Recentemente, foi o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica.
Pela sua simbologia, deixo-vos este poema que retrata um "mundo" muito actual…
Imagem Crestomatia
digo que estes homens de kiev estão a viver
no contentor azul e amarelo e nele dormem, preparam
as frugais refeições no único bico de gás disponível,
cosem as meias, descascam cenouras e batatas e comem
em pratos de alumínio com garfos de plástico, e rezam
em silêncio ao deus ucraniano que sempre os ignora,
o deus que os acompanha nas obras públicas e nos prédios suburbanos
em construção onde trabalham, que os turistas de albufeira
não tardarão a ocupar, com os olhos cheios de um sol que nunca viram,
nunca sentiram queimar assim na sua pele.
digo que estes homens de kiev enchem a boca de um lamento profundo,
que estes homens enchem os olhos de lágrimas que se não vêem
e aqui sonham sem sonhos, com um murmúrio negro a invadir-lhes a cabeça,
como se estivessem para além do último limite, a última exasperação,
estes homens de kiev que não sabem como o mundo pára às vezes
e ao mesmo tempo se amplia, como o coração desesperado
de alguém que viu a partida iminente e, por um instante, estacou,
ainda a neve não derreteu na primeira estação ou os pássaros
nidificaram uma e outra vez na dolorida luz de kiev.
digo que estes homens de kiev devem como todos nós um galo a asclépio
e perscrutam no que é visível tudo o que está invisível nas coisas,
transversal e faminto, amplo e escuro nos subúrbios de albufeira,
procurando na brancura as semelhanças possíveis com o que nunca verão,
tendo já visto tudo, tendo já visto
o mar a inclinar-se sobre os seus corações, num momento longínquos,
nas ruas de albufeira, noutro momento próximos dos subúrbios de kiev,
a pesar argumentos, a exorcizar a morte, a recolher nos braços
uma tristeza infinita, indizível.
digo que no próximo ano estes homens de kiev hão-de chamar
para aqui as mulheres e os filhos, estes ucranianos que vivem no contentor
azul e amarelo na periferia de albufeira, estes violinistas,
estes médicos, estes professores de línguas, que agora dão
serventia de pedreiro e usam a picareta, a pá e a betoneira e sabem
a quantidade exacta de areia e cimento e água e ferro para levantar
estes arcos, onde vibra a tumultuosa música do sofrimento,
talvez como alicerce, talvez como definitivo ajuste de contas
entre isto que se vê e eles não dizem, ou se não vê e eu digo,
como um deus ucraniano de passagem pela periferia de albufeira.
Poema de Amadeu Baptista
(Antecedentes Criminais, Antologia Pessoal 1982-2007)












