quarta-feira, setembro 10, 2008

A mulher

Imagem de Martine Carles


Ela é a dança dos lugares que cercam
a cidade
onde noutros tempos havia religiões.

É o ídolo da juventude e com ela me surpreendo
no assobio das árvores, no peito da deusa que acalma
as minhas tragédias nocturnas.

Ela é a fonte imensa, cristalina e intangível.

Ela é como a chuva.
Bate nos cabelos
ao lado dos violinos com que as palavras se dão
letra a letra numa mesa escutando.

Escrevendo-a, eu sei, abro os seus frutos na sua cor.

Ela é a loucura que o barulho do frio faz
na minha garganta.

Ela olha o vento e os seus olhos estão quietos
à beira dos odores do jardim
e todos os roseirais são dominados pelo seu silêncio.
Delírio inóspito, também onde é deserta a altíssima voz,
ela inventa o toque que cativa aquele que pode governar
acima das estrelas.

Ela é a palavra que se ergue
na existência demorada.

O êxtase das estações mas sobretudo aquela
que atravessa o mês de Agosto
e percorre Setembro num poema pela terra dentro.

Ela é o sino de um futuro onde só habitam os gestos.
A pedra para encostar à cabeça quando Março
gira à volta de todas as bocas maternas.
Escrevê-la-ei debaixo dos rios apodrecidos
e ela seguirá direita, terrível e lancinante.

Ela é o livro que me bate à porta sempre devagar
e ressoando violentamente me diz quem sou.
Estremeço.
Depois sangra um ponto secreto
do meu corpo.

Talvez a minha face se queime.

Ela é a surpresa que tem agarrado a si
os animais inspirados.
Lenta, atravessa a floresta e alicia
o entardecer,

que se delonga às portas da noite.

Ela é a Primavera da noite
que abre uma porta para o coração passar.
Um grito que detém um breve minuto
enquanto respiro metade de um pensamento.

Todo o meu corpo se assusta, no desejo de tocar-lhe,
na ânsia de eternidade do seu momento só.

Ela é a amiga, acidente de percurso ou não,
o certo é que sorri, no exacto lugar
onde se fendeu o desejo.

Amo-a na onda de lodo que perpassa
à flor dos lábios de todos os rios ainda escondidos.

Ela é deste povo cujo hálito
era inocente como um candelabro
quando todos os tectos mantinham inofensiva ainda
a guerra fechada dos suspeitos.

Ela é toda a casa que acaba à noite
depois das sementeiras.

Ela é a tentação nunca mais expirada
pelo tempo fora.
Chega por um impulso, quando o frio
instala cravos na neve e as amantes ofegam por dentro
as maçãs sumarentas com seus pulmões.

A palavra amor não vem no dicionário. Ela é
toda a palavra cheia de todos os significados.

Vestíbulo depauperado e absorto,
ela conduz a água
na secura de todas as bocas
e às portas
onde raparigas que comem os bagos da romã anunciam
o tempo da menstruação.

Ela é toda a cor da fome, todo o rubor
da saciedade.

Ela é o som que estremece os ombros
e surge na nossa idade quando nos despedimos
e não queremos dizer que amanhã morreremos.

Ela espreita as crianças loucamente no poema
enquanto na floresta as giestas se iluminam.

Ela é o mar, este mar,
pequena estrela que muda de cor
e às vezes tem as suas raízes queimadas.

Ela envolve os peixes no recanto da praia
onde quantas vezes ficou gravado o seu corpo
em despedida breve.

Ela é o desvelo, a surpresa do sol e do regresso
quando se chega do fogo e da solidariedade
que unem as águas ternas nos lábios do desespero.

Como um livro que atrai secretamente a ternura
do tempo perdido, ela segue o caminho
de toda a perdição humana. Toda a queda supõe
o abismo dos seus braços.

Ela percorre todos os países, todos os mares do sul
e é nua como um corpo cristalino
que conduz o seu cavalo por entre as pedras sem memória.
É o esquecimento. Todo o esquecimento do real.

Por isso mesmo ela se intima nos poros da cabeça
deste mês de Outubro.

Ela é todo o olhar derretido,
simples.
Olhar longínquo entre os arbustos,
lâmina trivial cortando a distância.

Ela liquefaz-se nas horas do amor gritante
pela noite dentro e nas enchentes
do dia.

Ela é a pomba.

Ofega,

na tranquilidade do corpo,

as searas ondeantes e repletas
de alegria.

Tem o seu mistério
escondido na linguagem.

Ela é a boca de todo o pão.

Voa e leva dentro dela
os nossos filhos adormecidos.

Ela é a nossa solidão.

(Poema de Rogério Carrola)

quarta-feira, setembro 03, 2008

des_acordo ortográfico


Pintura de Sebastia Boada


na solidão das palavras
na fome dos vocábulos
na sede que nos mata…
eu fico envolvida pelas sílabas
e entoo a música
em toadas sem ritmo
à espera de inventar
palavras fechadas nas vogais...

mata-me esta renúncia de letras
cartas geográficas confusas
onde jazem mapas
imprecisos
dentro de armários baralhados
onde guardamos factos e fatos
no lado terno das nossas lembranças.

recuso-me esquecer as letras que
querem arrancar dessa ortografia nossa
que quero virgem.

recuso-me a comer letras
que não sejam as da sopa…

estou em greve de acordos ortográficos
recuso-me simplesmente.

(Poema de Piedade Araújo Sol )

quarta-feira, agosto 27, 2008

...em ti!

Pintura de Dario Campanile



Vens…
Inesperadamente!
Em inquietude
Como brisas doces que ateiam lume.
Que desassossego
Que encanto-veneno me trazes
Nesse desejo de me quereres teu?
Vens...
Amadurecida no meu calor
Ausente de corpo.
Despida em suaves contornos
Reflexos de paixão.
E tu vens…
Rasgas o teu corpo
No meu.
O teu vazio...
Deslizas ternura que me lambe
E lentamente desces
Sobre mim
Como o tempo quebrando asas.
Ouço-te respirar.
Guardo-te nas minhas mãos.
Preencho-te.
Perco-me.
...em ti!

(Poema de In§†an†e§ ðe µm £oµ¢o)

quarta-feira, agosto 20, 2008

A Ver Dançar As Palavras

Imagem mar arável


Nas pedras do chão há cristais
cheios de pó e movimento
que seguem itinerários
vagarosos

que tropeçam
antes de serem brilho
expressão musical
para espanto dos pássaros
antes do voo

As pedras do chão
perdem a inocência
quando se aproximam dos cristais

Será do pó em movimento
ou dos meus pobres olhos
que espantam os pássaros?

Já não me pergunto
se nos alimentamos de poemas e destinos
neste chão onde me apetece

ver dançar as palavras


(Poema de Eufrázio Filipe)

quarta-feira, agosto 13, 2008

Jogo do(s) Saber(es)

Imagem: capa do álbum Shine On dos Pink Floyd


Nada sei da sapiência
dos sábios sabedores de todos os saberes
Não sei se sei, de certeza sabida
da vida os sabores.

Sei

Que correm para os mares os rios
Levando consigo
o saber/sabor
de todos que os sabem olhar e viver.

Será

Que os sábios sabem
Que os rios levam consigo
Olvidados amores?


(Poema de
Helena Domingues in Orion)

quarta-feira, agosto 06, 2008

Ternura.



Bagas chovendo em circuitos abertos
devolvem-me o sabor do Verão e do Sol.
O líquido que delas se desprende quando as trinco
amaciam-me a alma
colorindo-a de tonalidades excitantes
pegajosas.
Escorre saliva p’la minha boca abaixo
pingando-me os seios descontraídos
desnudos:
Teus...

Alternadas quais ritmos incessantes repetem-se
palavras de Amor que refrescam
a paisagem dançante.
Os corpos fundidos ofegantes animam-se
disfrutam-se
enleiam-se apaixonados.

Animais à solta

Livres

Cabelos em tempo de vendaval
escrevem diários íntimos
indiscretos. Fascinam
pelos toques de branco que com o tempo
assumiram
riscando o preto original.
Fortes como amêndoas doces alimentam dedos
que se enrolam brincando
que se deleitam ao senti-los:
Meus...

Bolhas de sabão cheiroso massajam as peles já suadas.
Beijos partilhados à toa soam a miosótis
no jardim que imaginámos. Somos.
Queremos. Damos.

(Poema da Azul)




Pintura de Lauri Blank

quarta-feira, julho 30, 2008

Inocência


Pintura de Lucien Lévy-Dhurmer

É amena a hora e o tempo casto.

Na flor, o orvalho da manhã
estende-se em planos
indeléveis, indefinidos, breves,
qual pena em mão de criança
que do sonho nada teme.

E, sorrindo à brisa, se balança
indiferente ao conselheiro sem idade -
exponente pluriforme da morte -
em incauta obstrução à vulnerabilidade.

É amena a hora e o tempo casto.

Da silhueta ténue da rosa-menina
urge afastar densos passos
sobrepostos na tapeçaria da vida.

(Poema de Amita 'Fátima Fernandes')

quarta-feira, julho 23, 2008

Allegretto

“Da minha janela
vê-se a Poesia.”

(Sebastião da Gama)


Aguarela de Abigail Vasthi Schlemm


Irrompeu do caos
O silêncio
E fez-se a maresia, o instante
E a solidão.
Irrompeu da espuma a tristeza,
A lágrima, a nuvem e a primeira imagem da nudez.
Irrompeu do caos
O silêncio: a primeira imagem da surdez desejada.
Irrompeu do caos e da lama
O silêncio purificante de uma chama, e o desejo
Da brutal carícia das coisas impossíveis,
Sobre a laje fria dos banquetes irreversíveis dos abutres.

Foi na secura resignada dos meus olhos
Que as lágrimas se espelharam,
Derramando-se no cântico lago do mundo.

Ao inclinar a cabeça servil
Soltaram-se, em gemidos, os cabelos da escravatura.
E abriu-se o caminho da tua viral doçura
Dos abismos sob as estradas e caminhos
Dos nossos infantis amplexos.
E irrompeu do silêncio a oração, então esquecida,
Dos abraços reflexos.

Descerrou-se o mármore.

E acolheu-se o silêncio nas palavras
Nuvem, água e maresia.

Descerrou-se o mármore
E entrou em trabalho de parto a poesia.

(Poema de Manuel Anastácio in
Da Condição Humana)




Final (início) do filme "Irreversible" de Gaspar Noe. Allegretto da sétima
sinfonia de Beethoven. (retirado daqui)



(Desligar p.f. a música de fundo para ver o vídeo)

segunda-feira, julho 21, 2008

Em dia de Aniversário...

O Porosidade Etérea é um blogue que teve a origem do seu nome, segundo as palavras da sua autora, no poema…

Máquina do Mundo

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

De António Gedeão


Falar do Porosidade Etérea é convidar-vos a percorrer e conviver com a Poesia que a Inês Ramos nos aferta de uma forma altruísta, diria mesmo carinhosa.


Eu adoro todas as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreendê-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.
Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,
Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo
Do que as que vi ou verei.
Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.
A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.
Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios
E rosas também.
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também,
Crisântemos, dálias,
Violetas, e os girassóis
Acima de todas as flores...

Deita-me as mancheias,
Por cima da alma,
Dá-me rosas, rosas,
E lírios também...

(Excerto)

(Poema de Álvaro de Campos in
Fernando Pessoa, Obras Completas - I Volume, pág.432/433)


Pelo 2º. aniversário do Porosidade Etérea endereço à Inês Ramos as minhas sinceras felicitações pelo trabalho desenvolvido, desejando-lhe as maiores felicidades a todos os níveis...

terça-feira, março 25, 2008

...

Após inúmeros pedidos de pessoas que de alguma forma estabeleceram um vínculo com o meu blogue, que por minha própria iniciativa tinha decidido eliminar, já que é minha intenção manter-me afastada da blogosfera, decidi por respeito a todas essas pessoas e, ainda mais, aos autores dos trabalhos que aqui vinha promovendo, activar o blogue mantendo-o para memória futura.
Aqui fica pois, o meu respeito e amizade por todos vós e o agradecimento, pelos inolvidáveis momentos que partilhámos.

Agradeço ainda, a prestimosa ajuda da
Piedade Araújo Sol, do Jeremias e do AC (que não quer ser identificado) na activação deste blogue, sem a qual, isso nunca seria possível.

Obrigada a todos



Imagem Google

sexta-feira, março 21, 2008

Ando...

Imagem de Ana Lyn


Ando metido com a prosa
E já não apareço à poesia!
Queixa-se uma de mim sincopada
Mas logo a outra se regozija amada
- Digo a uma que nunca a esqueceria!
Mas a outra que tudo ouve em prosa
Faz-me crer que nem a conhecia
E escrever para a mais jeitosa...

Ando metido com a prosa
E já não apareço à poesia

Vivo em casa da mais matreira
E da relação já tenho filhos
Alguns contos e uma novela
E com a que é agora primeira
Já não piso embriagado os trilhos
Que pisava com a poesia antes dela.

Enciumada a oficial, com ronha
Lembra-me que foi amor primeiro
Que com ela a virgindade perdi
Mas o que perdi foi a vergonha
Com que me dou na prosa por inteiro

Como fazer então compreender a uma
Que não existo sem a outra?
Como dizer isto com uma certa ética
Se não for numa bela prosa-poética?

Tenho esperança que a minha escrita
Inclua sempre a ambas nesta via
Porque se ando metido com a prosa
Também hoje aqui o fiz em poesia.



(Poema de José Ildio Torres
in, o-ente-do-ser)

quarta-feira, março 19, 2008

No corpo que me abriste



No corpo que me abriste, com amor,
Com amor lancei minha semente.
E a seiva germinou e se fez flor
E o verbo tomou forma e se fez gente
.
E quando sobre nós, lançando a dor
Nos separa o fascismo prepotente,
Tu não estavas só, pois em amor
Crescia a nossa filha no teu ventre
.
Recordo a tua imagem sorridente
Passando junto aos muros da prisão
(Por trás a velha Sé, o Tejo em frente)
.
E eu, preso à doçura da visão,
Bebendo no teu riso transparente
O orgulho que te enchia o coração


(Soneto de
António Melenas, dedicado a sua Esposa Adelina )


Até Sempre, Melenas


Ouvir a declamação de outros poemas
Aqui

segunda-feira, março 17, 2008

hera

Pintura de Penny Parker


Nos contornos da casa
batem as falas falsas
como heras que se cravam
nas paredes
hasteando-se
rodeiam-na

a porta é a passagem
onde a hera não entra

no interior da casa
não se constroem divisões
amplo é o seu espaço
porque o calor
é uno
e resguardado
do cansaço persistente
do bafo frio das falas falsas
onde a hera não entra – o calor a asfixia

as janelas são o respiro de luz
onde não toca – a luz a cega

o interior da casa é um coração habitado


(Poema de Mïr in O Voo da Luz )

sexta-feira, março 14, 2008

Comunhão


Imagem de Turner Dyke

Deixa-me voltar para onde o ar
É mais puro, e a vida mais leve!
Deixa-me...
Ainda que por um momento efémero e breve,
Deixa-me voltar a sentir o vento
Abanar as copas dos pinheiros
E a ver giestas e papoilas
Florirem nas encostas!
Deixa-me voltar a respirar
O odor a capelinhas e rosmaninhos
Pelo S. João,
Saltitar uma vez mais, por veredas e caminhos,
Como se a infância não tivesse ainda fugido....
Deixa-me...
Deixa-me achar-me no meio das serras,
Eu, que há muito ando já perdido!...
Deixa-me vida triste, cruel,
Deixa-me, que quero reaprender
A cheirar as ervas e o mato,
As flores e a Primavera!
Deixa-me,
Que quero sentir, como outrora, o cheiro da terra,
E beber outra vez, de bruços,
A água fresca das nascentes,
Nos cumes dos montes.
Deixa-me,
Que quero de novo sentir em mim
O despertar de uma quimera,
E a liberdade dos amplos horizontes...!


( Poema de
Luis Beirão )

quarta-feira, março 12, 2008

Estas palavras vestidas de silêncio

O que fará um texto num blogue de poesia, perguntarão ao depararem com a minha escolha de hoje.
Talvez... pela sua sensibilidade e lirismo, direi eu.
Apreciem-no…



Autor desconhecido


Estas palavras vestidas de silêncio que damos um ao outro como pétalas de flores dispersas, dizem tanto daquilo que sabemos, que às vezes julgo escutar os gritos lancinantes que deixamos escapar das feridas por fechar e calamo-nos, com adesivos sobre os lábios, fechando as portas e as janelas para que o vento não empurre os gritos para fora das muralhas dos nossos corpos ávidos.

Depois, contemplamo-nos como se nos víssemos pela primeira vez, e afagamo-nos em mútuas carícias impregnadas de um medo inconfessado que nos percorre as veias do silêncio dissimuladas sobre os nossos corpos.

Ah! Por que não havemos de gritar o necessário desejo de estar vivos?

Quem nos proíbe, Amor, de nos tocarmos numa descoberta mútua e sempre nova de um espaço à nossa volta?

Quem?

Quem nos impede, Amor, aquele abraço, num ímpeto incontido de rasgar o espaço que separa as minhas mãos das tuas mãos?

Quem nos proíbe, Amor, que troquemos de segredos em cada beijo partilhado no silêncio das nossas bocas sequiosas?

Quem?

Quem impede, afinal, esta vontade de nos darmos um ao outro sem medo das ruas e avenidas que nos falam da cidade vigilante a observar-nos os passos e os gestos, a medir a intensidade das palavras que se propagam no eco do silêncio como um grito de angústia?

Outro dia, as minhas mãos sobre as tuas mãos ou o meu cabelo sobre o teu cabelo falaram durante horas a linguagem muda do desejo de nos termos, sem angústias nem reservas. E de lábios cerrados tivemos a mais longa conversa sobre o nosso amor.

Lá à frente o azul do mar e a suja areia, ao nosso lado, o calor das nossas mãos que se apertavam num estranho código de náufragos, entrelaçando os dedos e juntando as faces, resistindo ao desespero das ondas que teimavam afastar-nos um do outro (como o mundo à nossa volta).

Ninguém foi testemunha desse instante gravado apenas no silêncio clandestino das nossas memórias fugitivas.

Só nós (porque o mundo à nossa volta éramos nós) temos o direito de falar desse instante de amor, porque o vivemos num desespero rápido de quem sabe que o amor é um relâmpago rasgando a densa cortina do desejo e, quando um dia falarmos deste amor que pairou sobre as mãos entrelaçadas, ninguém entenderá este silêncio que se sobrepôs ao grito do teu peito, ninguém entenderá este poema que narra o desespero de não te ter aqui, neste instante em que te amo, mais e mais, clandestinamente, e em silêncio.


Plauto (in A Linguagem do Silêncio)

segunda-feira, março 10, 2008

Passos de Dança


Imagem de Mariana Ximenes

Em passos de dança
Entre vontades e segredos
Entre gratos e profundos beijos

Encontro-te….

Não sei se te desafio
Se te provoco….

Se me rendo incondicionalmente

A verdade?
nua e crua
como a face da lua…

É um perigo….
para já esquecido.


(Poema da
Marta in Minha Página)

sexta-feira, março 07, 2008

O Beijo da Chuva.

Imagem da Isabel Filipe





Nos umbrais do pensamento
Mora o desejo no limite da razão
Roubando os segredos do corpo
Lançando ao vento a emoção
Uma rosa breve guarda a belezaO amor é orvalho de feliz pranto
O horizonte é o começo do infinito
A chegada de uma onda é alegro canto

As pequenas coisas são traços
De singela tatuagem na areia
Que o mar aprisiona no azul
Pelos braços da maré-cheia

O curso errante do teu espírito
É gaivota fugida à tempestade
Perdida num manto de bruma
Sentindo do mar a saudade

Teus passos não deixam marcas
O teu mar tem a cor da ilusão
Um canto liberto foge amargura
Que te assaltou o coração

Esta terra prende-te os pés
Este abismo clama por um céu azul
As palavras devoradas pelo silêncio
Jazem em ilha perdida no sulOnde moram as tempestadesOnde os Deuses se divertem
Onde as hortênsias não medram
Onde os sonhos se subvertem
Sussurra a noite esta verdadeNas espigas de Lua da tua cabeça
O teu coração escolheu os meus olhos
Para encontrar o rumo da tua incerteza
Uma sombra foge à luz
Uma lágrima põe-te a vista turva
Será que o teu rosto é ribeiro de sal
Ou recebeste…O beijo da chuva…



(Poema de
O Profeta)

quarta-feira, março 05, 2008

porque se ligam as memórias


Desenho de Cláudia Santos Silva
(aguarela e tinta da china)


porque se ligam as memórias
a imagens como esteios de granito
em sucalcos no meu corpo encravadas,
as palavras como o seio de uma linha de água
onde o olhar é o murmúrio que descobre a alma,
apontamento cartográfico para o rumo
do que se julgara perdido?

(e que seres em mim escondidos
despertaram a roda das infantas
que nunca de linho branco se vestiram e de flores
a cabeça ornaram
apesar do desejo, da vontade e das mágoas?)

que palavras foram essas
que albarroaram o teu coração,
alinhando, serenas,
a desconstrução das ausências previsíveis
e dos desamores vividos?

e se, em cada amanhecer imerecido,
colhesse os seus votos como orvalho,
ser-me-ia permitido escutar ainda
as palavras que não se dizem?


(Poema de
Cláudia Santos Silva in Blue Molleskin)

segunda-feira, março 03, 2008

Ainda não me rendi.


Pintura de Ana Maria Sanz


Todas as dúvidas acordam pontuais,
Às meias horas nocturnas,
Deslizando em gotas perfeitas de suor,
Decorando a ponta dos dedos,
Ao som da música incessante dos sonhos.

Ainda não me rendi,
Não parei de lutar, nem de falar
De punhos cerrados e sorriso aberto,
Decifrando olhos semi cerrados,
Corações disfarçados de gente.

Mais um movimento certeiro
E mais um fio de sangue,
Traçando na cara as linhas das minhas certezas,
Marcando os passos incertos dos meus ideais,
Moldando a feições das palavras.

Ainda assim, não me rendi.

(Poema de
Daniel Costa-Lourenço in Mar.da.Palha)

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Identificação

Pintura de Zhaoming Wu


Sei quanto me queres porque te quero
e queremo-nos ambos com ardor.
Esperas-me também porque te espero
e nessa espera aumenta o nosso amor.

Eu vejo à minha frente os teus desejos
no brilho dos meus olhos reflectidos,
e sinto nos meus lábios os teus beijos
despertando-me todos os sentidos.

Eu leio nos teus versos os meus versos
e ao ler-te tenho esta visão suprema
de ver fundir-se os nossos universos
na imensa galáxia de um poema.

E sem te ter eu tenho-te ao meu lado
e tu, que estás distante, estás tão perto,
que acabo por dormir sempre acordado
no berço do teu colo em que desperto.

Que este amor, meu Amor, é mesmo assim
e o que parece ser contradição,
não é mais, afinal, que a afirmação
de que eu só sou quem sou porque és em mim.

(Poema de
Fernando Peixoto in Arca de Ternura)

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

O Silêncio da Noite


Pintura de Fulvio de Marinis


Começo a noite ao teu lado!
Entras nos meus sonhos
e espero por ti nas palavras
que se acendem
no fogo de uma noite inextinguível,
no desespero dos labirintos
onde sinto a solidão da sede,
nos minutos de noites intermináveis…

A porta ficou aberta,
nada te impede de transpor o limiar.
Há um desejo que te empurra
como se fosses um corpo inabitado
buscando a luz de um sim, que respira
a voragem da tua nudez completa.

Chegas! Rompeste a névoa,
Trespassaste a hegemonia da sombra,
com palavras nuas na solidão da noite,
com o fulgor de um começo puro,
com a fragrância dos teus olhos matinais.

É este o tempo que temos!
Dias que serão breves momentos
de um silêncio que tem voz…
Tempo de dar vida aos sentimentos
que pulsam em de cada um de nós!...

(Poema de
Albino Santos in Poemas de Amor)

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Virás

Pintura de Peter Nixon


Virás solene e belo
com o brilho da prata
e o verde dos limos
e a maciez das pétalas
e a ternura inconfessada
dos guerreiros.

Sorrirás pelos trilhos da alva
desviando as facas
domando as fúrias
do meu descaminho.

Perguntarás:
Mulher quem és agora?
Lavarei as mãos
nos meus ribeiros
para nelas beber a tua voz.

Não te responderei
antes do anoitecer
quando o meu corpo
se esquecer do cardo
e se fizer o lírio.

Aguardarás sereno
como uma prega
na espádua do tempo.

A hora chegará
de retalhar as cordas
e atravessar o espelho
e apagar o lume
na casa da montanha.

Só então te direi:
Sou a pedra de canto
do sítio que habitavas.
Meu nome um monossílabo
como tu como eu
como chão como céu.

(Poema de
Licínia Quitério in O Sítio do Poema)

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Nevoeiro

Imagem daqui


Há quanto tempo
não escorrem lágrimas
e riem as pedras
no longo caminho percorrido?

Há quanto tempo
não choram as calçadas
e gritam inanimadas
as flores do jardim aqui?

Já me esqueci.

Foi há tanto tempo
que me perdi por aí,
sem lágrimas, sem risos,
sem gritos e só
no frio nevoeiro de ti.

(Poema de
Paula Raposo)

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Dias

Fotografia de Nelson d'Aires



dias de espera
nas tardes frias.
transportam o passaporte
dum tempo indiferente.

ignoram a sede
que humedece um corpo
e, caminham ébrios
nos corredores da memória.

dias soltos
em outras paisagens.
gritos de gente,
num segredo cúmplice

aromas de glicínias
na penumbra do silêncio sólido,
horas gigantes e mal contadas
nas palavras pululantes.

dias sem rosto,
roubados ao lixo fingido,
ao ardor dum tempo restrito
diferentes de um passado mudo.

dias longos, na viagem do corpo
num sorriso que ainda dura!

(Poema de Lena Maltez in
Cabana de Palavras)

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Teia...

Imagem daqui



Teci uma teia
Com gotas de orvalho
O sol reluzia imenso...

Indolente enleou-se
Pelos misteriosos fios
Ávida de fome e de sede
Quis sentir a felicidade
Num ímpeto de loucura.

Viajei sem parar.
Tudo era perfeito;
Envolvi-me inteira.

A transparência desbotou-se
Suavemente….
Caí… levantei…

No silêncio e sabedoria
Rompi os fios mal cerzidos
Colados pela fantasia .

Lavei o rosto com orvalho
Libertei as amarras;
Sonhos, ilusões... é passado.
Levanto voo…a alma desprende-se
Encaro a realidade.

Caminho, sorrindo, pisando firme
No ventre da terra fria.


É a minha vida!


(Poema da Singularidade)

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Cantai ainda

Pintura de Diva Teresinha Canassa



Cantai ainda, sob as árvores
à beira rio, entre noite e dia.

Que as chuvas vos acordem
num dilúvio
de gestos feitos de alegria.

A fresca madrugada
se abra à luz
sonora e alada.

E que seja brando o vento
dos dias caindo devagar
sobre o teu rosto

de olhar, por fim, a terra amada
à luz do sol resplandecente

na pura harmonia do poema.

(Poema de
Vieira Calado)

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Deixa-me ser o teu presente

Tendo recebido vários pedidos de publicação, de um poema dedicado ao dia de S. Valentim, mais conhecido por Dia dos Namorados, a minha escolha recaiu num poema que a Pi gentilmente me cedeu...
Fotografia de Carlos Silero


Deixa-me… deixa-me ser tua
cerrar os olhos e sentir o sabor
da partilha nos meus lábios
acorrentados aos teus

Deixa-me ler-te como se fosses
uma brochura que reconheço
sem tão-pouco virar
as páginas revividas de tão lidas

Deixa-me perdurar no que não dizes
pois eu sei
recordar o teu feitiço
mesmo que nem esboces um sorriso

Deixa-me esculpir a ferro e fogo
tudo o que em ti existe
ou em raios laser
cinzelar-te completo para mim

Deixa-me… deixa aconchegar-me
toda em ti, sentir-te tão perto
tão meu, tão conivente que no futuro
ninguém nos possa separar
Deixa-me… deixa-me ser o teu presente
(Poema da 
Piedade Araújo Sol)


...e que dedico a todos os Apaixonados

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Passo a passo...

Fotografia de Nuno Sousa



Passo a passo, cãibra doce e perpétua.
Ganho corpo de estrada, vincada de sulcos,
de esgares, de solturas de gritos, de rubros....
A roupa que trazes e que eu queria segurar perpétuamente.
O hálito como que a procurar a cama;
o teu hálito como que a provocar o drama,
solto.
Solto-te mas receio que me perca;
perco-me mas receio que te encontre.
Descubro esta cidade que não se escreve
nem se deixa escrever,
nem se julga poeta, dissidente das palavras;
ainda que por exaustão se encarregue de as desenhar letra a letra.
Seguro o teu nome encaixilhado;
seco o teu nome,amanso-o, aliso-o...
Nada me consola.
Nada me separa desse ter-te resumidamente nos dedos.

(Poema de
SombrArredia)

sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Concerto para os peixes que habitam os meus sonhos

Imagem de autor desconhecido




O som dos grilos é estonteante
e o marulhar junta-se
nesta orquestra de cio
estranha atitude
destes insectos que migraram
dos campos prenhes de rubras papoilas
para virem escutar os peixes
é caótico este momento de êxtase
em que a lua nua de luz
se mostra em toda a sua nudez muda e excitante
porque toda a natureza desperta
da letargia que o verão
provoca
trazendo cheiros distantes
e persistentes
porque
as narinas fremem
de desejo fundeado
neste mar
onde campeiam espumas
e o que resta de nós
servirá de repasto
aos pássaros loucos



(Poema de Rogério Saviniano Telo
Traz Outro Amigo Também)

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Há quem diga

Fotografia de Luís Lobo Henriques



Há quem digaque o poema só vale uma ilusão
de salvar do naufrágio a certeza
arrumada além-mar do coração.

Há quem jure
que a alegria vale menos que a pobreza
de carpir a presença da saudade
no sorrir macilento da tristeza.

Também dizemque um poeta só vale a ingenuidade
a cuidar que é verdade o seu amar
sem julgar o que é falso ou realidade.

Ainda assim,
é no todo que eu busco o meu trovar
sem banir a contenda que me assola
no silêncio dos cantos por achar.

(Poema de Nilson Barcelli in
NimbyPolis)



Nota: O Poesia Portuguesa passará a publicar na sua versão original, ou seja, às segundas, quartas e sextas-feiras.
Um abraço a todos.

segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Poema felino...


Imagem dos Queridos Gatos


Sou gato.
Que terror!
Faça lá o favor,
De não ser fatalista!
Sou gato.
Gato preto, bem preto.
E vivo como um senhor,
Neste mundo,
Que a todos, nos desafia...

Sou gato.
Gosto muito de minha cor,
Quando de toda a ninhada,
Minha mãe a viu pintada,
No terceiro gato que dela nascia,
Deu-me com todo o amor,
Uma inesquecível lambidela,
Que na minha memória de gato,
Me ficou ela gravada,
Para o resto de minha vida!

Sou Gato Preto.
Assumido.
Que presunção,
É a minha!
Mas se vos intimida a cor.
Olhem-me para os olhos,
Que vos espreitam agora,
De forma tão tranquila.
São vivos,
Atentos,
Em permanente expectativa.
A cor?
O Verde da esperança,
Já viram?
Tenho a certeza que vos inspira,
Muito mais autoconfiança.

E neste instante de partilha,
Faço eu meu auto-retrato,
Que por princípio, eu não queria.
Sou gato.
Mas que mistério...
Tanto silêncio me vem desse lado,
Fale-me agora de si,
Pois eu sou como todo o gato,
Que se preza de o ser,
Muito curioso.
Venha daí agora com muita auto- estima,
Aquilo que de si também me fala,
Sua bela fisionomia!

Poema de Beatriz Barroso in
Porosidade Etérea

domingo, janeiro 27, 2008

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Verde acinte


Imagem de Pedro Moreira



A minha retina
Enamorada
Com a minúcia melancólica
Do verde acinte
Nervurado

A todos os espaços
Lágrimas de prata orvalhadas
Se recolhem no debrum
Até ao leito das rotas
De um tempo breve
Que nos tem à escuta

Ambiguidade
entre o verso e o reverso
que se frui
a cada gesto
lentamente despojando
até à nudez final que só a língua testa

(Poema de ContorNUS)

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Roda

É com uma satisfação muito pessoal, que hoje trago aqui um Poeta que admiro e cuja obra já foi merecedora de vários prémios.
Recentemente, foi o vencedor do Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica.
Pela sua simbologia, deixo-vos este poema que retrata um "mundo" muito actual…


Imagem Crestomatia



digo que estes homens de kiev estão a viver
no contentor azul e amarelo e nele dormem, preparam
as frugais refeições no único bico de gás disponível,
cosem as meias, descascam cenouras e batatas e comem
em pratos de alumínio com garfos de plástico, e rezam
em silêncio ao deus ucraniano que sempre os ignora,
o deus que os acompanha nas obras públicas e nos prédios suburbanos
em construção onde trabalham, que os turistas de albufeira
não tardarão a ocupar, com os olhos cheios de um sol que nunca viram,
nunca sentiram queimar assim na sua pele.

digo que estes homens de kiev enchem a boca de um lamento profundo,
que estes homens enchem os olhos de lágrimas que se não vêem
e aqui sonham sem sonhos, com um murmúrio negro a invadir-lhes a cabeça,
como se estivessem para além do último limite, a última exasperação,
estes homens de kiev que não sabem como o mundo pára às vezes
e ao mesmo tempo se amplia, como o coração desesperado
de alguém que viu a partida iminente e, por um instante, estacou,
ainda a neve não derreteu na primeira estação ou os pássaros
nidificaram uma e outra vez na dolorida luz de kiev.

digo que estes homens de kiev devem como todos nós um galo a asclépio
e perscrutam no que é visível tudo o que está invisível nas coisas,
transversal e faminto, amplo e escuro nos subúrbios de albufeira,
procurando na brancura as semelhanças possíveis com o que nunca verão,
tendo já visto tudo, tendo já visto
o mar a inclinar-se sobre os seus corações, num momento longínquos,
nas ruas de albufeira, noutro momento próximos dos subúrbios de kiev,
a pesar argumentos, a exorcizar a morte, a recolher nos braços
uma tristeza infinita, indizível.

digo que no próximo ano estes homens de kiev hão-de chamar
para aqui as mulheres e os filhos, estes ucranianos que vivem no contentor
azul e amarelo na periferia de albufeira, estes violinistas,
estes médicos, estes professores de línguas, que agora dão
serventia de pedreiro e usam a picareta, a pá e a betoneira e sabem
a quantidade exacta de areia e cimento e água e ferro para levantar
estes arcos, onde vibra a tumultuosa música do sofrimento,
talvez como alicerce, talvez como definitivo ajuste de contas
entre isto que se vê e eles não dizem, ou se não vê e eu digo,
como um deus ucraniano de passagem pela periferia de albufeira.

Poema de Amadeu Baptista
(Antecedentes Criminais, Antologia Pessoal 1982-2007)

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Nós, os outros


Imagem daqui


Nós, os outros, habitamos a textura
aquosa e impura da cidade adormecida
quando o negro nela se abate

Nós, os outros, abrigamos o frio
nos jornais remexidos,
aninhados no vazio dos recantos
que o cimento e a pedra calam

Somos gente sem nome nem destino
em tempo indeterminado;
andarilhos na mão que se estende,
vestidos de invisibilidade

Nós, os outros, também sonhamos
a metáfora ténue dos papeis gastos,
da vida a essência dos dias plenos
entre a existência dos muros lentos
levantados pela hibridez da hora em viragem

Assim caminhamos o esquecimento
sob a trama da luz baça da cidade


(Poema da Amita in Branco e Preto)

domingo, janeiro 13, 2008

Começar 2008...

No iniciar de mais um ano, em que esta página sobreviveu pelo apoio e carinho que os seus frequentadores têm demonstrado por ela, é tempo de reviver e criar novos alentos.
O Poesia Portuguesa nasceu da partilha das palavras que mais lhe tocaram e que ia descobrindo, em blogues de língua Portuguesa.
É tempo de voltar a essa partilha e, continuar a alimentar sonhos e esperanças…


Imagem Google


quero sonhar
acordar e saber que sorriste
quero amar
e pensar que amar é saber que da dor caíste
hummm, queria provar o sabor da minha infância
correr, correr e não mais crescer
das pedras calcadas pelo calor saber delas beber
como é bom ser sonho de criança

tou sozinho
mexo-me e sinto-me vivo
é tão bom esse teu néctar
esse teu desejo infinito de saber a magia
penso em ti
mexeste onde tou sozinho
nos meus pensamentos desertos
quero-te assim
onde meu navio parou
parou num tempo sem vela
e sem rumo e que só te quer bela

mas como não posso parar digo-te
ou digo-me a mim
que a noite tem esperança
que o tempo pode ser meu
que os desejos podem viver em prazeres
que o vento que se descobre a ele próprio é vivo
e que o amor parecendo banal, pode ser infinito

"suspiro"a quem te enganas
ela dançou para ti
e não foste capaz de dizer simplesmente
que naquele momento a amaste sem fim...


(Poema "Desabafo" do Poeta Vagabundo)

terça-feira, janeiro 08, 2008

Mulher


Pintura de Gustave Coubert


nos momentos de incerteza
quando apetece fugir
e desistir da viagem

quando cansado de tudo
me sento à beira da estrada
e adormeço a coragem

são os teus gestos
mulher
que me chamam
para a vida

e sinto de novo a fúria
de desenhar um país


(Poema de Vieira da Silva)

domingo, dezembro 30, 2007

Outro Ano...






Contei quantos anos tem um dia
Adormecido à porta da madrugada
em esperas vãs cansadas de agonia
tomba o dia, o ano, nesta estrada...

entra outro, o novo...o desejado
a fervilhar em taças de ilusões
e diz o velho na folha do passado:
- conseguirás tu, trazer as soluções?

tal como tu, nasci com espirros de luz
e termino no delírio da'nsiedade
do sentimento humano que traduz
o sonho de uma nova realidade.

benditos os anjos de asas quebradas
morrem sem glória e o mundo esquece
numa taça de quimeras deslumbradas
como fumo, porque o fumo, não aquece...

deixo espelhos sombrios em herança
ruínas, guerras, fome, má bonança,
catástrofes, desventuras doloridas,
lágrimas sufocadas, mãos estendidas

e as promessas, são rosários lentos
nas mãos de quem luta dia-a-dia.
retira 2008 a cruz do desalento
dá à vida, sol, saúde, amor e alegria

ser novo ou velho...pouco importa
se houver no mundo, pão, paz e harmonia
e o direito ao sol em cada porta
para a noite desta estrada... se fazer dia.



(Poema de Teresa Gonçalves)


quinta-feira, dezembro 20, 2007

O Natal aproxima-se...


Natal do nascimento do Menino, que desde muito pequenina em casa do meu avô, me acostumei a ver deitado nas palhinhas e também, durante muitos anos, em casa dos meus Pais.

Desses Natais, guardo memórias infindáveis, de outro Menino em palhas deitado...


Seguindo a tradição, continuei a deitar o Menino nas palhinhas todos os Natais, pensando em quantos meninos, nem palhinhas tinham para se deitar.


Mas em todos os Natais, cada vez menos se recorda o M
enino, nem o motivo pelo qual ele nasceu, sendo prioritário o consumismo que se gera nesta época.

Por isso, quando hoje acordei com vontade de aqui colocar um poema de Natal, recordando o Menino que já nasceu, dei a minha habitual volta pela blogosfera, em busca de palavras que me fizessem sentir o verdadeiro espírito do Natal... não aquele espírito comercial, que leva a compras desenfreadas, a trânsito interminável, a troca de prendinhas quase obrigatórias, entre familiares, que por vezes, só para o próximo Natal é que se voltam a encontrar, mas aquele espírito que eu sentia há anos, quando me contaram porque motivo o Menino tinha nascido...

Ao final do dia, descubro uma pequena maravilha, que me atrevi a "roubar" à
Maria Pedrógão, da Casa de Maio e que me fez recordar os cânticos de Natal da minha infância e que aqui vos deixo…

Toca o sino pequenino
Toca o sino pequenino
Sino de Belém,
Já nasceu o Deus Menino
Que a Senhora tem.

É Natal, é Natal,
Vamos sem demora,
Já nasceu o Deus Menino
Que a Senhora adora.





Presente de Natal
Quero que todos os dias
Sejam dias de Natal
Para todos terem alegria
E a ninguém lembrar o mal

Ò menino! Não te esqueças
De me dar um presente
Transforma todos os dias
Em Natais p'ra toda a gente.

Em Natais quentes de amor
Com cestos cheios de pão
Com homens todos irmãos


(do Cântico tradicional)











sábado, dezembro 15, 2007

A amizade e a ternura aumentaram - Pág 161

Confesso que me senti deveras envergonhada quando hoje, com um tempo (pouco) livre para mim, decidi visitar alguns dos blogues que tenho tido curiosidade (feminina) de saber o que têm postado, durante esta minha já longa ausência deles.
E senti-me envergonhada porque, a
Júlia Moura Lopes, do blogue O Privilégio dos Caminhos, fez o favor de citar o Poesia Portuguesa numa corrente, "O Meme da página 161" e só agora desse facto tive conhecimento, que com prazer aceito e, passo a referir as regras do mesmo:

1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª) Abrir na página 161
3ª) Procurar a 5ª frase completa
4ª) Postar essa frase no seu blog
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

O livro que tenho aqui mesmo ao meu lado, porque o estou a ler, é o livro de poemas de Natércia Freire, intitulado Poesia Completa, com Prefácio de Maria Gabriela Llansol, das Edições Quasi.
Abro a referida página 161 e deparo-me com um poema que gosto muito, intitulado “UM SÓ DIA”.
Infringindo a terceira regra da corrente, permito-me transcrever uma das partes do poema que mais gosto, da já citada pág. 161:


Pintura de Héctor Becerini


"Ao sol, ao raio de oiro da manhã.
Ao vento, à comoção dos seus sentidos…
À rajada que desce da montanha,
Ao orvalho do sonho, à impaciência
Do seu beijo macio,
Ao fluir de rio
Em sucessiva ausência…
À palavra pequena, ao som de búzio
Que vem do grande mar
E no ouvido se alonga e se insinua
- posse, algema, vertigem
Que a flor vai navegar…"

(excerto, poema de Natércia Freire)

Passo o testemunho a 6 blogues:

As velas ardem até ao fim
Carlos Peres Feio
Des-encantos
Diogo Ribeiro
Dulce
Piedade Araújo Sol


Imagem de autor desconhecido

domingo, dezembro 09, 2007

anseio a noite...


daqui


anseio a noite
o sono o sonho
suspensa a confusão da luz
cravo as mãos no corpo
atingir o interior do rio
longe das vozes do dia
acaricio a música
o correr das águas
no leito novo
a quietude do coração
adormecido na margem


(Poema de
Memória Perturbada)

terça-feira, novembro 20, 2007

O Mar...

E porque o Mar foi tema de destaque, no blogue Porosidade Etérea da Inês Ramos, deixo aqui os poemas que foram seleccionados para serem gravados em áudio…


Fotografia de Pedro Moreira (Meia-laranja, Praia da Granja)



Penélope fala a Ulisses, ou outras falas
1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora,

que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo


2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
— rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei

Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual –

Ana Luísa Amaral(poema inédito, que será incluído no seu próximo livro)



Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)


Fotografia cedida gentilmente pelo Almaro

Morrer devia ser assim:
lavar a cara com areia fina
e mergulhar no mar adormecido.


Joaquim Alves

Ouvir o poema na voz de Luís Gaspar
(Desligar p.f. a música de fundo para ouvir o poema)

O meu agradecimento a Inês Ramos pela disponibilidade e partilha.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Campo… de Mar

Há palavras que são momentos… e momentos que não precisam de palavras.
O meu agradecimento à
Cris por este momento que deixou nos comentários e que peço licença para aqui transcrever…


Olhar o mar como se olha para o céu como se olha para o campo...
As estrelas estão lindas, brilhantes, num firmamento trigal.
Os peixes são agora papoilas e as ondas mil flores silvestres, ondulando sob nuvens, vagas de espuma em flor!
E as algas entrelaçam-se, trepadeiras, namorando os astros, quais frutos em árvores frondosas.
O coral é já sol-posto, repousado em rochedos, horizontes sobre oceanos, prados a perder de vista...
Já se adivinha o encanto...

A maré-cheia corre, estende seus braços de água e, transformada em ribeira, ladeia, cantarolando, o imenso areal dourado, qual eira, enchendo-a duma frescura tão marinha, tão campestre!
Brotam os búzios viçosos e as conchas são borboletas, com asas de madrepérola...
E cantam, com voz de aroma de marés vivas, sobre campos azuis, prontos para serem ceifados.
Dormem os pescadores...descansa a faina...sonham que são lavradores...

Veste-se a praia de verde e pede à noite que se junte à fantasia; que lhe traga o vento para com ela bailar ao som da melodia das dunas tão moçoilas, lindas ceifeiras!
Lá longe a montanha sorri e a festa vai durar, estender-se pela madrugada até que o dia os avise que é tempo de recolher porque a noite quer ir deitar-se e o sol-posto vai ser de novo coral.

Descansa o encanto nos braços do dia mas promete voltar!
Trará com ele a noite e será outra vez festa, num campo verde, no mar!
E vai fazer os pescadores dormir de novo, repousando da faina sonhando que são lavradores.
E a praia vai tornar a vestir-se de verde, vai bailar, descalça, com a brisa pelos ombros...
Mas desta vez, num mar que se tornou campo, olhada pelas dunas ceifeiras, nos braços ternos do vento.

Cris in Campo… de Mar