quarta-feira, agosto 15, 2007
segunda-feira, agosto 13, 2007
Ode ao Mar
Fotografia de Sandra V.
Água, sal e vontade — a vida!
Azul — a cor do céu e da inocência.
Um lenço a colorir a despedida
Da galera da ausência...
Mar tenebroso!
Mar fechado e rugoso
Sobre um casto jardim adormecido!
Mar de medusas que ninguém semeia,
Criadas com mistério e com areia,
Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma!
Vem a força do mundo e não te doma!
Impenitente e funda, a tua alma
Guarda-se no cristal duma redoma.
Guarda-se purificada em leve espuma,
Renda da sua túnica de linho.
Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma,
Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo,
E o capitão, despido, jaz ao leme,
Branco nos ossos descarnados;
Uma alga no peito, a flor do mundo,
Uma fibra de amor que vive e treme
De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela,
Uma desilusão a rasga e molha;
Morta a magia que pintava a tela,
O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço
Pica o silêncio leve que perpassa...
Pica o novo feitiço
Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras
Sobem à tona das marés...
O navio encalhado e as suas eras
Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago,
Nenhum sol os aquece.
Habitantes do lago
Do esquecimento, só a sombra os tece...
Ela és tu, anónimo oceano,
Coração ciumento e namorado!
Ela que és tu, arfar viril e plano,
Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto
Com bússolas e gritos de gajeiro!
Tu, mar salgado, lírico, coberto
De lágrimas, iodo e nevoeiro!
* Miguel Torga, in Odes,(1946)
* Poeta, contista, romancista, diarista, ensaísta e dramaturgo, Miguel Torga, de seu verdadeiro nome Adolfo Correia da Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta, concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, a 12 de Agosto de 1907 e faleceu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.
quinta-feira, agosto 09, 2007
Saber Amar
Pintura de Peder Severin Kroyer
Ah! Como é bom saber amar alguém,
ter dentro de si aquele amor ardente,
amar com todo ardor que a alma consente
sem temer ser loucura, mal... ou bem.
Mas há quem se iluda, quem diga que ama...
frouxa luz de candeia que se apaga,
simples amor que esvoaça, que divaga,
deixa morrer no coração a chama.
Amor é tudo o que se dá feito ternura,
é ficar preso d'alguém sem amargura,
sem se sentir como ave em cativeiro.
É o encontro de paixões iguais... sentidas;
depois, duas almas numa só unidas,
duas vidas que se entregam por inteiro.
(Poema de Maria Teodora in Thornlessrose)
sábado, agosto 04, 2007
O discurso do sol...
Aquarela de Gisele
O sol abriu os seus braços
Mostrou o melhor sorriso
E disse:
Da rotina solta os laços
Ganha tino, ganha siso,
Toma o barco da ousadia
E zarpa rumo ao futuro...
Onde há noite, vai ser dia,
Olhar forte, rosto duro,
Sorriso vestindo esperança
À bolina navegando,
Tens o leme da mudança
Na alma... o sonho brilhante,
O mar, é todo bonança,
Vai, e não olhes p'ra trás...
És a coragem que avança
Porto seguro verás,
E... saciado o desejo,
Ancora no meu olhar
Bem doce... te dou um beijo
E... em ti... vou mergulhar!...
quarta-feira, agosto 01, 2007
Silêncio
Imagem de autor desconhecido
Diz-se o silêncio,
Não são precisas palavras,
Fala-nos por si e no meio de tanta gente,
Faz-nos sentir quanto é premente,
Vencer as barreiras que nos aporta o tempo...
Diz-se o silêncio,
Impõe-se, belisca-nos, agita-nos...
Porque nos mexe na alma e nos morde o corpo
Ao trazer até nós a premência, a urgência,
que nos impele ao outro...
Diz-se o silêncio,
Ele é de ouro ou de prata,
Porque nos eleva,
Mesmo quando a saudade mata,
Sobe em nós a temperatura da consciência,
Ao penarmos pela ausência,
Mas sabemos que há uma memória que cura
e uma esperança que colmata...
(Poema de Beatriz Barroso in Porosidade Etérea)
Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
sexta-feira, julho 27, 2007
pedem à palavra
Imagem da mgbon
pedem à palavra
que semeie harmonia
canções
novelos de adubo
em campos fatigados.
pedem à palavra
que socorra
o choro
dos inocentes
nomeie a patente
dos vencedores.
que a palavra
honre
os poetas e as pomposas musas
os políticos e os demagogos
os funcionários e os burocratas
mendigos e feiticeiros.
pedem tanto à palavra.
que a palavra
emigra
foge dos palanques
esgueira-se
pelos canaviais.
deserta.
exausta e presa
na infindável
rede de significados
a palavra apenas pede
que a salves
que lhe dês o teu cheiro
a tua boca
que lhe mates a sede
com a água dos teus olhos.
que a acordes
no mais escuro dos silêncios
na hora mais bravia
pedem à palavra
arremedos
milagres
truques de magia
versos para a fanfarra e para os noivos
rimas de finalistas.
e a palavra
sente
que só encontra significado
lida em ti.
escrita no teu corpo.
palavra que te chama
quando te ausentas.
palavra que te grita
quando o sono
te vence.
palavra que te beija
acaricia, excita
na clandestina leitura
de todos os dias.
(Poema de Alberto Serra in noites-de-lua-branca)
terça-feira, julho 24, 2007
Perto de Ti
Foto da autora
Estou aqui perto de ti
Embora não me oiças
Regressei do silêncio
Do qual um dia parti
Não sentes o assobio
Do vento na esquina?
O outro lado da vida
Que tua vida não viu
(Poema de Eduardo Graça in Caderno de Poesia )
terça-feira, julho 17, 2007
Paráfrase sobre a "Canção das Canções"
Pintura de Gianni Strino
Desce a noite. Despedi-me dos pastores.
Inebriado pelo perfume do mosto olho para a minha amada.
Surge-me como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol.
Desperta no leito de cedro coberta de penas de pomba.
A mais bela de todas as mulheres extasia-se ao ver-me.
E pelo seu corpo verdejante como floresta perfumada
Pastam rebanhos de gazelas, corços, veados saltaricando na sombra dos seus cabelos.
A sua voz doce de favos, reclama-me e extasia-me.
- Leva-me contigo, meu amado. Ou deita-te a meu lado e canta-me amores.
Sou morena. Sou formosa. Sou tua. Ponho no meu pescoço
O colar de pérolas que exala o perfume do nosso vinho.
Repousa a tua cabeça nos meus seios, no meu ventre de lírios,
Na doçura da minha boca de frutos silvestres,
Quero desfalecer de amor nos teus braços fortes. Conforta-me.
Como és encantador e belo, meu amor. Vamos para o festim da floresta
Que já entoa a chegada da Primavera.
E introduz-me uvas passas na minha boca que espera a tua.
Saboreia a minha saliva e ouve a minha voz que te segreda palavras de conforto
Porque esta noite procurei-te e não te encontrei. Desejo ser tua
Como na primeira vez quando nos encontrámos nos outeiros.
Quero conceber dum amor frenético, penetrante, quente, aromático.
Oh! Meu amado amigo e esposo. Os ninhos já estão prontos.
Escolhamos o nosso.
E faz-me ouvir a tua voz desfalecida quando me abraças e me possuis.
Como são deliciosos os teus afagos, as tuas carícias,
Os beijos com que cobres o meu corpo inteiro. O aroma que vem de ti
Excede o de todos os aromas.
Desfaleço de amor. Os teus lábios são lírios, que destilam a mirra mais preciosa.
Bebe do nosso vinho perfumado, sacia a tua sede de desejo e toma-me.
Leva-me.
Desfaleço de amor mas não tenhamos pressa.
Quando regressarem os pastores
Estamos escondidos na ilha dos amores.
(Poema de Luís Pinto in Porosidade Etérea)
domingo, julho 15, 2007
Resposta do amigo
Imagem de Pages of Iink
as minhas velas
não ardem até ao fim:
apago-as sadicamente
sufocando-as do ar
com que me consomem
ou esmago o caule da chama
no poço líquido da cera quente
(nas intermitências da luz
e da morte
escondem-se os fantasmas
que abrigo debaixo da cama)
apagadas
deixam-se ficar na memória
acesas e coradas
como uma memória
nunca acendo as velas que apaguei:
extintas não me queimariam
(Poema da Inominável)
quinta-feira, julho 12, 2007
Em tuas águas...
Pintura de Diji Scales
Em tuas águas navego
Em ti
resumo o périplo
da minha volta ao mundo.
Fora de ti,
não há saída ou rumo
É em ti
que me salvo
... ou que me afundo.
Propício Ancoradouro
amena Enseada
em ti fundeei minha jangada
em tuas águas balouça
o meu escaler.
Fora do teu Mar
eu não sou nada
sou peixe
que estrebucha na areia calcinada
da praia
... até morrer
Em ti criei raiz
Em ti habito
Em ti me reconheço
Em ti palpito
Em ti eu esmoreço
Em ti resisto
Em ti eu caio
Em ti eu me levanto
Em ti eu choro e rio
Em ti eu desisto e recomeço
Em ti eu vivo
... Em ti pereço.
É de ti
que me nutro.
Em ti mergulho
Tu és Partida e Meta
a Flecha e o Alvo.
Em ti se anula e esbate
o meu orgulho
É em ti que me perco
... ou que me salvo
(Poema de António Melenas)
O meu especial agradecimento à Sulista pela nova imagem (de Verão) do Profile deste Blogue…
terça-feira, julho 10, 2007
ADEUS, SOPHIA
Imagem daqui
Por fim, Sophia
desatados os laços
vencidos os limites
estende-te o mar o seu tapete de ondas
como quem estende os braços
Respondes ao convite?
Guardou, só para ti
na tua metade maresia
prodígios, espantos, maravilhas
estranhos como Giocondas…
Esperam-te as ilhas
que sonhaste
E esses corcéis que nunca cavalgaste
sacodem já as crinas
em desafio
Segue o teu fio
de praias extasiadas
de manhãs cristalinas
até que se te acabem as areias
e te venham buscar
breves, aladas
as vagas por que anseias
Vai, ruma ao Norte
desprende-te do Sul
que a tua sorte
não é daqui, é de outro azul
Vai, habitar para sempre o Mar da Poesia
Adeus, Sophia.
(Poema de AV in Porta do Vento)
domingo, julho 08, 2007
É sempre em Julho
Foi em Julho, que bandos e bandos de gaivotas,
planaram sobre o olhar de tua mãe,
para que ao nascer, herdasses a secreta
violência das marés.
Agora, é sempre em Julho que, dos teus olhos,
se avista um oceano inteiro,
enquanto um navio te cresce, perfeito,
sobre os lábios, soletrando íntimas paragens.
(Poema de Graça Pires in Ortografia do Olhar)
quarta-feira, julho 04, 2007
Uma sede de rosas...
Imagem de Ivan Kustura
uma sede de rosas.
uma sede tantálica, silenciosa,
como uma brasa ardente queimando.
incendiando as memórias, constante.
como uma inflorescência de cactos abrindo a noite.
cingida de espinhos, o silêncio perfurando.
e a carne.
em labaredas algemada, arfante, felina.
agrilhoada, salina de sangue, vibrante.
na ausência de uma frescura de rosas,
sinal algum pulsa a meu favor.
nem a fresca brisa que afaga os cactos mansos.
a única luz que fulgura e subsiste
é a do fanal do fragoso rochedo
que esquadria as brumas e os mares de escolhos
da minha noite negra povoada de medos:
- a saudade dos teus olhos.
[quem diz que a larga ausência causa olvido,
ignora que a saudade tem memória]
(Poema de Zénite in Castelos de Vento)
domingo, julho 01, 2007
Mais leves que o destino
Regressámos a pé no sossego da água
mas deixámos na praia um rasto cúmplice
de vento longínquo
alguns sinais de algas
recados e um desejo de repartir sementes
Talvez por isso cheirem a maresia
os poros deste chão
e os nossos lábios soltem pássaros generosos
Talvez por isso tivéssemos regressado
pelas dunas inconsistentes
e finalmente nos descobríssemos
nus e criadores
a voar num império de areias
Hoje quase compreendemos
porque são as aves mais leves
que o seu destino
(Poema de Eufrázio Filipe in Mar Arável)
quinta-feira, junho 28, 2007
Não me recordo
Imagem de Elena Chernenko
Não me recordo se havia alguma flor
no meu jardim.
Talvez fosse Verão... mas todas as manhãs, ao acordar,
inexplicavelmente sentia saudades de mim.
Só sei chorar em português. Se minha mãe soubesse...
Como detesto os meus brinquedos de criança.
Talvez fosse Verão, e houvesse flores...
Eu é que não fui um jardim na minha infância.
Todos os astros se perderam no infinito.
Que saudades eu sinto de não ter sido um outro.
Talvez fosse Verão, sei lá, e houvesse flores.
Só eu não fui ninguém entre o meu ser
e o sonho de outro.
(Poema de Heitor Aghá Silva)
(in «Nove Rumores do Mar»,
org. de Eduardo Bettencourt Pinto,
Instituto Camões, 2000)
quinta-feira, junho 07, 2007
Porque o descanso é preciso…
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
(Nuno Júdice in “366 poemas que falam de amor” pág.311)
Até breve...
domingo, junho 03, 2007
Nome
Imagem de Joel Santos
Não há raças, há seres
Não há religiões, há crenças
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Não há seres, não há raças
Não há crenças nem religiões
Há fome, muita fome
Há doenças imensas
Sem nome
Há tantos seres de todas as raças
Cheios de fome
Armas imensas sem nome
Doenças e tantas desgraças
Com nome
(Poema de João Sevivas)
quinta-feira, maio 31, 2007
Preso entre nada...
Imagem de autor desconhecido
Preso entre nada a prender-me,
Na infindável imensidão do não ser,
Atravesso universos que não conheço.
Dilaceram-me esses sóis que sem crepúsculos
Vejo morrer sangrados pelo finito.
Regidas por secretos repousos,
Gravitam em torno do tempo
Elipses forjadas pelo eterno movimento.
Se tento libertar-me, fico pendente
Nas arestas da incerteza.
Quando liberto, o sonho evapora frio
E o absoluto fragmenta-se.
(Poema de Bernardo Bomtempo)
terça-feira, maio 29, 2007
Aos Putos da Beira Rio
Reduzia-se às ruas conhecidas
E o próprio horizonte estava à mão
Das brincadeiras simples, divertidas.
Era o jogo do arco e do pião,
Era o brincar, também, às escondidas.
Em cada um havia um campeão
Esforçando-se, alegre, nas corridas.
No Douro, com toninhas descuidadas,
Éramos já pequenos navegantes
Embarcando no sonho dum vapor
Rumo a terras distantes, ignoradas,
Nadando nesse rio fascinante
Libertados da roupa e do pudor.
O Tempo, que não pára, foi marchando...
Os caminhos diversos que trilhámos
Lentamente nos foram afastando
Dos percursos que outrora partilhámos.
Envelhecendo, fomos caminhando
Nos projectos diversos que encetámos
E, só de longe a longe, recordando
O longínquo Passado que habitámos.
Nesse Livro da Vida que escrevemos
Não temos o direito de esquecermos
As páginas da nossa mocidade.
Porque é nelas que ainda hoje vemos
A forma solidária de vivermos
E que, afinal, nos traz tanta saudade!
(Poema e Imagem de Fernando Peixoto)
domingo, maio 27, 2007
Ausente dos homens e das flores
Imagem de J S Rossbach
Ausente dos homens e das flores
vagueio por dentro de um túnel negro do tempo.
Não estou
Não sou
Não quero estar
Não quero ser
E conquanto, num estado de silenciado pranto,
no âmago mais profundo, esquálida
espada emerge lívida. Desejo reles e permanente,
de querer ser ... gente!
Na raiva, aglomero muros, mordo a língua, cerro os dentes,
asfixio a palavra no turbilhão ciclónico da saliva.
Ausente dos homens e das flores
Rebusco um gesto
Um sentido pressentido
Ouso elevar um braço
Iço-me etérea no oco do espaço
Dependuro-me equilibrista, acrobata,
no vértice do som mais estridente.
Nas estrelas electrizadas,
nas redondas, nas bicudas. Com a boca faço-as mudas.
Silenciadas! Abocanhadas...
Desço na cauda de um cometa a quem peço alvíssaras e meças.
Respondem-me sempre os ecos escorridos
dos fungos, dos mortíferos cogumelos, dos mais letais,
acantonados nos vitrais da memória.
Ausente dos homens e das cores
apenas o negro pinta as maças do teu rosto
e das flores e dos frutos esqueci há muito recortes, texturas, sabores!
(Poema de Mel de Carvalho)
quinta-feira, maio 24, 2007
Ausência
Fotografia de Denis Olivier
Hoje, queria estar noutro lado,
na outra margem do sonho
sentado no muro da esperança
respirando só paixão
voltar à nascente da vida
fundir-me, de corpo e alma
fugir de mim e voar
hoje, precisamente num dia
que é mais estreito que o ar
E o estio a vir devagar
como se fosse um ladrão
deixando-me assim sem alento
Como se fosse um escombro
dobrando-me vontade a razão
(Poema de Yardbird)
terça-feira, maio 22, 2007
beijo escrito
No paredão, sob o passar do vento,
olhando sem realmente ver,
ouvindo sem verdadeiramente escutar.
Ao longe, o grito das gaivotas
Ao perto, as ondas a rumorejar
num cheiro a mar que enchia os poros
e refrescava a alma.
Banhou os olhos de horizonte,
despojou-se de passado e presente...
O céu azulava-se límpido,
e o sol, ah, o sol, quente na pele
lembrava um toque leve
de dedos por chegar.
Não houve aviso, nem alarme,
apenas aquela sensação sedosa,
húmida e macia,
vibrante no poisar vagaroso,
que chegou rápido ao coração.
Da curva do pescoço,
os lábios deslizaram em ascensão,
pontilhando o canto do sorriso,
prestes a um adiado torvelhinho
em queda desejada.
Lábios que se tocam,
se tacteiam, se encontram,
num beijo-escorrega
lentamente sôfrego,
demoradamente ávido.
Que saúda a chegada.
E o dia começou.
(Poema da Viajante in Espelhos & Labirintos)
domingo, maio 20, 2007
Fraseando ...
"Le poet" de Leon Girardet
Conheço-as
porque as profiro
conheço-as
porque a elas me refiro.
Podem ser dolorosas
quando têm a intenção de ferir
podem ser perigosas
quando têm a inclinação para denegrir.
Quem as quis
terá de saber o seu quê
quem as diz
terá de responder o porquê.
São chama
são cor
são licor
são alma.
Alma de escritor
que lhe dá o seu toque final
Alma de actor
que lhe dá o seu retoque leal.
Palavras quem as não tem
são fonte de coragem e esperança
palavras quem lhes quer bem
são ponte de margem e temperança.
Sinto-me cansado
porque escasseiam os vocábulos
sinto-me ultrapassado
porque já não sinto os cálculos.
Experiencio a sua real eficiência
enquanto reais e ardis baluartes
respeitando a sua malícia e reticência
por representarem inqualificáveis estandartes.
Estandartes que entusiasmam e alegram
porque agradavelmente as posso pronunciar
Estandartes que estimulam e sossegam
já que felizmente as posso seleccionar e divulgar.
(Poema de António Silva)
quinta-feira, maio 17, 2007
Sinfonia das espigas
Espigas loiras da seara sazonada
são leves nuances da natureza.
Matizes de cintura adelgaçada
inebriantes loucuras de pureza.
Alvorada de doirada aurora
são mantilhas de rendas esvoaçadas.
Madrigal à espera da hora
em ondas de cristas adejadas.
(Poema de Pepe Luigi)
terça-feira, maio 15, 2007
Não me Morras
Fotografia de Susanne
Não me morras
sem que te ame da forma a que tens direito.
Não me morras
sem respirares os meus sussurros
sem partilhares comigo
o teu leito
Não me morras
Não te vás
sem que os meus lábios te digam do meu ser
E os meus dedos te falem do teu sentir.
Não partas
Sem viver através de mim
O que nunca te disseram
E nunca soubeste ouvir.
Há no Sol
Na névoa
Na luz da manhã
Um pôr do Sol
Que é uma promessa de amanhã
Não me morras Amor
que não mereço.
(Poema da Cleopatra)
domingo, maio 13, 2007
ao cabo do tempo
A barca já não tem porto
e os dias não consolam as noites
do pescador.
O tempo esqueceu-lhe as arribas,
as praias, os ventos
e também roubou o bailado às marés.
Dos rumos nunca achou sentido:
era preciso ir além de mais além descobrir.
Por isso cuidou que navegar
queria dizer para sempre.
...
Fez das velas o tecido dos sonhos,
mas porque viajou demais,
tornou-se estrangeiro de si mesmo.
(Poema e fotografia de Tinta Permanente- Folhas da Gaveta)
quinta-feira, maio 10, 2007
£oµ¢o Ðe £Î§ßoa
Não é a primeira vez que partilho os In§†an†e§ ðe µm £oµ¢o e é com alegria que acedo ao seu pedido, porque este é um blogue de partilha a todos que amam a poesia e o valor das palavras…
Imagem do £oµ¢o Ðe £Î§ßoa
Se há diversas dimensões
Por que não vivem em mim?
Absorventes, inseparáveis
Sem nenhuma simetria.
Não há pendulos
Entre a chama que sufoca
E o oxigénio soluvel na água
Quando um se desenvolve
Através da realidade do outro.
Convivência,
Nem sequer passiva
Entre satisfação e privação
Contradições misturadas
De intuição e rectidão.
Paradigmas e sintaxes.
Tédio e tesão!
Permitam-me trespassar,
desordeiramente a fronteira.
...Das três dimensões...
(Poema do £oµ¢o Ðe £Î§ßoa)
terça-feira, maio 08, 2007
Tu mesmo...
Imagem daqui
Que um dia encontres
nas tuas mãos
aquilo que procuras
para além de ti
Que um dia descubras
no silêncio da alma
o que esperas de ti mesmo
Porque metade é querer
E outra parte é recusar
Que um dia
as metades do Amor
de que és feito
se unam e não mais se separem
Porque metade de ti é querer
E outra parte é recusar
Que um dia
alcances a plenitude
e a Paz que mereces
Porque metade de ti
é alegria
e a outra parte
é tristeza
Uma metade de ti
é a vida que te abre os braços
e a outra parte de ti...
és tu mesmo...!
(Poema da Magia)
domingo, maio 06, 2007
A mãe
Depois de um intervalo e cumprindo a promessa feita, de que não iria deixar o projecto a que me dediquei de alma e coração, trago-vos um poema de alguém que já não é uma iniciante, antes pelo contrário, mas que tem um blogue lindo, muito discreto, onde vou muitas vezes, acalmar os meus dias e o meu coração…
Trata-se de Graça Pires a quem pedi autorização para postar este poema e a imagem que recolhi do seu blogue e que aqui vos deixo com um abraço carinhoso, especialmente a todas as Mães...
Pintura de Balthus
Adivinhar, no teu rosto, o rio da infância
e deslizar, em deslumbradas canoas,
pelo sal dos teus olhos.
Afaga os meus cabelos, mãe
para que, a palavra crescer,
não doa, de novo, nos meus passos.
Deixa-me ver, na tua pele,
as linhas do silêncio,
com que teceste a coragem
e os sonhos : a parte da tua herança
que, legitimamente, me cabe.
(Poema de Graça Pires )
Adenda:
O meu agradecimento especial ao A.S. pela atribuição que fez a este blogue, do “Thinking Blogger Award”, que dedico a todos os que habitualmente me presenteiam com os seus comentários, que muito me sensibilizam. Grata a todos.
quinta-feira, maio 03, 2007
Jardim dos Poetas...
Tantos bons poetas! Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece –
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...
(Álvaro de Campos, 1/5/1928)
quinta-feira, abril 26, 2007
O improviso de viver
Voltaremos muitas vezes a um jardim de plátanos
com o luar engatilhado nos olhos.
Dir-te-ei nomes de estrelas ao acaso,
como um desvio da fronteira desenhada ao redor de nós.
Lado a lado, iremos rever novembro pelas ruas,
devassando vigílias, cantando em surdina
a intimidade de sermos amantes,
neste percurso de pássaros subitamente em fuga.
As árvores são discretas.
Por isso, levar-te-ei para habitares comigo
o improviso de viver.
Estaremos em toda a parte.
Sobrevoaremos os espaços interditos
e seremos a notícia anunciada
pela voz indomável dos que ostentam na boca
a urgência dos beijos e do riso. Vem comigo, amor.
No escuro chegaremos à fonte pelo cheiro da sede
e moldaremos na água a transparência dos momentos
em que a madrugada se comove.
Poema de Graça Pires
quarta-feira, abril 25, 2007
Portugal...
Imagem de Odilon Redon
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
(Alexandre O'Neill in “Portugal”, Feira Cabisbaixa, 1965)
terça-feira, abril 17, 2007
segunda-feira, abril 16, 2007
Prémio...
Atribuindo o Award Thinking Blogger ao Poesia Portuguesa, o Ruvasa meteu-me numa grande complicação.
Ao aceitar este prémio tenho por missão distinguir cinco outros blogues, de minha preferência. Ora, este é um número demasiado pequeno, para a imensidão de blogues por quem tenho preferências especiais.
Mas as regras do jogo são estas e, com grande pena minha, tive que escolher somente cinco Blogues, pelo que por ordem alfabética os indico.
Branco e Preto-Amita
dois extremos que fazem parte do TODO e pela peculiar serena escrita.
a ternura da alma com cheiro a maresia
Orion-Helena Domingues
a sensibilidade do pensamento
Rouxinol de Bernardim
a poesia e o humor de mãos dadas
Sete Mares-Jorge Castro
um poeta que vagueia em muitos mares.
Quebrando as regras vou atribuir uma Menção Honrosa ao
Luís Gaspar
pelo trabalho meritório no Estúdio Raposa a favor da Poesia.
O meu agradecimento especial ao
Flor da Zu
Na simplicidade desta flor deixo o meu grande abraço
sexta-feira, abril 13, 2007
De Amor escrevo...
Fotografia de Haleh Bryan
De Amor escrevo, de Amor falo e canto;
E se minha voz fosse igual ao que amo,
Esperara eu sentir na que em vão chamo
Piedade, e na gente dor e espanto.
Mas não há pena, ou língua, ou voz, ou canto
Que mostre o amor por que eu tudo desamo,
Nem o vivo fogo em que me sempre inflamo,
Nem de meus olhos o contino pranto.
Assi me vou morrendo, sem ser crida
A causa por que em vão mouro contente,
Nem sei se isto que passo é vida ou morte.
Mas inda da que eu amo fosse ouvida
E crida minha voz, e da vã gente
Nunca entendida fosse minha sorte!
(Soneto I de Pêro de Andrade Caminha in "Poesias Inéditas")
sexta-feira, abril 06, 2007
Continuando... Primavera...
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
(Alberto Caeiro in "Quando Vier a Primavera")
domingo, abril 01, 2007
Abril... Primavera...
Pintura de Arthur Hughes
Namorou-se uma princesa
Dum pajem loiro e gentil;
Chama-se ela – Natureza,
Chama-se o pajem – Abril.
A Primavera opulenta,
Rica de cantos e cores,
Palpita, anseia, rebenta
Em cataclismos de flores.
(...)
Tudo ri e brilha e canta
Neste divino esplendor:
O orvalho, o néctar da planta
O aroma, a língua da flor.
Enroscam-se aos troncos nus
As verdes cobras da hera.
Radiosos vinhos de luz
Cintilam pela atmosfera.
Entre os loureiros das matas,
Que crescem para os heróis,
Dá o luar serenatas
Com bandas de rouxinóis.
É a terra um paraíso,
E o céu profundo lampeja
Com o inefável sorriso
Da noiva ao sair da igreja.
(Poema de Guerra Junqueiro
in Tesouro Poético para a Infância, antologia)
Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
terça-feira, março 20, 2007
Aguardando a Primavera...
Sandro Botticelli - "La primavera" (1482)
Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O prado ameno de boninas veste.
Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.
Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.
Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quando me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!
Poema "Convite a Marília" de Manuel Maria Barbosa du Bocage
Sonetos-Ed.Europa América(Pág.38)
Dedicado ao Dia Mundial da Poesia
Ouvir o poema na voz do Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)
quinta-feira, março 15, 2007
Não te amo
Pintura de Louis Icart
Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.
Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!
Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?
E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.
E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Almeida Garrett in Folhas Caídas(1853)
sexta-feira, março 09, 2007
Nascemos para amar
De forma alguma abandonarei a poesia dos blogues, mas durante algum tempo irei aqui partilhar muitos outros autores…
Imagem de Dante Gabriel Rossetti
Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formusura,
Que encanta, que seduz, que persuade.
Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n'alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.
Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.
Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.
(Bocage in "Obra Poética" 1997)
sexta-feira, março 02, 2007
Hoje não há Poesia...
Chip
Nut
Isis
Desapareceram segunda-feira (19 de Fevereiro) passada entre as 17h30/18 e as 19hH00 do Montijo, um Cocker Spaniel dourado (2 anos), Pastora Belga Malinois (2 anos), Pastora Alemã arraçada de Husky.
Tanto a pastora belga como a arraçada pastora alemã têm chip. O canil do Montijo já foi contactado.
A quem os encontrar ou souber do seu paradeiro, por favor contactar a Teresa Durães que se encontra profundamente triste com este desaparecimento.
GRATA pela ajuda que possam prestar.
segunda-feira, fevereiro 26, 2007
levo-te ao azul
Fotografia de Patrick Wecksten
de partida para um lugar com telhados de silêncio
levo-te para não morrer nos braços exaustos do vazio
vais comigo com a tua mão desconhecida
a pontuar cada segundo de saudade
levo-te como se transportasse um segundo coração
oxigenado pelo que há-de vir
um fato de mergulhador
para tocar a mais secreta estrela do mar
cingida por algas
levo-te porque nenhuma palavra pode encher
este vaso de sol que desponta
em cada palavra tua
levo-te às cavalitas do sonho
na adolescente fogueira
onde ardem todas as sebes
todos os limites
levo-te em contramão
para transgredir docemente
as estradas e ruas e caminhos
os desejos de sentido único
levo-te simplesmente porque
tu és o meu farol que varre
todos os poros interditos
uma vela ao rubro
na mais fechada escuridão
levo-te no verso inacabado
porque o poema só
termina
quando acordares a meu lado
(Poema de Alberto Serra in vinte anos )
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Dança
The art of Ballet by Tonny
Para quem danço?
Nem eu sei....
Danço com as palavras, com as mãos, com os olhos
Danço sozinha no meio das gentes
Danço nua, vestida de azul, ou de negro e até de vermelho já me cobri.
Danço a rir e a chorar
Danço a sonhar
Até quando amo, eu danço.
Vivi sempre a dançar, mesmo parada no meu canto
Dançarei sempre, mesmo que a música se cale
Ensaiei passos diferentes para acordes vários
Em alguns, tropecei, até caí
Mas sempre a dançar, nunca desisti
E retomava os passos novos que aprendi
Porque a dança é vida e quando eu parar
É porque morri!
Se é para ti que eu danço?
Danço para mim!
Mas esta noite, sim, a minha dança foi para ti!
(Poema de MT in Vivências)
quarta-feira, fevereiro 21, 2007
eu faço o ninho
Pintura de Jaoni
quando as palavras têm o peso de um passarinho
eu faço o ninho
num canto do teu sorriso
alongo o olhar pelos pêlos dos teus braços
que são só braços
a luzirem ao luar
deixo-me entreter devagar
na paródia de uma história
num desfiar da memória
é leve e brilha a pupila
cintila levita sem ciso que me prenda
é só renda a rendilhar
brincamos no faz de conta
tu és quem conta eu sou a tonta
até o dia clarear
depois
jogamos palavras com emoção mais pesadas
espreitando nelas as margens do voo a saber voar
assim vamos
construindo coisas simples sem destino
imos novos novos rimos
sabemos nada assim vimos
sozinhos somos num par
(Poema de MJM in Silepse)
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
Escrita
Pintura de Susan Rios
Na folha lisa e escorreita,
O lápis afiado e porfiador
Elabora percursos mansos
Em sinuosas ruas que se espraiam.
Escrever é desagrilhoar
O pó da memória em vão acumulado
E gritar,
E dizer alto,
Que revolta nos acomoda o peito,
Que afago nos acaricia a alma.
Escrever é arrojar o Futuro.
Ao alcance de um artigo,
De um pronome,
De um verbo.
Verbo é “criar”,
O início de tudo,
A sedição,
A ociosidade das palavras.
Tresfolgo a escrita
De um trago.
Acre, por vezes,
Libertador, sempre.
O ar está abarrotado de palavras.
As mais infalíveis estão, contudo,
Em bolsos de pequenas crianças,
De mãos rosadas e roliças,
Que as retiram em movimentos loquazes
E as levam à boca como rebuçados
Inspiradores da candura da infância.
Tu, Criança,
És quem melhor descreve o mundo,
Porque és a vagem verde viçosa
De uma aurora que não distingue nuvens.
(Poema de Filipe Lamas in Tretas & Letras)











