-me, fico pendente
Nas arestas da incerteza.
Quando liberto, o sonho evapora frio
E o absoluto fragmenta-se.
(Poema de Bernardo Bomtempo)
terça-feira, maio 29, 2007
Aos Putos da Beira Rio
Reduzia-se às ruas conhecidas
E o próprio horizonte estava à mão
Das brincadeiras simples, divertidas.
Era o jogo do arco e do pião,
Era o brincar, também, às escondidas.
Em cada um havia um campeão
Esforçando-se, alegre, nas corridas.
No Douro, com toninhas descuidadas,
Éramos já pequenos navegantes
Embarcando no sonho dum vapor
Rumo a terras distantes, ignoradas,
Nadando nesse rio fascinante
Libertados da roupa e do pudor.
O Tempo, que não pára, foi marchando...
Os caminhos diversos que trilhámos
Lentamente nos foram afastando
Dos percursos que outrora partilhámos.
Envelhecendo, fomos caminhando
Nos projectos diversos que encetámos
E, só de longe a longe, recordando
O longínquo Passado que habitámos.
Nesse Livro da Vida que escrevemos
Não temos o direito de esquecermos
As páginas da nossa mocidade.
Porque é nelas que ainda hoje vemos
A forma solidária de vivermos
E que, afinal, nos traz tanta saudade!
(Poema e Imagem de Fernando Peixoto)
domingo, maio 27, 2007
Ausente dos homens e das flores
Imagem de J S Rossbach
Ausente dos homens e das flores
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.
Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me etérea no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.
Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!
(Poema de Mel de Carvalho)
quinta-feira, maio 24, 2007
Ausência
Fotografia de Denis Olivier
Hoje, queria estar noutro lado,
na outra margem do sonho
sentado no muro da esperança
respirando só paixão
voltar à nascente da vida
fundir-me, de corpo e alma
fugir de mim e voar
hoje, precisamente num dia
que é mais estreito que o ar
E o estio a vir devagar
como se fosse um ladrão
deixando-me assim sem alento
Como se fosse um escombro
dobrando-me vontade a razão
(Poema de Yardbird)
terça-feira, maio 22, 2007
beijo escrito
No paredão, sob o passar do vento,
olhando sem realmente ver,
ouvindo sem verdadeiramente escutar.
Ao longe, o grito das gaivotas
Ao perto, as ondas a rumorejar
num cheiro a mar que enchia os poros
e refrescava a alma.
Banhou os olhos de horizonte,
despojou-se de passado e presente...
O céu azulava-se límpido,
e o sol, ah, o sol, quente na pele
lembrava um toque leve
de dedos por chegar.
Não houve aviso, nem alarme,
apenas aquela sensação sedosa,
húmida e macia,
vibrante no poisar vagaroso,
que chegou rápido ao coração.
Da curva do pescoço,
os lábios deslizaram em ascensão,
pontilhando o canto do sorriso,
prestes a um adiado torvelhinho
em queda desejada.
Lábios que se tocam,
se tacteiam, se encontram,
num beijo-escorrega
lentamente sôfrego,
demoradamente ávido.
Que saúda a chegada.
E o dia começou.
(Poema da Viajante in Espelhos & Labirintos)
domingo, maio 20, 2007
Fraseando ...
"Le poet" de Leon Girardet
Conheço-as
porque as profiro
conheço-as
porque a elas me refiro.
Podem ser dolorosas
quando têm a intenção de ferir
podem ser perigosas
quando têm a inclinação para denegrir.
Quem as quis
terá de saber o seu quê
quem as diz
terá de responder o porquê.
São chama
são cor
são licor
são alma.
Alma de escritor
que lhe dá o seu toque final
Alma de actor
que lhe dá o seu retoque leal.
Palavras quem as não tem
são fonte de coragem e esperança
palavras quem lhes quer bem
são ponte de margem e temperança.
Sinto-me cansado
porque escasseiam os vocábulos
sinto-me ultrapassado
porque já não sinto os cálculos.
Experiencio a sua real eficiência
enquanto reais e ardis baluartes
respeitando a sua malícia e reticência
por representarem inqualificáveis estandartes.
Estandartes que entusiasmam e alegram
porque agradavelmente as posso pronunciar
Estandartes que estimulam e sossegam
já que felizmente as posso seleccionar e divulgar.
(Poema de António Silva)
quinta-feira, maio 17, 2007
Sinfonia das espigas
Espigas loiras da seara sazonada
são leves nuances da natureza.
Matizes de cintura adelgaçada
inebriantes loucuras de pureza.
Alvorada de doirada aurora
são mantilhas de rendas esvoaçadas.
Madrigal à espera da hora
em ondas de cristas adejadas.
(Poema de Pepe Luigi)
terça-feira, maio 15, 2007
Não me Morras
Fotografia de Susanne
Não me morras
sem que te ame da forma a que tens direito.
Não me morras
sem respirares os meus sussurros
sem partilhares comigo
o teu leito
Não me morras
Não te vás
sem que os meus lábios te digam do meu ser
E os meus dedos te falem do teu sentir.
Não partas
Sem viver através de mim
O que nunca te disseram
E nunca soubeste ouvir.
Há no Sol
Na névoa
Na luz da manhã
Um pôr do Sol
Que é uma promessa de amanhã
Não me morras Amor
que não mereço.
(Poema da Cleopatra)
domingo, maio 13, 2007
ao cabo do tempo
A barca já não tem porto
e os dias não consolam as noites
do pescador.
O tempo esqueceu-lhe as arribas,
as praias, os ventos
e também roubou o bailado às marés.
Dos rumos nunca achou sentido:
era preciso ir além de mais além descobrir.
Por isso cuidou que navegar
queria dizer para sempre.
...
Fez das velas o tecido dos sonhos,
mas porque viajou demais,
tornou-se estrangeiro de si mesmo.
(Poema e fotografia de Tinta Permanente- Folhas da Gaveta)
quinta-feira, maio 10, 2007
£oµ¢o Ðe £Î§ßoa
Não é a primeira vez que partilho os In§†an†e§ ðe µm £oµ¢o e é com alegria que acedo ao seu pedido, porque este é um blogue de partilha a todos que amam a poesia e o valor das palavras…
Imagem do £oµ¢o Ðe £Î§ßoa
Se há diversas dimensões
Por que não vivem em mim?
Absorventes, inseparáveis
Sem nenhuma simetria.
Não há pendulos
Entre a chama que sufoca
E o oxigénio soluvel na água
Quando um se desenvolve
Através da realidade do outro.
Convivência,
Nem sequer passiva
Entre satisfação e privação
Contradições misturadas
De intuição e rectidão.
Paradigmas e sintaxes.
Tédio e tesão!
Permitam-me trespassar,
desordeiramente a fronteira.
...Das três dimensões...
(Poema do £oµ¢o Ðe £Î§ßoa)
terça-feira, maio 08, 2007
Tu mesmo...
Imagem daqui
Que um dia encontres
nas tuas mãos
aquilo que procuras
para além de ti
Que um dia descubras
no silêncio da alma
o que esperas de ti mesmo
Porque metade é querer
E outra parte é recusar
Que um dia
as metades do Amor
de que és feito
se unam e não mais se separem
Porque metade de ti é querer
E outra parte é recusar
Que um dia
alcances a plenitude
e a Paz que mereces
Porque metade de ti
é alegria
e a outra parte
é tristeza
Uma metade de ti
é a vida que te abre os braços
e a outra parte de ti...
és tu mesmo...!
(Poema da Magia)
domingo, maio 06, 2007
A mãe
Depois de um intervalo e cumprindo a promessa feita, de que não iria deixar o projecto a que me dediquei de alma e coração, trago-vos um poema de alguém que já não é uma iniciante, antes pelo contrário, mas que tem um blogue lindo, muito discreto, onde vou muitas vezes, acalmar os meus dias e o meu coração…
Trata-se de Graça Pires a quem pedi autorização para postar este poema e a imagem que recolhi do seu blogue e que aqui vos deixo com um abraço carinhoso, especialmente a todas as Mães...
Pintura de Balthus
Adivinhar, no teu rosto, o rio da infância
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.
Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.
(Poema de Graça Pires )
Adenda:
O meu agradecimento especial ao A.S. pela atribuição que fez a este blogue, do “Thinking Blogger Award”, que dedico a todos os que habitualmente me presenteiam com os seus comentários, que muito me sensibilizam. Grata a todos.
quinta-feira, maio 03, 2007
Jardim dos Poetas...
Tantos bons poetas! Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece –
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
(Álvaro de Campos, 1/5/1928)
quinta-feira, abril 26, 2007
O improviso de viver
Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo
o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência dos momentos
em que a madrugada se comove.
Poema de Graça Pires
quarta-feira, abril 25, 2007
Portugal...
Imagem de Odilon Redon
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill in “Portugal”, Feira Cabisbaixa, 1965)






