Foto da autora
Estou aqui perto de ti
Embora não me oiças
Regressei do silêncio
Do qual um dia parti
Não sentes o assobio
Do vento na esquina?
O outro lado da vida
Que tua vida não viu
(Poema de Eduardo Graça in Caderno de Poesia )
Foto da autora
Estou aqui perto de ti
Embora não me oiças
Regressei do silêncio
Do qual um dia parti
Não sentes o assobio
Do vento na esquina?
O outro lado da vida
Que tua vida não viu
(Poema de Eduardo Graça in Caderno de Poesia )
Pintura de Gianni Strino
Desce a noite. Despedi-me dos pastores.
Inebriado pelo perfume do mosto olho para a minha amada.
Surge-me como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol.
Desperta no leito de cedro coberta de penas de pomba.
A mais bela de todas as mulheres extasia-se ao ver-me.
E pelo seu corpo verdejante como floresta perfumada
Pastam rebanhos de gazelas, corços, veados saltaricando na sombra dos seus cabelos.
A sua voz doce de favos, reclama-me e extasia-me.
- Leva-me contigo, meu amado. Ou deita-te a meu lado e canta-me amores.
Sou morena. Sou formosa. Sou tua. Ponho no meu pescoço
O colar de pérolas que exala o perfume do nosso vinho.
Repousa a tua cabeça nos meus seios, no meu ventre de lírios,
Na doçura da minha boca de frutos silvestres,
Quero desfalecer de amor nos teus braços fortes. Conforta-me.
Como és encantador e belo, meu amor. Vamos para o festim da floresta
Que já entoa a chegada da Primavera.
E introduz-me uvas passas na minha boca que espera a tua.
Saboreia a minha saliva e ouve a minha voz que te segreda palavras de conforto
Porque esta noite procurei-te e não te encontrei. Desejo ser tua
Como na primeira vez quando nos encontrámos nos outeiros.
Quero conceber dum amor frenético, penetrante, quente, aromático.
Oh! Meu amado amigo e esposo. Os ninhos já estão prontos.
Escolhamos o nosso.
E faz-me ouvir a tua voz desfalecida quando me abraças e me possuis.
Como são deliciosos os teus afagos, as tuas carícias,
Os beijos com que cobres o meu corpo inteiro. O aroma que vem de ti
Excede o de todos os aromas.
Desfaleço de amor. Os teus lábios são lírios, que destilam a mirra mais preciosa.
Bebe do nosso vinho perfumado, sacia a tua sede de desejo e toma-me.
Leva-me.
Desfaleço de amor mas não tenhamos pressa.
Quando regressarem os pastores
Estamos escondidos na ilha dos amores.
(Poema de Luís Pinto in Porosidade Etérea)
Imagem de Pages of Iink
as minhas velas
não ardem até ao fim:
apago-as sadicamente
sufocando-as do ar
com que me consomem
ou esmago o caule da chama
no poço líquido da cera quente
(nas intermitências da luz
e da morte
escondem-se os fantasmas
que abrigo debaixo da cama)
apagadas
deixam-se ficar na memória
acesas e coradas
como uma memória
nunca acendo as velas que apaguei:
extintas não me queimariam
(Poema da Inominável)
Pintura de Diji Scales
Em tuas águas navego
Em ti
resumo o périplo
da minha volta ao mundo.
Fora de ti,
não há saída ou rumo
É em ti
que me salvo
... ou que me afundo.
Propício Ancoradouro
amena Enseada
em ti fundeei minha jangada
em tuas águas balouça
o meu escaler.
Fora do teu Mar
eu não sou nada
sou peixe
que estrebucha na areia calcinada
da praia
... até morrer
Em ti criei raiz
Em ti habito
Em ti me reconheço
Em ti palpito
Em ti eu esmoreço
Em ti resisto
Em ti eu caio
Em ti eu me levanto
Em ti eu choro e rio
Em ti eu desisto e recomeço
Em ti eu vivo
... Em ti pereço.
É de ti
que me nutro.
Em ti mergulho
Tu és Partida e Meta
a Flecha e o Alvo.
Em ti se anula e esbate
o meu orgulho
É em ti que me perco
... ou que me salvo
(Poema de António Melenas)
O meu especial agradecimento à Sulista pela nova imagem (de Verão) do Profile deste Blogue…
Imagem daqui
Por fim, Sophia
desatados os laços
vencidos os limites
estende-te o mar o seu tapete de ondas
como quem estende os braços
Respondes ao convite?
Guardou, só para ti
na tua metade maresia
prodígios, espantos, maravilhas
estranhos como Giocondas…
Esperam-te as ilhas
que sonhaste
E esses corcéis que nunca cavalgaste
sacodem já as crinas
em desafio
Segue o teu fio
de praias extasiadas
de manhãs cristalinas
até que se te acabem as areias
e te venham buscar
breves, aladas
as vagas por que anseias
Vai, ruma ao Norte
desprende-te do Sul
que a tua sorte
não é daqui, é de outro azul
Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia
Adeus, Sophia.
(Poema de AV in Porta do Vento)
Imagem de Ivan Kustura
uma sede de rosas.
uma sede tantálica, silenciosa,
como uma brasa ardente queimando.
incendiando as memórias, constante.
como uma inflorescência de cactos abrindo a noite.
cingida de espinhos, o silêncio perfurando.
e a carne.
em labaredas algemada, arfante, felina.
agrilhoada, salina de sangue, vibrante.
na ausência de uma frescura de rosas,
sinal algum pulsa a meu favor.
nem a fresca brisa que afaga os cactos mansos.
a única luz que fulgura e subsiste
é a do fanal do fragoso rochedo
que esquadria as brumas e os mares de escolhos
da minha noite negra povoada de medos:
- a saudade dos teus olhos.
[quem diz que a larga ausência causa olvido,
ignora que a saudade tem memória]
(Poema de Zénite in Castelos de Vento)
Imagem de Elena Chernenko
Não me recordo se havia alguma flor
no meu jardim.
Talvez fosse Verão... mas todas as manhãs, ao acordar,
inexplicavelmente sentia saudades de mim.
Só sei chorar em português. Se minha mãe soubesse...
Como detesto os meus brinquedos de criança.
Talvez fosse Verão, e houvesse flores...
Eu é que não fui um jardim na minha infância.
Todos os astros se perderam no infinito.
Que saudades eu sinto de não ter sido um outro.
Talvez fosse Verão, sei lá, e houvesse flores.
Só eu não fui ninguém entre o meu ser
e o sonho de outro.
(Poema de Heitor Aghá Silva)
(in «Nove Rumores do Mar»,
org. de Eduardo Bettencourt Pinto,
Instituto Camões, 2000)
Imagem de Joel Santos
Não há raças, há seres
Não há religiões, há crenças
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Não há seres, não há raças
Não há crenças nem religiões
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Há tantos seres de todas as raças
Cheios de fome
Armas imensas sem nome
Doenças e tantas desgraças
Com nome
(Poema de João Sevivas)
Imagem de autor desconhecido
Preso entre nada a prender-me,
Na infindável imensidão do não ser,
Atravesso universos que não conheço.
Dilaceram-me esses sóis que sem crepúsculos
Vejo morrer sangrados pelo finito.
Regidas por secretos repousos,
Gravitam em torno do tempo
Elipses forjadas pelo eterno movimento.
Se tento libertar-me, fico pendente
Nas arestas da incerteza.
Quando liberto, o sonho evapora frio
E o absoluto fragmenta-se.
(Poema de Bernardo Bomtempo)
Imagem de J S Rossbach
Ausente dos homens e das flores
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.
Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me etérea no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.
Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!
(Poema de Mel de Carvalho)
Fotografia de Denis Olivier
Hoje, queria estar noutro lado,
na outra margem do sonho
sentado no muro da esperança
respirando só paixão
voltar à nascente da vida
fundir-me, de corpo e alma
fugir de mim e voar
hoje, precisamente num dia
que é mais estreito que o ar
E o estio a vir devagar
como se fosse um ladrão
deixando-me assim sem alento
Como se fosse um escombro
dobrando-me vontade a razão
(Poema de Yardbird)
"Le poet" de Leon Girardet
Conheço-as
porque as profiro
conheço-as
porque a elas me refiro.
Podem ser dolorosas
quando têm a intenção de ferir
podem ser perigosas
quando têm a inclinação para denegrir.
Quem as quis
terá de saber o seu quê
quem as diz
terá de responder o porquê.
São chama
são cor
são licor
são alma.
Alma de escritor
que lhe dá o seu toque final
Alma de actor
que lhe dá o seu retoque leal.
Palavras quem as não tem
são fonte de coragem e esperança
palavras quem lhes quer bem
são ponte de margem e temperança.
Sinto-me cansado
porque escasseiam os vocábulos
sinto-me ultrapassado
porque já não sinto os cálculos.
Experiencio a sua real eficiência
enquanto reais e ardis baluartes
respeitando a sua malícia e reticência
por representarem inqualificáveis estandartes.
Estandartes que entusiasmam e alegram
porque agradavelmente as posso pronunciar
Estandartes que estimulam e sossegam
já que felizmente as posso seleccionar e divulgar.
(Poema de António Silva)
Fotografia de Susanne
Não me morras
sem que te ame da forma a que tens direito.
Não me morras
sem respirares os meus sussurros
sem partilhares comigo
o teu leito
Não me morras
Não te vás
sem que os meus lábios te digam do meu ser
E os meus dedos te falem do teu sentir.
Não partas
Sem viver através de mim
O que nunca te disseram
E nunca soubeste ouvir.
Há no Sol
Na névoa
Na luz da manhã
Um pôr do Sol
Que é uma promessa de amanhã
Não me morras Amor
que não mereço.
(Poema da Cleopatra)