Inês Ramos
in Antologia de Poesia "Meditações sobre o fim – os últimos Poemas"

Capa do livro
UM DIA
Um dia
vou dizer-te,
a versão eloquente
de quem fomos,
…dizer-te
dum pretérito simples,
e do futuro condicional
incerto.
Leremos livros
de odores ligeiros
saboreando chás
de sabores diversos,
Diremos poemas
inventaremos núpcias
juraremos juras
e cantaremos versos,
Descobriremos portos,
barcos, travessias,
tormentas brancas
e algumas calmarias…
Tudo isto amor,
e nada mais,
brandos e contemplativos,
eu prometo,
…um dia.
(Bósnia 1998)
Poema de Teresa Cunha
in, III Antologia de Poesia Contemporânea, (Chiado Editora)
CONVITE
Espero encontrar-vos lá!
Imagem retirada da internet
Mário Domingos
À procura das palavras
I
Subi então até à raiz do poema
e aí encontrei uma flor petrificada.
Olhei em volta, à procura das palavras
que pudesse comprar a minha sede:
- Era um deserto de nervos
Com margens de sangue
A paisagem na raiz do poema - eu.
Murmurei vagamente uma oração antiga
E quase me desfiz em pó de tanto olhar
E me arder a vista atroz, incendiada, no crepúsculo
inigualável. Silêncio e mais silêncio.
II
A água corria, corria por entre as pedras,
levava no corpo destroços de cidades,
laranjas esquecidas na penumbra,
raparigas ironicamente vestidas, vestidas de verde,
raparigas-água impressionantes, sorridentes.
A água corria e era muita e era bela. Levava
A palavra procurada, a palavra do poema
algures no corpo, recatada e mansa, talvez adormecida.
Eu sabia apenas que entretanto amanhecera.
III
Tenho sede. Ergo-me de repente e abandono
o amável leito de todos os dias. Veloz como
o navio que sabe seguro o porto, ganho
o espaço ritual que me separa de mim.
Tenho sede. O meu pulso é algo de concreto e latejante,
assim me sinto e reconheço, à procura das palavras
na raíz incandescente do poema - eu.
São de pedra as cidades, são enormes e movem-se
no ritmo lógico em torno dos meus ombros.
A flor petrificada olha-me heroicamente, meigamente,
o seu espanto é de carne rigorosa. Tem cinco pétalas
azuis emocionadas, inscritas pouco a pouco nos meus olhos
maravilhosos de ironia, incrivelmente densos.
Poema de Mário Domingos
Porque os Poetas não morrem ficarão para sempre as tuas palavras gravadas no Universo.
Até sempre, Alien8. Até sempre, Mário Domingos.
R.I.P.
Rui Costa
Elegia Azul
Clara, como talvez tu antes da última esquina da noite,
uma imagem redonda colava-se aos meus dedos por entre
as folhas de papel que lentamente ardiam. Foram sempre
mais as páginas que juntei do que aquelas de que pude
separar-me, naquele T1 pequeno com vista para Monsanto
e para o teu corpo sempre azul.
Infelizmente, não fora capaz de preparar
o silêncio que sempre se segue a tudo o que
não somos, dirias tu, o rumor de instantes que nos apanha
na canga e nos sugere o vale sem luzes e a varanda grande.
Parado sei que isso é poesia, um sonho, pequenas alucinações
de primavera sem apelo no fundo destas veias e sei também
que continuas a existir e vais ser minha muitas vezes,
como eu quero ser teu intermitentemente em cada lua nossa.
Mas tu sabes como os astros nos pregam partidas ao telefone,
como em certos dias a pique para o sol embatem nas antenas,
e este ligeiro pesadelo é apenas o desconforto baço de saber
que há coisas demasiado belas para não serem tristes.
Poema de Rui Costa in "Os Dias do Amor", selecção de Inês Ramos, pág. 370
Passamos pelas coisas sem as ver
Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Poema de Eugénio de Andrade
(Desligar a música de fundo para ouvir o vídeo, p.f.)
O Poesia Portuguesa agradece a todos os que tornaram possível o “passatempo do poema mais comentado” em especial ao Sons da Escrita pelo trabalho realizado na produção dos vídeos dos poemas premiados e ao José-António Moreira por ter dado voz aos mesmos.

(desligar por favor a música de fundo para ouvir o vídeo)
Imagem de James Harrigan
desiguais se encostam
desiguais se destapam em fios de som
metálicos se enferrujam
desiguais se sentem
sem sentir o igual do tacto
desiguais se tentam enroscar
metálicos
gritam finos sons de cordas rijas
desiguais se amam em cordas
esticadas
desiguais se aconchegam
em cordas que vibram
desiguais se gritam
metálicos
não se olham
desiguais se tocam em notas de viola
desiguais se igualam
em desalinho se deitam
alinhados
encostados se amam
encostados se ouvem
desiguais gritam
metálicos
desiguais se misturam
em sons desabafados
deitados em tecidos amarrotados
desiguais se igualam
Poema de Teresa Maria Queiroz
Pintura de Philippe Loubat
Gostaria tanto….
De tocar a superfície da maresia
Com as minhas mãos sedentas e sentir-te apelo…
De escrever-te pétalas tinta sorriso
E declamar-te com os teus versos partilha…
De amar-te murmúrio doce
Na tua entrega paixão querer de ti segredo nosso…
De dizer-te o que me queres soletrar
No prolongar infinito do teu enleio alma…trajecto redacção…
De ouvir as tuas canções nossas
E invejar o teu saber dizer de poemas versus coração…
De me render à tua “luta” apego
E ficar prisioneiro do único amor com o amor que entoas…
De nada saber e tudo me ensinares
No cultivar sólido de sabores teus…doados nossos…
De correr para ti…como menino carente
No fim de cada minuto saudade e sorrir no teu abraço abrigo…
De aprender contigo a moldar a cor do acto
E suspirar no acreditar da certeza página presente…
Que me escrevesses um poema silêncio
Em grito surdo de respiração suspensa …para lá do possível ...
De nunca ter de conjugar verbo no passado
Porque a tua caligrafia semeia sempre futuro em cada escrita dita…hoje presente…
De chorar …apenas para apagar vulcões de êxtase
Que me dás em oferta solta almejo de vida sempre a colorir…
De dizer-te paixão…com um obrigado abençoado…
Porque se Deus existe…tu és o Universo da felicidade…
De nunca findar este caminhar a dois
Onde exigisses amor com amor…até ao beijo final….
De dizer tanto…e tanto ouvir…
No tanto que há para viver…no tanto que há para amar…no tanto que há para declamar...
De não te conhecer…e puxares a minha mão
Para te conhecer e percorrer estrada rio…nascente foz…mar…horizonte…sofreguidão conhecimento…o teu jardim…
De ouvir a tua verdade…nas verdades que tens…
Bálsamo fidelidade…código único…
Que a única diferença de sermos…fosse a interpretação
Homem …mulher…nunca o esgrimir de posições …porque somos…
Gostaria tanto…
De acordar…com o teu acordar…
E sentir-me com o teu acordo do acordo que rubricámos…
Poema de José Luís Outono


Imagem de Google sem indicação de autor
“Un vague bonheur leur était élan et ménace”
Nic Klecker, “Matin” (conto), in Jadis au village
A manhã de Outono veio trazer prenúncios
de Inverno e sombras de geada
veio montada nos raios oblíquos
e conduziu as rodas das bicicletas
uma em direcção à outra
dele e dela
uma brisa fresca
juntou-se ao encontro
que seria a dois
estavam eles conscientes
do mistério do dia?
foi-lhes ele anunciado na noite já distante?
tê-la-ia ele visitado, ter-lhe-ia ela
franqueado o ardor do umbral?
ter-se-iam amado no corpo
do sonho? as mãos
eram jovens e virgens
ainda seguravam
os guiadores das bicicletas
e os olhos de um faziam tangentes
nos do outro
decidiriam unir-se
para o receio e a ousadia do salto
para a existência e a aventura?
os peitos respiravam ténues
o mesmo ar de sol e gelo
debruçados sobre as bicicletas
os sentimentos eram felizes
os corações abriam-se em ramos de flores
para a beleza palpitante
um do outro
Poema de Rui Miguel Duarte

Fotografia de Stuart Redler
Um dia quando ouvires as árvores pensar
Irás recordar os olhares e os sonhos.
Irás recordar os erros e
Ouvirás o cantar dos pássaros;
Recordarás o vento e as palavras
Todas as palavras.
O futuro não estará lá,
O passado também não.
Apenas tu, as árvores e os pássaros
Nada mais.
Como será a vida no fim da canção?
Poema de Francisco Vieira
Virgínia Do Carmo iniciou Novembro com o seu poema “do fim dos meus dias... “ que já poderão ler e, impreterivelmente, às 12 horas de cada sábado seguir-se-ão os restantes.
Grata a todos pela participação.
Pintura de Cliff Warner
Do fim dos meus dias
Vê-se um tecto
Branco
E inerte
Que me dá silêncio
E mais silêncio
Tanto que me escorre
Dos olhos
Por já não me caber
No peito…
Do fim dos meus dias
Vê-se o deserto
Que me sobra
Dos gestos
- Como quem morre
Nos restos
De um leito
Seco…
Solidão triste
A que me chega
Das entranhas
Deste vazio
Onde se me cai
A vontade,
Abatida,
De palavras
Em riste
- Campo tardio
De armas sepultadas
- Lume profundo
De chamas inúteis
…Apagadas…
Poema de Virgínia do Carmo
Pintura de Vladimir Kush
já não há tempo para que a poesia se dê ao luxo
de passear nos bosques encantados e nos egos poluídos
dos intelectuais de escrivaninha.
já não há tempo para que os versos se ostentem,
bem rimados, construídos, bem ritmados, bonitos,
nos corações vazios da burguesia.
é urgente que as palavras ganhem o peso das pedras,
se revoltem com os que vivem sem poesia e sem pão.
não há tempo para brincar aos poetas, ao depressivo snob en vogue.
só nos resta tempo para que se não nos acabe o tempo,
para que gritemos ainda que não abdicámos do futuro,
com propriedade, ou mesmo sem.
Poema de Miguel Tiago
Fotografia de Joel Santos
Por dentro de mim corre um longo rio
De seiva, ao por do sol de um campo arado,
E a ceifeira, que ceifa ao desafio,
Esquecida de o ceifar, passou-lhe ao lado…
Talvez volte amanhã, se fizer frio,
Ou se o vento, ao soprar, tiver lembrado
O leito das razões que nele desfio
Na seiva em que o descrevo humanizado
Entretanto, outras foices de ceifeiras
Passaram já por ele de outras maneiras
Mas nunca desaguaram nessa foz
Que, a jusante de mim, beija as ribeiras
Quando elas se lhe oferecem, sempre inteiras
E recomeça o mar dentro de nós…
Poema de Maria João Brito de Sousa
Imagem de Fefa Koroleva
O tempo tudo apaga e a rasura
desaba repentina sobre os olhos:
os dedos da memória sem espessura
começam a safar como se escolhos
os poemas que atirei pela janela
numa garrafa cheia de vazio
(não sei se para os bolsos de uma estrela
se para o leito seco de algum rio)
Eis como sinto a sílabas que outrora
circulavam no sangue das palavras,
a súbitas perdidas, pois agora
almejam ser apenas anuladas:
esquecidas que foram para alguém
o corpo dos poemas de ninguém
Poema de Domingos da Mota in A espessura do tempo
Pintura de Luiza Maciel
Gosto de gente honesta
Que faz da vida uma festa
Que partilha e se entrega
Que se oferece mas não se verga
Gosto de gente que vive
De gente que me cative
De gente com brilho nos olhos
De gente com alegria aos molhos;
Gosto de gente sem pressa
De gente simples que tropeça
Da que cai e se levanta
De gente que em sofrimento canta
Gosto de gente de todas as cores
De gente que gosta de flores
De gente transigente
De gente assim bem diferente
Gosto de gente com alma cheia
De gente com sangue na veia
De gente que sonha acordada
Que caminha de mão dada
Gosto de gente directa
De pensamento lavado
Com passo lento ou apressado
Que caminha com e sem gente ao lado
Gosto de gente com imaginação
De gente que tenha paixão
De gente que seja ousada
De gente rica ou descamisada
Gosto de gente inteligente
De gente que seja indulgente
De gente que se atira e se mostra
De gente que nunca se prostra
Gosto de gente que olha de frente
De gente que me acalente
De gente que não tem medo
De gente que guarda um segredo
Gosto de gente divertida
De gente que seja atrevida
De gente que seja versada
Gosto de gente com gargalhada
Poema de Fernanda Paixão
Fotografia de José Rodrigues
Inventados os nomes do Livro,
Refeito o traço em desenho de viagem
Aqui colocarei uma página de prata,
Ali adiante uma nuvem de fogo,
E mais além um mar desconhecido.
Criar é noção, é primeiro fingimento,
De cada [cousa] que toma o lugar;
“Não vento, não tormenta, não mudança”
Apenas dum pouco de céu
E duns restos de água e sal,
Comprimo em ar o vento,
Em corpo o mar.
E do Livro, o mundo invento
O improviso do tempo na sua passagem
De todas as almas meu corpo casa,
Dos passos nas ruas do improvisados becos
Meu sangue mesa,
Criação é réplica, é súplica, é fim
Do primeiro momento.
De regresso e partida, a viagem
De descanso o Livro que abandonado
Descansa o corpo exausto neste colchão,
Em concha em forma de estrado, de estrada
E aqui colocarei um lâmpada iluminada,
Ali adiante uma vela de cera salgada
E mais além, um vagabundo,
Mais um no mundo, ilusório pilar de vida,
Que trémula pedra gigante
Esta terra de pedintes.
De regresso e partida, os contrários
A imaginária rota quase corpo construído,
De certeza em certeza, a absoluta manhã
Que não conhecerá o dia.
Contrária é a ousada sabedoria,
De quem se diz alheio em alheio caminho
E na página em prata de desfaz a poeira,
Na nuvem de fogo a mão derradeira
E mais além, do momento o instante,
Breve corpo de chão tecto armário cadeira,
Aprendiz da letra segura, traço dum deus errante.
Se tudo é breve, tudo é mundo,
Tudo é caminho, um pouco de estrada;
Destino do ponto mais distante,
Do incerto fim, vaga letra vaga-lume
Vaga estante onde se pousam os rascunhos,
O amargo fruto que restou do primeiro
Dia. Deste projecto,
Que da cinza regressará ao nada.
Poema de Leonardo B. in a barca dos amantes
Nota: Este poema inicia um "passatempo" que tem como objectivo a escolha do poema a ser gravado pelo Sons da Escrita e publicado no Youtube. A escolha do poema seleccionado para aquele efeito ficará a cargo dos comentadores.
A cada sábado será publicado um novo poema. No início de cada mês, será feita a selecção. O mais comentado, ganha a gravação.
Um incentivo para aqueles que ainda fazem da Blogosfera um local de acesso à Poesia……
Imagem de Alexey Andreev
Não foi o vento nem as marés que levaram das águas o brilho,
Não foi o sol nem a lua que se apagaram e fizeram esse escuro,
Não foram os passos que correram cansados e dolentes esse trilho
Que agora feito de pedras e de sombras se tornou mais duro...
Não foram as palavras, antes flores, que murcharam
Nem as suas emoções que me perfumaram
Que alagaram esse canteiro cuidado
E o fizeram abandonado...
Não foi a noite que chegou sem aviso,
Mostrando somente sombras e penumbras
E do dia tirou e levou o sorriso....
Foi o silêncio cortante que cantaste
E fizeste soar calando o mar,
Secando a areia onde te deitaste,
Em que não soubeste sonhar
Nessa permanente insensatez
Poema de Delfim Peixoto in Serenata às estrelas
Pintura de Cliff Warner
As palavras hesitam
no abraço das madrugadas do poema.
Deslizam nas linhas nascentes,
fugazes e tímidas,
como uma jovem que se desnuda pela primeira vez
perante o seu desejo.
Palpitante,
o papel aconchega o seu espaço,
para nele acolher o derrame virginal do sentir dos poetas.
Do vazio,
surge sentido,
na recolha dos sentidos,
em silhuetas esboçadas na procura de significados.
O poema é sentir.
Sinto.
Poema de João Carlos Esteves in Gotas de Silêncio
Pintura de Margusta
Como pintar o sol todas as manhãs
no jardim onde florescem os lírios
se tenho as mãos vazias
de certezas
e de versos?
Sonho, tão-somente, versos obscuros,
versos lua nova.
Não versos quarto crescente
- a aspergir luar -
acalentados pelo som das harpas
dos anjos com brilhos de mistério
e asas de papel.
Papel de seda... de seda
para vestir e amaciar o tempo
de pintar o sol no tempo dos lírios.
Amaciar o tempo das mãos vazias
e da tristeza à flor da pele.
Poema de Maripa
Imagem de Fefa Koroleva

Pintura de Gaudiol
dizer Dezembro como se o mar tocasse a voz
ou dizer uma rosa rubra atravessada
por lábios de luz.
dizer o oriente de uma estrela
e vestir a pele de um poema.
mas a palavra é uma criança tolhida de frio
nos cabelos nevrálgicos que a árvore segura.
e assim amanhecemos, tardios e ébrios
no carrossel que orquestra a cidade
com tambores de solidão.
dizer corpo e ser ponte sábia para o outro lado
e a vida ser tão simples como a mão
que toca a pele da sílaba
de uma memória tão antiga
como as solas de uma infância gasta.
dizer amor, esse fósforo que incendeia
e ser fogueira na nervura da palavra.
despir o olhar desta erosão de distância.
agasalhar os pés e resguardar
o dorso lírico do sangue
como se a um poema de Natal bastasse
o verde inflamado de um arbusto:
o labor inteiro do meu coração de terra.
Poema de Luísa Henriques
Com o desejo de um...
Pintura de Caspar David Fredrich
Dá-me um cavalo uma alma uma nave
Algo que voe ou galope ou navegue
E seja azul ou de outra cor mas leve
No seu vagar qualquer coisa que lave
Dá-me uma curva um espelho uma pausa
Algo que brilhe e demore e seduza
E se transforme ao ar em luz difusa
Ou nada ou coisa que não tenha causa
Dá-me um comboio um apito um berlinde
Algo que parta ou que role ou decida
E ao passar perto da hora perdida
Nos traga a rima precisa de brinde
Dá-me um baloiço um esquadro uma vez
Algo que meça que oscile que seja
Uma surpresa o gesto que se beija
A última loucura que se fez
Dá-me um segredo uma cor uma uva
Algo que importe ou se cheire ou escorregue
(Mas não tropece nem ceda nem negue)
Por entre dedos ou gotas de chuva
Dá-me uma febre um papel uma esquina
Algo que rasgue ou se dobre ou estremeça
E que se esconda e mais tarde apareça
Sombra de vulto subindo a colina
Dá-me um arco que seja íris
Dá-me um sonho que seja doce
Dá-me um porto que tenha barcos
Dá-me um barco que nunca fosse
Dá-me um remo
Dá-me um prado
Dá-me um reino
Dá-me um verso
Dá-me um cesto
Dá-me um cento
Dá-me só
Um universo
Poema de Mário Domingos(Alien8)


Óleo sobre tábua de Pieter Claesz
Turvam-se os caminhos. Mas do sangue
Apenas o que farejo no barroco empolgante de Coppola
Nos mistérios nocturnos da Transilvânia
Nas oníricas danças das Parcas
No mistério decadente dos vampiros
E no absoluto amor do conde de Drácula...
Fora esse
Apenas o sangue da fêmea com cio
Ou arrancado ao peito para alimento dos famintos
Ou o sangue selo secreto
Das cumplicidades da vida.
E o sangue abortado de uma flor vermelha
Ou o virginal rubor das manhãs sem nome
Que me entram pela janela...
Ou a ceifeira morta. Ou a papoila decepada...
Ou o vermelho da romã nos lábios febris do beijo
Primevo.
Fora esse
Apenas o sangue quente do vinho e do mel
Em que ondas me expludo e teimo
Longe de caminhos palmilhados...
Este o meu corpo: tomai e comei!...
de Heretico in Relógio de Pêndulo
Pintura de Bernardus Johannes Blommers
"Capitão no seu posto"
Fez-se ao mar o marinheiro...
Ondinha vai, ondinha vem
O barco avança, vai mais além.
Lançou as redes o marinheiro,
Veio cardume bom e inteiro,
Peixe sadio e variado,
Mas, marinheiro, fardo pesado!
Ondinha vai, ondinha vem,
O barco avança, vai mais além.
Há vagas altas,
Há sobressaltos,
O barco balança,
Mas logo serena
Com a bonança,
Ondinha vai, ondinha vem,
O barco avança, vai mais além.
Não se desvia da sua rota.
Há muito mar para navegar,
Há muito peixe para colher,
Há horizontes por desvendar,
Há sol ao longe por descobrir,
Há onda e onda por florir...
Ondinha vai, ondinha vem
O barco avança, vai mais além.
Poema de Ibel (Maria Isabel)
Imagem de Fabio Pallozzo
Há, no horizonte, uma ilha.
Na ilha, a voz distante de um clamor.
É de verde que se veste o coração. Expectante.
(Fechas os olhos e
encerras, no seu eixo,
o segredo de que ainda só
suspeitas.
Não sabes. Mas esperas.
E a luz, dentro deles,
revela o sonho que te conduz.)
No horizonte, uma ilha.
Nos teus olhos, o horizonte.
Poema de Susana Duarte in Terra de Encanto
"Segredo" na voz de Luis Gaspar
SEGREDO
Sei um ninho.
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
in "Diário VIII"
Fotografia de Alexander Flemming
gostava de fazer-te um poema de amar,
fazer um poema para te amar,
de fazer um poema ao amar-te.
porquê amar, amar-te a ti?
porque me amo mais por amar-te,
porque nos amo aos dois?
sim e não,
sim porque amar, é amar-te a ti.
não porque amar-te, não é amar.
porquê perguntar, perguntar-te a ti
e não a mim mesma?
sim e não, pergunto-te?
ontem sim, hoje não,
amanhã talvez?
talvez não ontem, como hoje
e talvez não amanhã.
mas amo amar-te,
e amava puder amar-te mais.
gostei de fazer-te um poema de amar,
fazer um poema para te amar,
um poema ao amar-te.
e ao amar-te, fiz um poema de amar.
e ao te amar, faço um poema para amar-te mais.
Poema de Luísa Azevedo
Imagem de Marta Dahig
À sombra da tua ausência
Repouso os meus olhos
Fechados, inertes
Vagueiam por mim
Procurando destroços
Em que despertes,
De repente…
Sei-te ausente,
- Mesmo…
Sei que não posso
esperar-te
- De todo…
Mas este vício
De aguardar-te
Prende-me como lama,
Lodo
Atrofiante, espesso…
E como nódoa
Entranhada
Permaneces como gesso
Colado à parede
Do meu afecto
Qual vinagre
Na minha sede
Qual erro
De tudo
Quanto em mim
Está certo…
Poema de Virgínia do Carmo